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Innledning

In document Veikart for energi i Norge mot 2050 (sider 8-11)

Como atrás referimos, o livro de Alberto Pimentel dedicado ao fado, A triste canção do

sul, surgira em 1904, no ano anterior ao da fundamentação da sua antiga tese sobre o

homem novo lusitano, patente em As alegres canções do norte, razão para o desejável cruzamento da mocetona das alturas do Barroso com o beirão da serra da Estrela. Corresponderia aos desejos do escritor este timing para estas duas obras? Visto hoje parece fazer sentido. Se levarmos em linha de conta que o jornalista veio para Lisboa em pleno fontismo, gozando da protecção de Barjona de Freitas, o político da abolição da pena de morte para crimes civis em Portugal (1867), apercebemo-nos que atravessou uma época de melhoramentos materiais com repercussões em diversos domínios da vida nacional, sobretudo quanto a transportes e comunicações. Embora elogie o general Fontes Pereira de Melo (1819-1887), lembrando que D. Maria II o chamava o seu

ministro janota e dando-o como um grande reformador» comparável ao marquês de

Pombal, e pessoa de grande honestidade,97 parece vibrar mais com outros políticos, como Barjona de Freitas e Rodrigues Sampaio, por exemplo, mostrando-se profundo admirador do rei D. Luís. 98 Conta até que certa noite, saindo de uma recepção em casa de Fontes, na rua de São Bento, quando aquele era presidente do Ministério, e com considerável quantia no bolso, foi vítima de tentativa de roubo por dois fadistas, não explicando como topou tal condição nos desconhecidos —, e relata como escapou por um triz aos figurões.99

Parece Pimentel muito interessado em conhecer os avanços da ciência, como bom filho de médico que não pôde estudar, mas mostra, aqui e além, nas suas numerosas obras, toques melancólicos, saudades de um passado vivido através de conhecidos ou de escritores mais velhos do que ele, como o seu idolatrado Camilo ou António Feliciano de Castilho. Fazem lei. E Lisboa, mesmo que se lhe vá tornando menos desagradável, o que se nota pelo decrescer das comparações com o Porto quase sempre em desfavor da

96- Idem, ibidem, pp. 27 e ss. 97

- A. Pimentel, Vinte Anos de Vida Literária, 2.ª ed., Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1908, p. 91 e ss. 98 - Deixa escrito que o rei intercedeu por ele para uma promoção no funcionalismo, atitude sem dúvida digna, dado que D. Luís já falecera. In Vinte Anos de Vida Literária, pp. 9-16.

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47 capital, nunca ganha verdadeiramente o seu amor. Como poderia assim figurar o fado entre as suas preferências, condenado que estava pela condição de trova alfacinha, para já não trazer à colação preconceitos de ordem regionalista ou intelectual? Tal não o impediu de lhe dedicar um livro, que deu contributo válido à historiografia fadista, porque o escritor documenta o seu desapreço, trabalha-o, ao contrário de muitos plumitivos do século XIX (e também do seguinte), apenas preocupados com o parágrafo espirituoso ou a condenação panfletária. Ele constitui, por isso, exemplo digno de estudo, nesta matéria, mesmo que a sua agenda política o leve a abordar a triste canção

do sul para melhor dourar as alegres canções da região que deveria servir de berço ao

homem novo: aquelas terras onde a vida é o trabalho constante, aturado, ininterrupto,

só a morte pode desculpar o descanso e o rico trabalha tanto como o pobre.100

Debrucemo-nos agora sobre algumas asserções de Alberto Pimentel relacionadas com a toada lisboeta, dado que muitas das opiniões e alegadas verificações saídas da sua incursão fadista fizeram escola — e, por vezes, cremos, com muito duvidoso fundamento. O escritor procura, antes de mais nada, inculcar a ideia de que se trata apenas de uma moda, algo sem autenticidade própria e, por outro lado, em relação aos cultores, justificava-lhes o gosto fadista pelas condições sociais:

