Os estudos sobre crença iniciam-se com os “pais” do pragmatismo Charles Peirce e William James (1877). Para esses autores, a crença sempre está ligada a ação e ela rege muitos dos nossos hábitos. John Dewey, ainda na filosofia, e estabelecendo uma ligação com a educação, aprofunda esse conceito, tentando separar crença e conhecimento e delimitar a relação entre eles. Na concepção pragmática do filósofo, as crenças estão relacionadas à experiência, embora vindas da mente, mas não mais passivas como se pensava, e sim controlada por agentes externos próximos, como a família. Nesse sentido, para Dewey:
As concepções que são socialmente correntes e importantes se tornam princípios de interpretação e de avaliação da criança, muito antes de ela atingir o controle pessoal e deliberado de sua conduta. As coisas vêm para ela vestidas pela linguagem, não em sua nudez física, e esta vestimenta de comunicação torna-a um participante nas crenças daqueles que a cercam. Essas crenças, vindo a ela sob a forma de diversos fatos constituem a mente. Eles fornecem os centros a partir das quais suas próprias atividades e percepções são ordenadas. Aqui nós temos ‘categorias’ de conexão e unificação tão importantes quanto às de Kant, mas empíricas e não mitológicas (1910, p.53).
Etimologicamente, a palavra “crer”, vem do latim credentia (do verbo credere) e significa “aquilo sobre o que se considera verdadeiro”. No grego, tal palavra tinha a mesma
raiz de doxa (opinião). Isso se explica pelo fato de que Platão usava o termo para fazer oposição ao “verdadeiro” conhecimento. A palavra crença ao longo da história sempre foi muito usada no campo religioso e teológico, pela relação com a fé em algum deus, santo ou prática e por isso, permeia o senso comum. Para o dicionário Houaiss (2014), por exemplo, crença pode ser “convicção profunda e sem justificativas racionais em qualquer pessoa ou coisa”. Essas convicções profundas podem modificar a relação que um profissional tem em relação ao seu trabalho, e o professor de LE não foge a essa regra.
As crenças passaram, cada vez mais, a ser parte importante de estudos científicos nas ciências humanas, iniciando na filosofia, como já relatado, aos estudos linguísticos, passando por áreas afins. Sobre isso, ressalta Barcelos (2004, p.07):
Toda e qualquer pessoa é permeada de crenças, ligadas ao senso comum, religioso ou simplesmente por simples observações diárias. Esse conceito que vem da filosofia e estudado na sociologia e antropologia é importante nas ciências humanas. O conceito de crenças não é específico da LA. É um conceito antigo em outras disciplinas como antropologia, sociologia, psicologia e educação, e principalmente da filosofia, que se preocupa em compreender o significado do que é falso ou verdadeiro.
A psicologia é uma área do conhecimento que também possui inúmeros estudos em crenças; o enfoque, no entanto, é como elas se formam na mente humana, em que se ancoram e como mudam ou se cristalizam. Alguns estudos também destacam a influência dos sentimentos e da emoção nas crenças (com repercussão também na educação e na LA). O psicólogo americano Michael Shermer é um dos maiores estudiosos de crenças na psicologia e na neurociência. Suas pesquisas buscam entender as razões para as pessoas acreditarem em algo, mesmo sem o menor valor científico ou evidências significativas e como esses processos se formam na mente. Em seu livro O Cérebro e Crença (2012), o pesquisador diz que sua tese central sobre essa questão é que:
Construímos nossas crenças por várias e diferentes razões subjetivas, pessoais, emocionais e psicológicas, em contextos criados pela família, por amigos, colegas, pela cultura e a sociedade. Uma vez consolidadas essas crenças, nós as defendemos, justificamos com uma profusão de razões intelectuais, argumentos convincentes e explicações racionais. Primeiro surgem as crenças e depois as explicações (SHERMER, 2012, p.20).
Ainda para o psicólogo especialista em crenças, dois processos são responsáveis para a formação de crenças no cérebro: a padronicidade e a acionalização. O primeiro diz respeito
ao fato de os nossos cérebros procurarem padrões a todo o momento e o segundo tem relação com incutir, nesses padrões, significados, além de ações e intenções atreladas a eles (aos padrões). Por isso, nem sempre nossas crenças sobre os mais diversos assuntos, do horóscopo ao ensino de línguas, são baseadas em relatos sólidos ou fatos científicos, já que nosso cérebro cria crenças a todo o momento a partir desses dois processos. Assim, não é nada fácil, modificar uma crença seja ela qual for, pois “uma vez formadas as crenças, o cérebro começa a procurar e encontra evidências que as confirmem, o que aumenta a confiança emocional e acelera o processo de reforço dessas crenças (SHERMER,2012, p.20) . Ainda, para o autor (2012, p.365), há outras tendências cognitivas em que as crenças são influenciadas são:
a) Profecia autorrealizável: tendência a acreditar em ideias e se comportar de acordo com a expectativa de crenças e ações.
b) Tendência de generalização estereotipada: tendência a presumir que o membro de um grupo terá certas características que representam o grupo, sem informações reais sobre esse membro em particular.
c) Tendência de atribuição de traços: tendência a avaliar que nossa personalidade, nosso comportamento e nossas crenças são mais variáveis e menos dogmáticos que os dos outros
Não vou me deter muitos nessas tendências, mas, a priori, se percebe que essas tendências são facilmente aplicáveis também às crenças dos professores de idiomas em diversos trabalhos que se propuseram a trabalhar com esses sujeitos.
Durante todo o século XX, outras áreas, além da Filosofia, Psicologia e Educação a se enveredaram pelo conceito de crenças foram a Antropologia (BLACK, 1973; GOODENOUGH, 1981) e a Sociologia (BOURDIEU, 1987; 1991). Estes autores entendem que compreender melhor o mecanismo de criação e estabilização de crenças é entender o ser- humano e suas relações familiares, religiosas, linguísticas e mesmo sexuais. Ainda assim, mesmo depois de inúmeros trabalhos de diversas áreas, e de mais de 20 anos de estudos profícuos também na linguística – como veremos a seguir – o conceito de crenças ainda se constitui de uma “floresta terminológica”, nos dizeres de Silva (2010). Espero delimitá-lo um pouco mais dentro do espectro de interesse deste trabalho nos próximos capítulos.