Angola é um país em desenvolvimento com graves problemas ambientais e com poucas práticas conhecidas de promoção da literacia ambiental. Assim, baseado nas necessidades do contexto em que este estudo se desenvolveu e na revisão de literatura realizada, esta investigação teve como objetivo geral o seguinte: comparar as conceções sobre conceitos relacionados com a literacia ambiental e as representações de práticas de EA, dos professores e alunos futuros professores, de escolas de formação de professores de uma zona urbana e de uma zona rural no Namibe. Este objetivo geral concretizou-se através dos seguintes dois objetivos específicos: comparar as conceções sobre conceitos relacionados com literacia ambiental dos professores e dos alunos, futuros professores, de escolas de formação de professores de uma zona urbana e de uma zona rural, no Namibe; comparar as representações sobre as práticas de Educação Ambiental para a literacia ambiental dos professores e dos alunos, futuros professores, de escolas de formação de professores de uma zona urbana e de uma zona rural, no Namibe.
Em relação ao primeiro objetivo, comparar as conceções sobre conceitos relacionados com a literacia ambiental dos professores e dos alunos, futuros professores, de escolas de formação de professores de uma zona urbana e de uma zona rural, no Namibe, conclui-se que:
- A maior parte dos inquiridos tinha uma conceção naturalista de meio ambiente, com maior frequência de professores e alunos da zona urbana.
- Cerca de 60% dos professores da zona urbana e da zona rural tinha conceções cientificamente aceites ou incompletas sobre o conceito de ecossistema (Zrural=53.0%;
Zurbana=66.7%) e cerca de 30% dos alunos das duas zonas apresentava conceções incompletas e cientificamente aceites (Zrural=31.9%; Zurbana=34.1%). Em conclusão, mais de metade dos professores e menos de metade dos alunos conhecia ou conhecia parcialmente o conceito de ecossistema. Quer os professores quer os alunos da zona urbana tinham um conhecimento melhor.
- Sobre a biodiversidade, menos de 20% dos professores e 33.6% dos alunos compreendiam ou compreendiam parcialmente o que era a biodiversidade, sendo esse resultado semelhante ao encontrado por O´Brien (2007). Nos professores da zona urbana, a maior parte não respondeu sobre o conceito de biodiversidade (72.2%), o que não aconteceu com os professores da zona rural (5.9%). A ausência de respostas quase que não se verificou entre os alunos das duas zonas. O número de professores e alunos que não respondeu é bastante elevado, o que pode sugerir pouco conhecimento dos inquiridos sobre o que é a biodiversidade. Existem muitos professores e alunos de todas zonas na categoria cientificamente não aceite, com maior percentagem para os professores e alunos da zona rural. Na categoria incompleta a maior percentagem foi para os alunos da zona urbana. Os alunos de ambas zonas apresentaram um número considerável de respostas ambíguas. Em conclusão, a maior parte de professores e alunos das duas zonas não sabia o que era a biodiversidade ou tinha um conhecimento incompleto. Os professores da zona rural (Zrural= 23.5%; Zurbana=16.7%) e os alunos da zona urbana (Zrural= 31.9%; Zurbana=35.3%) tinham um conhecimento melhor.
- Quanto às conceções sobre recursos naturais renováveis e não renováveis, poucos professores tinham conceções cientificamente aceites, com ligeira vantagem para os professores da zona urbana. Os alunos de ambas as zonas tiveram uma percentagem muito baixa de conceções cientificamente aceites. Estes resultados são semelhantes aos encontrados por Ferreira (2007) com os alunos, que também tinham pouco conhecimento sobre ecologia. Há uma percentagem maior de professores e alunos da zona rural com conceções cientificamente não aceites sobre os recursos naturais renováveis e não renováveis. Os professores da zona rural apresentavam uma percentagem maior de respostas incompletas que os professores da zona urbana. Em conclusão, cerca de 60.0% dos professores e menos de 11% dos alunos conheciam ou conheciam parcialmente as diferenças entre recursos naturais renováveis e não
renováveis. Quer nos professores quer nos alunos havia um conhecimento melhor na zona urbana.
- Sobre o aquecimento global, metade dos professores da zona urbana e apenas 29% da zona rural tinham conceções cientificamente aceites. Os professores e alunos da zona rural apresentavam mais respostas cientificamente não aceites que os da zona urbana. Os alunos de ambas as zonas tinham conceções sobre o aquecimento global cientificamente aceites numa percentagem muito baixa. Em conclusão, mais de metade de professores e alunos compreendia ou compreendia parcialmente o que era o aquecimento global. Os professores da zona urbana e os alunos da zona rural tinham um conhecimento melhor do que os colegas da outra zona.
