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toda parte, como jogo de forças e ondas de força, ao mesmo tempo, uno e  vário,  acumulando‐se  aqui  e  ao  mesmo  tempo  diminuindo  acolá,  um  mar  em forças tempestuosas e afluentes em si mesmas, sempre se modificando,  sempre refluindo, com anos imensos de retorno, com vazante e montante  de  suas  configurações,  expelindo  das  mais  simples  às  mais  complexas,  do  mais  calmo,  mais  inteiriçado,  mais  frio  ao  mais  incandescente,  mais  selvagem,  para  o  que  mais  contradiz  a  si  mesmo  e  depois,  de  novo,  da  plenitude voltando ao lar do mais simples, a partir do jogo das contradições  de volta até o prazer da harmonia, afirmando a si mesmo como aquilo que  há de voltar eternamente, como um devir que não conhece nenhum tornar‐ se satisfeito, nenhum fastio, nenhum cansaço –: este meu mundo dionisíaco  do criar eternamente a si mesmo, do destruir eternamente a si mesmo, este  mundo  misterioso  da  dupla  volúpia,  este  meu  “além  de  bem  e  mal”,  sem  fim, se não há um fim na felicidade do círculo, sem vontade, se não há boa  vontade  no  anel  que  torna  a  si  mesmo  –  vós  quereis  um  nome  para  este  mundo?  Uma  solução  para  todos  os  seus  enigmas?  Uma  luz  também  para  vós,  ó  mais  esconsos,  mais  fortes,  mais  desassombrados,  mais  ínsitos  à  meia‐noite?  Este  mundo  é  a  vontade  de  poder12 –  e  nada  além  disso!  E 

também  vós  mesmos  sois  essa  vontade  de  poder  –  e  nada  além  disso!  (Nietzsche, 2008: 512‐513). 

   

1.2. natureza e artifício

 

Há  alguns  bons  estudos  que  se  dedicam  a  recensear  os  conceitos  de  natureza,  como  a  História  da  Ideia  de  Natureza  (Lenoble,  1969),  que  aponta  para  uma  transformação  do  conceito  à  medida  que  a  consciência  do  homem  muda  em  relação  ao  mundo,  ou  A  Natureza,  estudo  denso  de  Merleau‐Ponty  (2000),  que  resgata  da  história  diversas  concepções  de  uma  natureza  vista  como  exterior  (estóicos, humanistas, românticos, modernos etc.) para contrapor a ideia de uma  natureza viva, que “tem um interior, determina‐se de dentro; (...) [é] o primordial,  ou seja, o não‐construído, o não‐instituído (...). É o nosso solo, não aquilo que está  diante, mas o que nos sustenta” (p. 4). 

 

O  Barão  de  Holbach  (2010),  que  ocupa  um  espaço  menor  entre  os  iluministas,  apresenta em seu Sistema da natureza uma ideia especular de natureza, cujas leis  devem  servir  de  matriz  para  as  leis  morais.  Se  por  um  lado,  filia‐se  às  ideias  de  ordenação  racional  do  mundo  espelhada  na  natureza  como  condição  para  a        

12 No aforismo 36 de Para além de bem e mal, encontra‐se a mesma definição de mundo: “O mundo  visto de dentro, o mundo determinado e designado por seu ‘caráter inteligível’ – seria justamente  ‘vontade de potência’, e nada além disso. –” (Nietzsche, 1983: 275) 

felicidade, de outro limpa da natureza toda ideia de uma supra ou sobrenatureza,  reconhecendo‐a  “desprovida  de  bondade,  assim  como  de  malícia”  (p.  36),  perfazendo “o grande todo que resulta da reunião das diferentes matérias, de suas  diferentes combinações e dos diferentes movimentos que nós vemos no universo”  (p.  40).  Nessa  perspectiva,  “o  homem  é  um  todo  resultante  das  combinações  de  certas matérias dotadas de propriedades particulares, cujo arranjo é chamado de  organização  e  cuja  essência  é  sentir,  pensar,  agir  (...)”  (p.  41).  Tal  concepção  de  natureza tem por objetivo sustentar a possibilidade de uma vida moral compatível  com o ateísmo, portanto decalcada das pretensas leis naturais. 

