Os poemas utilizados aqui como referência encontram-se transcritos ao final do trabalho (ver Anexos). Sem prejuízo para o desenvolvimento da análise, adotamos esta opção pelo fato de o trabalho estender-se por número excessivo de páginas e esta parte do trabalho especificamente ter a função de indicar outras manifestações para que o texto não se esvazie na análise de dois poemas.
Se o exame analítico se debruçasse apenas sobre estes dois poemas, Ánima adoratriz e La última odalisca, poder-se-ia levantar a possibilidade de o grotesco tratar- se apenas de uma ocorrência rara, isto é, de tê-lo tratado como ocasional, na poesia de López Velarde, o que não é verdade. Convém ressaltar que as análises que apresentamos a seguir procuram ser breves e enxutas, não porque os juízos sejam o fruto de uma análise superficial — longe de nossa intenção desrespeitar tão valorosa obra — mas que o intuito desse capítulo consiste em apontar, ilustrativamente, outras ocorrências grotescas nesta obra velardiana, de maneira resumida.
Com efeito, escolhemos outro poema de Zozobra, “El viejo pozo”150, no qual identificamos a personificação de um poço como o símbolo do primeiro elemento grotesco presente no poema, tratando-se aqui da criação de um ser inanimado que é dotado de vida. Já na terceira estrofe, este velho poço aparece com “la pupila líquida”, como se observasse os fatos ocorridos do lado de fora. A voz do eu-lírico evoca seus antepassados através dessa imagem do poço.
Depois disso, o poeta menciona o espectro de uma tia já falecida que aparece fantasmagoricamente a fim de realizar uma determinada tarefa da qual já se ocupara em vida: controlar as finanças da família — o trecho aborda com humor a avareza e, além disso, recorre ao universo do fantasmagórico, que se aproxima mais da caracterização do grotesco terrificante de W. Kayser. Na sexta estrofe identifica-se uma voz do poço que respondia através da observação de uma estrela. Na última estrofe, o poço deseja e ensina; novamente, temos a presença do inanimado, recurso este ligado ao grotesco.
O poema “Que sea para bien”151 não é rico em imagens grotescas, entretanto, explora um tipo de adjetivação que causa estranhamento, como se a posposição do
150 Ver anexos. p. 236. 151 Ver anexos. p. 235.
adjetivo não fosse compatível, semanticamente, com o substantivo que o acompanha. É um procedimento comum na poesia velardiana, mas o efeito causado pela expressão “boca calcinada” (quinta estrofe) chamou-nos a atenção. A imagem é delicadamente construída pelo poeta, de modo que a primeira comparação do corpo com o vulcão ocorre na terceira estrofe: “Tu palidez denuncia que en tu rostro / se ha posado el incendio y ha corrido la lava... [...] Tu palidez volcánica me agrava”.
Notamos que “o rosto em que o incêndio pousa” é uma metáfora singular, seja para a timidez, seja para o sofrimento amoroso. No último verso da estrofe, a palidez vulcânica realiza algo muito próximo daquilo que Octavio Paz chama de espelhamento convexo.152 O ferimento de ser pálido ocorre no eu-lírico, e não no rosto queimado (feminino). Diga-se de passagem, essa poética do espelho é um recurso grotesco bastante utilizado em arte moderna.
O incêndio ocorrido causa uma calcinação na parte frontal do rosto/corpo. A calcinação é, originalmente, um processo químico de queima do carbonato de cálcio (matéria volátil) para a obtenção da cal (pó). Metaforicamente, o processo de calcinação representa o enrijecimento, a paralisia. O transformar-se em pó torna-se a metáfora por excelência para caracterizar a deformação corporal. Imageticamente, não há comparação mais adequada para expressar a deformação operante do grotesco.
A penúltima estrofe do poema também faz uma referência ao grotesco: “motín de satiresas y un coro plañidero de fantasmas!”; o “motim de sátira” é uma construção que identificamos como grotesca dentro da linguagem pelo fato dos termos serem redundantes. A sátira é um motim, porém sua ideologia é a do riso — um íntimo contato com o grotesco. Além disso, os sátiros, na mitologia grega, eram seres representados metade homens e metade bodes com um falo enorme, sempre com intenções maliciosas e lúbricas.153 A outra imagem grotesca é “um coro carpideiro de fantasmas”. O carpideiro em si é uma imagem grotesca, pois é contratado para se emocionar em um velório — chora-se por um desconhecido. No verso, “un coro plañidero de fantasmas!” se insere no que Kayser chama de grotesco romântico pela existência de “carpideiros fantasmas”. Tem-se evidentemente, neste trecho citado, a presença do fantasmagórico que remete-nos ao procedimento de construção grotesca de Edgar A. Poe.
152 “Laforgue le enseña, sobre todo, a separarse de sí mismo, a verse sin complicidad: el monólogo,
desdoblamiento del yo que habla en el yo que escucha. Rostro que se contempla en el espejo convexo de la ironía, el monólogo introduce el prosaísmo como un elemento esencial del poema”. In: PAZ, Octavio. Generaciones y semblanzas – dominio mexicano. 2ª edición. México, D. F.: Fondo de Cultura Económica, 1996, p. 181.
Quando na última estrofe do poema “Introito”154, a “alma se petrifica”, depreendemos que, a partir de uma histeria dos sentidos, ocorre uma reação concreta — a petrificação da alma. Esta, por sua vez, ao nosso ver, se insere no interior de uma busca decadentista pelo refinamento das sensações. Contudo, sabemos que essa busca pela quintessência conduz aos “paraísos artificiais”. Dentro do paraíso artificial há um encontro do feio com o belo para a construção do sublime. Assim, ocorre uma inversão grotesca que é muito comum no decadentismo — a vida imita a arte.
Em “Mi corazón se amerita...”155, o grotesco se faz vivo em diversos momentos através da autoflagelação. Assim, o principal elemento grotesco presente no poema manifesta-se por meio de elementos da estética decadentista. Há um exemplo explícito dessa ocorrência na terceira estrofe, quando o eu-poemático diz: “Yo me lo arrancaría / para llevarlo en triunfo a conocer el día”, ou seja, o coração seria arrancado e o ser também deixaria de existir.
Por fim, “Tus dientes”156 possui aquilo que Bakhtin chama de boca escancarada que engole o universo.
No entanto, a boca escancarada tem também, como já o dissemos, um papel
importante. Ela está, naturalmente, ligada ao “baixo” corporal topográfico: a boca é a porta aberta que conduz ao baixo, aos infernos corporais. A imagem da absorção e da deglutição, imagem ambivalente muito antiga da morte e da destruição, está
ligada à grande boca escancarada.157
Assim, a ocorrência do que chamamos “escancaramento” surge já na primeira estrofe do poema: “Tus dientes son el pulcro y nimio litoral / por donde acompasadas navegan las sonrisas, / graduándose en los tumbos de un parco festival”. E, nessa boca em que o sorriso navega (boca oceânica), há um processo de deformação combinado com o desejo de obter certo efeito de lirismo. De fato, a imagem em si é bela, mas o resultado deste procedimento adotado pelo poeta é a deformação da função da boca, no sentido mais restrito e original que esta possui.
154 Ver anexos. p. 237.
155 Ver anexos. p. 238. 156 Ver anexos. p. 239.
4.5. A SELEÇÃO GRAMATICAL E O SEXO COMO ELEMENTOS