- Em relação às conceções sobre schuvas ácidas, os professores da zona rural deram menos respostas cientificamente aceites e tiveram mais respostas ambíguas e não respondidas do que os professores da zona urbana, onde existiam mais conceções cientificamente aceites e incompletas (61.2%). Os alunos da zona urbana tiveram mais respostas cientificamente aceites e incompletas (46.3%) do que os alunos da zona rural. Em conclusão, a maior parte dos professores (68.6%) e cerca de 40.0% dos alunos comprendia ou compreendia parcialmente o que era a chuva ácida. Os professores e alunos da zona urbana tinham um conhecimento superior aos seus colegas.
- Os problemas ambientais globais mais indicados por professores e alunos foram: aquecimento global, poluição do ar/ atmosfera, desflorestação. Os alunos ainda referiram com frequencia os residuos sólidos urbanos. O aquecimento global, poluição do ar/ atmosfera, desflorestação foram indicados pelos professores e alunos das duas zonas. Os professores da zona rural ainda indicaram com frequência a poluição das águas. Os alunos da zona rural e urbana ainda indicaram com frequência os resíduos sólidos urbanos/ lixo e os alunos da zona rural ainda indicaram a queimada de florestas.
- Cerca de 83% de professores da zona urbana, 60% dos professores e alunos da zona rural e 50% dos alunos da zona urbana disseram que conheciam problemas ambientais associados a bosques e florestas. Há mais professores da zona urbana e alunos da zona rural que conheciam esses problemas. Os problemas mais assinalados
por professores e alunas das duas zonas foram as queimadas/ incêndios nas florestas e a desflorestação.
- Os principais problemas ambientais indicados no Namibe foram: desertificação, seca e desflorestação e resíduos sólidos urbanos, com maior percentagem para os professores da zona urbana. Houve mais professores e alunos da zona urbana do que da zona rural que foram capazes de identificar os principais problemas ambientais do Namibe.
- Os inquiridos indicaram múltiplas consequências da expansão urbana. O maior destaque foi para a desflorestação. Houve uma maior percentagem de professores e alunos da zona urbana que identificou a desflorestação e uma maior percentagem de professores da zona urbana que indicou a poluição ambiental.
- No que diz respeito às consequências dos problemas associados a bosques e florestas, quer os professores da zona urbana quer os professores da zona rural, indicaram as mesmas consequências, mas os professores da zona urbana indicaram-nas em maior percentagem. Os alunos indicaram mais consequências que os professores. A maior consequência para os alunos foi o impacto na saúde humana, com maior frequência na zona urbana. Os professores da zona urbana parecem ter uma maior conhecimento sobre as consequências destes problemas ambientais do que os da zona rural. Os alunos das duas zonas parecem ter os mesmos conhecimentos.
- As principais consequências identificadas para todos os problemas ambientais do Namibe foram a morte do homem e as doenças. Os professores da zona rural conheciam um maior número de consequências do que os professores da zona urbana. Os alunos das duas zonas parecem ter os mesmos conhecimentos.
- Sobre as fontes de poluição das águas no Namibe, todos os grupos identificaram com uma percentagem maior as indústias e os resíduos sólidos urbanos. Também houve uma percentagem maior de professores da zona urbana que indicou o esgoto a céu aberto/defecar e urinar nas praias e nos rios e derrame de petróleo ou combustíveis. Os professores da zona rural indicaram com maior frequência a extração e tratamento do petróleo. Os alunos das duas zonas, indicaram as mesmas fontes que os seus professores, com maior destaque para os resíduos sólidos urbanos. Os professores da zona urbana tinham um maior conhecimento sobre a fontes de poluição que afetam a
qualidade da água dos rios e mares e os alunos das duas zonas parecem ter os mesmos conhecimentos.
- No que tange às causas dos problemas ambientais no Namibe que são mais importantes para resolver ou minimizar, os inquiridos indicaram múltiplas causas. Com maior percentagem emergiu nos professores da zona urbana a falta de Educação Ambiental/ legislação/ investigação, e nos professores da zona rural o crescimento populacional. Os alunos não tiveram maior destaque numa determinada causa. - Relativamente às estratégias para ajudar a resolver os problemas ambientais
associados a bosques e florestas, os professores da zona rural indicaram com maior percentagem fazer intervenção comunitária para educar e sensibilizar, seguida da ação do governos/legislação/punição. Para os professores da zona urbana, a mais eleita foi a ação do governos/legislação/punição, seguida da prevenção de doenças/promover o bem-estar social. Os alunos de ambas as zonas destacaram a plantação de árvores/ não cortar árvores. Porém, todos os grupos apresentaram um número elevado de inquiridos que não respondeu.