 

Jean‐Jacques  Rousseau  é  também  nome  obrigatório  entre  os  pensadores  da  natureza, referindo‐se constantemente à ideia de natureza ou estado natural para  justificar o contrato social e traçar seu programa moral e educacional. No entanto,  como  aponta  Rosset  (1989c:  266‐268),  “Rousseau  nunca  se  deu  ao  trabalho  de  definir  precisamente  o  que  entendia  por  ‘natureza’,  palavra  cujo  sentido  inapreensível  varia  não  só  de  uma  obra  a  outra,  mas  também  de  uma  página  a  outra de uma mesma obra”. De fato, só no Discurso sobre a origem da desigualdade,  o  termo  “natureza”  aparece  148  vezes,  sem  contar  os  termos  “natural”  ou  “selvagem”,  também  bastante  recorrentes.  No  entanto,  Rousseau  jamais  pensou  que  o  homem  em  estado  de  natureza  tenha  de  fato  existido.  Disso  resulta  que  o  naturalismo de Rousseau não se dá por ter defendido uma natureza, muito menos  um  retorno  a  ela,  mas  por  ter  recusado  o  artifício.  Assim,  natureza  seria  “o  que  resta  do  ser  quando  se  elimina  o  artifício”  (Rosset,  1989c:  268).  A  insatisfação  diante do real é o primeiro passo para a ilusão de uma outra realidade, alcançada,  por  exemplo,  por  reformas  históricas.  Daí  a  importância  atual  de  Rousseau,  o  fundador da religião do homem moderno, cujo pensamento naturalista preocupa‐ se menos em dar qualquer sentido à ideia de natureza do que “fundamentar‐se na  palavra  natureza  para  recusar  tudo  o  que  existe  artificialmente,  isto  é,  para  contestar tudo o que existe” (p. 267). 

 

Na contramão dessa concepção naturalista encontra‐se o pensamento artificialista,  que recusa a ideia de natureza, como o faz, por exemplo, Lucrécio. Seu De Rerum  Natura  é  frequentemente  subestimado  por  sua  condição  poética,  pretensamente 

decalcada da doutrina epicurista. Isso se deve, principalmente, aos raros textos de  Epicuro que chegaram a nós, como as três cartas transcritas por Diógenes Laércio,  embora  estas  sejam  de  data  posterior  a  Lucrécio.  Autoriza‐se,  portanto,  a  “desconfiança,  paralelamente  à  segura  influência  de  Epicuro  sobre  Lucrécio  (ao  menos  de  uma  corrente  epicurista),  de  uma  contaminação  retrospectiva  da  doutrina de Epicuro pela de Lucrécio” (Rosset, 1989c: 162). Porque, efetivamente,  Epicuro  ainda  concebe  uma  moral  calcada  na  natureza,  “uma  vez  que  estabelece  uma distinção fundamental entre os desejos ‘naturais’ e os ‘não‐naturais’ (Carta a  Meneceu)”  (p.  163),  enquanto  “Lucrécio  é  o  único  filósofo  da  Antiguidade  (excetuando  os  Sofistas)  cujo  único  preceito  moral  foi  ignorar  a  natureza  (isto  é,  desfazer‐se da ilusão de que possa existir uma natureza)” (idem). Isso significa que,  “com  Lucrécio,  a  ideia  naturalista  é  definitivamente  abandonada:  a  natureza  não  designa outra coisa que os acasos da matéria” (p. 153), pois “nada do que existe é,  propriamente falando, natural; porém, tudo o que existe está desde já engajado em  formas artificialmente naturais” (p. 156).    Deleuze (2003: 74): “O que Lucrécio censura aos predecessores de Epicuro é terem  acreditado no Ser, no Uno e no Todo. Estes conceitos são as manias do espírito, as  formas  especulativas  da  crença  no  fatum,  as  formas  teológicas  de  uma  falsa  filosofia”. Assim como Rosset, Deleuze entende que o clinamen, conceito essencial  em  Lucrécio,  é  concebido  como  princípio  errático  primeiro  e  não  como  ruptura  fortuita de uma ordem natural e primeira. 

 

Os  dois  estudos  que  seguem  não  pretendem  retomar  a  história  do  conceito  de  natureza ou buscar sua (re)definição à luz de alguma ideologia, mas ultrapassar o  par dicotômico natureza e artifício, ao mostrar que não existe natureza no mundo,  que o naturalismo é um outro nome para a busca de uma ordem transcendente ao  acaso. Aprovar o mundo é, então, acolher o artifício, o acaso de tudo que existe.       

