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– INNLEDNING

O Códice Zouche-Nuttall se encontra no Museu da Humanidade, ramo do Museu Britânico de Londres. É formado por 16 tiras de pele de veado unidas em seus extremos com uma extensão de 11.41m. As folhas ou lâminas que o constituem resultam em dobras feitas na pele.

O número total de lâminas em ambos os lados são 47, embora nem todas tenham sido pintadas. As páginas pintadas de ambos os lados eram preparadas com uma camada de estuco24 o que permitia também efetuar correções posteriores.

O que se pode afirmar atualmente a respeito de como esse documento chegou à Europa é que algum frei dominicano pode tê-lo levado para a biblioteca do convento de sua ordem, no Monastério de San Marco, em Florença na Itália e posteriormente para Roma para ser estudado. De acordo com Anders; Garcia; Jansen (1992), as glosas em latim, presentes em algumas páginas do manuscrito e os equívocos conceituais nelas expressas, atestam o estudo e a posse do Códice Zouche-Nuttal por essa ordem religiosa.

O rico político inglês Jonh Temple Leader adquiriu o documento como presente para Robert Curzon, 14º Barão Zouche, colecionador de livros e antiguidades, através de um pacote enviado pela Missão Britânica em Florença. O filho do Barão Zouche herdou o manuscrito e, estando em dificuldades financeiras, doou o Códice ao Museu Britânico em 1876 onde ele ficou sob custódia de Sir Edward Thompson. Em 1890, a pesquisadora americana Zélia Nuttall, sabendo da existência do manuscrito e de sua saída da Itália, rastreou

24 Massa com gesso branco e água. (MOLINER, Maria. Dicionário de uso del español. 2.ed. Madri: Gredo, 1998).

Figura 2: Imagem do Códice Zouche – Nuttall. Disponível em: <http://www.famsi.org /research/pohl/jpcodices/index.html> acesso em: 23 de novembro de 2008.

seu paradeiro e, em 1902, obteve permissão para estudar e publicar a primeira edição fac- símile com apoio do Museu Peabody de Harvard. Um artista anônimo foi contratado e copiou o manuscrito imitando as cores originais, publicando-o em seu formato original (MILLER; NUTTALL, 1975 – Tradução nossa). Em homenagem à família do Lorde Zouche, que doou o Códice e à pioneira Zélia Nuttall, o Códice recebeu o nome Zouche-Nuttall.

Caso (1977) foi quem primeiro indicou a origem do manuscrito na Mixteca Alta, porém, não se tem certeza de que área da Mixteca Alta. O fato de o lado reverso que relata a biografia do Ocho Venado ter sido pintado primeiramente, o destaque dado a Tilantongo na carreira de Ocho Venado, o descaso com a entronização em Tututepec e o fato de a narrativa desse rei ter sido escrita antes das genealogias de Teozacualco e Zaachila no anverso, fazem crer que, ao contrário do que se acreditava, o Códice Zouche-Nuttall seja originário de Tilantongo e não de Teozacualco e responda à necessidade de legitimação dos descendentes de Ocho Venado, em especial o ramo de Tilantongo em decadência. Bourdieu (1989) afirma que os sistemas simbólicos distinguem-se conforme produzidos ou apropriados pelo grupo ou produzidos por especialistas. Assim, pensamos a apropriação do Códice na sociedade mixteca conforme Chartier (2002), isto é, como uma história social dos usos e interpretações, relacionados a determinações inscritas nas práticas que o produziram, considerando-se também os processos que sustentam operações de construção do sentido. Desconhece-se a data exata da confecção desse escrito, porém se sabe que as genealogias ali registradas, de acordo com Caso (1977) se estendem do século IX ao século XV. Zélia Nuttall, a primeira a reconhecer o caráter histórico do manuscrito, propôs uma numeração de páginas que considerava as cenas que ocupavam duas páginas no fac-símile de 1902 e denominou as páginas 1-42 de lado anverso e 43 a 84 de reverso.

O Museu Britânico, ao examinar e inventariar o documento enumerou sem considerar a primeira edição, seguindo a seqüência de páginas. Assim, o Códice ficou com dupla numeração que diverge em certas páginas.