Efectivamente, o grande foco de irradiação do fado é Lisboa; mas a província, tanto ao sul como ao norte, apenas o aceitou como um ditame da moda, que não logrou absorver e substituir os cancioneiros provinciais. Dá-se com o fado e com outras canções, que em Lisboa caíram no gosto do público, o mesmo facto que se dá com os figurinos, as

toilettes, cujo modelo a capital exporta para o interior do país: aparecem na província alguns exemplares, mas a maneira de vestir própria de cada região continua subsistindo tradicionalmente. (…) O povo de Lisboa, limitado às ruas e às tabernas da cidade, e, uma vez por outra, quando muito, às hortas dos arrabaldes, encontra na guitarra, nas cantigas do fado, a sua melhor distracção. (…) apesar da dupla aristocratização que (o fado) tem recebido dos poetas e das salas, denuncia a sua origem popular, a alma do povo que o canta. É nas ruas, nas tabernas e nos bordéis que o fado parece nascer, espontaneamente, como nascem certas flores nos charcos: a pontederia crassula, que é uma linda flor azul. (…)O vinho da taberna pode levá-lo até à embriaguez, até ao crime, como não raro acontece; mas quando não vai tão longe, sugere-lhe a vaga melancolia de uma vida contrariada de privações, produz no povo aquilo a que Camilo Castelo Branco

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48 chamou com feliz propriedade a sensação nervosa, o soluçado requebro das

saudades do Vimioso.101

Há aspectos que o autor tem sempre presentes, como a indesejável contaminação do Norte pela trova lisboeta, que, no entanto, o intrigam, tal como no idioma pátrio encontra certas fraquezas:

Só o espírito de imitação, conduzido pelos fidalgos, pelos estudantes e pelos boémios, principalmente os cegos andantes, tem introduzido o fado alfacinha nas províncias do norte, que o cantam sem o compreender, porque as condições de vida são aí muito diferentes (…) Tivemos violentas lutas partidárias, que acendiam ódios figadais entre os indivíduos de uma mesma família. (…) A nossa língua é triste, exprime melhor a dolência, o sofrimento moral, do que os pensamentos alegres e vivos. Falta-lhe o colorido e o gorjeio de outros neo-latinos: do francês, que é uma língua de pássaros; do italiano, que é uma língua de músicos. Falta-lhe o vigor varonil do espanhol, língua aliás menos harmoniosa do que as outras duas, mas que tem a bravura como compensação. 102

Estudioso da sociedade, este portuense, positivista, interpreta como pode os fenómenos lisboetas que não hesita em classificar com severidade:

O fado abre uma válvula de segurança ao desafogo da escória social, tão abundante em todas as capitais, especialmente em Lisboa, que é uma cidade indolente e pobre. (…) O fado das ruas, cujo ritmo é fácil, muito adaptável à memória e ouvido do povo, pode ter escasso mérito literário e artístico, mas tem sempre um alto valor etnográfico: é a história cantada das classes e dos indivíduos inferiores. (…) De modo que, pode bem dizer-se, o fado é em nossos dias um poderoso instrumento de divulgação, que se transmite facilmente, por meio da imprensa, com uma rapidez eléctrica. (…) Entende-se por fadista a pessoa que cumpre um mau destino; seja homem ou mulher, prostituta ou rufião. E aqui há a notar que o vocábulo fado tomou em calão um sentido exclusivamente pejorativo: vida do fado, a má vida; moça do fado, a rameira. Umas palavras geram outras: de fado (destino) veio fadista; fadistar, levar vida de fadista; afadistar-se, adquirir ares e modos de fadista; fadistagem, a colectividade da gente de mau fado, a prática de suas tunantadas e proezas; fadistice, a chibança ou prosápia de fadista; (…) Tanto mais que, entre nós, a palavra fadista, não tem significação restrita de tangedor e de cantor ou poeta de fados, mas é comum a todos

101 - Alberto Pimentel, A Triste Canção do Sul – Subsídios para a História do Fado, Lisboa, Livraria Central de Gomes de Carvalho, 1904, pp. 21-27.