1.2.1. notas sobre os conceitos de natureza e cultura13   Quando teremos a natureza inteiramente desdivinizada?  Nietzsche (A Gaia Ciência, § 109)    Os conceitos de natureza e cultura são, por si só, bastante complexos, ainda mais  quando  abordados  de  maneira  dicotômica,  o  que  ocorre  com  predominância  e  frequência,  ainda  que  não  explicitamente.  Tal  dicotomia  alude  a  pressupostos,  serve  a  muitos  propósitos  e  possibilita  outros  tantos  desdobramentos,  extravasando qualquer campo do saber, seja filosófico, antropológico, psicológico,  sociológico  ou  biológico.  De  modo  mais  abrangente,  envolve  tanto  as  chamadas  ciências  humanas  quanto  as  ciências  ditas  naturais.  Como  compreender,  como  definir, como operar com essas duas noções? Como encontrar a fronteira, o limite,  o nó que separa ou que une os dois polos? 

 

Evidentemente, seria tentador proceder a um extenso mapeamento conceitual, nas  diversas  áreas  do  saber,  para  arrolar  os  grupos  de  definição  e  seus  graus  de  convergência de um conceito e de outro, bem como suas mais variadas formas de  interrelacionamento,  de  conexão,  de  trocas.  Dificilmente  encontraríamos  um  conceito de cultura que não pressupusesse o de natureza e vice‐versa, tamanha a  sedimentação do par dicotômico. 

 

Se a natureza é invocada, é muito provável que uma rede de conceitos relacionados  surjam  em  seu  socorro,  formando  uma  rede  simbólica,  um  horizonte  de  noções,  notações  ou  princípios  interdependentes  para  expressá‐la.  Assim,  natureza,  natural,  leis  da  natureza,  seleção  natural,  processos  biológicos,  código  genético,  inatismo,  ecossistema,  biosfera,  mundo  físico  etc.,  todos  eles,  de  alguma  forma,  apesar de suas diferenças, se contraporiam a um outro conjunto de noções, a uma  outra  rede  conceitual  abarcada  pela  noção  mais  ampla  de  cultura,  como  cultivo,  arte, processos simbólicos, sistemas interpretativos, produtos criados pelo homem,  hábitos, modos de vida, conjunto de valores etc. 

      

13 O texto foi originalmente publicado em  SANCHES, Janina; ALMEIDA, Rogério de; SAURA, Soraia  Chung (Orgs.). Interculturalidade, Museu e Educação. São Paulo: Laços, 2013b. p. 74‐95.  

 

De  modo  mais  amplo,  de  um  lado  estaria  uma  espécie  de  força,  de  essência,  de  qualidades, enfim, de algo, sempre impreciso, que seria responsável pela energia,  pela  anima  do  mundo  físico,  pela  origem  da  vida,  pelo  modo  como  a  vida  se  constitui,  se  reproduz,  opera.  De  outro  lado,  a  cultura  seria  produto  ou  processo,  dependendo do ponto de vista, que age sobre a natureza, que a acelera, a modifica,  enfim,  que  se  distancia  dela,  às  vezes  mesmo  até  a  agride  ou  a  transgride.  De  qualquer  forma,  a  cultura  estaria  à  parte,  seria  outro  processo  (não  natural),  se  constituiria, portanto, em outras bases. 

 

Quais  as  possibilidades  e  implicações  de  dissociar  natureza  de  cultura?  Como  poderíamos entender a constituição do mundo físico e do mundo humano sem tal  dicotomia?  Como  seria  pensar  a  existência  da  vida  sem  vê‐la  como  efeito  da  natureza e de suas leis? Como pensar a produção humana de objetos, símbolos e  sentidos  sem  atribuí‐la  a  uma  cultura  que  se  relacionaria  com  uma  dimensão  natural (ainda que fosse para diferenciar‐se dela)? 

 

A  maior  dificuldade  de  questionar  as  ideias‐força  que  gravitam  em  torno  desses  dois conceitos reside no fato de que, ao se pôr em xeque tais sedimentações, somos  obrigados a rever e descartar boa parte do que se produziu como saber na área das  ciências, das artes e, principalmente, da educação. Mas não são só os saberes que  ficarão à margem, também o poder que assistem e todo um conjunto de interesses  consolidado ao longo do tempo.   

Os  apontamentos  que  se  seguem,  divididos  em  cinco  notas,  buscam  rever  alguns  pressupostos  contidos  nos  conceitos  de  natureza  e  cultura  para  afirmar  o  pensamento do artifício como alternativa à dicotomia (menos do que substituir o  termo  cultura  ou  natureza,  a  intenção  é  quebrar  a  dicotomia),  submetendo,  portanto, tanto natureza como cultura ao acaso que constitui o artifício. 

