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impossíveis

De acordo com Antônio Cândido, Darcy Ribeiro “teve a capacidade de viver

muitas vidas em uma só”

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. Em qualquer lugar em que se procure saber algo sobre Darcy

Ribeiro dificilmente se consegue escapar, à primeira vista, do que já de tão recorrente,

parece ter se tornado “inerente” à caracterização deste intelectual, e que se trata

exatamente, da multiplicidade de seus campos de atuação. Não procedemos de maneira

diferente, porque de fato, também em nossa opinião, não seria possível compreender a

figura intelectual de Darcy Ribeiro sem revigorar a importância de seus múltiplos campos

72 TENEMBAUM, Ernesto Jorge. Movimientos populares en la historia de nuestra América. Buenos Aires:

Sudamericana, 2006.

73 CASALLA, Mario. América Latina en Perspectiva: dramas del pasado, huellas del presente. Buenos Aires:

Altamira; Fundación OSDE, 2003.

74 BARTOLOMÉ, Miguel Alberto. Procesos Interculturales: antropología política del pluralismo cultural en

América Latina. México: Siglo XXI Editores, 2006.

75 RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras,

de inserção: foi etnólogo, antropólogo, educador, político, exilado, ensaísta, romancista,

legislador, político e crítico social, do Brasil, da América Latina, e do Mundo

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.

Em cada um destes campos de atuação, no mínimo, ganhou grande repercussão,

sem contar que em alguns deles ainda realizou grandes projetos, como se verá adiante. E,

para se destacar nesses diferentes campos de atuação, obviamente necessitou de um largo

período de tempo, o que o levou a viver em diferentes contextos, desde que ganhou a vida

pública na década de 1940, até a sua morte, na década de 1990: de militante comunista nas

décadas de 1940 e 1950, passou a político trabalhista, ainda na década de 1950, e,

posteriormente, passou do reformismo da década de 1960, novamente à militância

revolucionária ainda na década de 1960 e por toda a de 1970, e, novamente se

arrefecendo, retorna a exigir a reforma rumo à redemocratização no Brasil da década de

1980, para finalizar sua vida, após ter ocupado cargos no executivo do Estado do Rio de

Janeiro e no Legislativo Nacional Brasileiro, militando pela utopia da “Revolução

Necessária”, na década de 1990.

O que nos direciona a outra característica importante de Darcy Ribeiro, a de

dialogar intensamente com as referências político-ideológicas de cada momento ou

contexto nos quais decidiu, ou lhe foi possível, intervir e participar: Comunismo,

Trabalhismo, Reformismo, Insurgência, Contestação da Dependência, Democracia,

Crítica ao Neoliberalismo, Utopia em nome da “Revolução Necessária”, para o “O Povo

Brasileiro”, e para a “Pátria Latino-Americana” – entre outros pontos.

Darcy Ribeiro via a sua obra, assim, como “fruto desse esforço” de conjugação de

conhecimentos de diferentes áreas de atuação. Ou ainda, “um intento de reunir e

entretecer os fios de minhas vivências, meditando como cientista social, sobre minha

experiência política e reavaliando, como político, minhas responsabilidades de

estudioso”

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. Sobre isso, Mércio Pereira Gomes diz: “Difícil é separar o pensamento de

Darcy de sua ação, já que ele se movia por uma convicção de que os dois interagem

76 Aos olhos de qualquer leitor desavisado tal afirmação poderia parecer um exagero. Mas entre os livros de

antropologia acadêmica, projetos de reforma universitária, romances, ensaios sobre o Brasil e a América Latina, e revisões sobre as teorias da evolução humana, Darcy Ribeiro, até o ano de 2000, contava com aproximadamente trinta diferentes publicações, com cerca de 200 edições somadas, em diversos países do mundo – entre eles: Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Cuba, México, Estados Unidos, Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha, Inglaterra, Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Israel e Argélia – entre outros.

dialeticamente”.

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Helena Bomeny o caracterizou como um intelectual “militante

engajado”

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, dado o fato de, não só vincular estreitamente causas “ideológicas” a

reiterados projetos de intervenção, como também ao fato de que em cada atividade que

exercia, respaldar-se de maneira marcante por convicções político-ideológicas sempre

polêmicas e, por vezes, ferrenhamente combativas e combatidas, e que exigiam portanto

exemplar militância. Como reforça Mércio Pereira Gomes:

Sua atuação política foi frequentemente marcada pela ousadia e coragem pessoal, por um espírito de confronto, e não de dissimulação, pelo radicalismo ideológico, por uma grande capacidade de enfrentamento e pouca de negociação. Havia muito pouca paciência na atuação política de Darcy, que se movia mais por sentimentos de urgência e necessidade, cujas conseqüências beiravam o ideal de auto- sacrifício80.

E para participar de diferentes contextos e sob tantas perspectivas político-

ideológicas em confronto, assumiu diferentes posturas. O que não deveria ser um

problema, se aos olhos de seus críticos não fosse possível identificar, para cada um desses

contextos, posições não somente diferentes, não lineares, descontínuas, mas

principalmente profundamente contraditórias. Com base nessas contraditoriedades, por

vezes, foi questionado e banalizado, como um caso de “intelectual a se desconsiderar”, e

assim, foi também depreciado ou colocado em descrédito; principalmente pela

comunidade acadêmica brasileira. Com relação a isso dizia o próprio Darcy Ribeiro que se

orgulhava de mudar de convicções de acordo com o que acreditava serem as exigências de

cada momento: “Na verdade sou um homem feito muito mais de dúvidas que de certezas,

e estou sempre predisposto a ouvir argumentos e a mudar de opinião. Tenho mudado

muitas vezes na vida. Felizmente”

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.

A primeira dificuldade, na definição nos itinerários intelectuais de Darcy Ribeiro,

consiste, portanto, em aclarar essas mudanças de filiações político-ideológicas e torná-las

compreensíveis, para além de reproduzir as caracterizações que nada explicam sob o

estigma simplista de “contraditórias”. O que de fato importava, na visão de Darcy Ribeiro,

era conseguir defender suas “causas”. O próprio Darcy Ribeiro chegou a se definir, antes

de tudo, como “homem de fé e de partido”, que “fazia tanto política como ciência movido

78 GOMES, Mércio Pereira. Darcy Ribeiro. São Paulo: Ícone, 2000, p.19.

79 BOMENY, Helena. Darcy Ribeiro: sociologia de um indisciplinado. Belo Horizonte: UFMG, 2001, p.25. 80 GOMES, Mércio Pereira. Op.Cit., p.51.