3. METODE
3.2 V ALG AV METODE
A observação participante conceitua-se como observação sistematizada natural de grupos reais ou de comunidades em sua vida cotidiana e que fundamentalmente emprega a estratégia empírica e técnicas de registro qualitativas (DELGADO; GUTIÉRREZ, 1995). A observação, neste estudo, tratou-se de uma observação direta, uma vez que a pesquisadora participou como observadora de atividades específicas realizadas pelos colaboradores da pesquisa.
A observação participante foi utilizada como forma de complementar os dados obtidos através das entrevistas, realizando, assim, a investigação exploratória da interação ACS- equipe e ACS-usuário, de acordo com a rotina das equipes de Saúde da Família. As observações foram seguidas por anotações em diário de campo: em alguns momentos apenas
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palavras chaves foram anotadas para posteriormente – no momento o mais breve possível – proceder a anotações mais extensas a respeito do observado. Buscou-se através de tal observação apreender momentos nos quais as interações apontadas pudessem trazer concepções do trabalho do ACS de forma a complementar as entrevistas realizadas. Para tanto foram escolhidas para a realização da observação participante atividades instituídas que envolvem diretamente a participação dos ACSs, a saber: reuniões de equipe, visitas domiciliares, redação de relatórios e atividades de recepção.
Reuniões de equipe
Os Núcleos de Saúde da Família participantes do estudo contavam com a realização diária de reuniões de equipe na qual os Agentes Comunitários de Saúde – e, menos frequentemente, os outros profissionais da equipe e os alunos estagiários – traziam casos de famílias visitadas ou acompanhadas por eles para discutirem com toda a equipe multiprofissional. Tratava-se, portanto, de reuniões de discussão de casos. Tais reuniões aconteciam no período da manhã, das 7h30min às 8h30min e não contavam com a participação de toda a equipe, já que a Unidade de Saúde mantinha suas portas abertas à comunidade, apesar dos atendimentos médicos e da enfermagem começarem somente após o término das reuniões.
Os dois Núcleos participantes do estudo contavam, também, com uma reunião administrativa realizada uma vez por semana, na qual se discutiam questões relativas à unidade de saúde como um todo (suas atividades, suas necessidades, organogramas, eventos, participação de estagiários, autorização da realização de pesquisas na unidade, dentre outros). Tais reuniões aconteciam às sextas-feiras, no período da manhã, das 7h30min às 10h. Cabe ressaltar que nesse período os Núcleos de Saúde da Família ficavam com as portas fechadas à comunidade e todos os profissionais participavam de tais reuniões.
Nos dois Núcleos de Saúde da Família a pesquisadora participou tanto das reuniões de discussão de casos quanto das reuniões administrativas, frequentando, ao longo do período do trabalho de campo, duas reuniões por semana em cada Núcleo de Saúde da Família.
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Visitas domiciliares
Diariamente os ACSs realizavam visitas domiciliares às famílias cadastradas na microárea de sua responsabilidade. Nos dois Núcleos de Saúde da Família participantes do estudo tais visitas eram realizadas preferencialmente no período da manhã, logo após o término das reuniões de equipe, aproximadamente das 9h às 11h. Visitas no período da tarde eram evitadas por conta das condições climáticas desfavoráveis (exposição ao sol) e eram realizadas especialmente quando havia urgência (eram consideradas urgências as entregas de encaminhamentos e lembretes de consultas médicas agendadas) ou quando o ACS estava com “as suas visitas atrasadas” (ou seja, os ACSs deveriam preencher um relatório mensal no Sistema de Informação da Atenção Básica que estipulava um determinado número ideal de visitas mensais e os ACSs consideravam-se “atrasados” quando não haviam cumprido o número mínimo de visitas exigidas ao longo do mês).
Dificilmente realizavam-se visitas domiciliares nas manhãs de sexta-feira, reservadas para a reunião administrativa de equipe. Tal reunião tinha um horário de duração mais prolongado, finalizando por volta das dez horas da manhã.
Com relação à observação das visitas domiciliares, a pesquisadora acompanhou cada um dos ACSs por pelo menos cinco períodos completos (manhã). Percebeu-se que alguns ACSs tinham resistências quanto ao fato de serem acompanhados pela pesquisadora em suas visitas domiciliares. Nesse caso, explicitava-se o interesse em conhecer o trabalho realizado e não em avaliar tal trabalho como correto/errado ou bom/ruim. A inserção prolongada da pesquisadora nos Núcleos de Saúde da Família foi determinante para reduzir as resistências de alguns dos ACSs quanto à presença da mesma nas visitas domiciliares.