Anders; Garcia; Jansen (1992) apontam que Nancy Troike ao analisar o documento, viu que a tinta do lado anverso, considerado o primeiro a ser pintado, havia penetrado na tira de pele transparecendo no reverso. Além disso, percebeu também que, no lado anverso, a cor verde estava preservada, o que não ocorrera no reverso. Desse modo, concluiu que o anverso não era o lado inicial do Códice e que ele havia sido pintado após o lado reverso. “The painting technique of the reverse is different from that of the observe. I found no evidence of

preparatory red outlines” (MILLER; NUTTALL, 1975, p. xiii)25. Lado anverso e reverso podem ser considerados dois documentos diversos. O anverso registra a genealogia de alguns dos senhorios proeminentes da Mixteca, e como destacam Anders; Garcia; Jansen (1992) enfatizam os laços genealógicos dos governantes, sua origem sagrada, que era relembrada com rituais envolvendo símbolos de poder dinástico.

Os autores Anders; Garcia; Jansen (1992) consideram que o Códice Zouche-Nuttal em seus capítulos e subcapítulos não representam partes de uma narração coerente e sim unidades mais ou menos independentes entre si. As alternâncias existentes, sejam de autor ou estilo, e o uso de diferentes convenções pictográficas de um capítulo para outro, além de vestígios do desenho inicial transparecendo sobre a cena definitiva, sugerem que ele seria uma obra inacabada, talvez uma etapa na preparação da versão final, na qual se fazia a copiação de dados e exercício de composição. Tal atividade era corriqueira nos ateliês dos tlacuilos mixtecos que copiavam e reorganizavam dados de diversas fontes para estudos preliminares. O risco de se pesquisar uma produção como o Códice Zouche-Nuttall, segundo Bourdieu (1989), é acabar separando essa produção do sistema de referências teóricas na qual as idéias se definiram.

A dedicação à análise da biografia do Señor Ocho Venado Garra de Jaguar, registrada no Códice Zouche-Nuttall, torna evidente qual tendência historiográfica foi privilegiada. São enfatizadas alianças, reuniões políticas, atos de obediência e reconhecimento que o diferenciam de outros Códices mixtecos que abordam esse governante. É necessário considerar, de acordo com Caso (1977), a existência de uma linguagem cerimonial e rebuscada para se referir aos senhores e os ancestrais e até, de certo sentido metafórico dessa linguagem. Para Chartier (2002), enunciados metafóricos, linguagem simbólica, sua interpretação, sempre diz mais do que diz literalmente, produzindo significações inesperadas, obrigando a considerar o discurso em seus próprios dispositivos, articulações, retóricas ou narrativas, estratégias persuasivas e critérios de recorte.

Para se entender como Ocho Venado chegou ao poder, faz necessário retomar alguns aspectos da história mixteca. Cinco Movimiento, governante da primeira dinastia de Tilantongo, se casa em segundas núpcias com Dos Hierba Quetzal Precioso, que não pertencia às famílias integrantes das principais dinastias mixtecas, e a aceitação de sua nova esposa pela nobreza de Tilantongo enfrentou resistência. Os motivos mais plausíveis para esse casamento seria a morte da primeira esposa de Cinco Movimiento e a falta de herdeiros

25 “A técnica de pintura do reverso é diferente daquela do anverso. Não foi encontrada evidência do esboço preparatório vermelho.”

homens ou o costume de contrair mais de um matrimônio. Com o novo casamento, nasce Dos Lluvia Ocañana, reconhecido herdeiro. O Códice Zouche-Nuttall na página 23 afirma que seu nascimento foi marcado por agouros de guerra, e de fato, Tilantongo foi atacado, forçando o exílio do rei. O estabelecimento de uma regência foi conseqüência do ataque a Tilantongo, como artifício para Cinco Movimiento continuar a administrar. Anders; Garcia; Jansen (1992) alertam que o Conselho de Tilantongo era quem decidia sobre assuntos de comércio, guerra e preparavam cerimônias religiosas. A página 25 nos indica a conseqüência do ataque a Tilantongo na carreira de Cinco Lagarto Lluvia-sol, pai de Ocho Venado. Nessa página, Cinco Lagarto aparece sendo nomeado sacerdote, recebendo conselhos e insígnias de três sacerdotes em traje cerimonial.

