• No results found

As relações entre narrativa, experiência e identidade narrativa nos diários de Carolina Maria de Jesus ainda podem ser consideradas sob o ponto de vista da abordagem da cultura histórica, levando em conta as considerações de Rüsen acerca da construção da identidade e da consciência histórica. Segundo este autor, a construção da identidade tem a ver com a “competência narrativa da consciência histórica”, isto é, “capacidade das pessoas de constituir sentido histórico as suas experiências” (RÜSEN, 2007, p. 103). Dessa forma, Rüsen vincula o saber histórico à necessidade de orientação da vida prática. Isto é, reconhece que o elemento histórico tem peso fundamental nas formas de agir e intervir na realidade, bem como na construção das identidades.

Para ele, “saber histórico é produto da experiência e da interpretação, resultado, pois, de uma síntese, e não mero conteúdo a ser decorado”. Desse modo, ele define a cultura histórica como “campo da interpretação do mundo e de si mesmo, pelo ser humano, na qual devem efetivar-se as operações de constituição do sentido de experiência do tempo, determinantes da consciência histórica humana” (RÜSEN, 2007, p. 121). Essa visão contrapõe-se à fragmentação e à especialização do conhecimento científico e traz elementos para pensar os diversos meios pelos quais o pensamento histórico se expressa. Nesse sentido, os avanços trazidos pela noção de cultura histórica se dão em demonstrar que a elaboração da história não é exclusiva dos historiadores e que o pensamento histórico opera em vários campos da vida cultural. Assim, amplia o leque para se pensar o lugar da história da sociedade.

Nesse sentido, ao construir uma identidade de si e de seu projeto pessoal, Carolina Maria de Jesus apresenta reflexões sobre o passado, os desafios presentes e as perspectivas de futuro. Ao buscar refletir sobre suas experiências, ela cria seus próprios sentidos sobre sua experiência temporal, faz reflexões sobre as transformações, as possibilidades e as limitações da sociedade em que vivera. Com isso, tem-se um ponto de partida para pensar a construção das narrativas de si e sua relação com a cultura história. Especifica-se como, ao produzir uma memória de si e forjar identidades, estas narrativas fazem usos do passado e se situam em

38

relação ao tempo histórico.

As reflexões de Koselleck sobre o tempo histórico parecem interessantes para a investigação dos aspectos da cultura histórica nas narrativas aqui analisadas. Através das categorias “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa”, Koselleck caracteriza a relação entre o passado e o futuro em um dado contexto. Com base nessas categorias, ele conclui que, na estrutura temporal das sociedades modernas, busca-se a superação das experiências vividas e a criação de possibilidades de transformações para o futuro, sendo o tempo caracterizado pela ruptura e pela transição: “é a tensão entre experiência e expectativa que, de uma forma sempre diferente, suscita novas soluções, fazendo surgir o tempo histórico” (KOSELLECK, 2006, p. 313).

Trazendo essas reflexões sobre horizonte de expectativa e espaço de experiência para a forma com as narrativas de Carolina Maria de Jesus fazem a configuração do tempo histórico, podem-se pensar as marcas das várias temporalidades que atravessam a escrita dessa autora.

A escrita de si, como instrumento através do qual o sujeito busca criar a si mesmo, num mundo em que já não existem referências estáveis para sustentar suas identidades, torna- se objeto fecundo para pensar a experiência histórica e a forma como os indivíduos constroem o sentido histórico de suas experiências.

Koselleck também fala de como, nas sociedades modernas, o campo de atuação política é o espaço que traduz essa tensão entre experiência e expectativa. Na ação política, opera-se a superação das experiências e projetam-se novas expectativas (KOSELLECK, 2006, p. 324). Nesse sentido, os estudos de Ângela de Castro Gomes são frutíferos no intuito de pensar a dimensão da cultura histórica a partir da cultura política: “o processo de constituição de culturas políticas, e esse é o ponto, incorporaria sempre uma leitura do passado – que conota positiva ou negativamente períodos, personagens, eventos e textos referenciais” (GOMES, 2005b, p. 48). O estudo da cultura política traz também uma contribuição importante, na medida em que tem proporcionado uma análise mais ampla da ação política, afastando-se dos esquemas explicativos tradicionais utilizados na historiografia e incluindo, nas análises dos processos sociais, as “ideias e ações daqueles diretamente envolvidos, o que não permitiria esquemas ou verdades estabelecidas” (GOMES, 2005b, p. 24). O conceito de cultura política tem sido retomado pela história por

permitir explicações/interpretações sobre o comportamento político de atores sociais, individuais e coletivos, privilegiando-se seu próprio ponto de vista:

39

percepções, vivência, sensibilidade etc. Dentro desses parâmetros, a categoria cultura política vem sendo entendida como “um conjunto de representações, complexo e heterogêneo”, mas capaz de permitir a compreensão dos sentidos que um grupo (cujo tamanho pode variar) atribui a uma dada realidade social, em determinado momento e lugar (GOMES,

2005b, p. 47-48).

Percebe-se que, ao tematizar as relações de poder e analisar a possibilidade de ação, Carolina Maria de Jesus, muitas vezes, vai buscar suas memórias, saberes históricos para interpretar sua realidade e justificar suas ações. Assim, enfocar os aspectos da cultura política em Carolina parece ser o caminho para se investigar a maneira como articula suas visões de mundo, com uma interpretação do passado que lhe é possível por meio dos saberes oficiais ou não aos quais teve acesso.

Carolina maneja saberes e memória para criar sua narrativa e interpretar sua experiência de vida. Nisso, evoca imagens do passado, posiciona-se historicamente em relação aos acontecimentos passados e presentes, reflete sobre as possibilidades de transformação política. Mesmo enquanto narrativa do cotidiano, fluxo de tempo onde tenta captar os instantes, vê-se em alguns trechos, mais marcadamente, a configuração e a articulação de várias temporalidades, trazendo, contudo, uma perspectiva diferenciada da experiência histórica, ao perceber os impactos desses processos históricos para sujeitos que se encontram à “margem” da grande história. A partir de uma narrativa cheia de desvios e tensões, encontram-se reordenações da ordem estabelecida, através dos usos e reelaborações que faz dos acontecimentos e discursos vigentes, para construir a sua identidade e o sentido histórico de sua experiência.