Redação dos relatórios
Os Agentes Comunitários de Saúde realizavam, sistematicamente, anotações a respeito de todas as visitas domiciliares realizadas. Tais anotações eram efetuadas no prontuário comum das famílias cadastradas (comum no sentido de que todos tinham acesso, já que havia prontuários cujo acesso era permitido aos demais profissionais e não aos Agentes Comunitários de Saúde).
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Além das anotações, no Núcleo de Saúde da Família C os ACSs deveriam carimbar logo após o término da redação uma carinha correspondente ao estado que o ACS avaliasse que a família se encontrava (feliz, normal ou triste). Em conversas informais com os ACSs, os mesmos relataram que tais carinhas serviam para chamar a atenção dos demais profissionais para o estado em que se encontrava a família, pressupondo que tais profissionais fossem ler o relato dos ACSs antes da realização dos atendimentos.
Em ambos os Núcleos, os ACSs contavam com uma sala de trabalho para que eles pudessem redigir os relatórios e realizar reuniões entre os ACSs e reuniões dos ACSs com a enfermeira. A pesquisadora esteve presente nos momentos em que os ACSs ficavam na sala redigindo o relatório das visitas realizadas. Tal trabalho era realizado prioritariamente a tarde e dificilmente todos os ACSs estavam presentes juntos na sala realizando tal trabalho – o que configurava dinâmicas bem diversas pela presença e/ou ausência de determinados ACSs. Cabe ressaltar que tais dinâmicas não foram frutos de análise, mas não se descarta a importância de estudos sobre o relacionamento entre os ACSs.
A presença da pesquisadora nesse espaço também viabilizou um contato mais próximo com os ACSs, o que permitiu que, por diversas vezes, os mesmos desabafassem sobre insatisfações quanto às condições de trabalho, dificuldades na realização do trabalho e no trabalho em equipe.
Atividades de recepção
Os Agentes Comunitários de Saúde também participavam das atividades de recepção dos Núcleos, ajudando os auxiliares de enfermagem no trabalho realizado pelos mesmos.
No Núcleo de Saúde da Família C tal atividade era realizada voluntariamente e nem todos os ACSs participavam, ou seja, o ACS se disponibilizava a ajudar quando percebia que o auxiliar de enfermagem estava sobrecarregado. Por outro lado, no Núcleo de Saúde da Família D tal atividade era sistematizada, isto é, havia uma escala de participação dos ACSs nas atividades de recepção e cada ACS era responsável por ajudar nas atividades da recepção em um dia da semana.
A pesquisadora participou como observadora das atividades realizadas na recepção pelos ACSs. Tais atividades consistiam em: atendimento ao usuário que chegava à Unidade de Saúde – verificando a demanda do usuário (consulta agendada ou eventual) e separando os
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prontuários do usuário para o médico pegar no momento da consulta; atendimento de telefone; e, exclusivamente no Núcleo de Saúde da Família D, os ACSs realizavam remarcação de consultas e/ou retornos e orientação dos usuários na pós-consulta (ao sair do consultório médico alguns usuários perguntavam aos ACSs o que eles deveriam fazer e estes orientavam a respeito dos medicamentos receitados e disponíveis na rede de serviços públicos e orientavam a respeito do local onde alguns pacientes deveriam realizar determinados exames).
Outras atividades também foram objeto de observação participante, porém eram atividades realizadas pontualmente, a saber: reunião de todos os ACSs do município com o prefeito municipal para pressioná-lo quanto às questões do trabalho do ACS, entrega de convites de atividades realizadas pelos Núcleos para os usuários, participação em atividades de promoção de saúde, dentre outros. Apesar da presença da pesquisadora nessas outras atividades da equipe, ressalta-se que, conforme apontado anteriormente, foram sistematicamente registradas para a análise pormenorizada as reuniões de discussão de casos de famílias, as reuniões administrativas, as visitas domiciliares realizadas e os momentos de ajuda do ACS na recepção. Todos os registros das observações foram feitos através de diário de campo.
Na tentativa de diferenciar os trechos relativos às observações participantes dos trechos relativos às entrevistas, no tópico Resultados, apresentam-se os mesmos ao longo do trabalho da seguinte forma: os trechos frutos das observações participantes encontram-se em itálico, seguidos pelas informações do momento observado, do Núcleo de Saúde da Família e da data; e os trechos das entrevistas foram apresentados em fonte normal, seguidos pelas informações da pessoa entrevistada (usuário ou profissional) e do Núcleo do faz parte (C ou D).