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Entre os diversos perfis de turistas existentes, há uma diferenciação que permeia o espectro entre o turismo de massa ao turismo alternativo. De um lado, os turistas com capital cultural16 vinculados às formas alternativas; do outro lado, situam-se normalmente os turistas vinculados aos diversos tipos de turismo de massa (MENDONÇA, 2003). Embora seja relativamente arbitrária, esta tem sido uma divisão que tenta explicar os atuais perfis de turistas e as razões pelas quais se vinculam mais a um perfil massivo ou a um perfil alternativo, não fazendo deste modo uma distinção relacionada às características psicológicas e pessoais.

Já se encontra relativamente estabelecido na literatura do turismo uma classificação dos turistas com base em traços psicológicos, resultado do trabalho pioneiro de Plog (1973). O modelo por ele desenvolvido, denominado de “características psicográficas” dos turistas, classifica os turistas em dois tipos. Em um extremo encontram-se os “alocêntricos”, considerados aventureiros; no outro extremo encontram-se os psicocêntricos, vistos como sendo conservadores (Quadro 5) e ilustrado em imagens na Figura 10.

Quadro 5: Tipos de turistas

16 Capital cultural no sentido do texto refere-se, segundo o que o sociólogo francês Pierre Bourdieu em seu livro

Capital Cultural, Escuela Y Espacio Social (1997) fala sobre a forma de conhecimentos apreendidos por livros, cursos, diplomas, leituras em geral, etc. Podendo o legado econômico de uma família transforma-se em capital cultural.

Psicocêntricos Alocêntricos

Em destinos de viagem, preferem o que é familiar Preferem áreas não turísticas

Gostam de atividades lugar-comum Apreciam o senso de descoberta e se deleitam com novas experiências, antes que outros tenham visitado a área

Preferem lugares com sol e diversão, incluindo um

bom relaxamento Preferem destinos novos e diferentes

Baixo nível de atividade Alto nível de atividade

Preferem destinos que possam ir de carro Preferem ir de avião aos destinos Preferem acomodações turísticas formais, como

um hotel com uma estrutura bem desenvolvida, restaurantes para famílias e lojas turísticas

As acomodações devem incluir hotéis e refeições de adequados a bons, não necessariamente em

Fonte: Adaptado de Plog (1973, p.45)

Figura 10: Imagens que caracterizam o perfil egocêntricos (A) – Três Coroas/RS e o perfil psicocêntrico de turista (B) – Aparecida do Norte/SP

A: Três Coroas – RS B: Aparecida do Norte - SP Fonte: MTur (2015)

Na atual configuração da atividade turística, na qual cresce a preocupação com o desenvolvimento sustentável, que busca proteger as culturas locais e que integra populações locais e visitantes, os turistas têm se tornado mais conscientes sob destes aspectos, e, por isso, têm procurado cada vez menos lugares, hospedagens, produtos e serviços que sejam massivos, preferindo destinações alternativas a esse tipo de turismo (ZAOUAL, 2008).

Esta tendência tem acontecido não só nos produtos turísticos, mas também no mercado em geral. Observa-se esse aumento no nível de consciência entre os novos consumidores, o que tem trazido impacto para as empresas, indústrias e prestadores de serviços em geral em praticamente todo o mundo (COOPER; HALL; TRIGO, 2011).

Como se trata de um tipo de mercado, baseado na oferta e na procura, se há um novo tipo de demanda emergindo, quem não se adaptar às novas exigências, pode perder parte do mercado. O termo sustentável ainda está em processo de afirmação, mas tem ele experimentado avanços consideráveis em todos os setores da sociedade, fazendo com que as pessoas percebam

hotéis modernos ou de cadeia; poucas atrações do tipo turísticas

Preferem uma atmosfera familiar (barracas de hambúrguer, entretenimento tipo familiar, ausência de atmosfera estrangeira)

Gostam de conhecer pessoas de alguma cultura diferente ou estrangeira e se relacionar com elas Pacote de viagem completo, provido de atividades

bastante programadas Os preparativos de viagem devem incluir o básico (transporte e hotéis) e permitir liberdade e flexibilidade consideráveis

A B

que “A consumação pela consumação não parece mais importante e o homem sem qualidade da sociedade da competição industrial está à procura do sentido de sua existência” (ZAOUAL, 2008, p. 11), ou seja, na sociedade atual ,formatada para viver de consumo, sem qualidade de vida, algumas pessoas vêm procurando outras formas de encarar a vida.

A mudança de perfil entre os turistas, e entre as pessoas de uma forma geral, parece ter resultado de uma espécie de perda de referências. Muitos turistas têm procurado um sentido maior para suas viagens (ZAOUAL, 2008), tentando se relacionar com o ambiente e com as pessoas dos lugares visitados, querendo vivenciar um pouco do seu cotidiano, respeitando e valorizando as diferenças culturais. Como analisa Urry (1990, p.25) ao conceituar o turista:

O turista é uma espécie de peregrino contemporâneo, procurando autenticidade em outras ‘épocas’ e em outros ‘lugares’, distanciados de sua vida cotidiana. Os turistas demonstram um especial fascínio pelas ‘vidas reais’ dos outros, que, de certo modo, possuem uma realidade difícil de descobrir em suas próprias experiências.

De alguma maneira, esses turistas alinhados ao turismo alternativo, parecem procurar um sentido de pertencimento, um intercâmbio cultural maior com as destinações visitadas. Eles também buscam ser mais ativos e solidários com os destinos visitados. Parece sintomático desse aparente mal-estar que muitas pessoas experimentam nas sociedades capitalistas atuais, pois “[...] esse novo tipo de turista tem procurado não mais só a contemplação da beleza cênica dos lugares, ele tem procurado qualidade, relações e sentido para suas viagens” (ZAOUAL, 2008, p. 10). Sendo assim, áreas dotadas de singularidades físicas, sociais e culturais apresentam um grande potencial a ser explorado pelo turismo. Esse é o caso da faixa intertropical do planeta, entre elas a América do Sul e Central, que representa uma vasta parte da Terra atendendo a esse pré-requisito de singularidade, tanto do ponto-de-vista ecossistêmico quanto sociocultural.

Na opinião de Mendonça (2003, p. 30), estes turistas são na verdade viajantes, pois “Só o viajante pode, sendo sujeito de seu próprio destino, conceber o outro como sujeito e utilizar a experiência da viagem para um enriquecimento de experiência vivida e para uma ampliação de sua visão de mundo”. São pessoas que possuem mais conexão com as comunidades que visitam e tentam contribuir de algum modo para o seu desenvolvimento.

Por outro lado, as comunidades locais também têm procurado participar de modo mais ativo da gestão de atividades econômicas em seus territórios, percebendo que o monopólio do turismo, principalmente vinculado ao turismo de massa, tem trazido mais impactos negativos do que impactos positivos para as suas vidas. Zaoual (2008, p. 4) interpreta essa mudança como

resultado do “[...] desejo de um diálogo de sentidos entre visitantes e os visitados” (ZAOUAL, 2008, p. 4).

Na área da Rota Ecológica pode-se encontrar variações entre os dois extremos de tipos de turistas. Os estabelecimentos são diferenciados do perfil de massa, porém muitos visitantes se isolam nos meios de hospedagem e não mantém contato com o seu entorno, sendo assim parecidos com o comportamento do turista massivo.

1.4 Lugar e a Percepção das Comunidades Locais