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1.1.1. Enquadramento histórico e epistemológico

À semelhança de qualquer outra metodologia científica pode-se definir o focus group como uma estratégia subjacente à recolha e análise de dados, mas que se insere na investigação qualitativa, o que nos permite desde logo perceber o tipo de dados a que acede e a natureza das análises feitas aos mesmos, como já vimos anteriormente (vide Capítulo 4).

A investigação científica desenvolvida na área das ciências sociais e humanas tem conduzido a uma mudança de paradigma quer a nível epistemológico quer a nível metodológico, que se insere no movimento mais vasto de revolução científica que se tem assistido ao longo do século XX (Kuhn, 1970, Santos, 1993). Assim surgiu e se afirmou a investigação qualitativa.

A investigação qualitativa surge no início do século XX no contexto das ciências humanas e sociais embora a sua “explosão”, quer a nível da multiplicação dos estudos, do seu estatuto e rigor científico, e mesmo do seu reconhecimento por parte da comunidade científica, se observe fundamentalmente a partir da década de 70 (Bogdan & Biklen, 1994; Denzin & Lincoln, 1994; Santos, 1993; Vieira, 1995).

Convém sublinhar, como o faz Boaventura Sousa Santos (1993) “a ciência social será sempre uma ciência subjectiva e não objectiva como as ciências naturais; tem de compreender os fenómenos sociais a partir das atitudes mentais e do sentido que os agentes conferem às suas acções, para o que é necessário utilizar métodos de investigação e mesmo critérios epistemológicos diferentes dos correntes nas ciências naturais, métodos qualitativos em vez de quantitativos, com vista à obtenção de um conhecimento intersubjectivo, descritivo e compreensivo, em vez de um conhecimento objectivo, explicativo e nomotético.” (p. 22).

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melhor compreender a especificidade do focus group: 1/ a existência de múltiplas construções da realidade; 2/ a interacção entre entrevistador e entrevistado e a influência mútua; 3/ a verdade enquanto uma questão de perspectiva.

De acordo com Krueger (1994), o focus group surge fundamentalmente nos anos 30 e 40 associado ao valor e à importância das entrevistas individuais não directivas como fonte de informação, que permitiria ultrapassar algumas das limitações colocadas pelos métodos mais tradicionais de recolha de dados, sobretudo na área das ciências sociais, mas também da psicologia. É disto exemplo a obra de Carl Rogers e a sua ênfase nas entrevistas não directivas em contexto de psicoterapia.

A realização de estudos e o desenvolvimento de programas relacionados com assuntos de guerra conduzidos nos Estados Unidos da América durante a 2ª guerra mundial levaram a um desenvolvimento de entrevistas de grupo orientadas. Nesta sequência, são publicados em 1956 os procedimentos básicos e comuns do focus group na obra pioneira da autoria de Merton, Fiske e kendall intitulada “The focused interview” (Krueger, 1994; Morgan, 1997).

Nos anos seguintes, esta técnica foi sobretudo aplicada na área da investigação associada ao marketing, sendo a maior parte da literatura produzida sobre o tema proveniente dessa área. A aplicação mais tardia e a evolução do focus group no âmbito das ciências sociais e humanas encontram-se associadas às mesmas contingências relacionadas com a implementação dos métodos de investigação qualitativa em geral. O predomínio da abordagem quantitativa baseava-se em assumpções sobre as pessoas, o mundo e a realidade que foram progressivamente sendo postos em causa, muitas vezes inclusive por investigadores da área das ciências ditas naturais (Brotherson, 1994; Krueger, 1994; Santos, 1993).

Neste seguimento, a utilização frequente e generalizada do focus group e a sua divulgação são recentes, reportando-se aos finais dos anos 80 e, sobretudo, à década de 90, com a sua aplicação às ciências sociais e à psicologia, o que se pode constatar na literatura sobre o tema, na quantidade de estudos publicados, mas também na sua inclusão nos manuais sobre metodologia científica. É assim nos anos 90 que o focus group passa de um relativo desconhecimento nas ciências sociais para um rápido crescimento (Morgan, 1997) enquanto metodologia de investigação qualitativa, muito embora o seu uso em investigação aplicada fora do contexto académico se revele ainda mais vasto.

No contexto científico português o focus group é actualmente conhecido e utilizado, embora em menor escala quando comparado com outros métodos de investigação qualitativa como a investigação-acção, a observação participante e a entrevista individual. Este ainda relativo desconhecimento justifica a nossa opção em apresentar mais detalhadamente esta técnica do que o inquérito, a outra técnica também usada na nossa investigação (vide capítulo 5). incomparavelmente mais divulgada.

