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Innledning – generelle prinsipper

6. Rensemetoder – dimensjonering og anleggsteknisk utforming

6.1. Innledning – generelle prinsipper

Havia certo amparo familiar até chegar ao Brasil, mas como foram recebidos e quais as estratégias preferidas para se integrar à nova vida? Como foi esse processo em sua amplitude? Estas questões foram vistas em diferentes aspectos: econômico, político e social.

Como foi visto, o projeto emigratório/imigratório nacional contou com uma vasta engrenagem de correlações de força, onde os dois Estados colaboravam entre si porque ambos acabavam ganhando com o processo. Apesar disso os migrantes não possuíam grande amparo legal. Eles mesmos é que deviam ser responsáveis pelo seu trabalho e instalação. Embora existisse legalmente a carta de chamada, documento que envolvia certa responsabilidade de quem chamava, informalmente, não havia essa assistência. No caso da emigração familiar, quando as mulheres chegavam dois ou três anos após os maridos, eles já haviam preparado alguma estrutura em termos de trabalho e moradia. As narrativas de D. Maria afirmam isto:

O Abel já tinha tudo preparado. Ele já havia saído dali daquele local e já tinha comprado uma casinha meia-água lá em Campo Grande. Era longe do centro, mas para nós que vínhamos do campo, onde não tinha nenhum conforto, até que a casinha era boa e gostei dela. Eu tinha os meus filhos para criar e não podia me dar ao luxo de ficar com saudade nem de chorar pela terra. Às vezes sentia, mas não podia falar porque senão todos chorariam e eu já tinha meus

137 Roendel (2002), seguindo as formas de associações locais, mostra que a grande concentração de portugueses existentes no local deu origem ao final do século XIX, ao clube Dramático Filhos de Talma, na rua do Propósito. Clube este que originou o conhecido Clube de Regatas Vasco da Gama, na rua da Saúde.

cinco filhos e tinha trazido também a minha mãe. Ela, coitada é que não se dava bem aqui. Já era velha e nunca se adaptou. Acabou morrendo logo. Morreu com quatro anos de Brasil. Talvez tenha sido um mal trazê-la para cá. Mas ela queria vir, queria estar onde eu estivesse, pois só tinha a mim como filha.

Mas foram minhas vizinhas que me ajudaram. Ensinaram-me principalmente a cozinhar certas coisas que lá não tínhamos. Algumas das crianças nem gostavam, mas tínhamos que as fazer comer. Era o que tinha aqui. Então, o feijão preto para mim era horrível. Lá nós os dávamos para os porcos. Ninguém os comia, nem plantava. Mas às vezes nasciam entre os outros e dávamos aos porcos. Mas era reaprender tudo. É engraçado que muitas coisas eu aprendia com os meus filhos. Eles iam à escola, brincavam na casa dos amigos e viam outras coisas e aí me ensinavam. Isso foi mudando as coisas. Eles até aprenderam rapidamente a falar como os brasileiros. Eu não, nunca perdi meu sotaque. E nem quero perder. Gosto de ser portuguesa e falar como português.

Para Dolores também não foi nada fácil. Nos primeiros anos de Brasil Dona Dolores sentiu-se muito deprimida. Ela descreve em detalhes e ainda repassa a agonia que sentiu naqueles primeiros anos em terra estranha. O que demonstra o quanto uma lembrança traumática marca o corpo de forma profunda.

Eu não queria vir, Eu não tinha ninguém, só meu marido, que ia trabalhar, e o

filho pequeno. Eu só dizia assim: - Eu tinha uma imagem de Jesus e ficava ajoelhada a frente dele, dizia: - Ah! Meu Deus, eu quero ir-me embora, me ajuda...

O incentivo para permanecer foi uma senhora de sua aldeia, que reencontrou na feira.

Fiquei...deprimida. Não cheguei a ficar doente, porque Deus me deu forças. Eu morava aqui, na Tijuca. Eu tinha uma amiga lá do meu lugar e ela era da feira e eu comprava com ela (coisas de limpeza). E ela me disse assim: - Como é que vai embora? –Vou, não “Olha! Tu não vais fazer coisa nenhuma. Tu vais trabalhar uns dias comigo e vou te falar como é que é. Depois eu vou falar com o fornecedor e ele vai te arrumar uma barraca só para você. Tu vais ter o teu dinheiro” e ganhei mesmo, graças a Deus. Me distraí e eu ganhei mais que meu marido. Ele não gostava da feira, não. Deus me deu forças. Primeiro, senti diferença. Depois comecei a fazer amizade, todo o mundo diz que sou boa de fazer amizade – comecei a fazer amizade com essa gente... Uma escura que tinha um açougue ali embaixo, onde hoje é a tinturaria. Trazia carne, mandava a sogra, D. Isabel, assar a carne. Comprou velocípede para o meu filho para ele andar. Foi uma gente que eu encontrei que eu não sei de onde, aquela gente foi tão importante, tão amiga...

