5 Kvalitativ case‐studie, hydrogen
5.5 Hydrogens rolle mot 2050
Assim terminou os seus dias esta rapariga matriculada, como se dizia à época, que, mesmo em vida, já muito dera que falar e em quase lenda se tornara, quer como precursora executante do fado de Lisboa, quer enquanto mulher pública senhora de temperamento especial. Ainda dos autores de época que a focaram, caberá mencionar o talentoso e profícuo escritor e jornalista Eduardo de Noronha (1859-1948), antigo militar colonial, que daria esta opinião certamente colhida de boa fonte:
A voz da Severa não era boa, pecava pelo seu timbre roufenho, áspero, mas sabia transmitir-lhe um tão lascivo arroubamento, repassava-a ao trinar nas décimas de uma tão estática doçura, imprimia ao fado tão melancólico e terno sentimento, que a tornaram a primeira cantadora da sua época.242
Só que também ele vai muito além deste simples comentário, porque traça um retrato da cantatriz, mais um, de que aqui deixaremos algumas passagens. Valem pelas opiniões em tudo contrárias, por exemplo, às das testemunhas de Sousa e Costa — e, igualmente, pela linguagem utilizada:
Não nos demoraremos a traçar o perfil dessa açucena de monturo conhecida pelo apelido de Severa. Gerara-a a Barbuda, virago com barbas de porta-machado, taberneira afamada pelas suas proezas de bordel da Madragoa. A filha, que recebera na pia baptismal o doce nome de Maria, foi nos primeiros anos da sua juventude uma mulher esbelta, simpática, de cútis alva, de aspecto grácil, trajando com apuro, com dois olhos profundos, meridionais, mais convidativos para o pecado que todas as coortes juntas de Lúcifer. Educou-se desde muito nova a bater o fado com o Manosinho, com o Mesquita
241 - Idem, ibidem, pp. 155-156.
96 e até com o Manuel Botas, antigo inteligente da praça do Campo Pequeno, quando este era um garotote.243
E prossegue, ao mesmo tempo que nos permite dar entrada num outro capítulo fundamental da história da personagem, os amores mais famosos fora da sua classe social, precisamente quando ainda na génese:
A Maria Severa desde muito moça que manifestara a sua índole bulhenta, incorrigível. Jogava à pedra com o rapazio, voltava o dente à polícia e entretinha-se a fomentar ciúmes entre os faias apaixonados pela sua carne mercenária. A primeira mão que armou para uma tragédia de prostíbulo foi a do Chico do 10, um rapaz que servia em Infantaria 10. O desvairado, louco de ciúmes, anavalhou o rival numa linda madrugada de Abril. Salvou-se a custo da forca e acabou o resto dos seus dias no degredo. A triste celebridade que se espalhou em redor de Maria Severa chamou a atenção do conde de Vimioso. Principiaram então esses amores, que se tornariam um dos capítulos mais vulgarizados da epopeia do fado. D. Francisco (o 13.º conde de Vimioso), com o Souza do Casacão por corifeu, metia-se numa sege e visitava o ídolo dos seus devaneios de titular democrata na taberna da Rosária, na rua do Capelão, onde se realizavam os sacrifícios mais extravagantes e se exercia o culto mais estapafúrdio ante as aras da Vénus depravada. (…) De ora em quando o conde Vimioso sequestrava a divindade das alfurjas crapulosas. Enclausurava-a numa casa da rua da Bemposta e chegou a hospedá- la no Palácio do Campo Grande, onde oferecia saraus concorridos. (…) Já na época em que decorrem os episódios que relatamos, a Maria Severa não se sentia bem. Minava-a implacavelmente uma das enfermidades — a tuberculose — que a havia de atirar breve junto com outras doenças para a vala comum. Pessoa que dispõe ainda hoje de privilegiada memória, assegurou-nos que a Severa se finou no hospital, no Outono de 1851, não com a tal indigestão de borrachos que os fastos da cozinha espalharam, mas sem pulmões e tábida.244
Este tom de quase «ajuste de contas» com a pobre marafona, contrastante em tudo com o de Sousa e Costa, afirma-se comum a autores de extracção aristocrática, que procuram, regra geral, dar os amores do conde pela cantatriz como mero episódio infeliz de grande senhor, ao mesmo tempo que quase explicitamente a culpabilizam pela relação, vista num enquadramento de quase luta de classes. Pensamos que será curioso verificar como abordou o tema um escritor popular, neste caso José Alves (SEVLA),
243 - Idem, ibidem, p. 114.