1.1.2. Caracterização

Embora possamos apresentar diferentes definições de focus group, de acordo com o que cada autor considera mais relevante, todas salientam mais ou menos explicitamente um conjunto de componentes que distinguem esta metodologia de outras que lhe são próximas: entrevista, grupo, interacção, moderador, tópicos e discussão (Kitzinger & Barbour, 1999, Krueger, 1994; Morgan, 1997, 1998; Vaughn, Schumm & Sinagub, 1996).

O focus group pode englobar diferentes variações consoante o objectivo dos investigadores e o contexto da pesquisa. Morgan (1997) distingue-o de outras formas de entrevista em grupo caracterizando-o como “uma técnica de investigação que recolhe informação através da interacção em grupo sobre um tópico determinado pelo investigador. Em essência, é o interesse do investigador que fornece o focus, enquanto os próprios dados vêem da interacção no grupo” (p.6).

Greenbaum (1998), que está sobretudo relacionado com a utilização desta técnica a nível das organizações empresariais e industriais, classifica o focus group em full groups, mini groups e telephone groups. A propósito, podemos referenciar a realização de focus group via videoconferência e também via internet, da qual têm surgido relatos recentes na literatura, embora esta utilização possa suscitar polémica (Greenbaum, 2001, 2008; Turney & Pocknee, 2005).

Independentemente da área e do propósito, a aplicação desta metodologia poderá ter como objectivos básicos a identificação de um problema, a planificação, a implementação e a avaliação. No fundo cada uma destas utilizações corresponde a uma fase de um grande projecto e tem significados diferentes consoante a área em que se insere (Morgan, 1998).

O focus group consiste basicamente numa entrevista em grupo, composto por 6 a 8 pessoas, orientada por um moderador com o objectivo de gerar uma discussão sobre tópicos predefinidos que resulte em informação e compreensão do tema ou assunto em estudo. O fundamental é mesmo a interacção no grupo e a informação e compreensão que a partir desta se cria (Kitzinger & Barbour, 1999; Krueger, 1994; Morgan, 1997).

Krueger (1994) indica as 6 características que especificamente definem o focus group: “(1) pessoas, (2) agrupadas numa série de grupos, (3) possuem certas características, e (4) fornecem informação (5) de natureza qualitativa (6) numa discussão focalizada” (p. 16).

Este método revela-se, pois, apropriado para explorar as experiências, opiniões, desejos e preocupações das pessoas, nos seus próprios termos e vocabulário (Kitzinger & Barbour, 1999). Como afirma Morgan (1997), “até interagirem com os outros num tópico, os indivíduos não têm muitas vezes conhecimento das suas próprias perspectivas implícitas.” (p. 46). Deste modo, as diferentes narrativas permitem a construção partilhada de significado que nos conduzem à compreensão de atitudes, comportamentos e contextos (Gonçalves & Gonçalves, 2001).

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forma de ouvir as pessoas e aprender com elas. Os focus groups criam linhas de comunicação” (Morgan, 1998, p. 9).

Tendo em conta que o focus group é uma metodologia de investigação qualitativa, o processo através do qual se desenvolve não implica uma sequência de etapas que se sucedem de forma linear, mas sim um processo recursivo composto por etapas ou momentos que se interligam permitindo um plano continuamente emergente e flexível de acordo não só com os objectivos iniciais, mas também e, sobretudo, com as características, contingências e vicissitudes encontradas durante todo percurso da investigação (Bogdan & Biklen, 1994; Brotherson, 1994; Vieira, 1995).

Mary Jane Brotherson (1994), baseada na sua própria experiência como investigadora, apresenta o focus group como um processo de investigação composto por 6 componentes, que se interligam mutuamente, cada um deles comportando diferentes decisões e tarefas: 1/ formulação das questões de investigação; 2/ selecção dos participantes; 3/ desenvolvimento do protocolo da entrevista; 4/ condução do focus group; 5/ análise dos dados; 6/ relatório.

Embora haja um plano, este funciona como um quadro de referência que deverá depois ser adaptado por cada investigador aos contextos e questões com que trabalha, sem que isso diminua o rigor da investigação. Aliás, rigor é diferente de rigidez, e esta não é compatível com a definição de investigação ou metodologia qualitativa.

Já Morgan (1997), a propósito do desenvolvimento do processo, apresenta aquilo que considera as regras básicas de um focus group: a) utilizar participantes que sejam estranhos homogéneos; b) assentar numa entrevista relativamente estruturada com um envolvimento elevado do moderador; c) ter 6 a 10 participantes por grupo; d) ter um total de 3 a 5 grupos por projecto. Contudo, sublinha que estas regras não são padrões a ser cumpridos obrigatoriamente, mas no fundo constituem uma descrição da forma como são habitualmente feitos os grupos de discussão, pois os projectos contêm, por vezes, especificidades que não permitem a aplicação de todos os critérios a priori recomendados.