Muitas vezes os rapazes, em idade de trabalho, 15, 16 anos, viajavam com um membro da família. O senhor Nelson, que chegou com a tia, antes de casar, expõe a realidade da instalação dos imigrantes nos cortiços do centro da cidade:

Minha tia morava no Rio Comprido. Uma casa que era do tipo cabeça de porco. Era uma casa dividida em várias residências. Ela tinha um filho que dormia com eles e eu dormia na sala com mais um primo que também tinha vindo. Depois aqui começou o meu martírio... Eu admiro muito de ver os portugueses mostrando milagres. Eu, tudo o que sou hoje, agradeço tudo a Deus. Ao meu trabalho! Eu tinha um primo que veio junto comigo. Também quis vir. Tinha uma moça que agradou a meu primo – muito linda, a moça – e meu primo se encantou com ela e quis namorá-la, mas ela já estava comprometida. Ela já estava aqui, então ela tinha negócios. Também o meu primo tinha um (negócio); ela era viúva e não entrou na cabeça dela. Então uma mulher, viúva, com um negócio daquele tamanho não tinha necessidade de vir para o Brasil. Algum motivo a levou... Então, como morava na casa dessa minha tia? Porque é que minha mãe quis que o filho viesse? Algum motivo houve.

O emprego era difícil. Pela lei do Getúlio havia que ter tantos estrangeiros138.

Pois é, então eu fiquei ali enquanto não arrumava o emprego. Meu tio disse: ”Vai arranjando emprego depois eu te chamo”.Um amigo meu é que me abriu os olhos. Ele disse: “Meu tio está no Cruzeiro do Sul”. Demorei uns dois meses. Eu já estava trabalhando numa vidraçaria, na Companhia de Vidros e molduras. Era na rua do Senado 260. Era de um senhor de Braga, muito meu amigo. Tem muita história comigo. Depois o cara que me contou esta história de Cruzeiro do Sul. O irmão dele que era chefe nessa companhia e me levou para trabalhar. Era, mas isso dele me levar para trabalhar ele não sabia que era... Mas eu perdi dois meses brincando nessa casa. Estava lá e podia aprender, mas não me interessei de aprender. Mas eu estava pensando na companhia da aviação. Foi ele que me disse: “Olha vai ficando aqui, te firmando aqui, aprendendo, que ele jamais vai te levar para o Cruzeiro do Sul”.Foi quando comecei a levar a vida a sério

A tristeza é relatada por Nelson com enorme pesar:

E depois eu... Estava muito triste, minha tia me viu muito triste. Estava aqui já há seis meses e minha tia mandou uma carta dizendo que eu estava muito triste, mas era devido a esse problema. Então ela me perguntou: - Ó Nelson estás gostando? Não, não é que eu não esteja gostando. Fiquei calado. Ela disse que se eu quisesse ela me mandaria de volta. Eu disse que não, se eu quisesse iria com o meu dinheiro. Mas me magoou, meu pai soube que eu estava muito triste

aqui.

Porque eu era abandonado pela família aqui. Depois melhorou um pouco...Mas meu pai soube e eu recebi uma carta dele. Olha, meu filho, se você quiser vir, a gente manda te buscar... E isso pegou... Eu fiquei muito triste (calado) depois botei a vida para frente. Aí eu...

Com as desavenças com a tia ele comenta sobre solidão, discriminação e o consolo da amizade do primo, com quem podia contar:

Eu sentia falta da família, dos colegas, não tinha um ambiente. Tudo diferente. Eu que era tão amigo do meu primo... Se nós saíssemos, ele ia à frente, pagava a minha passagem. Se eu fosse na frente eu pagava a dele. Nós éramos tão amigos, que se eu levasse um guarda chuva e ele não levasse cobríamos um ao outro. Isso era a amizade. Na hora dele se estabelecer, ele disse: eu só me estabeleço com meu primo Nelson. Quer dizer que é uma história linda, a amizade. Bem, então comecei a namorar aqui. Eu sentava com uma garota que era... Você sabe, eu tenho problemas e naquela altura as moças só gostavam de rapazes muito bonitos, bem arranjadinhos, bem vestidos e isso contava, eu... O que importava a mim era o dinheiro. A minha roupa andava sempre lavada, mas... Então eu namorei uma garota que ela era da Vila da Feira. Era filha de um amigo meu. Ela tinha 16 anos. Depois eu disse que não queria namorar mais ninguém. Eu já tinha namorado uma brasileira do largo do Machado, que era de Minas. Era também muito interessante, eu cheguei para ela, a mulher viu que eu era português e atiçou, permitiu o namoro. Sendo que às dez horas devia levá- la para casa. Depois essa garota quis ver o pai e a mãe em Minas e se perdeu lá com um primo. Ela me contou tudo, ela não quis mais me namorar. Ela se casou lá. Todas as minhas namoradas ficaram minhas amigas. Ela não quis mais ficar na casa dessa senhora. A garota estragou a vida dela. Meu padrinho queria consertar isso naquela época. Depois eu não pensei em namorar mais, para não ser pego de surpresa. Está bem então... Eu pensei: “Aquela não me quis por isso, aquela também não quis, será que eu sou diminuído?” Perguntei a mim mesmo: “Será que eu sou feio? Será que não arrumo namorada? Se lá em Portugal tinha tantas namoradas e aqui não tenho”, fiquei perguntando a mim mesmo.

