Dentro do segmento industrial, o setor têxtil e de confecção consiste na formação de uma cadeia produtiva que engloba empresas fabricantes de produtos têxteis e de confecções propriamente, mantendo, entretanto, um intenso relacionamento que abarca dois movimentos: dowstream, com a agropecuária, a indústria petroquímica e metal mecânica (fornecimento do maquinário industrial), e upstream, composto pelo comércio varejista e atacadista, conforme salientou Santana e Apolinário (2004). Especificamente, pode-se afirmar que a cadeia têxtil e de confecções está formada por seis conexões, conforme podemos observar na figura 1.
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FIGURA 1
Fluxograma da cadeia têxtil e de confecções
Indústria de bens de capital
Máquinas agrícolas Máquinas e ferramentas
Máquinas Têxteis e de confecções
Tecelagem (lançadeira, jato-ar/água, pinça, etc.) Malharia (circular, retilínea) Componentes Agricultura e Pecuária Fibras Artificiais (Viscose, acetado) Produtos Químicos Fibras sintéticas (Poliamida, poliéster acrílica, etc. ) Fibras naturais
(Algodão, lã, linho, rami, seda, juta, etc.)
Beneficiamento Fiação (rotor, anel, fricção, etc.) Acabamento Confecções (Vestuário e outros) Comércio (Atacado e varejo)
103 A primeira conexão é formada pelos fornecedores de matérias-primas, que estão incluídos em outras cadeias produtivas como a agropecuária e a petroquímica/química, configurando-se, portanto, no principal elo da cadeia têxtil e de confecções com outras cadeias produtivas. As matérias primas utilizadas são basicamente de três tipos: 1) fibras naturais (algodão, lã seda, linho, juta, rami, de origem animal e /ou vegetal), 2) as artificiais (viscose e acetato) e 3) as sintéticas (poliamida, poliéster e acrílica). A segunda conexão refere-se ao processo de beneficiamento das matérias-primas, que envolve duas outras conexões ou elos da cadeia, formando especificamente o setor têxtil, são eles: a fiação, em que é realizada a mistura das fibras e se obtém os diversos tipos de fios usados na fabricação de tecidos e malhas, e a tecelagem, que produz os tecidos. A quinta conexão consiste especificamente no setor de confecção21, que abarca o corte, a costura e o acabamento do tecido e do produto final; incorporando-lhe os detalhes para a conclusão do produto final; e, por último, a sexta conexão, que engloba a comercialização envolvendo tanto o setor varejista quanto o atacadista. (CAMPOS e ANDRADE, 2008).
É importante salientar que uma das características principais da indústria têxtil e de confecção consiste no fato de suas operações poderem ser realizadas de forma descontínua, ou seja, os produtos finais de uma fase além de servirem como matéria prima da fase posterior, sem manterem entrelaçamentos produtivos, também podem ser
comercializados como produto final. Isto possibilita “a flexibilidade na organização da produção e a existência de empresas com escalas de produção e níveis de atualização
tecnológica diferentes” (SANTANA e APOLINÁRIO, 2004, p. 09), como também
permite que esteja localizado em espaços completamente diferenciados.
Enquanto a indústria têxtil, especificamente, constitui-se intensiva no uso de bens de capital, o setor confeccionista, integrante do último elo produtivo desta cadeia, configura-se por sua enorme capacidade de absorção de mão-de-obra e elevado número de estabelecimentos produtivos, em decorrência das reduzidas barreiras à entrada de novas unidades produtivas no mercado, as quais utilizam equipamentos básicos de fácil aquisição e com técnica de produção bastante difundida. As etapas características do processo produtivo do setor de confecções, segundo Braga (2005) apud Campos e Andrade (2008), são:
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O Polo de Confecção do Agreste Pernambucano e, inserido neste, o Polo de Confecções de Roupas em jeans de Toritama está centrado especificamente nesse elo desta cadeia produtiva.
104 Design: Fase dedicada ao desenho dos modelos e a opção das cores,
tecidos e padronagens da coleção;
Modelagem: trata-se da criação de moldes em papel e determinam
todas as marcações para as fases posteriores do corte e costura. É nesta etapa que são testados os melhores moldes e corrigidos as prováveis falhas;
Gradeamento: refere-se à adequação dos moldes aos diferentes
tamanhos e medidas solicitados pelos clientes;
Encaixe: etapa em que os moldes são posicionados sobre os tecidos
de modo a fazer uso eficiente do material, evitando desperdício de tecidos;
Corte: o corte dos tecidos ocorre após as especificações demarcadas
nas etapas precedentes, assinaladas anteriormente;
Costura: depois de cortado, os tecidos são costurados. É a etapa que
mais emprega mão-de-obra, englobando em torno de 80% do trabalho produtivo. Ainda é caracterizada fortemente pela relação uma máquina por trabalhador, sendo assim, as habilidades inerentes à mão-de-obra são determinantes fundamentais na produtividade de um dado empreendimento especializado nesta atividade;
Acabamento: diz respeito aos últimos ajustes nas peças de vestuário,
como por exemplo, a retirada do excesso de linha – procedimento
comum ao término das costuras. Na sequência, as peças são passadas e organizadas em embalagens para serem distribuídas. (BRAGA, 2005 apud CAMPOS E ANDRADE, 2008, p.30-31).
A atividade confeccionista pode ser dividida em dois grupos específicos: vestuário (roupas femininas, masculinas e infantis de modo geral) e artigos confeccionados (produção de artigos de copa, cozinha e limpeza; cama, mesa e banho, entre outros), conforme salientou Carneiro (2009).
