Indagar sobre a autoformação humana no lazer depois da conclusão do curso de Lazer e Qualidade de Vida, reveste-se de grande importância para esta pesquisa, uma vez que a natureza dessas escolhas permite estabelecer conexões entre a formação ludopoiética e a sua repercussão para a autopoiese do lazer.
. Apresentação dos Cenários no Sandplay Depois do Curso
Cenário Sandplay Participante 1
Descrição Imagética do Cenário 1
O cenário apresenta espaços bem demarcados por riscos feitos na areia. Os animais estão protegidos, separados por distintas espécies e as pessoas encontram-se ao centro do cenário. Há personagens como gladiadores protegendo as pessoas que estão sentadas e há uma pessoa em destaque lendo um livro, revista ou jornal. Um casal no canto conversando e observando o ambiente.
Interpretação Fenomenológica do Cenário 1
No momento não estou tendo muito tempo para meu lazer devido ao Mestrado. Estudo 16 horas por dia. Fui ao Museu da Água, o de Prudente de Morais. Este cenário é em Piracicaba, São Paulo. Então, vivo no Zoológico! Moro em frente e porque é gratuito. Então, vivo meu lazer no Zoológico e também faço experimentação lá. Alguns autores relatam que a obrigação social não é lazer e só consegui entender quando vi no Zoológico uma mãe querendo ver os macacos e o filho não queria porque já tinha visto e a mãe terminou indo para onde o filho queria. Então, esse espaço do Zoológico é meu espaço, uma extensão da minha casa. Teve um dia que só tinha eu e comecei a brincar dizendo que o Zoológico é
meu... Interajo com muitas pessoas embora não as conheço. Ou estou com meus livros lendo, ou só contemplando o Zoológico... Tem um espaço para as crianças que não vou muito porque tem brinquedos e, como não posso usar os brinquedos, vou pouco. Então, no momento, não vivo muito o lazer, devido à Dissertação. Cenário Sandplay Participante 2
Descrição Imagética do Cenário 2
O cenário apresenta ambientes diferentes como espaço de leitura, representado por uma estante com livros e uma moça fazendo uma consulta aos livros expostos; outro de contemplação, representado por um casal sentado à margem do mar, rio ou lagoa; um espaço de jardinagem; uma mesa com dois bancos; e duas moças ao redor de uma mesa como se estivesse num bate-papo.
Interpretação Fenomenológica do Cenário 2
Hoje, meu lazer é de ficar em casa! Receber amigos para conversar, a leitura, o passeio a praia, namorar e cuidar do jardim. Como trabalho os dois expedientes, prefiro curtir um lazer mais tranqüilo. O passeio à praia é que não posso deixar porque é muito importante para mim...
Cenário Sandplay Participante 3
Descrição Imagética do Cenário 3
Neste cenário, percebe-se que a natureza está bastante aflorada, representada por várias árvores e plantas, umas naturais e outras artificiais. Pessoas ao redor de uma mesa compartilhando algum momento importante de suas vidas. Um espaço reservado à leitura que está sendo vivenciado numa rede. Duas pessoas sentadas como se estivessem contemplando algo. Encontramos ainda pedras variadas formas para caracterizar a biodiversidade no mesmo meio ambiente. Interpretação Fenomenológica do Cenário 3
Meu lazer hoje, depois que me formei é muito restrito. Só que a gente sabe que não pode viver sem o momento de lazer. E quando procuro ter meu momento de lazer, me volto para dentro da minha casa, justamente como ela é, com flores, verde, uma rede para ficar lendo, uma mesa para curtir o churrasco e almoço com minha família, assistir filme com meu amor. Minha casa tem uma varanda maravilhosa e fico na rede lendo... É como se eu esquecesse do mundo! E é maravilhoso porque continuo me desenvolvendo e descansando ao mesmo tempo... E a reunião com a família é para praticar o que aprendi na cozinha. Assim, ofereço momento de lazer para eles e para mim também. Aqui me divirto muito mais do que se estivesse em outro lugar.
Cenário Sandplay Participante 4
Descrição Imagética do Cenário 4
Este cenário parece representar um Shopping Center caracterizado por um amplo estacionamento e uma divisória de papelão representando as portas automáticas de vidro, características de Shopping Center. A entrada está marcada por duas linhas paralelas, mostrando pessoas como se estivessem entrando. Dentro do Shopping Center pessoas caminhando e olhando as lojas. Percebem-se manequins, lojas de bolsas, patins e supermercado.
Interpretação Fenomenológica do Cenário 4
Meu lazer se resume ao Shopping Center que representei com estacionamento de veículos, praça da alimentação, manequins, pessoas passeando, vários tipos de lojas e supermercado. Meu lazer se resume ao shopping porque tenho trabalhado e estudado muito diante de um mestrado que estou concorrendo, já na fase final. Como também participo de projetos com minha orientadora, então chego à casa muito cansada. No final de semana, fico sem coragem de levantar cedo para ir à praia, então pego minha sobrinha à tarde para ir ao shopping. Quando estamos no curso, vive-se o lazer pela própria discussão nas disciplinas que proporcionam vivências. Como Natal não tem muitas opções de lazer, gera um fato dificultador para as vivências de lazer. Então, na realidade tenho vivido meu lazer de forma irresponsável, por tudo que aprendi no curso de lazer... Sinto
falta do lazer com a família que perdi quando chegamos a Natal. À medida que a família tem seus filhos crescendo, eles vão se distanciando e cuidando de suas próprias famílias... Esse lazer começa a ficar distante também...
