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Chegar às considerações finais é o que almeja qualquer pesquisador quando inicia uma pesquisa, porém eis o grande desafio: fazer as amarrações necessárias de maneira que tenham relevância e sirvam como ponto de partida para outros pesquisadores. Esta pesquisa não chegou a grandes descobertas, mas aponta alguns caminhos quanto às revelações dos alunos do Ensino Fundamental I, por meio dos seus diários.

Espera-se que essas revelações possam colaborar para a quebra de preconceitos que alguns adultos têm em relação aos sentimentos e emoções das crianças. Não é raro ouvir que crianças não têm problemas, que estão alheias ao seu cotidiano e ao seu contexto, e não é o que essas crianças revelaram por meio dos seus diários.

Os diários ajudaram a revelar a dinâmica da sala de aula e familiar, além do meio sociocultural dos alunos. Somente agora, com esta pesquisa, no mestrado, me dei conta do precioso instrumento de comunicação que tinha em mãos. Com as leituras e releituras, pude perceber o quanto afetei cada um dos meus alunos e também o quanto fui afetado por eles. Não foram raros os momentos em que o nó na garganta vinha, as lágrimas caíam, deixei-me guiar pelo mundo de cada um. O sentimento de culpa também vinha à tona com as leituras, por não ter ajudado aquele aluno, nesta ou naquela ocasião. No entanto, compreendi que o contexto em que estou vivendo é outro, bem com o dos alunos que realizaram os diários. Hoje,

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os alunos estão no 1º ano do ensino médio, é sempre uma alegria recíproca quando nos encontramos pelas ruas da cidade.

A teoria de Henri Wallon ajudou a iluminar a leitura e entendimento mais profundo dos diários, trazendo à luz o que estava escondido, despertando em mim um pesquisador adormecido, pois descobri que sempre fui pesquisador. Se não, como teria a ideia do diário? Sem fundamentação teórica a priori, esta se iniciou muito depois, na pós-graduação (especialização). O fato é que Wallon possibilitou olhar os diários dos meus alunos com outros olhos, como um documento, refinando meu olhar de pesquisador.

A pergunta que norteou esta pesquisa foi: o que revelam os diários dos alunos? Mas, para não ficar uma pergunta muito aberta, resolvemos focar ainda mais, questionando o que revelam os diários sobre os alunos, aos vínculos afetivos entre professor e aluno, em relação ao meio sociocultural, e a relação dos alunos com o instrumento diário. Quantas revelações!

Esta pesquisa possibilitou um maior conhecimento da influência do professor na vida dos alunos, apontando que os vínculos afetivos positivos contribuem para o desenvolvimento emocional e cognitivo dos alunos, que, quando professor e aluno se gostam reciprocamente, a probabilidade de sucesso para ambos é maior.

O papel do professor é de fundamental importância na constituição da personalidade da criança, sua ação deverá ter como norte os valores humanos, como respeito, solidariedade e igualdade. “O professor deve evitar que se estabeleçam entre os seus alunos distinções baseadas na sua origem social ou étnica”. (WALLON, 1975:224)

O conhecimento do contexto social e cultural dos alunos possibilita uma ação do professor de maneira mais real e intencional. Sem esse conhecimento da

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realidade dos alunos, os professores preparam suas aulas para um aluno ideal, e este, muitas vezes, não corresponde às expectativas do professor, o que gera um conflito pedagógico. Já com os diários, há uma minimização dessa idealização, pois os alunos se revelam por inteiro para o professor, falam a respeito do seu meio (problemas financeiros, brigas com familiares, passeios). Com isso, o professor poderá preparar melhor suas aulas, contribuir ainda mais para o desenvolvimento intelectual dos alunos

Nos diários, os alunos se revelam por inteiro. Conhecimento – seus saberes, tanto escolares, quanto do cotidiano; conceitos trabalhados em sala de aula ou que aprenderam em outros meios, como na igreja, família, televisão, internet, etc. Ao escolher o que escrever, os alunos estão expondo seus saberes, estão escolhendo quais fatos querem revelar em determinado dia, ou seja, revelam seus conhecimentos (o cognitivo).

Sentimentos – com relação às suas emoções, como raiva, alegria, tristeza, decepções, culpas, etc., nos diários, os alunos conseguem extravasar suas emoções e sentimentos, inclusive contaminando minha ação, pois a leitura de suas histórias me afetava. Mesmo que quisesse, não conseguiria ficar alheio aos seus depoimentos.

