O município de Ribeirão Preto encontra-se dividido em cinco Distritos de Saúde, a saber: Norte, Sul, Central, Leste e Oeste. Tal divisão tem como objetivo compatibilizar as necessidades advindas do crescimento do município com a melhora do acesso aos serviços de saúde. Os Distritos são regiões com áreas e populações definidas a partir de critérios econômicos, sociais e geográficos. Cada Distrito tem uma Unidade Básica Distrital de Saúde que funciona como referência de algumas especialidades para as Unidades Básicas de Saúde pertencentes ao mesmo e uma Universidade eleita corresponsável por cada Distrito (RIBEIRÃO PRETO, 2008).
Foi realizado um levantamento de todas as equipes de Saúde da Família existentes na cidade de Ribeirão Preto/SP (RIBEIRÃO PRETO, 2008). Optou-se por realizar a pesquisa no Distrito Oeste, uma vez que o mesmo é corresponsabilidade do município e da Universidade de São Paulo. Tal Distrito é composto por uma Unidade Básica Distrital de Saúde, um Centro de Saúde Escola, um Centro Médico Social Comunitário, seis Unidades Básicas de Saúde e nove Unidades de Saúde da Família (RIBEIRÃO PRETO, 2013).
O critério de seleção das equipes participantes do estudo foi a existência da ESF (excluindo, portanto, os PACS pela inexistência de uma equipe multiprofissional), o tempo de implantação da mesma e o tempo de trabalho dos profissionais na equipe. Foram incluídas como possíveis participantes do estudo equipes da ESF funcionando há pelo menos dois anos e cujos profissionais trabalhassem na ESF por pelo menos um ano, por possibilitar um convívio entre os participantes do estudo com os ACSs, diferentemente de equipes recém- implantadas nas quais as concepções poderiam mais facilmente estar baseadas em idealizações pela ausência do convívio no trabalho.
Através de contato telefônico com as Unidades Básicas de Saúde que contavam com ESF para atualização e conferência das informações obtidas através do site da Secretaria da Saúde de Ribeirão Preto (RIBEIRÃO PRETO, 2008), constatou-se que quatro equipes de ESF foram implantadas há mais de dois anos, optando-se, assim, por considerar tais equipes como possíveis participantes do estudo.
O projeto de pesquisa de Doutorado foi enviado ao Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Saúde Escola da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (CEP/CSE/FMRP – USP) para apreciação do mesmo.
52 | Método
Os responsáveis pelo Comitê de Ética em Pesquisa referido encaminharam uma cópia do projeto aos quatro Núcleos de Saúde da Família descritos como possíveis colaboradores no estudo para a apreciação do projeto e a análise da viabilidade da inserção da pesquisadora em cada Núcleo de Saúde da Família.
Os coordenadores ou responsáveis por cada núcleo entraram em contato telefônico com a pesquisadora com o objetivo de agendar uma apresentação oral do projeto numa reunião administrativa da Unidade (que acontecia todas as sextas-feiras no período da manhã). Foram agendadas essas apresentações de acordo com a disponibilidade de horários de cada Núcleo de Saúde da Família. Cabe ressaltar que três dos Núcleos de Saúde da Família demandaram essa apresentação oral e um deles enviou uma autorização escrita para a realização da pesquisa ao Comitê de Ética sem solicitar tal apresentação.
A apresentação oral do projeto aos Núcleos centrou-se na explicitação dos objetivos do estudo, nas considerações éticas, na metodologia adotada, nas possíveis contribuições que tal estudo poderia fazer e no esclarecimento de dúvidas quanto à realização do estudo. Além disso, esse foi um momento de avaliação da aceitação da pesquisa em cada Núcleo de Saúde da Família.
Após o consentimento de todos os Núcleos de Saúde da Família para a realização da pesquisa o projeto foi reavaliado pelo referido Comitê de Ética, sendo o mesmo aprovado - Processo nº 307/CEP/CSE-FMRP-USP (ANEXO A).
Posteriormente, já com a aprovação do Comitê de Ética, procedeu-se a um novo contato com todos os Núcleos de Saúde da Família considerados possíveis colaboradores do estudo visando coletar informações relevantes para a seleção de dois Núcleos colaboradores.
As informações coletadas foram a respeito do tempo de trabalho de cada profissional no Núcleo de Saúde da Família e buscou-se avaliar a disponibilidade das equipes para a realização da pesquisa. Optou-se por utilizar o tempo de trabalho dos profissionais da equipe de no mínimo um ano na ESF como critério de seleção dos Núcleos colaboradores, por ter como objetivo analisar as concepções do trabalho do ACS a partir da convivência de profissionais e usuários com os mesmos. Além do critério de tempo de trabalho dos profissionais, avaliou-se a disponibilidade e receptividade das equipes para com a pesquisa, por considerar tais fatores fundamentais para o desenvolvimento do estudo.
O Quadro 1 apresenta as informações referentes ao tempo de trabalho dos profissionais das quatro equipes de Saúde da Família, coletadas em reuniões das referidas equipes.