Conforme Caso (1977), a roupa cerimonial era a manta branca com detalhes em preto, e o ato de falar e aconselhar, representado pelo glifo da voluta26. Além disso, Cinco Lagarto recebe insígnias da Morte e torna-se Sacerdote da Morte, como demonstra a máscara da caveira, referência a seu título. A cerimônia que concede novo status conta com auto- sacrifício diante do Envoltório Sagrado. Caso (1977) relembra a importância política do Envoltório ou teoquimilli, que continha objetos de poder do deus patrono e dos ancestrais. O novo status é acompanhado por uma mudança em sua imagem, possível de observar na página 23. O uso da túnica cerimonial e dos adereços que remetem ao seu sobrenome sol-chuva e, ao mesmo tempo aos principais deuses mixtecos, deus sol e o patrono da Mixteca Dzahuindanda – deus da chuva. O fato é que Cinco Lagarto, pai de Ocho Venado, descendendo dos fundadores da Dinastia de Rio de la Cinta Blanca y Roja, palco do início da guerra contra Gente de Pedra e parente distante de Doce Lagartija pies flecha, poderoso 4° rei da primeira dinastia de Tilantongo, ou seja, Cinco Lagarto, além de sacerdote era de origem nobre e podia integrar o Conselho de Tilantongo.

Caso (1977) afirma que, Dos Lluvia neto de Ocho Viento Aguila ainda jovem torna-se governador de um senhorio submisso a Ocho Viento Aguila de Montanha que se abre abeja Luna, o qual se torna seu tutor. Caso (1977) menciona um conflito entre facções que apoiavam e facções contrárias a que Dos Lluvia fosse rei em Tilantongo. Cinco Movimiento morre e seu filho Dos Lluvia também morre prematuramente. Com essas duas mortes Caso (1977) confirma que Cinco Lagarto, pai de Ocho Venado, foi legitimado pelo apoio de outros senhores mixtecos. Caso (1977) destaca o recebimento do Xicolli real por Cinco Lagarto, ou

26 A voluta, figura em forma de vírgula, simboliza a palavra oral a qual pode transmitir outros conceitos como o mando e o canto quando unida a outros elementos (JOHANSSON K., Patric. La relación Palabra/Imagen em Los Códices Nahuas. Arqueologia Mexicana. México: Editorial Raices, nov-bez, 2004).

seja, a túnica vermelha, cor exclusiva da realeza em 987 d.C. O lado anverso do Códice Zouche-Nuttall também permite localizar genealogicamente Cinco Lagarto como iniciador da segunda dinastia de Tilantongo. A trajetória de Cinco Lagarto é o exemplo de consideração que Chartier (2002) faz a respeito do reflexo das mudanças no exercício do poder. Segundo o autor, essas mudanças influenciam nas mudanças das estruturas da personalidade e das instituições que governam a produção de obras e a organização das práticas. Caso (1977) chama a atenção para o fato de que uma mudança estratégica para a história mixteca ocorreu por iniciativa de Cinco Lagarto, a reforma calendárica, na qual o sistema calendárico mixteco, impregnado de influências dos povos vizinhos e até do sistema maia, é modernizado por razões astronômicas, religiosas e também para considerar o ano bissexto. Não se tem certeza da data em que tal reforma ocorreu; a data mais confiável aponta para 997 d.C

É então, que se definem os portadores de ano mixteco como o conhecemos: caña, conejo, casa e pedernal. O antigo calendário continuou por algum tempo vigente na Mixteca e sua aceitação sofreu uma resistência inicial. Contrariando o senso comum a respeito do papel unificador de Ocho Venado, foi seu pai que iniciou uma política unificadora na Mixteca, visto que Tututepec, por influência zapoteca, usava calendário antigo e Tilantongo por influência de Puebla-Tlaxcala, usava um mais moderno. A unificação calendárica facilitaria a unidade política e territorial. Beyer (2000) afirma que, para além dessa mudança imposta, deve-se considerar que os glifos calendáricos se transformaram através do tempo, variando de região a região. Tais mudanças envolvem o desenvolvimento social e cultural da região e afetam grupos maiores de signos.

Outro foco da crise foi a morte dos herdeiros masculinos de Montanha que Escupe, sobrevivendo somente a princesa Seis Mono, que viu seu senhorio disputado por parentes. Anders; Garcia; Jansen (1992) acrescentam que os príncipes de Montanha que Escupe morreram defendendo o Templo de la Muerte do ataque dos filhos de Ocho Viento. Analisando as páginas 42 e 43 do reverso do Códice, nas quais a genealogia de Cinco Lagarto Lluvia-Sol é detalhada, percebe-se que esse rei casou com Nueve Aguila Guirlanda de Flores de Cacao em 991 d.C. tendo três filhos, e posteriormente 1009 d.C., casou-se com Onze Agua Pájaro Precioso, mãe de Ocho Venado.

