Para efetuar os cálculos do Capital de Giro, usando as demonstrações contábeis, é necessário proceder a uma reclassificação das contas em: cíclicas e erráticas ou financeiras.
Assaf Neto (2010, p. 184) define as principais contas dos grupos cíclicos e financeiros, a saber:
Ativo Financeiro: disponibilidades, fundo fixo de caixa, aplicações financeiras, depósitos judiciais, restituição de IR, créditos de empresas controladas/coligadas, etc.
Ativo Cíclico: duplicatas a receber, provisão para devedores duvidosos, adiantamento a fornecedores, estoques, adiantamento a empregados, impostos indiretos a compensar (IPI, ICMS), despesas operacionais antecipadas, etc.
Ativo Permanente: valores dos grupos imobilizado, investimentos e diferido, e realizável a longo prazo.
Passivo Financeiro: empréstimos e financiamentos bancários de curto prazo, duplicadas descontadas, imposto de renda e contribuição social, dividendos, dívidas com coligadas e controladas, etc.
Passivo Cíclico: fornecedores, impostos indiretos (Pis/Cofins, ICMS, IPI), adiantamentos a clientes, provisões trabalhistas, salários e encargos sociais, participações de empregados, despesas operacionais, etc. Passivo Permanente: contas do exigível a longo prazo e patrimônio
líquido.
Vieira (2008) reforça que as contas cíclicas possuem natureza operacional, vinculada ao desenvolvimento dos negócios da empresa. As erráticas ou financeiras são relacionadas aos aspectos táticos de curto prazo, geralmente administradas pela tesouraria. Já as contas permanentes apresentam comportamento fortemente influenciado pelas decisões estratégicas da empresa, sendo as mesmas realizadas por meio da contratação de fontes de financiamento de longo prazo, tanto próprias quanto de terceiros, além da retenção de lucros para investimentos.
3.4.1.1 Capital de Giro Líquido
O Capital de Giro Líquido ou simplesmente Capital de Giro é calculado pela diferença entre o Passivo e o Ativo Circulantes. Outra forma de obtê-lo é utilizar-se
da subtração do Passivo não Circulante e do Patrimônio Líquido pelo Investimento, Ativo Imobilizado e Intangível, conforme explicita a fórmula abaixo:
Circulante Passivo - Circulante Ativo = Giro de Capital ou ) Intangível + o Imobilizad + nto (Investime - Líquido Patrimônio + Circulante Não Ativo = Giro de Capital
Assaf Neto (2010, p. 181), ao discutir sobre a relevância do Capital de Giro, afirma que “constitui-se no fundamento básico da avaliação do equilíbrio financeiro de uma empresa”, por permitir, pela análise de seus elementos patrimoniais identificar “os prazos operacionais, o volume de recursos permanentes (longo prazo) que se encontra financiando o giro, e as necessidades de investimento operacional.”
Santi Filho e Olinquevitch (2009) citam que prejuízo, aquisição de imobilizado, aquisição de investimentos e distribuição de lucros são fatores que podem comprometer a liquidez por provocarem saldo de Capital de Giro negativo nas empresas. Dessa maneira, os ativos de longo prazo são financiados por passivos de curto prazo. Em contrapartida, dentre os principais fatores que fortalecem o Capital de Giro destacam-se: lucro, venda de bens do Ativo Imobilizado, aporte de recursos de sócios para aumento de capital e depreciação.
O grande desafio é saber dosar estas contas de maneira que não seja utilizado, em excesso, o capital de terceiros visando, com isso, minimizar a necessidade da busca de recursos em instituições financeiras.
3.4.1.2 Necessidade de Capital de Giro
A Necessidade de Capital de Giro revela o montante de dinheiro permanente que uma empresa necessita para financiar seu capital de giro. Para Matarazzo (2010, p. 283) este indicador “é a chave para a administração financeira de uma empresa” e corresponde à diferença entre o Ativo Cíclico e o Passivo Cíclico, conforme demonstra a fórmula abaixo:
Cíclico Passivo - Cíclico Ativo = Giro de Capital de e Necessidad
Quanto à relevância deste indicador, Vieira (2008, p. 79) afirma que
é decorrente da defasagem entre as entradas e as saídas de caixa. Quando as saídas ocorrem antes das entradas de caixa (que é o caso mais frequente), o valor do ativo cíclico (aplicações) é superior ao valor do passivo cíclico (fontes) e a necessidade de capital de giro é positiva, representando uma aplicação operacional líquida de recursos. Quando, por outro lado, as saídas acontecem depois às entradas de caixa, o passivo cíclico (fontes) torna-se maior que o ativo cíclico (aplicações) e passa a representar uma fonte operacional líquida para a empresa.
Uma empresa apresenta saúde financeira quando: Capital de Giro for maior do que a Necessidade de Capital de Giro. Assaf Neto (2010) enfatiza que, quando a Necessidade de Capital de Giro superar o Capital de Giro, a empresa sinaliza que convive com dificuldades financeiras ao financiar ativos cíclicos, caracteristicamente de longo prazo, com recursos de curto prazo (não cíclicos).