       

1.2.1.1. primeira nota  

Qual o espaço‐tempo do homem na existência? Ou ainda: quem poderia formular e  responder  essa  questão  senão  o  próprio  homem?  Se  tomarmos  a  história  do  conhecimento, veremos que o homem se coloca no centro de suas respostas, ainda  mesmo  quando  o  questionamento  não  versa  sobre  si.  Assim,  na  tentativa  de  conhecer/explicar a natureza (physis), lança mão de uma sequência de concepções  em  que,  gradativamente,  seu  espaço‐tempo  no  mundo  diminui  de  grandeza  e  importância. 

 

Com  a  concepção  heliocêntrica,  a  Terra  deixa  de  ser  o  centro  do  universo,  assim  como  o  sistema  solar  não  é  o  único  nem  mesmo  está  no  centro.  Com  o  evolucionismo,  o  homem  deixa  de  ser  fruto  de  uma  criação  divina  e  o  centro  se  desloca para um processo mais amplo de evolução, em que a mutação e a seleção  natural são as protagonistas no teatro das origens. As investigações da psicologia e  da  psicanálise  abalam  a  noção  de  um  eu  central,  que  estaria  no  controle  dos  desejos  e  das  ações,  ampliando  o  poder  do  inconsciente  e  sua  influência  nos  desencontros  das  emoções  e  dos  pensamentos.  Os  estudos  sobre  o  DNA  relativizam o tudo é social ao mostrar que herdamos geneticamente determinadas  características  que  influem  nas  interações  sociais.  As  pesquisas  sobre  cognição  apontam  para  um  funcionamento  cerebral  que  descarta  a  concepção  de  mente  separada  do  corpo,  herdada  de  uma  tradição  da  qual  Descartes  é  o  principal  expoente. A antropologia aponta para os riscos do etnocentrismo, relativizando a  universalidade  dos  valores  ocidentais  e  abalando  consequentemente  a  visão  ocidental  de  progresso.  Enfim,  os  exemplos  são  numerosos  e  a  lista  poderia  se  alongar e ser aprofundada. Mas a conclusão é a mesma: embora o homem participe  de  um  espaço  gigantesco  na  ocupação  territorial  do  planeta,  do  ponto  de  vista  existencial  somos  cada  vez  menores,  cada  vez  menos  exclusivos  ou  especiais.  Em  outras  palavras,  estamos  cada  vez  mais  perto  da  natureza,  da  qual  julgávamos  afastados. 

 

Mas que natureza seria essa?   

Primeiramente, na herança judaico‐cristã, o homem surge como divino. Deus criou  o  mundo  (natureza),  depois  criou  o  homem,  com  corpo  (natural)  e  espírito  (divino).  Essa  dualidade  do  homem,  atualizada  posteriormente  por  Descartes  na  dicotomia corpo e mente, permaneceu até a entrada do século XX, quando passou a  ser  severamente  questionada.  E  aqui  está  um  primeiro  problema  da  dicotomia  natureza e cultura. Diríamos que a natureza humana é parte da natureza, portanto  estaria submetida às mesmas leis da natureza, às mesmas leis da biologia, com um  corpo  que  nasce,  amadurece,  envelhece  e  morre.  Mas  sobre  essa  dimensão  se  instauraria outra, de ordem cultural, fruto das ações, concretas ou simbólicas, da  mente, do espírito, responsável por transgredir a natureza, animá‐la (ou seja, dar‐ lhe alma), capaz de criar arte, de se organizar politicamente, socialmente... Enfim,  natureza  e  cultura  como  pares,  como  opostos,  como  dimensões  diferentes,  com  fronteiras,  com  ontologias,  com  propósitos  diferentes.  À  natureza  caberia  a  reprodução,  a  invariabilidade  e  a  permanência.  A  cultura  operaria  por  simbolização, diferença e educação. 