O senhor Antônio explica que suas dificuldades foram principalmente com o clima e a alimentação:

(...) eu fui morar na Praça 15 em uma rua que não existe mais. Onde passa o viaduto chamava-se Rua Clara, número 5 casa 5. Quem lhe arrumou a casa e tudo Foi um patrício, já conhecido lá. Eu estranhei muito, um calor. Eu não estava habituado a esse calor. Meu Deus do céu, eu não agüento esse calor! Eu dizia. Depois a gente arrumou para morar na rua das Laranjeiras, quase esquina com rua Alice. Lá moravam uma porção de patrícios. Eram quartinhos. Eu fui morar em um e meu pai em outro e começamos a trabalhar aqui no Rio de Janeiro, na Rua Mariz e Barros e depois em frente à Quinta da Boa Vista. Na rua almirante Baltazar, onde tem aquele hospital que agora é Quinta Dor.

Estranhei porque a gente se acostuma. Por exemplo, aqui é diferente a comida. Quando fomos para Petrópolis, meu pai disse: ”Vamos comprar uma panela ou duas e fazemos nossa comida”. Então fazia ali uma sopa, uma carne. Era sempre o mesmo tipo de comida. Era a carne cortada e ensopada e nós chegamos também a comer em um vizinho ao lado, mas era só um angu que ele nos dava. Que comida ruim. Nós pagávamos para ele e depois o meu pai comprou as panelas, comprou comida e já fomos fazendo ao nosso jeito. Mas eu

estava em Própolis e fazia uma coisa simples. Meu pai quando chegou aqui, sozinho, conta que fazia sempre um arroz de Braga que era fácil e gostoso.

Mas, ligando experiências o senhor Antonio conta os pontos positivos de viajar para a cidade:

Na aldeia, até eu vir para cá, não conhecia nada. Eu sou sincero a lhe falar. Eu ate quando via passar os carros, ou ônibus eu dizia: eu queria tanto andar nisso! Só andava a pé para lá e para cá. Quando eu me vi em outra situação... Eu só comia pão de milho, aquele pesado. Ah! Se eu pudesse aquele pão de trigo que era feito nas padarias, chamávamos “O Trigo”. Aquilo era uma maravilha. Até tinha umas broinhas – sacaduras – porque fazer o pão em casa, a minha mãe me ensinava a como se faz a massa. Eu queria botar no fogo. Eu não tenho filha! Então nos ajudávamos. Tem que fazer coisas fáceis. Sopa...

João dos Santos Oliveira, nascido na cidade do Porto, em Portugal, chegou ao Brasil em 1954 com apenas dois anos de idade em companhia de sua mãe. Trabalha há 23 anos na estiva. É casado, tem três filhos e netos. O pai havia chegado ao Brasil dois anos antes e lhes enviou a carta de chamada obedecendo à política de imigração da época. De acordo com seu relato, o motivo mais forte da emigração foi o de não ir para a tropa. O pai veio fugindo à política ditatorial de Salazar:

(...) eles vieram para o Brasil por causa do meu pai, divergência de família, de pai e mãe e..., na época do Salazar. Salazar..., da ditadura (...) aquele pessoal, o que eles fizeram..., fugiram para diferentes lugares: um foi pra África, o outro pro Brasil, tudo pra fugir da tropa, como eles falavam, aí meu pai veio para o Brasil.

O início de sua vida no Brasil lembra uma infância difícil, marcada, principalmente, pela desintegração familiar a partir da separação dos pais. Seus gestos e voz expressam muita emoção quando lembra que o pai havia construído outra família no Brasil. Ao mesmo tempo, é a oportunidade em mostrar imenso orgulho de sua mãe que, sem ajuda masculina, vivendo num país estranho, consegue criar o filho lavando roupas das madames da Zona Sul e acaba por conseguir comprar a casa na rua Júlio do Carmo, na atual Cidade Nova. Para ele é duro falar da infância a qual caracteriza como muito sofrida:

(...) Foi muito sofrida, porque fui criado pela minha falecida mãe, que me criou com lavagem de roupa... Houve a separação, meu pai arrumou... A verdade é a

seguinte: quando ele chegou aqui, quando nós chegamos aqui, ele já tinha uma mulher. Minha mãe veio saber um ano depois. Começou as desavenças. Ele alegava uma coisa, ela alegava outra. Minha mãe não sabia de nada, o jeito foi lavar roupa. Era uma pessoa que pouco estudo tinha, era uma mulher de quintas. Quinta a senhora sabe o que é, era uma mulher de quinta de família, fazia as coisas de casa, da quinta para trabalhar na lavoura, então o estudo dela era nenhum. A opção que ela tinha era essa, e foi trabalhar como lavadeira, lavava roupa pra um, lavava roupa pra outro em casa...