A estrutura descentralizada e horizontalizada, em que não há líderes ou representantes oficiais, indica uma tentativa de que, à medida que se propõe uma forma de atuação e ativismo político a partir da bicicleta, o grupo se forme e se desenvolva assentado em questões e demandas de cada cidade específica, de cada local.
Como já apontado, a Massa Crítica surgiu no ano de 1992, na cidade americana de São Francisco, “[...] como uma forma de juntar essas várias pessoas em uma festiva reivindicação do espaço público.” (LUDD, 2005, p. 141, grifo meu). A ideia de unir diversos ciclistas na última sexta-feira do mês, para simplesmente pedalarem unidos pela cidade, cunhada por alguns indivíduos isolados, foi se espalhando e tomando rapidamente dimensões até então inimagináveis. A primeira pedalada reuniu aproximadamente 60 ciclistas, número que dobrou seguidamente nos meses posteriores. Em 1993, o movimento já agrupava em média 700 pessoas por mês.
O texto Como criar uma Massa Crítica: lições e idéias da experiência de San Francisco – publicado inicialmente em forma de um livreto de livre circulação no ano de 1994 (a comunicação era feita essencialmente via panfletos nessa época; atualmente a internet tem papel crucial na comunicação e divulgação de informações) e atualmente um clássico no universo do cicloativismo – é fundamental na concepção e constituição do coletivo, ou “dos coletivos”, Massa Crítica por todo o mundo, sendo incansavelmente reproduzido por grupos de cicloativismo de diversos países. Nesse texto, fica clara a perspectiva descentralizadora e localista, sendo, muitas vezes, o encontro definido como uma “coincidência organizada”.
Com bicicletadas independentes brotando por todo lado, a manifestação começou a ganhar um caráter de movimento popular descentralizado e de larga escala. Em última análise, a Massa Crítica é apenas um monte de ciclistas pedalando por aí juntos, indo de um ponto a outro. (Alguém cunhou a expressão ‘coincidência organizada’ para descrevê-la). Mas o incrível é que, no empreendimento dessa tarefa, muitas questões importantes e interessantes vieram à tona. Por que existe tão pouco espaço em nossas cidades onde as pessoas possam relaxar e interagir, livres do incessante comprar e 38 Falas de ciclistas no documentário We are traffic!, de Ted White. Disponível em: <https://www.youtube.com/
vender da vida comum? Por que as pessoas são forçadas a organizar as suas vidas em torno da posse de um carro? Com que se pareceria um futuro alternativo? (LUDD, 2005, p. 142, grifo meu).
Imagem 8 – Uma das imagens mais conhecidas da Massa Crítica em todo o mundo - modificada
Fonte: MASSA CRÍTICA FORTALEZA (2013)
Legenda: O retângulo onde se vê “Massa Crítica Fortaleza - Ceará” foi editado por ciclistas da cidade.
A imagem acima é um dos desenhos mais conhecidos da Massa Crítica. A criação é de Andy Singer, desenhista mundialmente conhecido que tem o universo do ciclismo urbano como grande tema de trabalho. Fica clara sobretudo a perspectiva de desfazer – através do humor – o “estereótipo” que existe em torno da imagem do ciclista e mostrar que andar de bicicleta é “para qualquer um”. Na ilustração, pode-se perceber uma multiplicidade de indivíduos em suas bikes: um médico, um garçom, um bombeiro, um policial e um ladrão lado a lado, uma bailarina, um homem de terno e gravata e até mesmo um mergulhador! Contudo, não se observa ninguém com o estereótipo que poderia se esperar de um ciclista: capacete de ciclismo, short colado, sapatilhas, óculos e camisa especiais – imagem mais próxima à de um ciclista profissional ou de um competidor, mas distante da de um ciclista urbano. Além disso, ao demonstrar uma multiplicidade de pessoas diferentes ocupando a rua conjuntamente, a imagem surge como um convite à celebração da diversidade, dos encontros e dos espaços da cidade através da bicicleta, que é o elo comum entre todos nessa obra de Andy Singer.
Qualquer um pode, grosso modo, “criar” (ou “mobilizar”) uma Massa Crítica em sua cidade. Não são necessárias filiação, autorização oficial para a utilização do nome e nem mesmo obediência a estatutos e regras formais39. Há, é verdade, uma série de proposições e
39O caráter horizontal, não oficial e “anti-representatividade” da Massa Crítica acabou por gerar algumas dificuldades e tensões que culminaram na formação da Ciclovida. Essa questão será esmiuçada adiante.
dicas, muitas delas presentes no texto supracitado, de como montar uma rede de cicloativismo atuante e dinâmica; mas a forma que esta vai assumir depende largamente das questões e demandas locais e dos indivíduos específicos que vão constituir os grupos e suas interações.