 

Assim,  por  essa  concepção  dualista,  haveria  uma  parte  do  homem  que  é  natural,  sujeita,  portanto,  ao  funcionamento  da  natureza.  Mas  haveria  outra  parte,  a  mais  importante,  que  nos  diferenciaria  da  natureza,  nos  afastaria  dela.  O  instinto  ou  desejo  sexual  seria,  portanto,  natural,  mas  não  o  amor.  A  vontade  de  sexo  seria  decorrente da necessidade de reprodução (ordem da natureza), mas a constituição  da família estaria subordinada aos laços sentimentais, cujo sentido seria fruto de  uma simbolização (reino da cultura). Do ponto de vista da espécie, seríamos todos  iguais (invariabilidade da natureza), mas na ordem das tribos e dos grupos sociais  – e mesmo da individualidade – seríamos diferentes, pois dependentes dos valores  culturais.  As  leis  da  natureza  seriam  imutáveis,  portanto  permaneceriam  ad  aeternum,  enquanto  as  convenções  humanas  dependeriam  sempre  da  educação,  dos acertos pontuais de cada sociedade etc. 

 

As implicações dessa dualidade corpo‐mente, biologia‐sociedade, natureza‐cultura  vão muito além de uma mera concepção de homem, de natureza ou de cultura, pois  a  dicotomia  assim  instaurada  legitima  uma  série  infindável  de  práticas,  políticas,  ideologias,  que  estruturam  instituições  e  conformam  modos  de  existência, 

impedindo outras e outros de se constituir ou de se validar. Não é preciso ir muito  longe,  basta  pensarmos  que  a  educação  e  a  pedagogia  se  fundamentam  nessa  dicotomia, acreditando – com maior ou menor grau, com mais ou menos aberturas  –  que  é  possível  educar  o  homem  para  agir,  se  comportar  e  pensar  dentro  de  determinados  parâmetros  (culturais),  mesmo  que  transformando  ou  negando  outros,  que  seriam  da  ordem  da  natureza.  Para  ficarmos  em  poucos  exemplos,  a  educação religiosa lista o que é pecado e ensina a ascese. Poderíamos moralmente  substituir  os  termos  por  vícios  e  virtudes.  A  educação  escolar  crê  que  pode  transformar  o  homem  e  a  sociedade,  eliminando  de  ambos  a  violência,  por  exemplo. 

 

Enfim,  nessa  concepção,  observamos  que  não  há  preocupação  em  se  definir  natureza, mas em criar um conceito que sustente o que seria da ordem do humano,  no  polo  da  cultura.  Quebrar,  portanto,  com  essa  dicotomia  representa  mais  um  descentramento na longa linha de estabelecimento da grandeza humana.    1.2.1.2. segunda nota   As representações conceituais nunca são desinteressadas. Elas se constroem como  conjunto de ideias que, de um lado, faz referência a determinadas bases e, de outro,  se constitui como referência para determinados conjuntos de ações, justificativas e  pensamentos. Assim, na dicotomia natureza/cultura, ora o pêndulo recai sobre um  ou  outro  polo,  cujos  desdobramentos  podem  servir  a  numerosos  usos  e  concepções. 

 

Em  defesa  da  sobredeterminação  cultural,  são  acusados  os  riscos  de  um  determinismo biológico. Assim, segundo Laraia (2001: 15),    Os antropólogos estão totalmente convencidos de que as diferenças genéticas  não são determinantes das diferenças culturais. (...) Qualquer criança humana  normal pode ser educada em qualquer cultura, se for colocada desde o início  em situação conveniente de aprendizado.    Mesmo as diferenças no comportamento de homens e mulheres seriam de ordem  cultural  e  não  biológica.  Portanto,  seria  a  educação  diferenciada  a  responsável 

pelas  diferenças  de  comportamento,  como  na  divisão  do  trabalho  ou  no  cuidado  com os filhos. 

 

Duas  são  as  implicações  dessa  visão:  a  primeira  garante  a  igualdade  entre  os  homens,  a  segunda  amplifica  as  possibilidades  da  educação.  Haveria,  portanto,  uma  unidade  da  espécie  humana  (igualdade),  sobre  a  qual  agiriam  as  pressões  culturais  na  modelagem  dos  comportamentos  e  simbolizações  (diferenciação  cultural), a ser realizada pela educação. 

 

Para Geertz (apud Laraia, 2001: 62), 

 

a  cultura  deve  ser  considerada  “não  um  complexo  de  comportamentos  concretos  mas  um  conjunto  de  mecanismos  de  controle,  planos,  receitas,  regras, instruções (que os técnicos de computadores chamam programa) para  governar  o  comportamento”.  Assim,  para  Geertz,  todos  os  homens  são  geneticamente  aptos  para  receber  um  programa,  e  este  programa  é  o  que  chamamos  de  cultura.  E  esta  formulação  –  que  consideramos  uma  nova  maneira de encarar a unidade da espécie – permitiu a Geertz afirmar que “um  dos  mais  significativos  fatos  sobre  nós  pode  ser  finalmente  a  constatação  de  que  todos  nascemos  com  um  equipamento  para  viver  mil  vidas,  mas  terminamos no fim tendo vivido uma só!” 