Cenário Sandplay Participante 5
Descrição Imagética do Cenário 5
O cenário representa dois espaços vivenciais distintos. De um lado, uma pessoa em cima de um morro observando o mundo a sua frente. Do outro lado, como se estivesse à disposição para ser vivido pela pessoa que o observa. Este espaço multivivencial está representado por carros, bolas, animais, pessoas, plantas e patins como se fosse um ambiente de convivência lúdica.
Interpretação Fenomenológica do Cenário 5
O que ficou? Tudo que aprendi no curso de lazer representou a práxis da minha vida. Coloquei pouca imaginação nessa última representação. O curso de lazer para mim foi uma árvore! É uma analogia perfeita porque foi muito difícil... Tive que plantar a muda, esperar essa arvore crescer, ficar forte. Alimentei, sofri, muitas vezes falhei, faltei, mas no final ficou uma árvore grande, forte e frutífera. Isto porque o curso de lazer mudou minha concepção de vida, da forma que concebo o mundo, da forma recebo o mundo e a forma que interajo com o mundo. O curso de lazer mudou Franklim! O curso foi um divisor de águas! Foi uma
mudança drástica na minha concepção de vida porque deixei de dar valor às coisas que a sociedade capitalista exalta e passei a dar valor a coisas mais significativas, profundas e críticas, como por exemplo: meu trabalho e as pessoas com quem convivo. Então, diante disso, fiz um resumo assim... Aprendi que na vida tem duas coisas que podemos garimpar, digamos, dois tesouros que ninguém pode tirar de você, uma é seu conhecimento, e o outro seus valores que você aprende. Digamos que o conhecimento é a grande riqueza que ninguém pode tirar e a segunda coisa são as emoções que a gente sente, sejam elas boas ou ruins, representadas por uma gargalhada, um show ou uma simples alegria de vê uma criança engatinhando, e uma música sendo cantada. Aprendi que é crucial e indispensável na nossa vida e no lazer. É bem isso! Quando se vive emoções diferentes como filmes dos dinossauros, andar de patins e que te deixaram marcas, você pode contar as pessoas. E a questão do conhecimento está presente em todas essas vivências porque elas constroem, criam e recriam. Você vive coisas que complementam a leitura. Então, não se pode comparar, você só aprende vivendo. Existe percepção que só emerge da vivência. A dinâmica do lazer é conhecimento, é emoção, ou seja, os dois juntos. Nossa atividade diária é tão mecanizada que terminamos negando as emoções que o lazer nos proporciona. A grande herança que o curso me deixou foi que percebi que tenho que está sempre aprendendo, podendo melhorar, reinventando, recriando... Exijo isso da vida! Aprendi a sentir, então eu quero sentir! Quero conhecer, rir, chorar... E no lazer a gente pode sentir, conhecer e agir. Se as pessoas valorizassem mais as vivências de lazer a vida seria outra. Aprendi a respeitar as emoções das pessoas. Então, não critico quem ri de uma piada besta porque só as pessoas sabem o que estão sentindo naquele momento.
. Análise Fenomenológica da Autoformação Humana no Lazer Depois do Curso
Pretende-se com esta análise fenomenológica da autoformação humana no lazer depois do curso evidenciar as vivências do lazer qualitativamente diferenciadas como experiencialidades humanas significativas para uma vida com mais alegria de viver.
Mesmo tendo pouco tempo disponível para o lazer, o Participante 1 destaca algumas experimentações realizadas num espaço público de lazer
próximo de sua residência de estudante de pós-graduação. Um importante aprendizado apontado refere-se a distinção entre obrigações sociais e o lazer observada vivencialmente, diretamente. Os conteúdos culturais que constituem o seu lazer são relacionados às manualidades próprias do cuidado com animais; às atividades intelectuais que envolvem museologia; e às espirituais que incluem a contemplação.
Com o tempo livre bastante reduzido, o Participante 2 busca vivenciar o lazer mais na sua própria casa para desfrutar de um lazer mais tranqüilo. Os conteúdos culturais mais privilegiados nas suas escolhas são os relativos ao corpo, como ir à praia; às manualidades como cuidar do jardim; aos relacionamentos como namorar e conversar com amigos. Destaca que há uma vivência de lazer muito importante, imprescindível para a sua vida que é passear na praia.
O Participante 3 também vive um momento de restrição de tempo para o lazer. Seus interesses estão voltados para a culinária lúdica em família; lazer intimista na própria casa; leitura e cinema. Parece evidente o valor da solidariedade como aprendizagem importante de sua autoformação humana no lazer.
Para o Participante 4, o tempo livre para o lazer é muito pouco. Diante da falta de opções culturais na cidade, assume uma postura contraditória com o que pensa por falta de disposição física para tomar outra atitude. A sua sensibilidade exige de si mesmo um outro posicionamento diante da vida e por esta razão considera-se irresponsável para consigo mesmo. O aprofundamento de sua autoconsciência deve ser destacado como uma dimensão de sua autoformação humana no lazer. Reduziu suas vivências de lazer a um passeio dominical com a sobrinha e abdicou de exercer o seu direito ao lazer e à vida.
O Participante 5 mostra-se bastante entusiasmado com as lições que aprendeu no curso sobre o lazer. É enfático ao afirmar que o curso mudou a vida dele. Considera o curso uma árvore que foi adubada, cresceu e frutificou. O aprendizado mais importante para a sua autoformação humana refere-se ao valor das emoções e das vivências do lazer.
4.5 CONSTRUINDO PONTES LUDOPOIÉTICAS ENTRE A FORMAÇÃO