Esta entrevista foi realizada dia 18 de agosto de 2011, na Escola do Campo Maria de Lourdes da Silva Prado, localizada no Assentamento Monte Alegre VI, Araraquara, São Paulo.
P: Há quanto tempo você trabalha nesta escola do campo? R: Há sete anos.
P: Você já trabalhou em outras escolas do campo, escolas da cidade? R: Escola do campo não, já trabalhei em outras escolas da cidade.
P: Você já conhece o programa da escola do campo, já teve algum contato? Se conhece acha que é realizado nesta escola?
R: Bom sim, eu conheço algumas coisas. Aqui na escola é realizado na medida do possível, tem algumas coisas que na prática a gente acaba não conseguindo realizar. Porque existem dificuldades no dia a dia que por uma coisa ou outra a gente acaba não conseguindo, até de repente por falta de recursos mesmo a gente acaba não realizando. Mas na medida do possível a gente procura sempre estar realizando aquilo que compete às atividades no campo.
P: Você acha que existe a necessidade uma proposta de educação que não seja apenas no campo, mas também do campo, pensando aqui na questão da especificidade?
R: Bom eu defendo a idéia de que o aluno tem que ter todo o respaldo de acordo com a realidade dele no campo, mas também tem que ser oferecido o outro lado do ensino para que
ele tenha contato tanto com a realidade dele quanto o que não faz parte da realidade dele. Pra que quando ele precisar estudar em outra escola, por que aqui só temos o ensino até o nono ano, quando ele tiver que partir pra outra escola ele consiga superar as dificuldades, até de diferenças entre a realidade em que ele vivia e a que ele passa a viver com isso, para que ele não encontre grandes barreiras pra superar tudo isso e também pra que ele consiga poder escolher realmente qual é a aptidão dele, o que ele realmente vai querer fazer da vida.
P: Você percebe a existência de alguma forma de discriminação do trabalhador, do morador do campo?
R: Olha essa questão assim, eu não sei te responder, porque eu não tenho grande contato com a comunidade. Eu sei que de acordo com o que os alunos relatam, eles se sentem discriminados em relação... De repente se eles saem em um passeio em que encontram alunos da cidade..., eu não se já está sugestionado ou se realmente eles sentem que existe isso, mas eles se sentem de certa forma discriminados pelo fato de morarem e estudarem no campo.
P: Em relação a você trabalhar em uma escola do campo, você nunca sentiu nenhum tipo de discriminação, quando você vai trabalhar em uma escola da cidade e comenta que trabalha em uma escola do campo?
R: É que é assim, eu já trabalhei em escolas da cidade, mas enquanto em trabalhava na escola da cidade eu não trabalhava ao mesmo tempo aqui. Então agora quando eu tenho ido para outra escola, é também uma escola do campo, não dando para eu fazer esta comparação.
P: Se existe esta discriminação, você acredita na possibilidade de a proposta de uma educação do campo poder ajudar a solucionar esse problema? De que forma?
R: Eu acho que... sei lá, acho que preparando o aluno para que cada vez mais para ele conseguir ter autonomia, pra ele realizar as atividades dele, confiar naquilo que ele sabe. Eu acho que é mesmo a gente transmitir várias coisas, inclusive para que eles se sintam preparados, seguros para enfrentar até futuramente o mercado de trabalho. Eles conseguirem superar estas barreiras que por ventura eles imaginem que tenham ou a gente às vezes acha que é sugestivo, que eles acham que existe isso, mas pode ser que nem seja tão agravante da forma como eles pensam que seja.
P: Nas suas aulas você consegue trabalhar algum conteúdo especifico da realidade e cultura do campo? Cite exemplos.
R: Ah, sempre quando a gente..., na área de português tem muitos textos, então a gente sempre coloca textos que citam coisas da convivência deles ai... Tem vários conteúdos que dá pra gente trabalhar, no caso especifico desta classe, o sexto ano, a gente está vendo, por exemplo, substantivo, podemos colocar nos substantivos tudo o que faz parte da realidade deles ou então no trajeto que eles fazem todo dia de casa até na escola, ou vice-versa. Sempre dá pra gente associar, mas eu particularmente não fico colocando somente as coisas daqui, eu gosto de relacionar, de comparar. Então aqui é assim, como que poderia ser de repente na cidade? Vocês pensam de tal forma sobre tal coisa, o que vocês acham que outras crianças pensariam se morassem num outro lugar ou se nunca tivessem visto como se faz ... Por exemplo, a gente vai tirar leite hoje, vocês acham que as crianças da cidade se comportariam de que forma ou então vocês em outro ambiente na cidade... Eu gosto de estar sempre relacionando eles aqui no campo, com os que não são do campo e vice-versa. Acho que tem que ter esse equilíbrio, não só daqui, mas não só de lá também.