Escrever diário também é um ato motor. A escrita exige do escritor todo um movimento, não apenas dos dedos, mas também do tônus, ou seja, do movimento de todo o corpo, mobilizando, assim, toda a pessoa.

Ao observar a escrita dos alunos nos diários, percebe-se que essa prática possibilitou uma melhora na sua escrita, além do autoconhecimento, pois, na medida em que tinham que escolher o que escrever, como escrever e para quem escrever, (eu-professor), refletiam sobre seu dia, sobre os acontecimentos mais importantes.

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Para alguns, o diário ganhou outro significado: um amigo real, a quem podiam desabafar, embora tivessem a consciência de que não poderiam escrever seus maiores segredos, pois sabiam que havia um leitor real – eu, o professor.

Os nossos vínculos afetivos foram se estreitando à medida que escreviam sobre questões pessoais. Eles só faziam isso porque sabiam que poderiam confiar no professor. Nesse sentido, pode-se afirmar que o diário colaborou para o estreitamento do vínculo afetivo entre professor e aluno, pois por meio dele os alunos se revelaram.

Apontando caminhos: outro benefício e possibilidade do trabalho com os diários é o acompanhamento do desenvolvimento da escrita, o que fazia com os diários dos meus alunos no início dessa atividade, principalmente com os alunos das séries iniciais do ensino fundamental I (1ª e 2ª série). Isso indica que os professores poderiam se beneficiar dessa prática, mesmo os das séries iniciais. Para os professores alfabetizadores, o diário permite acompanhar sistematicamente, de maneira contínua e processual, o desenvolvimento da escrita, possibilitando, ainda um acompanhamento do desenvolvimento da escrita e posterior intervenção. Dessa forma, torna-se um dos instrumentos de avaliação de maneira individual.

Esta pesquisa aponta também, para outros desdobramentos – com a delimitação da pesquisa (o que revelam os diários a respeito da relação professor e aluno, o meio social e cultural dos alunos e a relação dos alunos com o instrumento diário), ficaram de fora muitas outras possibilidades de investigação com os diários.

Poderia ser um dos objetivos desta pesquisa a didática do professor revelada pelos diários, visto que, pela leitura dos diários é possível vivenciar a dinâmica da sala de aula e a didática do professor. Portanto, os diários também poderiam colaborar com a autoformação dos professores, se os mesmos utilizassem os diários

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como ferramenta de reflexão da sua prática docente. Não digo o diário escrito pelo professor sobre sua prática a partir do seu ponto de vista, mas a reflexão do sobre sua ação docente a partir do ponto de vista dos alunos, ou seja, por meio dos seus diários.

Por fim, como já citado acima e no corpo do texto, esta pesquisa aponta muitos benefícios para professores e alunos, possibilitando-lhes a verdadeira práxis (reflexão-ação-reflexão), pois, à medida em que os professores lêem os diários, têm a possibilidade de refletir sobre sua ação, e caso queiram, redefini-la. Além disso, os diários possibilitam ainda ao professor conhecer o contexto social e cultural dos seus alunos.

Com a escrita dos diários, os alunos conseguem estudar os conteúdos trabalhados em sala de aula, visto que, ao escreverem sobre as aulas, pensam no que foi trabalhado pelo professor, desenvolvem sua memória e, com isso, seu conhecimento. Registram sua história no mundo, ou seja, o contexto em que vivem, como aconteceu com o diário de Anne Frank. Essa prática da escrita também ajuda os alunos a melhorar sua argumentação e produção de textos escolares.

Enfim, com a escrita dos diários pelos alunos e a leitura respeitosa pelo professor, há um fortalecimento dos vínculos afetivos, tão importantes para o processo pedagógico. Professores e alunos são pessoas completas, como afirma Almeida (2000:86)

Somos pessoas completas: com afeto, cognição e movimento, e nos relacionamos com um aluno também pessoa completa, integral, com afeto, cognição e movimento. Somos componentes privilegiados do meio de nosso

aluno. Torná-lo mais propício ao desenvolvimento é nossa

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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ZABALZA, Miguel A. Diários de aula: um instrumento de pesquisa e desenvolvimento profissional. Porto Alegre: Artemed, 2004.

