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Podemos observar a simbólica matricial bem como a árvore arquétipo universal nos utensílios do tabernáculo. Vamos, pois, aos relatos dessas imagens:

Também farás uma mesa de madeira de cetim; o seu comprimento será de dois côvados, e a sua largura, de um côvado, e a sua altura, de um côvado e meio, cobri-la-ás com ouro puro; também lhe farás uma coroa de ouro ao redor. Também lhe farás uma moldura de ouro ao redor, da largura de uma mão, e lhe farás uma coroa de ouro ao redor da moldura. Também lhe farás quatro argolas de ouro; e porás as argolas nos quatro cantos, que estão nos seus quatro pés Defronte da moldura estarão às argolas como lugares para as varas, para se levar as mesas. (ÊXODO, 25.27- 28)

A construção do tabernáculo foi ordenada pelo Deus de Israel para que no deserto houvesse um lugar para o culto. Observamos, na sua estrutura, a presença constante da árvore viva: na mesa onde era colocado o pão da proposição, a comida sagrada, essa simbologia remete à mulher, desvela sentido, nos lembra da mulher servindo; na construção das tábuas do tabernáculo: “Farás também as tábuas de madeira de cetim, que estarão levantadas [...] e cobrirás de ouro as tábuas e fará de ouro as suas argolas [...] Então levantarás o tabernáculo conforme o modelo que te foi mostrado no monte” (ÊXODO 26.15-30); no altar de holocausto: “Farás também o altar de madeira de cetim [...] Oco, de tábuas, o farás: como se te mostrou no monte assim o farão” (ÊXODO 27.1-8); no altar para queimar incenso: “E farás um altar para queimar o incenso de madeira de cetim o farás [...] E com ouro puro o forrarás, [...]” (EXÔDO 27).

Conforme o relato bíblico, o altar era coberto de ouro bem como as tábuas para que o tabernáculo fosse levantado, faz jus ao lugar da árvore na adoração. O ouro cobria, ainda, o altar dos sacrifícios para perdão da congregação, e apaziguar a relação entre ela e Deus. Também o altar de incenso para oferecer cheiro suave a Deus sinal da gratidão por todos os seus feitos. Essa passagem remete à simbólica matricial da árvore bem como o arquétipo de verticalidade. Nos mostra muito mais quando a ordem para colocar uma coroa na mesa que fora coberta de ouro, uma disposição de realeza para com a mesa/madeira.

Nessas passagens a árvore perpassa os dois regimes em que é estruturado o imaginário. Na expressão de verticalidade, a árvore é diurna, guerreira e firme, todavia também pertence ao regime noturno símbolo de inversão. Imagem antídoto do tempo, o tempo não tomou o poder do símbolo da árvore, continua presente mostrando seu potencial de expressão de longevidade na natureza e na vida das pessoas e assim pelo imaginário humano pode apaziguar seu ser que luta contra o tempo e a morte que não podem ser detidos.

O Arquétipo da grande mãe pode ser percebido, pois o schème da deglutição está na imagem no tabernáculo. A árvore é honrada quando é revestida de ouro na presença de Deus e dos homens. A grande mãe que aparece nas culturas em suas diversas formas. O Cristianismo não se desvinculou dessa simbologia.

Através do mítico podemos compreender as formas de conduta em uma determinada cultura ou sociedade, e conferir seu valor religioso. Somente na perspectiva histórico-religiosa, as ações culturais serão vistas também como fenômenos culturais. Assim qualquer coisa ainda que monstruosa perde o caráter de pavor, pois o bem e o mal possuem significado mítico, estruturante da sociedade e é uma questão religiosa.

Como a música que transpõe barreiras, o símbolo fala todas as línguas, sendo ele um discurso do que não é dito com palavras; visto que o símbolo ultrapassa o racional, revelando um inconsciente. E aqui cabe bem pensar em Jung que defende a teoria de um “inconsciente coletivo, memória da experiência da humanidade, estruturado por arquétipos, que são as disposições hereditárias para reagir” (PITTA, 1995. p.3). Ou seja, um inconsciente com lembranças diferentes e pessoais e um inconsciente comum a um determinado grupo de pessoas.

Consideramos, neste capítulo, que o símbolo da árvore na Torá, expresso no imaginário da cultura judaico-cristã, está possivelmente presente nos dois regimes do imaginário. Desvela a figura do arquétipo de mãe, que deu vida, serve à mesa, cuida dos filhos e os protege. Na imagem da divisão, existem o sagrado e o profano, concomitantemente, todavia o desejado são os eventos, os momentos, que têm sua base no sagrado. Na cultura judaico-cristã está presente o mito de origem criadora, da vida, do sagrado; o feminino é considerado nesta cultura e tem seu espaço

conquistado de forma consciente e inconsciente. O sagrado, portanto, é o condutor da vida, valorizado e vivenciado desde as raízes familiares e da coletividade.

3. O TRONCO DA ÁRVORE NA TORÁ

Este capítulo foi construído a partir da visão da árvore na Torá como símbolo cíclico. Para tanto, iniciamos apresentando a árvore pastoral, considerando a sua ligação com as primeiras relações entre o homem e Deus.

No segundo momento, a árvore caminha do cajado ao cetro, quando no Sinai a lei foi colocada e o imaginário heróico se sobressai, e os mitos são contados numa relação com o meio em que viviam os habitantes da região. Mostramos, com a árvore-cajado, as experiências que o pastor teve com o sagrado, e depois desta se transformar em cetro, o pastor trocou o cajado pelo cetro, tornando-se o herói e a lei.

No terceiro momento, fizemos referência a axis mundi na Torá que antes de ser cósmica é árvore sagrada, encontrada em diversas culturas. A árvore Cósmica é símbolo do universo sendo encontrado em diversas mitologias e em Gênesis tem seu sentido matricial e fundante para a cultura judaico-cristã. No jardim do éden, podem ser vistos os mitos da criação, que trazem à mente as lembranças infantis, onde tudo começa, e a do pecado original. Referimo-nos à árvore Totem eleita pelos povos desde tempos imemoráveis.

Já no quarto momento, a axis mundi na Torá é arquétipo de verticalidade cósmica. Fizemos uma relação entre ela e o ser humano, trazendo à memória do leitor aspectos da humanidade, que se referem à infância para que se compreenda melhor esse arquétipo.

A árvore na Torá símbolo de ascencionalidade é o quinto momento quando entramos no mundo onírico, das raízes e lembranças presentes em nossos sonhos. Observamos os aspectos da árvore em relação ao ser humano e seus dramas.

Fizemos uma breve reflexão do regime de imagens crepuscular, que trata dos dramas vivenciados e enfrentados pelas culturas, os quais mostram as diversas preocupações da vida cotidiana. Nesse espaço, também, fizemos referência aos episódios da humanidade com relação ao futuro em uma fábula que trata dos desejos e sonhos de árvore, uma raiz antropológica.

No decorrer do capítulo, descrevemos as imagens simbólicas nos livros da Torá, tendo como base a hermenêutica durandiana. Fizemos a análise buscando desvelar as constelações de imagens, que evidenciam os mitos e nos possibilitam compreender um pouco mais o imaginário judaico-cristão.