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49 os indivíduos que vivem no mesmo meio de depravação e libertinagem, sejam de um ou de outro sexo. (…) O rufião tatua a amante, pacientemente, como se estivesse produzindo, com ternura e entusiasmo, uma obra de arte; ou se tatua a si mesmo ou se deixa tatuar pelos seus pares.103

Alberto Pimentel alerta para casos que esta quase «doença social» provocou, ao mesmo tempo que aponta os passos necessários para alguém se converter em fadista — e, logo, por inerência, aficionado tauromáquico ferrenho:

Casos há em que os fadistas provêm de pais honestos, de famílias decentes e remediadas, e até, facto que já foi mais vulgar do que hoje, — porque as raças nobres tendem a extinguir-se, — tem havido fadistas descendentes de famílias ilustres. Estes, eram jovens fidalgos que viviam com picadores e cocheiros, toureiros, arruaceiros e espadachins. D. Afonso VI, quando infante, e D. Francisco, irmão de D. João V, viveram com a ralé que hoje se chama fadistagem. D. Miguel de Bragança foi criado no mesmo teor de vida; mas, depois do exílio, regenerou-se completamente. Outros fidalgos houve, porém, que menos felizes chegaram até à facada, ao homicídio, e tiveram de ir cumprir no ultramar uma pena infamante. (…) Para ser fadista é necessário um longo tirocínio: aprender a tocar guitarra e cantar o fado, a fazer «escovinhas», a

riscar, a esconder a navalha na manga da jaleca, a puxar as melenas, a enfiar as calças esticadas, e a falar o calão. Vemos às vezes rapazes do povo trabalhando em qualquer ofício, mas já vestidos de fadistas: andam na aprendizagem, por vocação e por gosto. Até o seu apelido perderão: hão-de passar a ser conhecidos por uma alcunha. (…) A tísica, fim vulgar nos fadistas e nos boémios, cujos excessos os consomem rapidamente, foi a doença que vitimou o Pitalcante. (…) Era, como quase todos os fadistas de um e de outro sexo, entusiasta pela tauromaquia, grande aficionado. (…) Pouco lhe importa que os literatos o descrevam; descreve-se ele a si mesmo, propagando uma literatura, que é dele ou feita para ele, e que lhe dá celebridade. Essa literatura é o Fado. O fadista canta as outras classes; tão tolo seria ele que não cantasse a classe a que pertence. Há fados que o descrevem na vida e na morte, no prazer e no azar, em liberdade e no Limoeiro. (…) A guitarra é o porta-voz do fadista. O calão é a sua linguagem. O fado é a sua eloquência, a sua poesia. (…) Para o fadista, cidadão dos bairros infamados,

habitué das espeluncas e dos bordéis, todo o país se resume nesse mundo, que é o seu, a sua «pátria», o seu habitat. Por isso considera o fado um «hino nacional». (…) Uma das coisas que mais custam a compreender na vida do fadista é o ciúme que ele tem da mulher perdida, que todos os dias se vende ao primeiro homem que passa. (…) O

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50 fadista não falta a uma espera de touros, com a sua guitarra na mão; o fadista de um e outro sexo, mulheres e homens. (…) Algumas raparigas do fado chegaram a tomar parte em touradas. (…) Assim aconteceu numa corrida realizada em Outubro de 1842. A

Revista Universal, dirigida por Castilho, comemorou o acontecimento.104

Imperdoável, sem sombra de dúvida, tanto mais que Júlio César Machado condena tal empresa como adaptação violenta e desnaturada, consiste no fado tentar fazer-se passar pelo que não é, ou, melhor, quando a guitarra procura subir acima da sua chinela:

Conheci, e ouvi muitas vezes, o [guitarrista] João Maria dos Anjos. Era exímio no fado; sem embargo, gostava de tocar, em concertos públicos, peças de maior responsabilidade artística, como trechos de ópera, etc. Uma dessas composições era a Marcha fúnebre de

Luís XVI; de difícil execução. Sempre lhe manifestei opinião contrária a esta aristocratização artística da guitarra; ele respondia-me: — É para mostrar que a guitarra pode dar tudo.105

De notar que o escritor termina a A triste canção do sul com quadras psicológicas de um poeta então recém-formado em Direito, Afonso Lopes Vieira (1878-1946), que haveria de colaborar na Ordem Nova, revista anti-moderna, anti-liberal, anti-

democrática, anti-burguesa e anti-bolchevista, dirigida por Marcelo Caetano e publicada na década de 20 do século passado. O vate tornar-se-ia um inimigo declarado da trova — e já atrás reproduzimos alguns desses versos de juventude.

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