As mesmas páginas também contribuem para explicitar a hierarquia de cada membro da dinastia. Segundo Caso (1977) a convenção pictoglífica mixteca expressava o casamento na maneira como a primeira esposa era retratada junto ao marido. Eles ficavam sentados no assento com pele de jaguar, icpalli, que era o assento real, e o casal se postava de frente um para o outro com os braços cruzados, em sinal de respeito. Essa convenção é seguida do

primogênito e natural sucessor de Tilantongo ao lado do casal em pé, Doce Movimiento Jaguar Sangriento, bem como todos os filhos do primeiro casamento assegurando a precedência da primeira esposa e do primogênito. Somente depois, Once Agua e Ocho Venado aparecem. Once Agua não é retratada sob a convenção do casamento e Ocho Venado aparece separado do pai. A data de nascimento dos irmãos e meio-irmãos de Ocho Venado não é assinalada, somente o de Ocho Venado em 1011 d.C. e do meio-irmão, que será seu conselheiro e valoroso guerreiro Doce Movimiento, salientando o interesse em destacar somente os grandes personagens. Caso (1977) alerta que os filhos do primeiro casamento morreram e que só sobreviveu Doce Movimiento Jaguar Sangriento e a Señora Seis Lagartija.

Acredita-se que Nueve Aguila, primeira esposa de Cinco Lagarto, seja da Dinastia de Xipe do Senhorio de Zaachila, pois como afirmam Anders; Garcia; Jansen (1992), a pintura facial vermelha e a narigueira por ela utilizada era exclusiva dessa dinastia prestigiada do Pós- Clássico. Não se sabe muito a respeito de Once Agua Pájaro Precioso, mãe de Ocho Venado, a quem o Códice não dá muita atenção e que, ao que tudo indica, não era das linhagens mais importantes da Mixteca.

Sendo filho do segundo casamento e por sua mãe, apesar de nobre, pertencer a uma linhagem pouco renomada, Ocho Venado não era elegível para suceder o trono. Caso (1977) esclarece que os mixtecos eram zelosos da pureza de sangue e rígidos em suas leis sucessórias que estabeleciam que, se o senhor tivesse sobrinhos ou parentes distantes, esses não eram elegíveis à sucessão, somente os filhos e se esses tivessem inferioridade no sangue não poderiam suceder.

Portanto, Ocho Venado utilizava outros artifícios para chegar ao poder e consolidá-lo. Essas estratégias estavam sempre dentro dos limites da ideologia dominante mixteca. Para Bourdieu (1989), apesar da aparência de interesse universal, a ideologia serve a interesses particulares e a reprodução dentro e fora da classe da sua legitimidade. Manipulando com auxílio da cultura dominante, ele e seus descendentes procuraram com seus atos e a narrativa desse manuscrito reforçar essa legitimidade, pois em certa medida dominava o efeito social que suas ações teriam. A primeira ação de Ocho Venado registrada é a expedição militar da qual fez parte, conforme página 43. Anders; Garcia; Jansen (1992) contextualizam tal expedição a um período de prosperidade de Tilantongo e sua maior autonomia em relação ao de Montanha que se abre abeja Luna. Atribuem esse ocorrido a 1019 d.C. quando Ocho Venado teria oito anos. Anders; Garcia; Jansen (1972) ressaltam que, de acordo com a tradição mixteca, a maioridade era aos sete anos, quando era escolhido o complemento ao

nome calendárico, no caso, Garra de Jaguar. Caso (1977) reforça que os sobrenomes dos príncipes e princesas eram adequados com o distintivo masculino e feminino.

Ignora-se quem teria liderado a expedição, já que Ocho Venado era ainda jovem e inexperiente, mas ao que tudo indica, possivelmente seja Doce Movimiento Jaguar Sangriento seu irmão mais velho, com objetivo de expandir o poder de Tilantongo e consolidar o governo de seu pai.