Método | 53
Quadro 1 – Tempo de trabalho dos profissionais das equipes dos Núcleos de Saúde da Família
Profissão Tempo de trabalho NSF Trabalho anterior em ESF
Núcleo A
ACS 1 9 anos Não
ACS 2 6 anos Não
ACS 3 1 ano e 11 meses Não
ACS 4 5 anos Não
Auxiliar de Enfermagem 7 anos 6 meses
Auxiliar de Enfermagem 4 anos e 6 meses 2 anos
Médico 8 anos e 14 dias 1 ano e meio
Enfermeiro 10 anos Não
Núcleo B
ACS1 8 anos Não
ACS 2 6 anos Não
ACS 3 5 anos Não
ACS 4 6 anos Não
Auxiliar de Enfermagem 7 meses 2 anos
Auxiliar de Enfermagem 8 anos 1 ano e 7 meses
Médico 6 meses 6 meses
Enfermeiro 1 5 anos Não
Enfermeira 2 1 mês Não
Núcleo C
ACS 1 3 anos Não
ACS 2 5 anos e 11 meses Não
ACS 3 7 anos e 1 mês Não
ACS 4 7 anos e 2 meses Não
ACS 5 7 anos e 10 meses Não
Auxiliar de Enfermagem 2 anos e 4 meses 6 anos
Auxiliar de Enfermagem 7 anos Não
Médico 2 anos e 5 meses 8 meses
Enfermeira 7 anos e 11 meses Não
Núcleo D
ACS 1 3 anos e 4 meses Não
ACS 2 7anos e 10 meses Não
ACS 3 6 anos Não
ACS4 2 anos Não
Auxiliar de enfermagem 7 anos e 11 meses 1 ano e 8 meses
Auxiliar de enfermagem 7 anos 1 ano
Médico 2 anos e 4 meses 5 anos e 5 meses
Enfermeira 1 ano e 6 meses Não
Durante a apresentação do projeto em todos os Núcleos, a pesquisadora observou e, posteriormente, registrou comentários dos profissionais de cada equipe que pudessem explicitar o interesse ou resistência quanto ao desenvolvimento do estudo em suas Unidades.
No Núcleo de Saúde da Família A os profissionais da saúde riram quando foi explicitado que o critério de seleção de um Núcleo colaborador seria o tempo de trabalho dos
54 | Método
profissionais, afirmando que as pesquisas sempre “sobravam para eles” (sic) por serem os que tinham mais tempo de trabalho em Saúde da Família. Uma das profissionais relatou que havia um grande número de alunos que acompanhavam o trabalho do Agente Comunitário de Saúde e ficava na dúvida se a pesquisadora conseguiria acompanhar um dia de trabalho dos mesmos devido a essa sobrecarga de alunos estagiários acompanhando os ACSs nas visitas domiciliares. A referida profissional acrescentou que isso poderia atrasar a coleta de dados e enfatizou que, para além do tempo de trabalho dos profissionais, fosse levado em consideração esse apontamento na seleção do referido Núcleo. Essa mesma profissional da saúde relatou que havia várias pesquisas sendo realizadas neste Núcleo e temia que os usuários ficassem “muito remexidos” (sic) pela quantidade de pesquisas das quais participavam. Percebeu-se, assim, muita resistência dos profissionais de nível superior (médico e enfermeiro) quanto à realização da pesquisa nesta Unidade.
No Núcleo de Saúde da Família B as manifestações de resistência à pesquisa partiram das próprias ACSs. Uma delas relatou estar cansada de ser acompanhada por alunos e que sentia falta de estar sozinha nas visitas domiciliares para poder conversar melhor com o usuário, acrescentando acreditar que a presença do aluno interferia na qualidade da visita domiciliar. Outra ACS disse que havia muitos alunos para elas darem “assistência” (sic) e que a pesquisadora não poderia ir junto com os alunos porque seriam muitas pessoas para entrar numa casa (ela citou como exemplo a casa de um usuário que era pequena e que ela mal conseguia entrar sozinha nesta residência). No referido Núcleo uma enfermeira não contemplou o tempo mínimo de um ano de trabalho na ESF.
O Núcleo de Saúde da Família C manteve uma postura investigativa durante a apresentação do projeto. Os profissionais perguntaram minuciosamente sobre a metodologia do projeto, realizaram comentários produtivos sobre as perspectivas futuras do estudo, ou seja, no que o estudo poderia contribuir, especialmente no que se referia às concepções dos usuários a respeito do trabalho do ACS (sobre esse assunto uma ACS comentou – “eles vão responder que a gente tem que levar receita, remédio e marcar consulta pra eles” (sic)). A coordenadora fez a ressalva de que, se o Núcleo fosse o escolhido, seria necessária a apresentação dos resultados após o término do estudo, ressaltando que muitos pesquisadores coletavam os dados e não retornavam à Unidade para apresentá-los. A pesquisadora firmou o compromisso de apresentar os dados da pesquisa após a realização da mesma independente do Núcleo selecionado. No referido Núcleo, todos os profissionais contemplaram o tempo mínimo de trabalho na ESF.
O Núcleo de Saúde da Família D não exigiu a apresentação oral do projeto. A pesquisadora, após a aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa, entrou em contato com a
Método | 55
enfermeira responsável para agendar uma apresentação do projeto e coletar as informações sobre o tempo de trabalho dos profissionais. A apresentação foi realizada e nenhum comentário ou dúvidas foram feitos em relação à pesquisa por parte dos profissionais da saúde. Após a apresentação, uma das profissionais disse que o Núcleo estava “de portas abertas” (sic) para a pesquisa e considerava que os usuários também seriam receptivos, já que eles recebiam muito bem o ACS e qualquer outro profissional que os visitava. No referido Núcleo, todos os profissionais contemplaram o tempo mínimo de um ano de trabalho na ESF.
Tendo em vista os critérios estabelecidos, foram selecionados os Núcleos C e D. Tais Núcleos foram selecionados por contemplarem o critério de tempo de trabalho mínimo dos profissionais na ESF de um ano e, ainda, por demonstrarem disponibilidade e receptividade para com a pesquisa.