P: Você acha que existe alguma diferença entre os alunos da cidade e do campo no que diz respeito ao seu comportamento e aprendizagem?
R: Aqui desta escola em especifico, porque já estou aqui há bastante tempo, eu não tenho muito parâmetro pra comparar com a cidade, porque eu não estou atuando na cidade agora, mas eu sinto assim que a falta de compromisso mesmo com os estudos é um dos pontos que a gente precisa entender um pouco melhor e estar atuando, interferindo mesmo para que isso mude. Porque eu acho que ainda falta muito, não sei se tem a ver com a estrutura familiar, com a falta de incentivo ou até também, pelo que a gente pode perceber, que as expectativas, perspectivas de vida deles, no campo ou com o que vai ser lá no futuro, eles têm assim certa dúvida, certo medo e isso acaba de certa forma com o passar do tempo e nos últimos anos contribuindo para uma desmotivação muito grande e ai eles vão perdendo a motivação com o tempo. Eu acho que poderia ser diferente esse compromisso, essa responsabilidade de aluno deixa um pouco a desejar, eles não tem aquele hábito de chegar em casa e estudar, também pelo fato de eles terem outras atividades em casa que a família exige e isso também acaba interferindo. Então é isso, eu sinto que ainda falta um trabalho de conscientização da parte deles pra um envolvimento maior com os estudos.
P: Como que é a participação da comunidade na escola, eles possuem consciência e apóiam a proposta de uma educação do campo?
R: Eu acho assim, pra grande maioria eles têm essa ciência do projeto de ensino da escola do campo, mas têm alguns outros que são bastante distantes da concepção do trabalho, eles não atuam muito efetivamente em reuniões de pais ou estão sempre entrando em contato com a escola, são mais dispersos. Tem bastantes famílias ai que são bastante participativas e estão sempre se inteirando de tudo o que acontece na escola, alguma coisa diferente, alguma coisa que é proposta para comunidade participar eles sempre acabam participando, mas outros já são assim distantes, acabam não participando tanto.
P: Você teria alguma outra sugestão pra melhorar a proposta de educação do campo, além da questão do estudo, da conscientização da necessidade de se dedicar mais, como já sugeriu?
R: Então eu acho que seria interessante, eu não sei se é possível, se é viável, que tivesse mesmo um aperfeiçoamento técnico para eles lidarem com a terra, porque a gente passa, a gente consegue estar relacionando em cada disciplina a realidade deles, de certa forma trabalhar alguns conteúdos que fazem parte mesmo do que eles estariam precisando pra trabalhar nas próprias casas, mas eu acho que de repente um aperfeiçoamento técnico seria interessante, eu só não sei se é viável, se é possível, não sei qual a extensão de tudo isso, mas eu acho que para eles seria válido.
P: Você gosta desta proposta de educação do campo?
R: Eu gosto, gosto. Mas assim, com a minha particularidade, eu defendo, acho que eles precisam ter todo esse respaldo do que faz parte da realidade deles, mas também com interferências do mundo que não os cerca. Eu acho que eles devem ter as mesmas oportunidades, se aperfeiçoar aqui e saber como são as coisas em outro lugar, um pouquinho de cada coisa. Até pra acabar com esse medo de sair, de achar que tudo é muito difícil e não é acessível a eles, às vezes eles não confiam no potencial deles. Muitos alunos têm potenciais e acabam desistindo na metade do caminho por esta questão de se sentirem discriminados, de achar que não vão conseguir ir além do que já chegaram.
P: Você acha que neste ponto a escola consegue dar um suporte pra eles?