A arqueologia ainda não foi capaz de relacionar totalmente glifos toponímicos listados ao longo do Códice, como por exemplo, locais conquistados nessa expedição com os locais cuja existência é conhecida na Mixteca, embora se consiga uma leitura literal do glifo. Entre os fatores que dificultam esta relação, Caso (1977) cita que os escribas mixtecas podiam representar os topônimos através de um glifo ou uma combinação deles. Podiam representar não somente povos, mas regiões inteiras e acidentes geográficos como montanhas, rios, vulcões. Dellaméa (2004) também lembra que o nome escolhido pelos mixtecos, bem como os glifos, podia se referir a aspectos característicos pelos quais tal senhorio ou acidentes era conhecido ou pelo centro cerimonial, que abrigava. León-Portilla (2004) salienta que, além de receberem um nome na língua utilizada no senhorio, posteriormente, com a chegada dos espanhóis, recebiam um nome em castelhano e com a independência, muitas cidades para tentar apagar esse passado de dependência, sofreram novas mudanças. O que se destaca no Códice Zouche-Nuttall, nessa expedição, é a atitude vencedora de Ocho Venado, portando escudo, flechas e lança-dardos em posição de ataque. Esta atitude, além de referência constante a Ocho Venado como herói e guerreiro, pode ser percebida, segundo Chartier (2002) como dispositivo, discursos formais, retóricos e visuais que deveriam persuadir o leitor. Hassig (2007) acentua o fato de que os líderes mesoamericanos não aceitavam derrotas e os registros oferecem versões oficiais, em especial das vitórias e que sempre ignoraram a participação dos soldados comuns.

Caso (1977) esclarece que a convenção mixteca para conquista consistia de flechas encravadas nos glifos toponímicos, ou templos e edifícios em chamas com o teto caído. Entre essas primeiras conquistas aparecem muitas cidades. Elas eram representadas por dois glifos, um retângulo com motivo piramidal, ñuhu em mixteco representativo de povo, e que quando acompanhado do trono forma a expressão mixteca para nação. O Códice Zouche-Nuttal na página 44 mostra que o próximo passo de Ocho Venado foi juntamente com Seis Mono, princesa de Montanha que Escupe, ir ao Templo de la Muerte ao sul em 1033 d. C., templo regido pela Señora Nueve Hierba, que era a deusa patrona dos mortos, mas, neste caso, se

trataria segundo Anders; Garcia; Jansen (1992) de um sacerdote que, representando a deusa, incorporava o poder do inframundo e podia intervir em alianças políticas e matrimoniais.

A referência ao sul na cosmogonia mixteca se referiria à morte e Anders; Garcia; Jansen (1992) relacionam Templo de la Muerte com Chacaltongo27 que se localizava ao sul da Mixteca Alta, fronteira com Mixteca da Costa. Para esses autores, ele era mais extenso que o atual município de Chacaltongo. O templo era considerado panteão subterrâneo dos reis mixtecos e personagens ilustres, entre eles, Tres Lagartija, neto de Ocho Viento de Monte que se abre abeja Luna.

Tanto Anders; Garcia; Jansen (1992) como Caso (1977) levantam a hipótese de que Ocho Venado tenha ido pedir em casamento Seis Mono e que Nueve Hierba tenha recomendado a Seis Mono casar com Once Jaguar em segundas núpcias, pois ele já era casado com a irmã de Ocho Venado. Com a morte do pai de Seis Mono, Senhor da Montanha que Escupe e seu casamento com Once Jaguar de Bulto de Xipe, o casal foi residir e reinar em Bulto de Xipe. Os autores também concordam que Ocho Venado, ao ver a morte de Tres Lagartija, em 1031 d.C, que era sacerdote Serpiente de Fuego, o mais alto cargo sacerdotal e cuja indumentária é a capa de serpente e águia e casco de tartaruga, vai reivindicar esse cargo. O cargo de sacerdote nahual, conforme Anders; Garcia; Jansen (1992) segundo a cosmogoia mixteca permite transformar-se e dominar forças animais e celestes. A capa da águia e serpente, usada então por Ocho Venado, confirma a pretensão. O autor também afirma que Ocho Venado teria reivindicado Tututepec, conforme página 44.

Caso (1977) acredita que Seis Mono também, vendo seu senhorio fragilizado, pede apoio a Nueve Hierba e que essa lhe forneceu guerreiros para instaurar a ordem em seu senhorio. Em 1030 d.C. Cinco Lagarto, pai de Ocho Venado morre. Uma das estratégias de legitimação das suas conquistas, em cena que mostra a ida ao Templo de la Muerte, é encarada como uma das primeiras manifestações públicas. Para Bourdieu (1989), a manifestação pública num discurso ou ato constitui por si só um ato de instituição, uma forma de oficialização.

Conforme a página 44, Ocho Venado e Doce Movimiento seu meio-irmão fazem oferendas. Anders; Garcia; Jansen (1992) crêem que assim teria se forjado uma aliança entre