Dessa forma, a adequada administração da evolução da Necessidade de Capital de Giro é de grande importância para manter a estabilidade financeira da empresa.
3.4.1.3 Saldo de Tesouraria
O Saldo de Tesouraria surge quando os recursos de longo prazo originários do Capital de Giro não são suficientes para satisfazer a demanda operacional de recursos representada pela Necessidade de Capital de Giro. Nesse caso, a empresa precisa utilizar fontes de curto prazo, com o objetivo de complementar o financiamento de suas atividades.
Este indicador pode ser determinado pelas fórmulas:
Financeiro Passivo - Financeiro Ativo = Tesouraria de Saldo ou Giro de Capital de e Necessidad - Giro de Capital = Tesouraria de Saldo
De acordo com Vieira (2008 p. 87- 88), o Saldo de Tesouraria será negativo (CDG<NCG) quando o capital de giro não for suficiente para financiar a necessidade de do próprio capital de giro.
Nesse caso, o passivo errático será maior do que o ativo errático, significando que a empresa utiliza recursos de curto prazo para o financiamento da NCG. (...) Quando a empresa dispõe de capital de giro em montante superior à necessidade de capital de giro (CDG>NCG), o saldo de tesouraria se torna positivo. Isso significa que o ativo errático ou de curto prazo é maior do que o passivo errático ou de curto prazo, evidenciando que a empresa aplica um excedente da sua disponibilidade de recursos de longo prazo em aplicações de curto prazo relacionadas, em geral, para o mercado financeiro.
Se o Capital de Giro for maior do que a Necessidade de Capital de Giro, indica que a empresa financia toda demanda operacional, com recursos de longo prazo e dispõe de um excedente de caixa para que realize aplicações de curto prazo e subsidie o crescimento das operações.
3.4.1.4 Necessidade Total de Financiamento do Permanente
A Necessidade Total de Financiamento Permanente é o montante mínimo de passivo não circulante que a empresa deve manter visando lastrear seus investimentos em giro e fixo e estabelecer seu equilíbrio financeiro. Pode ser calculada pela seguinte fórmula:
) Intangível + o Imobilizad + nto (Investime Permanente Ativo + Giro de Capital de e Necessidad = Permanente nto Financiame de Total e Necessidad
Na visão de Assaf Neto (2010, p. 186)
Quando o passivo permanente superar a NTFP, a diferença encontra-se identificada nos ativos financeiros, incrementando o saldo de disponível. [...] Em caso contrário, há indicativos de dificuldades financeiras, motivadas pelo desajuste entre os prazos maiores dos investimentos (ativos) em relação à maturidade dos passivos.
De acordo com o autor, se a junção do Passivo Não Circulante com o Patrimônio Líquido resultar em um valor maior que a soma da Necessidade de Capital de Giro, Ativo Não Circulante, Investimento, Imobilizado e o Intangível, a empresa possuirá saldo de tesouraria disponível para o crescimento das operações. Caso contrário, a mesma apresentará dificuldades financeiras.
3.4.1.5 Efeito Tesoura
O Efeito Tesoura surge quando a Necessidade de Capital de Giro cresce em um ritmo superior ao Capital de Giro e/ou ainda quando a Necessidade de Capital de Giro permanece constante ou o Capital de Giro se reduz mais que a Necessidade de Capital de Giro.
Para Vieira (2008, p. 121), este indicador se manifesta quando
ocorre um descompasso entre a evolução das fontes disponíveis de longo prazo (CDG) e as aplicações que precisam ser financiadas (NCG). Nessa situação, o saldo de tesouraria (T) se torna crescentemente agressivo, evidenciando uma dependência cada vez mais acentuada dos recursos de curto prazo para o financiamento das atividades da empresa. Esse processo persistente eleva o risco financeiro e se materializa quando ocorre um crescimento significativo e continuado do saldo negativo de tesouraria.
A origem do termo Efeito Tesoura está relacionada à evolução da Necessidade de Capital de Giro em relação ao Capital de Giro, ou seja, quando ocorre o aumento da Necessidade de Capital de Giro superior ao Capital de Giro, esta variação é representada, graficamente, por parábolas que remetem ao desenho de uma tesoura, conforme figura 9, cuja finalidade é demonstrar que quanto maior a boca da tesoura, maior será a necessidade de recursos de terceiros a curto prazo para financiar a NCG, elevando-se assim o risco financeiro.
Figura 9 - Efeito Tesoura Fonte: Assaf Neto (2010, p. 182).
Vieira (2008) cita as principais causas do efeito tesoura: crescimento muito elevado de vendas, investimentos elevados com retorno de longo prazo, crescimento expressivo do ciclo financeiro, baixa geração de lucros, investimento com baixo retorno, inflação elevada, distribuição de resultados com alto percentual de dividendos e redução das vendas.
O Efeito Tesoura é caracterizado pela crescente dependência de recursos financeiros de curto prazo, classificados no saldo de tesouraria, para financiamento da demanda operacional de recursos permanentes e de longo prazo, que é representada pela NCG, deteriorando-se assim a situação de liquidez.
Para compreender a gestão do capital de giro, torna-se necessário um estudo sobre a gestão e planejamento financeiro de curto prazo.