97 autor de A Vida da Severa, espécie de folheto editado pela Livraria Barateira245. Neste
esboço sobre a vida da grande e sentimental fadista, redigido para a Colecção Nacional, surge-nos, no começo, um poema em louvor do fado em geral, que termina com a seguinte sextilha:
Quando modulo a canção Sinto inundar-se-m’a vista, Corre-me o pranto em caudal; Recordo, com emoção, A sentimental fadista Que deu nome a Portugal
Não deixa de ser interessante, pois, ver o retrato dado por uma publicação destinada (até pelo seu preço módico) a um público popular pouco exigente das primeiras décadas do século passado. Vejamos um excerto:
Maria Severa! Era assim que se chamava a mais linda cigana que o áureo sol tem tisnado! Trazida até ao nosso encantador torrão por uma tribo que aqui acampou, essa sedutora mulher de alma boa e diamantina arreigou-se com uma extrema dedicação, à mais melódica e sentimental de todas as canções: O Fado! Não há português que saudosamente não evoque o seu nome inapagável, se bem que ela não fosse a criadora dessa imorredoira trova é, sem sombra de dúvida, a mais genérica de todas as cantadeiras que têm surgido na exibição. A imarcessível (sic) 246 cor que tão nostálgica canção possui, foi ela que lha emprestou num momento em que os seus olhos gotejaram! O ferrete da desgraça arrastou-a ao bordel aonde se apaixonou por um fidalgo de nomeada, a sua dor afagava-a ela quando dedilhava a sua inseparável companheira: A Guitarra! (…) Foi rameira! Leiloou o seu contornado corpo dentro dum pernicioso antro, mas só o seu corpo, porque a alma, essa entregou-a ela a Vimioso, o seu querido, o seu amado! Não foi a sua esbelta e estonteante beleza que fez incutir no coração do fidalgo o amor desinteressado, não; foi a suavidade da sua voz cristalina. (…) Essa mulher que bem fundo calou na alma do fidalgo boémio; apesar de rameira, tinha coração pois que quase todo o seu tempo o empregava valendo às suas desventuradas colegas na infelicidade, a ponto de se desfazer de todo o seu ouro, e, até mesmo esgotar os cobres que lhe entregavam a troco de uns momentos de gozo viciado! Severa só se encontrava satisfeita e contente fazendo bem! Ela própria se encarregava de indagar quais as colegas que precisavam de auxílio; daí a adoração que todas as suas irmãs na fatalidade lhe dispensaram. Os pobrezinhos tinham para ela o mais devotado e
245 - José Alves, A Vida da Severa, Colecção Nacional, n.º 28, Lisboa, Livraria Barateira, 1933(?). 246 - O autor deveria querer dizer «imarcescível», ou seja, que não pode murchar.
98 carinhoso afecto, ou não fosse ela fadista! Foi o Fado que imortalizou Severa, e Severa que imortalizou o Fado!247
E seguem-se algumas quadras, de que seleccionamos esta, embora a história continue sempre no mesmo estilo:
A canção, simb’lo da raça Era o brilhante fanal
D’essa que foi, na desgraça, Rameira sentimental!
Desconhecemos quaisquer dados biográficos sobre o autor deste interessante documento, revelador das nossas deficiências culturais nas primeiras décadas do século XX, dado que havia mercado para obra de tal quilate. Mas havia — e, infelizmente, continuaria a haver, dado que jornais dedicados ao fado, por nós consultados em quantidade, revelam pérolas literárias muito semelhantes. Esta tem, no entanto, um apelo a todo o imaginário mais extravagante à volta da Severa, apresentada como uma espécie de amante fidelíssima, mãe dos pobres, misto de assistente social e artista do canto, que vendia o ouro para socorrer os desvalidos e ficava apenas com uns cobres, que também rapidamente esgotava em dádivas. É caso para se inquirir quando é que exerceria o seu mister, leiloando o contornado corpo, como o autor refere. Muito curiosa se torna, por outro lado, a persistência na alegada origem cigana da cantatriz, sobretudo quando neste caso se pensa que veio de fora, trazida por uma tribo que a deixou em Lisboa… Sempre sublinharemos que este livrinho fazia parte de uma colecção com boa difusão, que tanto editava obras semelhantes à que abordamos, como contos para crianças, textos de culinária ou mesmo a Idade do Jazz-Band, de António Ferro (1895-1956), por sinal dos mais em conta (um escudo e cinquenta centavos), enquanto o In Memoriam Ângela Pinto se fazia pagar por cinco escudos. Contém a obrinha de José Alves, pois, todos os mais gastos estereótipos sobre a Onofriana, aludindo com insistência aos seus amores românticos com o Vimioso e acabando por optar pela canonização popular da fadista, como se pode verificar na seguinte décima: Era a mais linda garganta
