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3.   TEORETISK FUNDAMENT

3.4   A GENTTEORI

3.4.3   Aktualisering av agentteori

Durante a Primeira Guerra Mundial, houve um acirramento da postura nacionalista ocasionado pela própria situação de crise e os questionamentos que a guerra provocou. Para que se obtivesse o apoio de todos à guerra empreendida, era necessário que se justificassem os seus motivos perante a comunidade francesa. O apelo emocional ao patriotismo, aos valores nacionais como elementos que deveriam ser defendidos diante do inimigo externo são pontos que colaboram na construção das justificativas nacionalistas para guerra.

Conforme Anthony D. Smith, as guerras têm o poder de reforçar os sentimentos de apego à pátria e de identidade nacional. Pode-se ver “[...] o papel fundamental dos conflitos armados [...] como um mobilizador de sentimentos étnicos e de consciência nacional, uma força centralizadora na vida da comunidade e um agente fornecedor de mitos e memórias para gerações futuras” (SMITH, 1997, p. 44). Exalta-se o sentimento de identificação étnica na busca de respaldo entre os indivíduos da nação à guerra que se trava. Cria-se, assim, uma estratégia de defesa da autonomia nacional, um dos pilares do nacionalismo, por meio da valorização dos elementos considerados caracteristicamente nacionais, da ideia de

autenticidade como forma de marcar o que é singular em uma nação.

Na França, do período da Primeira Guerra Mundial, fazia-se necessário um nacionalismo que atingisse todos. Se o nacionalismo ganhara mais espaço nos anos imediatamente anteriores à guerra, essa tendência continuou em um crescendo durante o período em questão e atingiu o ápice no entreguerras. Nesse contexto, a cultura e a educação foram pontos centrais na ampla difusão da ideologia nacionalista.

Em tal cenário, a arte tinha clara função de instrumento da propaganda ideológica e da criação da imagem mítica da nação. A música ganhou um lugar de destaque.

Se o nacionalismo se exacerbou, a música assumiu de forma ainda mais acentuada o lugar de representação simbólica dos valores nacionais e meio de legitimação do governo, então conservador e nacionalista, e de sua postura diante da situação de conflito externo. A música ajudava a criar a imagem da nação, interna e externamente, apoiando-se no mito do clássico, do autêntico e da tradição como elementos que marcavam a singularidade da identidade cultural francesa. As

reconstruções identitárias, durante a guerra, apoiaram-se na ideia do mito da França como clássica, ligada ao passado, à tradição. Entender o clássico como o autenticamente francês era ter este como traço singular da cultura nacional, opondo- se, principalmente, ao subjetivismo e aos exageros românticos ligados à cultura germânica.

O governo republicano teve um papel fortemente ativo na divulgação do nacionalismo pela música. “A Direita [...] ajudou a fazer da música um representante natural do mito coletivo, ou símbolo da identidade nacional, incorporando uma concepção do passado nacional” (FULCHER, 2005, p. 22, tradução nossa). Para tal, a atuação do Estado sobre a produção musical da época foi bastante agressiva. Aconteceu por meio de subsídios e de exigências sobre o que deveria ser incluído ou excluído nos programas, em uma atitude claramente protecionista com relação à música francesa.

Durante a guerra, as atividades culturais diminuíram. Até mesmo museus permaneceram fechados. No entanto, os concertos se disseminaram e tornaram-se uma das principais atividades para a difusão da tradição cultural francesa. “[...] os concertos ofereciam um acesso coletivo único ao passado artístico nacional e consequentemente à apreensão da sua singular identidade cultural” (Ibidem, p. 28, tradução nossa).

A Primeira Guerra Mundial provocou forte rejeição à música germânica, e ampla defesa da música nacional. Por algum tempo, não se executada nenhuma música dos compositores alemães ou austríacos, sobretudo Wagner. Discussões sobre o que deveria ser executado, além da música nacional, eram recorrentes. O viés ideológico que se adequava aos interesses nacionais era nítido quando se tratava de eleger os cânones da tradição. D’Indy continuava como defensor da música de Wagner, ou mesmo de Beethoven e Bach, vistos como autores cujas obras traziam qualidades consideradas “universais” e que, portanto, deveriam continuar como referências para a música nacional. O governo francês exercia pressão sobre as atividades musicais, inclusive fiscalizando que autores eram executados, no claro intuito de reprimir a inclusão da música germânica nos programas44. Mas segundo Jane F. Fulcher (Ibidem, p. 29), ainda em 1915 os

44

Segundo Marion Schmid (2008, p. 89, tradução nossa), “Wagner foi banido dos palcos franceses entre 1915 e 1919”. Talvez esse texto refira-se à censura que existia a respeito dos programas dos concertos, quanto à execução de música alemã. Pela falta de mais informações sobre esse assunto,

concertos voltaram a incluir os compositores da Primeira Escola de Viena nos programas e até mesmo peças de Wagner, repertório que era do agrado do público.

A ópera foi retomada também em 1915. A tradição francesa ganhou grande espaço no cenário operístico. Esse tipo de espetáculo tornou-se mais popular, visando a atingir um público amplo. Passou a ter intenções educativas, de transmissão de valores ligados ao mito da tradição da música francesa, além de criar conexões do passado glorioso – mostrado nas óperas mais antigas – com o momento da guerra. A ópera teve importante papel na propaganda política da época. Prestou-se a reforçar a ideia de autenticidade e singularidade da cultura nacional e criar identificações com a herança cultural do passado45.

Os compositores debatiam amplamente sobre o que deveria ser executado ou não além da música francesa, mas sobre um ponto todos concordavam: a defesa da música nacional. Dessa forma, surgiu, em 1916, a Ligue Nationale pour la Défense de la Musique Française, que tinha certa tendência xenofóbica. Os compositores, que antes se dividiam em tendências opostas, eram todos, no período da guerra, considerados verdadeiros representantes da música francesa e da cultura nacional.

Fato que ilustra a importância da música na atuação governamental foi o famoso pianista Alfred Cortot ter se tornado, em 1916, chefe do serviço oficial de propaganda musical do Ministério de Belas-Artes. Ele era ligado a Ligue Nationale pour la Défense de la Musique Française.

A exacerbação nacionalista trazida pela guerra teve a sua contrapartida. Se o nacionalismo apoiava-se no mito da tradição francesa ligada ao conceito de clássico, a linha que se opôs a essa tendência dominante foi aquela trazida pelos desiludidos com a guerra e seu suporte ideológico. Conforme mencionado por Jane F. Fulcher, as escolhas artísticas naquele momento se davam entre os “conformistas”, que apoiavam a ideologia nacionalista dominante, e os “dissidentes” (FULCHER, 2005, p. 46), que se colocavam como universalistas, contrários à guerra e questionando o

apoio-me no texto de Jane F. Fulcher, que recorre aos programas de concerto, apresentados na Salle

Gaveau pelos Concerts Colonne-Lamoureux, para mostrar a reinclusão da música de Wagner a partir

de 1915.

45 O cenário político e musical francês na época da Primeira Guerra Mundial encontra-se amplamente

delineado no capítulo Wartime Nationalism, Classicism and Their Limits, do livro The Composer as

mito da tradição. Era a subversão de valores trazida pelos que eram considerados “modernos”, como Erik Satie (1866-1925) e a música do balé Parade, de 1917.

3 DARIUS MILHAUD E O CENÁRIO NACIONALISTA FRANCÊS

Figura 1 – Milhaud, Cocteau e Poulenc

(THOMPSON, 2002b)