2 DE ULIKE DELRANDSONENE
2.2 De enkelte lærestedenes randsoner
Depois da favela em si, o problema central para Carolina é a fome, a luta pela sobrevivência em sua forma mais elementar. O dilema diário é representado pela repetição indefinida do trajeto percorrido para conseguir alimento. Os dias são narrados a partir da mesma dinâmica, que se poderia dizer cíclica: acordar, carregar água da única torneira que abastece o lugar, catar papel, ferro e mais o que houver, trocar por dinheiro, trocar por comida. Nesse processo diário, o que se projeta como futuro é a incerteza quanto à sobrevivência. A precariedade da vida é reinstalada diariamente, tendo em vista que o esforço diário esgota-se em si mesmo, não gerando possibilidade de superação da situação vivida. Essa repetição, como alertava Vogt, é revelador do “fechamento e da imobilidade do mundo social” da pobreza vivida na favela (VOGT, 2001, p. 04). A repetição revela-se um recurso eficiente para mostrar o ritual da sobrevivência e dar densidade às adversidades vivenciadas.
Carolina, que se percebia como “resto”, objeto do “quarto de despejo”, vive dos restos que a cidade deixa para trás, seu lixo. Para delimitar essa experiência limite com relação ao sustento sempre precário que tem de ser perseguido constantemente, Carolina repete, também, a matemática da sobrevivência, sempre quantificando o que conseguiu de dinheiro durante o dia para comprar alimentos:
Eu não tinha um tostão para comprar pão. Então eu levei três litros e troquei com o Arnaldo. Êle ficou com os litros e deu pão. Fui receber o dinheiro do papel. Recebi 65 cruzeiros. Comprei 20 de carne. 1 quilo de toucinho e 1 quilo de açucar e seis cruzeiros de queijo. E o dinheiro acabou-se. (JESUS, 1960, p. 13).
Como já foi visto no presente estudo, a ocupação de catadora permitia certa flexibilidade de tempo para que Carolina se dedicasse à escrita. Essa atividade por ela desempenhada tinha um papel mais importante naquela época: “Convém lembrar que por aqueles dias os sistemas de coleta de lixo eram precários e o país estava ainda em uma fase em que o aproveitamento de papéis, caixotes e latas era uma constância” (MEIHY; LEVINE, 1994, p. 85). Porém, mesmo considerando isso, a vulnerabilidade era imensa. No inverno e nos dias de chuva, sua principal fonte de sobrevivência se esgotava. Nos finais de semana e nos feriados, a preocupação aumenta, uma vez que não é possível a coleta e a venda dos materiais. Os baixos ganhos cobrem apenas as necessidades diárias:
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uniforme dos indigentes. E hoje é sábado. Os favelados são considerados mendigos. Vou a aproveitar a deixa. A Vera não quer sair comigo porque está chovendo. (...) Agitei um guarda-chuva velho que achei no lixo e saí. Fui no frigorifico, ganhei uns ossos. Já serve. Faço uma sôpa (JESUS, 1960, 60).
Segundo Elzira Perpetua Divina, alguns aspectos das formas de sobrevivência de Carolina Maria de Jesus foram suprimidos no processo de edição, por Audálio Dantas, visando enfatizar a precariedade da vida de Carolina. Ele retira do texto parte das citações de outros sujeitos que compunham toda uma rede relações de solidariedade estabelecida pela autora no seu espaço de atuação (2000, p. 186). Eles aparecem mais discretamente em Quarto
de Despejo (1960) e, de forma mais recorrente, no trecho público em Meu Estranho Diário
(1996). Além da coleta de materiais que vendia para os depósitos próximos à favela do Canindé, sua andança nas ruas permitia criar relações com as pessoas das casas de alvenaria, situadas nos bairros circunvizinhos, para quem prestava serviços em troca de dinheiro, comida, roupas e outros bens. Várias pessoas reservam para Carolina materiais de coleta. Havia, ainda, a possibilidade de catar verduras nos finais das feiras, receber pequenas doações de carne no frigorífico de quem já era conhecida.
O relato de Carolina Maria de Jesus esboça os sinais dessa população movente, tantas vezes invisíveis na historiografia oficial, com suas práticas marcadas pela improvisação, uma ocupação irregular e inconstante da cidade, com o reaproveitamento de tudo, que tanto podia ser material como cultural (PERES, 2006, p. 55). Para Peres: “Foi o improviso, a instabilidade, a dispersão o que mais marcou suas vidas como a de todos que tiveram que enfrentar o deslocamento” (PERES, 2006, p. 62). Esses sujeitos encontram, nessa mobilidade, as possibilidades de liberdade e recriação dos desejos no espaço urbano (PERES, 2006, p. 89). Para Carolina, tal desejo se projeta na escrita e no reaproveitamento e misturas que faz da cultura oral com a erudita, em busca de seu fazer poético.
Carolina Maria de Jesus era uma figura que chamava a atenção, gostava de discutir temas políticos e sociais, conversava com várias pessoas em suas andanças: trabalhadores, pequenos comerciantes etc. Com eles, compartilha e procura discutir suas ideias. O que não passava despercebido àqueles com os quais convivia. Novamente aqui se retoma a fala de um contemporânea, Marta Teresinha Godinho, sobre Carolina:
Era capaz de pensar e analisar no campo das ideias, coisas que não era do interesse do favelado comum. Me recordo inclusive, de suas preocupações como conceito como capital, função do trabalhador, pobreza, subdesenvolvimento. (...) sempre nos procurava para mostrar seus escritos e
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quando fazíamos observações, comentávamos alguma parte, ela se interessava em discuti-los mostrando seus pontos de vista. (MEIHY & LEVINE, 1994, p. 116)
Sua rede de relações era mais ampla do que a mencionada na versão do livro publicado, especialmente no que diz respeito a pessoas de fora da favela, com quem buscava especialmente discutir suas ideias. Todos conheciam a intenção de Carolina em publicar seus escritos. Esse também foi um dos traços suprimidos na edição de Audálio Dantas. Ao longo da escrita do diário, a sua relação com o jornalista e a repercussão das reportagens que saíram sobre ela foram pontos abordados por Carolina, mas apagado pelo editor. A partir do estudo de Perpétua e do texto original apresentado na publicação já citada, de 1996, fica claro que Carolina era conhecida e indagada constantemente sobre a futura publicação, e que seus interlocutores e amigos aumentavam suas possibilidades de acesso a recursos e meios de sobrevivência.