Que a linda trova entoava Todo aquele que a escutava
99 Dizia: «Como me encanta!»
Sendo mere’triz era santa Santa sim, que se venera, Ainda que morta, impera No lar do rico, do triste Em Portugal não existe Fadista como a Severa!248
Mais um retrato, portanto, da famosa filha da Barbuda, aqui numa forma de exploração ainda possível de confundir com o culto ingénuo da sempre picante transgressão dos amores entre a prostituta e o aristocrata. E deste último nos vamos agora ocupar, porque não poderia deixar de ser figura de algum interesse. Par do reino e herdeiro de diversas dignidades nobiliárquicas, D. Francisco de Paula de Portugal e Castro (1817-1865), 13.º conde de Vimioso acompanharia a França seu pai, o brigadeiro D. José Bernardino de Portugal e Castro (1780-1840), 5.º marquês de Valença, que, entre outras funções, teria as de ministro da Guerra. O filho, que não veria renovado o título de marquês de Valença, aderiu à causa liberal, por ela lutando como voluntário. Alferes no regimento de Cavalaria 10, serviria depois no de Lanceiros, mas pediu a demissão na sequência da revolução de Setembro de 1836. Ganhou grande fama como exímio cavaleiro tauromáquico amador e consideravam-no, como testemunham diversos autores, figura de agradável convívio nos salões da nobreza. As suas predilecções levavam-no, porém, para os meios da boémia lisboeta, as tascas e os cafés dos bairros mal-afamados, os retiros fora de portas e o convívio com gente de condição social muito diversa da sua. Sabe-se que gostava de esperas de gado e de pregar partidas, fazendo vendas de cavalos «à maneira cigana». É ainda lembrado pelos seus amores com a famosa Severa, com a qual terá vivido muitas aventuras pícaras, embora nem sempre a tratasse bem. Casado com a viúva do 2.º conde de Belmonte, D. Maria Domingas de Castelo Branco, dama da rainha D. Maria II, teve duas filhas desse matrimónio, que não o impediu de viver muitos romances com moças de pobre condição, mas, como se apressa a sublinhar A. Pimentel, não se deixou arrastar nunca por uma paixão delirante e degradante.249 E especifica:
248 - Idem, ibidem, p. 32, final deste texto decalcado do romance de Júlio Dantas, que, mesmo assim, apresenta peculiaridades reveladoras do gosto de certo público amplo.
100 Nunca deixou de ser um fidalgo, um gentil-homem; nunca enlouqueceu por amor da Severa. Foi, na primeira sociedade, um boémio, mas não perdeu nunca a sua linha aristocrática.250
João Pinto de Carvalho, por seu turno, dá a seguinte explicação:
Foi o amor pelas guitarras e pelo doce canto — em que se bordam os temas ascendentes do Desejo —, que levou o Conde de Vimioso a procurar a Severa, porque ele não tocava, não cantava e não tinha o mínimo gosto para a música.251
Mas o castiço Tinop não tem dúvidas em afirmar em relação àquele membro da chamada Sociedade do Delírio 252:
O aristocrata não teve um simples capricho epidérmico por essa franduna salaz, por esse ouropel fanado que se atirava para os bastidores depois do espectáculo. Gostou deveras dos seus beijos, que se desfiavam em colar e que eram como que um prelúdio de guitarra para os acordes ferozes dos abraços.253
Já Júlio de Sousa e Costa mostra sempre muito pouca simpatia pelo conde de Vimioso, embora lhe credite ter proibido à Severa o tabaco e o álcool. Segunda uma das suas
testemunhas de época, na senda de outros aristocratas e burgueses que gostavam de arranjar confrontos com faias, D, Francisco era desordeiro e provocador 254, agradava- lhe conviver com gente de baixa estofa, de ciganagem aldrabona, com quem aprendeu
manhas de feira e o palavreado arrevesado. Quanto à cantatriz, o fidalgo tinha ciúmes
tolos e muito tolos porque bem sabia que ela era de todos. E fica a observação:
Consentir, porém, que ela continuasse naquela existência dolorosa é que julgado foi de baixa moralidade.255
Garante Sousa e Costa que coube à famosa meneza a decisão de afastar o Vimioso da sua vida, e, contrariamente às muitas letras de fado posteriores à sua morte, já nada teria com ele à data do passamento. O titular possuía — dizem os autores mais abalizados — profundo pendor para as ciganas, chegando a disputar algumas aos noivos.256 Tinop
250 - Afirmação curiosa, dado que a ‘linha aristocrática’ não o impedia de vender animais deficientes… 251 - João Pinto de Carvalho (Tinop), op. cit., p. 78.
252 - Será Eduardo de Noronha, autor do atrás citado O Último Marquês de Niza, que abordará a vida desses aristocratas boémios em diversas obras, uma delas intitulada, precisamente, A Sociedade do Delírio.
253 - João Pinto de Carvalho (Tinop), op. cit., p. 79. 254 - Júlio de Sousa e Costa, op. cit., p.22.
255 - Idem, ibidem, p. 23. 256 - Idem, ibidem, p. 22.
101 referencia que ele morou em concubinato, depois da Severa, na rua de São Lázaro, com
a cigana Joana, irmã do cavaleiro Bettencourt.257