R: Eu acho que sim, para alguns isso funciona, depende também da estrutura da família, porque se a família está lá dando um suporte para que ele reforce aquilo que ele viu aqui na escola, que ele pode sim conseguir outras conquistas e a família está lá assessorando essa ideia, eu acho que eles vão além, mas se a família não incentiva também o nosso trabalho para aqui. Então eles ficam com todas essas dúvidas lá na casa deles e ai tem muitos
que a gente sabe que param de estudar e têm outros que acabam indo além, que conseguem passar a viver de acordo com o que escolheram, muito bem, sem dificuldades nenhuma. Então a gente tem alunos que já foram fazer faculdade que a gente conhece, tem uma aluna que está na UFSCar, já era boa aluna, já tinha uma perspectiva, agora a gente sabe que também a família influenciou se não fosse isso talvez ela não tivesse ousado a fazer tudo que ela já fez, conseguir tudo que ela já conseguiu.
P: Você acha que para a escola é muito difícil chegar até as famílias dos alunos para que eles também compreendam a proposta de educação do campo? Existe alguma resistência?
R: Então às vezes sim, as vezes não. A escola tenta se aproximar, tenta entrar em contato sempre que precisa estar conversando com os familiares. Às vezes surte efeito, às vezes não. Ai, eles alegam que trabalham mais longe, que fica difícil vir até a escola, nunca têm outra pessoa que possa vir, têm vários motivos que acabam interferindo.
P: Eu reparei que tinha na lousa da sala dos professores, um aviso sobre o Dia do Campo Limpo. O que seria esta data?
R: O Campo Limpo é um projeto, uma conscientização que eles se uniram às escolas do campo pra descarte de embalagens de agrotóxicos. Então todo ano eles reforçam a ideia de como tem que ser manuseado o agrotóxico, depois o que fazer com a embalagem, todos os perigos que o mau uso oferece. A conscientização que eles querem, o objetivo maior é atingir as crianças para que elas estendam aos familiares que usam os agrotóxicos. Então todo ano eles fazem modalidades, dependendo do ano escolar da criança, desenhos, redações, poesias todo ano com um tema diferente em relação à reciclagem, ao uso do agrotóxico ao descarte das embalagens, como têm que ser feito, o tema sempre voltado para isso. Todos os anos a gente tem algum aluno que acaba ganhando a premiação, no ano passado a gente teve uma aluna do sexto ano, este ano ela está no sétimo, que ganhou a redação. Então os alunos já conhecem, gostam também, já estão assim bem conscientizados e é um processo que é feito todos os anos para que eles não esqueçam e que se fortaleça.
P: Você sabe me dizer quem que organiza?
R: Então é uma parceira entre essa entidade, eu não sei dizer o nome, a gente sempre fala Campo Limpo, com a Secretaria da Educação.
R: De nada, espero ter ajudado. O que eu falei pra Clarice é que estou aqui há sete anos, mas sem brincadeira eu nunca fui, assim uma vez a gente acabou indo na agrovila, fomos num especifico lugar e voltamos. Mas eu não conheço aqui, nem sei mesmo como que é o dia a dia deles, ai eu já deixo a desejar. Tem professores que vieram pra essa escola ainda quando eles estavam no processo de tomar posse destas terras, que eles realmente eram assentados, que as casas ainda eram na lona e depois foram surgindo as casas de barro, então ela tem essa referência desde quando eles chegaram aqui. Mas eu já não, não tenho e como as aulas são fechadas, você tem que ficar aqui o tempo todo, então é chegar vir pra sala e deu o horário ir embora. Mesmo porque uma coisa que eu acho um pouco diferente é que as casas são muito distantes uma das outras, na verdade eles nem tem quase vizinhos e até essa questão de trabalho em grupo, eu não trabalho com atividade em grupo, por exemplo, tarefa: Ah, vamos fazer um trabalho em grupo, pra vocês pesquisarem alguma coisa e entregar, eles vão se reunir nas casas... Não dá, porque é muito longe e envolve um monte de coisas então a gente tem que se reunir em grupo aqui. Porque é muito distante uma da outra, até se você se perder aqui, pra quem você vai perguntar? Você vai assim não encontrando nada na esperança de encontrar uma casa e poder perguntar, mas nem tem certeza da distância em que ela se encontra.
P: Mais uma vez muito obrigada.