As três categorias – criatividade, imaginação e fantasia – foram exploradas pelo autor em diversas obras, mas nunca realmente definidas. Vygotsky distingue a imaginação da criança da do adolescente7. Enquanto a primeira é concreta, na fase posterior surge a possibilidade de abstração, pelo desenvolvimento das Funções Psicológicas Superiores (FPS). A partir de então, o homem passa a ter a possibilidade de reelaborar e modificar uma situação concreta e transformá-la. Por isso, o “espírito-criador” é determinante na capacidade do homem de atuar no presente e fazer planos futuros.
7 Entretanto, no plano teórico-conceitual, não há como afirmar que o conceito “fantasia” refira-se a essa função nas crianças e “imaginação”, o conceito equivalente, após a adolescência (ou idade de transição). Pelo menos no que se refere à obra do autor, traduzida e publicada em português e espanhol. Ele usa ambos os conceitos, em diferentes situações, como sinônimos, como por exemplo, no seguinte trecho: “a psicologia chama imaginação ou fantasia a esta atividade criadora do cérebro humano” (VYGOTSKY, [1930]:2003, p.9).
Para Vygotsky (1930/2003), a criatividade é central à liberdade humana, já que é determinante à condição humana de fazer escolhas. É a atividade criadora que permite ao homem fazer projetos de futuro, criar e transformar o presente. E a fantasia é base do espírito criador, da capacidade de invenção: “Tudo aquilo que na vida real precisa ser elaborado com espírito criador, tudo aquilo que está relacionado com a invenção e com a criação do novo, necessita irreversivelmente da participação da fantasia“ (VYGOTSKY, 1930/2003, p.208).
A fantasia não é uma função primária do nosso aparelho psíquico e só aparecerá com o desenvolvimento das funções intelectuais superiores: dependerá do desenvolvimento da função de formação de conceitos – ou fase de aquisição da capacidade de abstração –, que aconteceria prioritariamente na idade de transição8, principalmente, pelo amadurecimento das funções intelectuais. Intimamente ligada ao desenvolvimento do pensamento abstrato (em conceitos) está a capacidade de ultrapassar-se o significado puramente concreto das experiências e conquistar a liberdade de pensamento, a capacidade de escolha e a intencionalidade de ação.
A diferença fundamental entre a fantasia do adolescente e a fantasia da criança é o grau de abstração – a base continua sendo concreta, mas é menos visual-direta que na criança. A peculiaridade da fantasia na idade de transição será precisamente a correlação entre elementos concretos e abstratos e, conseqüentemente, a possibilidade que abre de se elaborar e modificar com espírito criador os elementos que integram uma situação concreta. “A imaginação, em nosso ponto de vista, é uma atividade transformadora, criadora, que vai do concreto ao concreto novo” (VYGOTSKY, 1931/1996b, p.220). Surge, assim, uma nova unidade, a imaginação criadora.
Diferentemente da opinião tradicional, Vygotsky discorda de que a criança tenha muito mais imaginação do que o adolescente: ao contrário, a imaginação infantil é mais pobre. Entretanto, graças à sua fácil excitabilidade e falta de espírito crítico, parece-nos mais poderosa. A fantasia do adolescente é mais criativa do que a da criança, mas não é produtiva, se comparada à do adulto. O adolescente toma consciência da fantasia como uma atividade subjetiva e o conteúdo subjetivo da fantasia é identificado com o próprio mundo interno, o que confere novas possibilidades de elaboração do pensamento. Por sua vez, as imagens criativas
8 Essa concepção diferencia-o radicalmente da psicologia tradicional, que analisava essa função de maneira unilateral, relacionada apenas à vida emocional.
formadas pela fantasia do adolescente cumpririam a mesma função que cumprem as obras de arte para o adulto.
Assim como no adulto que, ao perceber uma obra de arte, por exemplo, um poema, supera seus próprios sentimentos, assim também o adolescente, graças à fantasia, pode se conhecer, compreender e plasmar em imagens criativas suas emoções e atrações. O vivido encontra sua expressão em imagens criativas. (VYGOTSKY, 1931/1996, p.222)
Do lado objetivo, a fantasia passa ao primeiro plano do processo de atividade prática que culmina com a formação de uma nova estrutura concreta, “a encarnação criativa de uma idéia”. E é graças a ela que foram criadas não só “grandes obras literárias”, como também inventos científicos e construções técnicas (VYGOTSKY, 1931/1996b, p.222). A atividade criadora, com base na imaginação, manifesta-se, igualmente, em todos os aspectos da vida cultural, possibilitando a criação artística, científica e técnica. Assim, todos os objetos da vida cotidiana são, de uma maneira ou de outra, “fantasia cristalizada” (VYGOTSKY, 1930/1996a, p.10).
A ação criadora, para Vygotsky, é motivada, primordialmente, pela necessidade do homem de se adaptar ao mundo que o rodeia. Além da necessidade e do desejo, dependerá do surgimento espontâneo de imagens, que, por sua vez, depende da experiência, das necessidades, interesses, desejos e do meio ambiente. Por isso, ele afirmará que criação existirá na vida de todos os homens igualmente e não apenas na obra de “um Tolstoi, de um Edison ou de um Darwin”. Isso porque sempre que o homem imagina, combina, modifica, cria algo novo, por mais insignificante que pareça, há criação. Ao mesmo tempo, ele traz luz à dimensão
coletiva das criações: a maior parte das invenções e dos instrumentos de uso
cotidiano pertenceria a essa classe de invenções insignificantes, que nos passam desapercebidas no dia-a-dia. (Vygotsky, 1930/2003)
Além da dimensão coletiva, há o aspecto histórico: mesmo as grandes criações ou invenções tiveram por base todo o conhecimento anterior acumulado e articulado pelos homens até então: toda criação tem um “coeficiente social”. Nesse sentido, não há inventos individuais, pois em todos há sempre “uma colaboração anônima” (VYGOTSKY, 1930/2003, p.38). Vygotsky resgata e amplia uma idéia que já aparecia no livro Psicologia da Arte, da “arte como espécie de sentimento social prolongado” (VYGOTSKY, 1925/2001, p.308). Na reação estética “o social existe até onde há apenas um homem” e tal mecanismo prolonga-se a toda atividade criadora, por seu “coeficiente social”.