- Em relação às formas para eliminar ou minimizar as fontes de poluição das águas, os inquiridos indicaram múltiplas ações. Os professores da zona rural destacaram a ação dos governos/legislação/punição e tratar/reciclar os RSU. Os professores da zona urbana destacaram as palestras/ campanhas e também a ação do governos/legislação/punição. Os alunos não tiveram maior frequência numa estratégia específica, indicaram múltiplas e há um número considerável de alunos que não respondeu.
- Para manter a sustentabilidade da água doce existente, a maior parte dos inquiridos sugeriu a redução do consumo da água. Os professores da zona urbana ainda sugeriram com maior frequência a ação do governo/ legislação/ punição. Os alunos da zona rural também sugeriram o tratamento da água e os da zona urbana sugeriram não deixar torneira abertas. Houve um elevado número de inquiridos que não respondeu.
- Os inquiridos indicaram múltiplas ações para resolver os problemas ambientais no Namibe, mas as mais frequentes foram: plantar e não cortar árvores; fazer Educação Ambiental. O conhecimento sobre as ações nos professores e nos alunos das duas zonas parece não diferir.
Em relação ao segundo objetivo, comparar as representações de práticas de educação ambiental para a Literacia Ambiental dos professores e dos alunos, futuros professores, de escolas de formação de professores de uma zona urbana e de uma zona rural, no Namibe, é possível concluir que:
- Metade dos professores da zona urbana e quase metade dos professores da zona rural disseram que promoviam atividades de Educação Ambiental. Nos alunos, 28% da zona urbana e 18.5% da zona rural disseram que promoviam. O resultado dos alunos é semelhante ao do estudo de Almeida (2012), onde se verificou que os alunos da 12º ano tinham uma participação baixa nas atividades promotoras de literacia ambiental. - Quanto às razões para a promoção, ou não, dessas atividades, os professores das
duas zonas disseram ter promovido estas práticas para sensibilizar os alunos para práticas pró-ambiente, com maior destaque para os da zona rural. Os que não faziam atividades de Educação Ambiental disseram que não o faziam por não constarem do programa didático e por falta de conhecimentos, também com maior destaque nos professores da zona rural. Em suma, poucos professores realizavam atividades de Educação Ambiental. Esse resultado é semelhante ao de Marques (2013) em que a maioria dos professores só fazia atividades prática que estavam no plano anual de atividades e apenas um quarto deles tinha iniciativas não programadas. Nos alunos, nenhum respondeu por entenderem que estas questões eram apenas para os professores.
- O tipo de atividades mais referenciadas foram as palestras/ conferências e limpeza dos locais, com maior destaque para os professores da zona urbana, e a plantação de árvores apenas referida pelos professores da zona urbana. Os alunos não reponderam por considerarem que a pergunta era apenas para os professores.
- Maioritariamente, os professores consideraram que as práticas de Educação Ambiental que realizavam tinham como objetivo consciencializar os alunos para a proteção do meio ambiente, predominando os professores da zona urbana. Nesta questão, os alunos não responderam.
- A campanha de limpeza é a atividade de Educação Ambiental realizada pelos professores da zona rural que teve melhores resultados, e os da zona urbana tiveram melhores resultados na atividade de fazer pequenas ações no quotidiano com os
alunos para a preservação da natureza. Nesta questão os alunos também não responderam.
- Durante a realização das atividades de Educação Ambiental uma percentagem maior de professores da zona urbana do que da zona rural instruíram/orientaram os alunos, e os professores das duas zonas distribuiram as tarefas/temas por grupos, fizeram a produção de sabão, e planificaram e fizeram limpezas.
- Durante as atividades realizadas de acordo com os professores da zona rural os alunos plantaram árvores e fizeram limpeza e trabalho de grupo. Essas últimas atividades também foram mecionadas pelos professores da zona urbana.
- Os professores da zona rural avaliaram os resultados de Educação Ambiental usando intrumentos de avaliação. A avaliação da Educação Ambiental apenas centrada nos resultados foi mais referida pelos professores da zona urbana do que rural. A avaliação de competências específicas apenas foi referida pelos professores da zona urbana. Os alunos não falaram da avaliação.
- Os professores consideraram os resultados da Educação Ambiental que realizaram sempre positivos.
- Quanto à frequência da utilização dos recursos educativos em Educação Ambiental, o único recurso utlizado com frequência pelos professores de ambas as zona é o manual escolar e o quadro negro é apenas utilizado com frequência pelos professores da zona urbana, sendo os outros recursos utilizados ocasionalmente ou raramente. Os alunos da zona rural e urbana também utilizavam com frequência o manual escolar e o quadro negro, e os outros recursos ocasionalmente ou raramente.