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FILME

Escritores da liberdade (Original: Freedom Writers) País: EUA/Alemanha - Gênero: drama. Classificação: 14 anos. Duração: 123 min. Ano: 2007

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TRANSCRIÇÃO DOS DIÁRIOS DOS ALUNOS DO ANO DE 2005 Diário da Natasha Idade: 10 ANOS

14/02/2005

Hoje foi o meu primeiro dia de aula, conheci o meu professor que se chama Cezar Sena. Revi os meus amigos. Fiz uma lição na lousa, fizemos pergunta para o professor e fizemos as regras em grupo. À TARDE: Eu desci lá em baixo com meu pai e andei por lá com ele. Depois vim a assistir a minha novela. À NOITE: Sai com meu pai lá fora porque ele trabalha à noite. E agora vou dormir para acordar cedo para ir a escola.

15/02/2005

A TARDE: meu pai está dormindo porque ele sai para trabalhar as 9 horas da noite. Então eu fiquei brincando de Barbie e agora estou assistindo televisão esperando começar a novela que se chama Chiquititas.

16/02/2005

Hoje na escola eu terminei a lição de matemática, depois eu fiz um desenho para o professor ver o nosso jeito de desenhar...

17/02/2005

À TARDE – Eu passei com a minha mãe que não mora aqui e veio passar alguns dias aqui e eu fiquei até as 6 horas. Vim para casa e estou assistindo televisão.

20/02/2005 (domingo)

Eu acordei e fui tomar café da manhã. E agora estou escrevendo no meu diário escolar. À TARDE – Eu vou na casa dos meus primos para a gente brincar muito. E aproveitar enquanto nós somos crianças porque quando a gente crescer não vai poder brincar!!!

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Na segunda eu faltei na escola por que eu fui ao médico em São Paulo. Por que eu tenho um problema nas costas que se chama escoliose e eu já operei, eu não posso fazer muito esforço para não prejudicar as minhas costas. À TARDE – Eu cheguei do médico eram 5 horas e cheguei muito cansada, porque lá é muito grande e tem que andar bastante para achar onde a gente tem que ir.

25/02/2005

Sexta-feira de manhã eu fui para a casa dos meus primos, só que eu esqueci que tinha que voltar para casa 2 horas para ir para a natação. Perdi a hora e cheguei 5 horas e meu pai ficou um pouco bravo comigo, mas acabou tudo bem. Depois eu entrei no meu quarto e fechei a porta e fiquei assistindo DVD do Roupa Nova até a minha prima chegar, então eu desliguei o DVD e fui mostrar meu material escolar para ela.

26/02/2005 – (sábado)

Eu limpei a casa com o meu pai, lavei o tapete e o banheiro, aí minha prima chegou e me ajudou. Depois nós descemos lá em baixo e pegamos uma chuva. Alugamos um DVD para a gente assistir, depois fui lá pra fora, porque estava muito calor.

05/03/2005 (sábado)

Eu levantei as 7 hora 20 minutos, lavei meu rosto, penteeie meu cabelo e escovei os dentes. Minha vó foi na feira e eu fui limpar a casa e chamei a minha prima para me ajudar. À tarde eu e meu pai e a minha prima [saímos] para alugar alguns filmes de DVD para assistir. Depois eu e ela ficamos cantando no DVD até 7 horas da tarde. À noite nós pedimos uma pizza para comer, porque a gente não queria fazer janta. Assistimos filme até as 11 horas da noite.

08/03/2005

Hoje eu faltei na escola por que tive que fazer um exame no meu médico das costas. O meu exame que fiz foi uma ultrassom da bexiga. Nas costas eu passei com uma médica e ela só me encaminhou. Eu cheguei em casa 1 hora, almocei um pouco e deitei até as 4 horas da tarde.

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14/03/2005

Eu não fui para a escola porque quando eu acordei estava chovendo muito forte. As matérias que ia ter eram português e história. Depois fiquei a manhã inteira acordada e vi até meu pai chegar do trabalho.

16/03/2005

Eu não fui para a escola porque estava chovendo e em casa não tinha guarda-chuva para a minha avó. Então eu não fui, mas eu estava arrumada para ir, mas quando chegou a hora estava chovendo. A hora que o meu pai chegou eu estava tomando café da manhã, daí ele sentou na mesa e tomou um café preto.

17/03/2005

Na escola eu tive aula com uma substituta, porque meu professor faltou. Era para ter quatro matérias que o professor falou que tinha deixado pronto, mas ela não achou nada e passou outras coisas.

