Em 1958, aos 19 anos, Steve Paxton foi estudar numa academia de dança moderna – a Connecticut College – onde Martha Graham, José Limon, Doris Humphrey e Merce Cunningham eram professores.
Em 1961, ele foi convidado a integrar a companhia de Merce Cunningham, onde permaneceu até 1964. Nesse intervalo, continuou a colaborar com outros colegas, fez seu próprio trabalho e teve um papel central na organização da JDT, em 1962. Nesse trabalho autoral inicial de Paxton, encontram-se algumas de suas críticas ao trabalho de Cunningham. Ele achava que uma das fraquezas do coreógrafo era não dizer aos bailarinos como realizar os movimentos, atentando-se apenas às qualidades formais da movimentação. Conseqüentemente, os bailarinos tinham que preencher os movimentos por si mesmos, ou deixá-los sem preenchimento – o que a maioria fazia, adquirindo um aspecto de zumbis. (Banes, 1987)
Outra crítica de Paxton era a estrutura hierárquica da companhia, que ele acreditava se espalhar por todas as performances, como também nos ensaios. Ele achava que o começo da dança moderna – o trabalho de Isadora Duncan e de Laban – significaria estruturas com liberdade e igualitárias. Decepcionou-se: o que havia era a mesma estrutura do balé, com “um pequeno giro”. Além disso, ele ainda tinha a desconfiança de que o público saía das performances achando que seu próprio movimento não valesse ser experimentado. Outro aspecto que intrigava Paxton era como transmitir movimento para dançarinos de uma maneira menos direta do que por demonstração pessoal.
Em 1970, Paxton foi um dos fundadores do Grand Union16. E a partir dessa data também, seu trabalho solo também se direcionou para afrouxar estruturas e usar improvisação em grupo, duetos e solos. No Grand Union, eles faziam performances espontâneas. Os artistas eram dançarinos em várias companhias, mas, nesse coletivo, trabalhavam sem plano, sem coreografia estabelecida. Usavam tudo o que tinham em mãos – iluminação, música, texto, vestimentas, movimento – para construir sua dança-teatro improvisada. (Smith, 2006)
Os duetos foram o centro da investigação na residência que o Grand Union fez no Oberlin College, em 1972. Ali Paxton trabalhou com um grupo de oito homens. O trabalho centrou-se na exploração dos aspectos básicos de um dueto: o que acontece quando o parceiro dá peso, levanta, carrega, espremem-se um ao outro, vão ao chão, cedem à gravidade e aspectos que dizem respeito à agressividade e à falta de ternura que existe na relação entre dois homens. Tais experimentações aconteciam exatamente em um momento em que, por todo o país, grupos reuniam-se para discutir o papel do homem, como conseqüência dos movimentos feministas. Segundo Paxton, no vídeo Fall after Newton (quedas depois de Newton), ele os estava treinando “nos extremos da orientação e desorientação” (PAXTON apud SMITH, 2006, p.48), utilizando-se de elementos do Aikido, Tai chi chuan, Yoga e Meditação.
No final desse mês de práticas, Paxton e o grupo de homens fizeram uma performance no ginásio da escola, sobre um carpete de lona, chamada Magnesium.
16 Yvonne Rainer, uma importante artista nessa revolução da dança, fez um projeto denominado Continuous Project – Altered Daily (Projeto Contínuo – Alterado Diariamente), do qual grande parte dos integrantes do Judson DT participaram. Desse projeto, nasceu um novo coletivo, que ficou junto até 1975: o Grand Union, formado por Steve Paxton, Yvonne Rainer, Simone Forti, Trisha Brown, Bárbara Dilley, David Gordon, Nancy Green, Douglas Dunn, entre outros. (Smith, 2006)
Eles começavam em pé, sem se mexer, e então começavam a sair do equilíbrio e cair pelo espaço, derramando-se sobre o carpete, rolando, ficando de pé, com colisões leves, deslizes e quedas. A performance durou cerca de dez minutos, e todos terminaram novamente de pé. (Smith, 2006) Nascia o Contact Improvisation17 (Contato Improvisação).
Nancy S. Smith participou das aulas técnicas de Steve Paxton no Oberlin College, além de ter assistido Magnesium e outras performances dos outros membros do Grand Union. Nessa ocasião, ela manifestou interesse de trabalhar com ele, se algum dia mulheres fossem incluídas em seus experimentos. Em junho do mesmo ano, Paxton convidou alguns jovens dançarinos para integrarem um grupo de performance em Nova York. Após uma semana, começaram a performar na John Weber Gallery, cinco horas diárias, por uma semana. (Smith, 2006) Depois disso, cada membro do grupo seguiu um caminho, mas muitos continuaram a pesquisar aquilo que haviam feito com Steve Paxton. Começava a disseminação dessa
técnica. Para Smith, um dos fatores preponderantes para a expansão dessa dança,
que poderia não ter sido mais do que a performance Magnesium, é a necessidade de um parceiro para que ela ocorra, e “para ter um parceiro, você precisa fazer
um”18 (SMITH, 2006, p.49, grifo e tradução meus).
Em 1975, Steve Paxton, Nancy S. Smith, Nina Little e Curt Siddal, formaram uma companhia, a Reunion (Reunião), que se uniria por muitos anos, também com outros artistas convidados, para tours pela costa oeste americana, dando aulas e fazendo performances de Contato Improvisação. Nessa época, o grupo da Reunion cogitou registrar a técnica e serem os únicos que poderiam certificar professores para dar aula da técnica. Entretanto, acharam que, se as pessoas achassem essa prática excitante, fá-la-iam de qualquer maneira, com ou sem certificação, talvez com outro nome. Por isso, desistiram do registro e da burocratizaçã o. Por outro lado, com o intuito de encorajar as pessoas a se manterem em contato e trocar informações sobre como estavam trabalhando, lançaram um informativo periódico, o
Contact Newsletter, que se transformaria na revista Contact Quaterly,
posteriormente. Afinal, não há uma didática ou pedagogia estabelecida para se
17 A tradução literal da expressão Contact Improvisation seria algo como “improvisação a partir do contato”. Entretanto, em português, foi traduzida por Contato Improvisação. Em espanhol, é Contact Improvisación.
ensinar Contato Improvisação e a troca poderia ser muito benéfica a toda a comunidade. (Smith, 2006)
Depois da primeira tour do Reunion, o número de praticantes (“contactors”) cresceu consideravelmente e, entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1980, formou-se uma série de companhias que tinham a técnica como base de linguagem:
Mangrove, Contactworks, Catpoto, Fulcrun, Freelance, entre outras, em São
Francisco, Minneapolis, Vancouver e Nova York.