- Os métodos/estratégias de ensino utilizados ocasionalmente pelos professores da zona rural para a Educação Ambiental foram a discussão, projetos, atividades de proteção da natureza, saídas de campo e atividades fora da sala de aulas. Os professores da zona rural utilizaram ocasionalmente a criação de regras com os alunos para terem comportamentos a favor do ambiente, realização com os alunos de uma avaliação sobre o seu comportamento a favor do ambiente de acordo com as regras estabelecidas em conjunto, organização de palestras com especialistas na escola, organização de discussões com os alunos. Os alunos da zona rural, usaram ocasionalmente a exposição pelo professor do conteúdo sobre o ambiente, discussão com os alunos, investigação, atividades de proteção da natureza, organização do
trabalho dos alunos em pequenos grupos, organização dos alunos para trabalharem individualmente. Os alunos da zona urbana usaram, ocasionalmente a exposição pelo professor do conteúdo sobre o ambiente, discussão, palestras, organização do trabalho dos alunos em pequenos grupos.
- Quanto à perspetiva sobre o futuro da Educação Ambiental, a nível dos recursos os professores da zona rural, utilizariam com frequência o manual escolar, a apresentação em PowerPoint, os folhetos informativos, a colaboração de especialistas em ambiente, a colaboração de lideres da comunidade para falar sobre o ambiente, as Organizações Não Governamentais ambientais, as Organizações Governamentais ambientais. Os professores da zona urbana, utilizariam com frequência o quadro negro, o manual escolar, a apresentação PowerPoint, ficha de atividades, os folhetos informativos, os especialistas em ambiente, os lideres da comunidade para falar sobre o ambiente, os pais/mães para falar sobre o ambiente, as Organizações Não Governamentais ambientais, as Organizações Governamentais ambientais. Tanto os alunos da zona rural como os da zona urbana, na sua maioria gostariam de utilizar os diferentes recursos apenas ocasionalmente, o que é muito preocupante para a promoção da literacia ambiental.
- Os professores da zona rural, utilizariam com frequência todos os métodos/estratégias, nomeadamente, exposição pelo professor de conteúdo sobre o ambiente, discussão, investigação, ação ambiental, projetos, atividade de proteção da natureza, avaliação regular com os alunos de problemas ambientais na comunidade, saída de campo e atividades fora da sala de aulas relacionadas com a Educação Ambiental. Quanto aos professores da zona urbana, também gostariam de trabalhar com frequência todos os métodos/estratégias acima descritos. Os alunos da zona rural também gostariam de usar todos os métodos/ estratégias de ensino anteriormente referidos, exceto a exposição pelo professor de conteúdo sobre o ambiente, saída de campo e atividades fora da sala de aulas relacionadas com a Educação Ambiental, criação de regras com os alunos para terem comportamentos a favor do ambiente, organização dos alunos para trabalhar individualmente , que gostariam de usar ocasionalmente. Os alunos da zona urbana, gostariam de usar os métodos/estratégias de ensino com frequência, exceto a exposição pelo professor de conteúdo sobre o ambiente, investigação pelos alunos sobre problemas ambientais, inclusão de uma componente de ação ambiental e
avaliação regular com os alunos de problemas ambientais na comunidade. Portanto, todos os professores e alunos gostariam de utilizar os diferentes métodos/estratégias com frequência, exceto uma minoria de alunos da zona urbana que gostariam de utilizar ocasionalmente.
- Quanto às fontes de informação sobre o ambiente, concluiu-se que os professores de ambas zonas indicaram as mesmas fontes: noticia de televisão, outros progamas de televisão com especialistas, manual escolar e investigação on-line, mas com maior frequência dos professores da zona urbana. Os alunos de ambas as zonas, indicaram as mesmas fontes dos seus professores, também com uma frequência mais alta para os alunos da zona urbana.
- Quanto à razão por que procuraram as fontes de informação sobre o ambiente, todos os professores das duas zonas que responderam indicaram as mesmas razões: ficar mais informado, tomar decisões para intervir na comunidade e preparar a aula. Houve uma maior percentagem de professores da zona rural que apresentaram essas razões. Os alunos indicaram as mesma fontes que as dos seus professores, mas com maior percentagem dos alunos da zona urbana.
Em síntese, os professores e os alunos da zona urbana tinham um conhecimento melhor sobre os conceitos de ecossistema, recursos naturais renováveis e não renováveis, aquecimento global e chuvas ácidas. Além disso, os professores e os alunos da zona urbana conheciam mais problemas e consequências ambientais. Também se observou que os inquiridos da zona urbana promoviam mais atividade de EA.