25/03/2005

Sexta-feira não teve aula, porque era feriado, é sexta-feira santa que não pode comer carne, só peixe. Nesse dia minha avó fez bacalhau para gente comer, mas eu não gosto de bacalhau, então eu fiz um miojo para comer. Neste dia eu ia ter natação, mas não teve porque é feriado, então eu brinquei até tarde.

28/03/2005

Na escola eu fiz três matérias que foram: leitura do contrato didático, português, história e leitura da história do dia. Em leitura do contrato didático, lemos as regras que nosso grupo elaborou. A leitura da história do dia “A linha mágica”, que o professor irá ler em cinco capítulos, estou morrendo de curiosidade pra saber o que vai acontecer com o Pedro...

30/04/2005 (domingo)

Eu acordei eram 11 horas, levantei e lavei o rosto, escovei os dentes e penteei os cabelos. Eu e meu pai levantamos, já fomos fazer o almoço, só que o que a gente ia fazer precisava de palito de dente, só que não tinha em casa, então eu fui

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comprar no mercadinho e comprei refrigerantes também. À tarde eu e o meu pai fomos assistir o jogo do São Paulo, que aliás foi campeão paulista de 2005.

04/05/2005

Eu não fui na escola porque ia ter aula até as 9 horas 30 minutos. Mas depois fui na escola com o meu pai para a reunião. Chegamos da reunião de pais, a minha avó tinha feito o almoço. Almoçamos e os meus primos estavam aqui com o pai deles, depois veio o meu outro tio e almoçou também e os meus primos não almoçaram e nem o pai deles.

08/05/2005

Fui na casa da minha tia, para depois ir para o show do KLB, mas minha tia não me levou, o filho dela que acabou me levando com a namorada dele. No show encontrei com uma amiga da escola...

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Diário da Alícia Idade: 10 anos

07/03/2005

Professor, eu gosto de você muito e você é um ótimo professor!!!

08/03/2005

Professor Cezar, você é ótimo e a minha tia disse que é um ótimo professor! Gosto de você!!!

30/05/2005

Professor, você é muito inteligente e rápido.

12/04/2005

Professor, sua letra é bonita eu lhe admiro!!! Acho você muito legal!!!

05/05/05

Ao chegar em casa fui fazer o meu diário e logo terminei e fui assistir TV e caí no sono. Logo acordei e fui brincar com meu irmão. Assim foi o meu dia.

07/06/05

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Diário de Janaína Idade: 10 anos Diário 01

01/03/05

Também teve aula de educação física só que o professor deu futebol, eu não gosto de futebol, mas eu não fiz física porque eu não gosto.

02/03/05

Eu gosto de estudar muito e ler, tem gente que nem sabe escrever nem ler, eu ajudo quem tem dificuldades...

03/03/05

O professor colocou umas regras na parede em cada tijolo, ele é bom demais, o professor Cezar Sena é legal, é muito simpático, esperto e charmoso, boa gente, qualquer criança queria ter ele como professor.

08/03/05

Eu sempre gostei de estudar, só que agora eu gosto mais ainda, é uma maravilha estudar, eu gosto de ler...

10/03/05

A Adriele é muito escandalosa e bagunceira, o Matias com o Aloísio são os mais bagunceiros da sala de aula. Quando eu chego da escola eu vou logo fazer rápido a lição de casa para depois ir brincar com meu primo, ele é legal e um pouco chato, todos os primos são chatos e bobos, mas eu gosto de brincar com ele.

14/03/05

No recreio eu brinco muito com minhas amigas, eu fiquei tão triste quando eu soube que iria começar as férias, porque eu gosto de estudar.

15/03/05

A escola é lugar para aprender, tem hora certa para brincar e estudar, na escola temos que respeitar todas as regras, ouvir quando o professor estiver

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falando, para depois não falar que o professor não ensinou direito. O Cezar está de parabéns por ser professor.

17/03/05

Eu não gosto quando o professor Cezar falta, mas ele precisa faltar...

18/03/05

Estou sentindo falta daquela música clássica, ela faz a gente se tranqüilizar, é chato quando o professor falta, eu vou dar um presente para ele, só que não vou falar o que, é surpresa.

23/03/05

Teve festa de Páscoa na escola, comemos bolo de chocolate com