De acordo com Castro (2004), as inovações tecnológicas no setor concentram-se principalmente nas primeiras etapas do processo produtivo, que vão do design ao corte, através da implementação do sistema Computer Aided Design –CAD, e Computer Aided Manufacturing- CAM. A utilização do CAD facilita a criação digital dos modelos, enquanto o CAM torna possível o corte computadorizado dos tecidos. Ambos viabilizam uma redução significativa no desperdício de tecidos, bem como importantes ganhos de flexibilidade e de velocidade na execução dessas etapas, de forma a facilitar a implantação de importantes alterações na organização da produção.
Entretanto, as etapas de montagem configuram-se por inovações bem pontuais, centrando-se basicamente na criação de máquinas de costura nas quais foram incorporadas a tecnologia microeletrônica22, bem como na automatização de algumas atividades, como costuras de golas, bolsos etc., entretanto seu funcionamento ainda
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As máquinas hoje existentes pertencem a modelos de três gerações: as de primeira geração são máquinas simples, com motor acoplado por fricção mecânica; as de segunda são dotadas de acessórios para corte de linha, que podem ser acionados por meios eletrônicos comandados pelo próprio motor da máquina; as de terceira geração têm operação controlada por microprocessador, cabendo ao operador o manuseio do tecido (BASTOS, 1993, p. 24).
105 depende exclusivamente do manuseio individual, geralmente envolvendo a mão-de-obra feminina23. Assim, Castro afirma que, no setor de confecções,
[...] verifica-se uma tecnologia madura e estável, baixas condições de apropriabilidade, e oportunidades tecnológicas relativamente limitadas, sua base de conhecimento é pouco complexa e bastante codificada e difundida, dificultando a apropriação de inovações (CASTRO, 2004, p. 8-9).
É interessante ressaltar que o processo de produção na confecção é caracterizado pela descontinuidade entre suas etapas produtivas, podendo elas estar vinculadas ou não a uma única unidade produtiva.
Devido a sua baixa complexidade tecnológica e a sua relativa facilidade para ser adquirida, dados os custos baixos de aquisição de uma máquina de costura, este setor produtivo se configura como um segmento extremamente heterogêneo, envolvendo unidades domiciliares, pequenas, micro, médias e grandes empresas. Outro elemento que favorece a essa heterogeneidade consiste no fato de que o manuseio da máquina de costurar é apreendido principalmente pelas mulheres ainda fora do mercado de trabalho,
como uma atividade vinculada a “seu papel no meio familiar”24, facilitando o surgimento de unidades produtivas domiciliares que, em alguns casos, acabam funcionando como uma extensão de empresas maiores através do processo de subcontratação, tornando-se faccionistas - trabalhadores domiciliares que realizam acabamento das peças, ou mesmo pequenas unidades ou oficinas que trabalham como faccionistas para empresas maiores, conforme afirmou Abreu e Sorj (1993).
Portanto, a subcontratação configura-se como outra característica marcante deste setor, e corresponde à divisão do processo produtivo entre diversas unidades de produção, que funcionam como facções25. Assim, este é um setor que consegue empregar mais de um milhão de trabalhadores nas mais diversas formas que assume, envolvendo desde empresas formais a informais, da grande empresa ao trabalho domiciliar.
Desta forma, por estar marcado pela flexibilidade da produção tanto em termos de dimensões e fragmentação do processo produtivo, quanto em diversidade de
23 Entretanto, podemos adiantar que este perfil, no que se refere à confecção de roupas de jeans no
município de Toritama-PE tem sido alterado com a inserção da mão-de-obra masculina em todas as fases de elaboração da peça de jeans (seja, calça, short, vestido, jaqueta entre outros).
24 Aprofundamos esta discussão no capítulo 3.
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Unidades produtivas que se responsabilizam por apenas algumas parcelas do processo produtivo e que, portanto, dependem de outras.
106 produtos produzidos, e seus baixos custos, possibilita que com pouco capital sejam abertas pequenas unidades produtivas envolvendo às vezes apenas um único trabalhador (geralmente mulher) ou os membros da família, que a partir da compra de uma máquina de costura, às vezes de segunda mão, conseguem manter seu negócio em sua própria residência.
O setor de confecção também tem por característica ser movido pela indústria da moda, que estabelece os modelos e padrões, de acordo com as estações, os hábitos e os costumes de determinada época; portanto, comportando-se de forma extremamente flexível.
Os trabalhadores do setor de confecções, de modo geral, devido à heterogeneidade referida, quase sempre se encontraram em situação de precariedade, principalmente porque nas pequenas unidades o trabalho mantém-se preponderantemente na informalidade, em que os direitos trabalhistas não são considerados. Agrega-se a isso o fato que o trabalho na costura é tido como de fácil aprendizagem, desqualificado e consequentemente mal remunerado, conforme salientou Lima (1999).
Após fazermos esta caracterização geral da indústria têxtil e de confecções gostaríamos de salientar que este setor industrial encontrou maior expansão no Brasil na região Centro-Sul, entretanto, também desempenhou um significativo papel no desenvolvimento industrial do Nordeste. Portanto, no próximo item estaremos apresentando como ocorreu o seu desenvolvimento nesta região, buscando compreender as seguintes questões - Como ocorreu o desenvolvimento da cadeia têxtil e de confecções do Nordeste? Qual a sua ligação com o Centro-Sul? Como a cadeia têxtil e de confecções do Nordeste está inserido na dinâmica capitalista atual? – Apesar da importância dessas questões não temos a pretensão de esgotá-las, mas serão elas que nortearão a sequência de nossas colocações.