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Innledning

In document Bacheloroppgave våren 2012 (sider 6-0)

A Massa Crítica surgiu em São Francisco, nos Estados Unidos, no ano de 1992, e foi inicialmente denominada de Commute Clot34. O termo “Massa Crítica” surgiu de uma observação feita por um estadunidense chamado George Bliss – que trabalhava no ramo de produção e venda de bicicletas – enquanto visitava a China. Ele notou que, no tráfego chinês, motoristas e ciclistas haviam adquirido um método de lidar com cruzamentos não sinalizados. O tráfego iria se “agrupar” nessas intersecções até atingir um ponto de “massa crítica” no qual 34Commute: a rota diária de casa para o trabalho; Clot: coágulo, massa, concentração.

a massa se moveria, quase que organicamente, através da intersecção. Essa descrição é relatada no documentário de Ted White35, Return of the scorcher36 (1992); pouco tempo depois de seu lançamento, o nome do coletivo foi alterado para “Massa Crítica37” (WIKIPEDIA, 2013).

A ideia fundante era a de que, a cada última sexta-feira do mês, as pessoas que se valiam da bicicleta como meio de transporte, ou que simplesmente gostavam de utilizá--la pela cidade, reunissem-se para pedalar coletivamente, numa “coincidência organizada” (LUDD, 2005).

A Massa Crítica surge como um coletivo que, na medida em que busca estabelecer alguns padrões e caminhos possíveis a seguir para a defesa, estímulo e “celebração” do ciclismo urbano, possui uma estrutura descentralizada, que rejeita a representatividade, de origem e inspiração anarquistas, distanciando-se do que as Ciências Sociais classicamente compreenderam como “movimento social”: movimentos baseados na condição de classe que se pautavam num diálogo e reivindicações que tinham no Estado seu interlocutor privilegiado e fonte de transformação social. Os “novos movimentos sociais” distanciam-se, dessa maneira, de perceber e fazer “política”, abrindo novas formas de ação e de comunicação para a transformação de padrões sociais.

Nos dois lados do Atlântico, o interesse atual na abordagem da mobilização de recursos e nas teorias de troca política parece indicar um afastamento dos paradigmas anteriores baseados nos interesses de classe ou nos valores preponderantes até agora. Reflete também o clima cultural mutante; o problema de administrar a incerteza em sistemas complexos dá um papel central às dimensões políticas de ação. Mas este ponto de vista exagera a função da política, exatamente num momento em que os movimentos estão se deslocando para um terreno não político. [...] Os conflitos sociais contemporâneos não são apenas políticos, pois eles afetam o sistema como um todo. A ação coletiva não é realizada apenas a fim de trocar bens num mercado político e nem todo objetivo pode ser calculado. Os movimentos contemporâneos também têm uma orientação antagônica, que surge de e altera a lógica das sociedades complexas. (MELUCCI, 1989, p. 54, grifo meu).

Conflito, solidariedade e rompimento com os limites do sistema estão na base do que Melucci (1989, p. 57, grifo meu) compreende como um movimento social:

[...] analiticamente um movimento social como uma forma de ação coletiva (a) baseada na solidariedade, (b) desenvolvendo um conflito, (c) rompendo os limites do sistema em que ocorre a ação. Estas dimensões permitem que os movimentos sociais sejam separados dos outros fenômenos coletivos (delinqüência, reivindicações

35 Ted White é também o diretor do curta-documentário We are traffic!, que apresenta a trajetória da Massa Crítica de São Francisco em seus primeiros anos de existência.

36 O filme, que possui cerca de 30 minutos de duração, aborda a cultura da bicicleta, o ciclismo como um modo de vida a partir de imagens e entrevistas feitas na própria China, Holanda, Dinamarca e Estados Unidos.

37“Massa Crítica” – ou simplesmente “Massa” – é tanto o nome do coletivo quanto o nome da própria bicicletada ao fim de cada mês. Não há consenso também a respeito do gênero: se masculino ou se feminino: “A Massa” ou “O Massa” são igualmente utilizados.

organizadas, comportamento de massa) que são, com muita freqüência, empiricamente associados com ‘movimentos’ e ‘protestos’. [...] O que nós costumeiramente chamamos de movimento social muitas vezes contém uma pluralidade destes elementos e devemos ser capazes de distingui-los se quisermos entender o resultado de uma dada ação coletiva.

Esses movimentos não devem ser compreendidos apenas como negações da política “tradicional” ou como busca por reivindicações objetivas; os movimentos sociais são múltiplos e têm o potencial – essa é sua grande contribuição – de gestar formas alternativas de organização e de relação social, de criar e de experienciar formas diversas de experiência social, inclusive de espaço e de tempo. Há, nessa abordagem, uma grande ênfase nas ações e nas práticas cotidianas, que possibilitariam experimentar no presente a mudança pela qual se luta, redefinindo significados para o conjunto da sociedade.

A ideia fundadora do coletivo Massa Crítica é que o “evento” – a reunião de diversos indivíduos para pedalar juntos pela cidade – ocorra de acordo com os princípios da ação direta, da espontaneidade, ocupando coletivamente e ressignificando um espaço público onde os automóveis e outras formas de transporte motorizados sejam substituídos por “pessoas” ou especificamente por meios de transporte movidos a propulsão humana.

A apropriação de estratégias como a ação direta é um fato observado em outros contextos de disputas políticas, como nas Jornadas de Junho. A heterogeneidade dos repertórios simbólicos acionados e a verdadeira bricolagem que os atores fazem a partir da apropriação de estratégias provenientes de diferentes origens são um rico ponto de análise se compreendidas como constituintes da própria expressividade e multiplicidade presentes em boa parte dos movimentos sociais contemporâneos. Essa “nova” forma de atuação dos movimentos reflete-se também nas abordagens sociológicas sobre o tema dos movimentos sociais: uma abordagem focada na relação de causas e efeitos das manifestações deixaria de lado toda a rica produção e reapropriação de símbolos e repertórios que ocorrem nesses contextos.

Uma sociologia das manifestações deveria buscar o entendimento das ações em sua expressividade, para além da relação causa e efeito. Entendê-las como práticas e linguagens dotadas de sentidos múltiplos que não podem se resumir a ausências de cidadania, racionalidade, estratégia política, direção ideológica etc. As manifestações são inclusive emanadas da própria democracia, portando novos e antigos repertórios culturais e símbolos provenientes de sociabilidades diversas. (BARREIRA, 2014, p. 161, grifo meu).

Parece claro, ainda, que “Massa Crítica” faz referência a uma perspectiva de transformação social: “massa” diz respeito a um grande número de pessoas reunidas; “crítica” refere-se à atividade de reflexão da qual é dotada a massa, representada por indivíduos que têm algo a dizer. O próprio nome evidencia que o uso da bicicleta e a prática do ciclismo urbano,

seja de forma individual, seja de forma coletiva, vão além da esfera da discussão sobre mobilidade urbana: falas38 sobre “retomar o espaço público”, “empoderar os ciclistas” e “transformar as cidades” eram recorrentes na Massa de São Francisco.

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