 

Nesse tipo de visão, a natureza humana seria sua destinação cultural, possibilitada  pelas  características  biológicas  (postura  ereta  e  constituição  cerebral,  por  exemplo),  sobre  as  quais  a  cultura  escreveria  os  conteúdos  simbolicamente  diferenciados.  Todos  nasceríamos  com  as  mesmas  potencialidades,  embora  nem  todos  as  desenvolvessem.  O  que  se  chama  inteligência,  por  exemplo,  nas  mais  variadas  possibilidades  de  compreendê‐la  e  conceituá‐la,  seria  comum  a  todos,  embora  seu  desenvolvimento  dependesse  do  meio.  Os  “mais”  inteligentes  seriam  os que tiveram melhores condições de desenvolvê‐la, sem nenhuma predisposição  genética para tanto. 

 

De  certa  forma,  essa  visão  do  par  natureza/cultura  nos  protege  de  certos  usos  ideológicos/políticos que se pode fazer quando se considera que há uma diferença  genética entre os homens ou grupos de homens. Ninguém esquece que as práticas  nazistas  fizeram  uso  de  uma  pretensa  raça superior  para  justificar  a  perseguição  aos  judeus,  ciganos  etc.  O  preconceito  racial  também  buscou  justificativas  numa 

pretensa diferença entre as raças negra, amarela e branca.   

Essa  perspectiva  cultural  remonta  a  uma  longa  tradição  de  pensamento  que  tem  como principal representante Locke e sua metáfora da “tábula rasa”. Para o filósofo  inglês, não há ideias inatas, uma vez que o conhecimento é gerado pela experiência.  Para  a  época,  é  inegável  as  consequências  de  tal  afirmação,  que  invalidava  os  pressupostos da monarquia e da aristocracia hereditárias, por exemplo, ou mesmo  a  escravidão.  No  entanto,  como  aponta  Pinker  (2003),  é  difícil  atualmente,  a  par  das pesquisas genéticas, cognitivas e sobre o funcionamento do cérebro, suster que  nascemos  tal  qual  uma  “página  em  branco”  sobre  a  qual  a  cultura,  por  meio  da  educação, escreveria nossa humanidade.    Ainda segundo Pinker, à ideia de tabula rasa somaram‐se outras duas. A primeira é  a do bom selvagem, atribuída a Rousseau, e a segunda, a dualidade mente e corpo,  como aparece em Descartes, e que Gilbert Ryle chama ironicamente de “o fantasma  na máquina”, aludindo ao fato de que haveria no homem uma alma que sobrevive a  seu corpo.   

Quanto  à  questão  do  bom  selvagem,  Rousseau  (1987)  estipula  um  pressuposto  necessário  para  se  compreender  a  origem  das  desigualdades.  Esse  pressuposto  seria  o  homem  em  “puro  estado  de  natureza”,  no  qual  imperaria  a  bondade.  Enquanto os homens não dependiam de outros, ou seja, podiam se aplicar a obras  que  um  só  podia  fazer,  “viveram  livres,  sãos,  bons  e  felizes”.  Quando  o  homem  passou  a  depender  da  ajuda  de  outro,  a  igualdade  desapareceu,  surgindo  a  propriedade, a escravidão e a miséria. 

 

Quanto  ao  fantasma  na  máquina,  trata‐se  da  crença  de  que  a  mente  e  o  corpo,  embora  interligados,  são  de  natureza  diferentes.  O  corpo  morre,  mas  a  alma,  a  mente,  continua  a  funcionar,  pois  não  ocupa  o  mesmo  espaço.  Essa  visão  é  explicitada  por  Descartes  (1996)  no  final  da  quinta  parte  de  seu  Discurso  do  Método,  onde  afirma  que  é  um  erro  imaginar  que  a  alma  dos  animais  seja  da  mesma natureza que a nossa, pois nossa alma seria de uma natureza inteiramente  independente  do  corpo,  não  sujeita,  portanto,  a  morrer  com  ele.  Essa  crença  em 

uma  alma  imortal  (fantasma)  presa  a  um  corpo  biológico  (máquina),  ao  lado  da