A Massa Crítica não é entendida simplesmente como uma tentativa de fazer pressão para que sejam feitas mais ciclovias (embora esse objetivo faça parte) ou como um protesto contra este ou aquele aspecto da ordem social (embora tais sentimentos sejam muitas vezes expressados). Antes, cada pessoa é livre para inventar suas próprias razões para participar e é também livre para dividir essa ideia com outros. Algumas pessoas participam do evento para promover o transporte movido à energia humana como uma alternativa viável, outros buscam ser respeitados pelos motoristas e planejadores urbanos e alguns comparecem simplesmente porque gostam de andar de bicicleta e de ter uma sensação de comunhão com os outros ciclistas durante a Massa Crítica. (LUDD, 2005, p. 144, grifo meu).
O carro é símbolo “portador” de determinados valores e ideais sociais, emblema do individualismo, do poder e da autonomia (GEGNER, 2011). Vários desses valores e representações – facilmente apreensíveis em quase toda propaganda comercial de automóveis – agregados ao carro são problematizados e criticados nos discursos e nas práticas de diversos grupos cicloativistas. A quantidade de espaço urbano que o uso cotidiano do carro demanda e sua própria ineficiência40 como meio de transporte também são aspectos presentes nas críticas.
Não que esse seja um universo determinantemente “anticarro” – diversos interlocutores de minha pesquisa possuem automóvel próprio, apesar de não ser o seu principal meio de transporte: a crítica que é feita provém sobretudo de uma visão de que o modelo das grandes cidades, com seu zoneamento e divisão de funções, aliado à proeminência e à centralidade do uso do automóvel individual, produziu, e ainda produz, um espaço urbano que é cada vez mais inóspito para outras formas de deslocamento e quase que inacessível para os indivíduos que não se deslocam de forma motorizada. A ideia, assim, não
é abolir o carro, é combater a “superdependência”, ou estimular o “uso racional”, que existe em torno do automóvel individual, em favor de outras formas de deslocamento e da qualidade de vida nas cidades.
Assim, na óptica de muitos desses grupos, está explícita ou implicitamente presente uma ideia de “reconquista dos espaços da cidade” que foram progressivamente
40 Para a maioria das pessoas, não é novidade que os deslocamentos urbanos de carro estão custando cada vez mais tempo. De acordo com dados do Desafio Intermodal (2013) – evento que visa a analisar a eficiência dos modais de transporte em cada cidade –, no ano de 2013, a bicicleta fez o percurso de aproximadamente 8 quilômetros em pouco mais de 27 minutos. O modal carro particular fez o mesmo trajeto, no mesmo dia e hora, em quase 1 hora e 18 minutos, apenas 10 minutos a mais do que o participante que fez o trajeto caminhando. Disponível em: <https://www.facebook.com/CiclovidaFortaleza/photos/a.509704>. Acesso em: 28 abr. 2105.
sendo priorizados para a circulação e estacionamento de veículos automotores41 – largas avenidas, viadutos, túneis e megapontes, por exemplo, são espaços designados para a circulação acelerada, não para a permanência e fruição dos indivíduos –, com toda sorte de intervenções no espaço urbano para comportar a incessante e crescente demanda por mais espaço para os carros.
A proeminência dos carros em nossa sociedade é tão forte que, no estado de São Paulo, por exemplo, há rodovias inteiras – algumas de administração privada – nas quais o acesso é vetado a indivíduos que estejam se locomovendo em bicicletas42 ou a pé, são espaços cujo o próprio “direito” de acesso, mesmo com o pagamento de pedágio, só se dá mediante a utilização de algum veículo automotor.
No ano de 2008, a Massa Crítica de São Paulo organizou um evento para que os ciclistas fossem pedalando até o litoral, por uma dessas estradas, no intento de fazer valer seu direito de ir e vir. A polícia rodoviária barrou o acesso dos ciclistas, que não puderam completar o percurso, sendo obrigados a retornar43. Cito esse acontecimento para ilustrar tanto a centralidade e a posição privilegiada dos veículos automotores, em detrimento de qualquer outra forma de deslocamento, até mesmo nas esferas de administração e gestão do espaço “público”, como para evidenciar as práticas, discussões e tensionamentos ligados à utilização da bicicleta como forma de transporte.
Essa perspectiva de “reconquista”, presente no universo do cicloativismo em geral, refere-se a espaços tanto “físicos” como simbólicos – como os espaços de participação pública e política – e parece também relacionada a uma representação específica sobre a cidadania e o papel do indivíduo dentro da lógica de uma grande cidade.
No aniversário de um ano da Ciclovida – entidade que surgiu a partir da Massa Crítica Fortaleza –, o local da comemoração foi numa “vaga viva” produzida na Avenida Beira
41
Durante os dias de produção deste texto, passei em frente ao colégio em que estudei durante muitos anos e não me surpreendeu – apesar de entristecer – o fato de o campo de futebol que lá havia, há mais de 30 anos, ter sido substituído por um espaçoso e moderno estacionamento para carros. Um espaço que era de aprendizado, de sociabilidade, onde várias gerações descobriram as potencialidades de seu corpo, a lidar com vitórias e com derrotas, onde amizades foram feitas e mantidas, tornou-se mais um espaço de uso exclusivo para carros. Faço essa reflexão apenas para pontuar a nítida mudança que o espaço urbano sofre – tanto esteticamente como em termos de qualidade – para abrir caminho à incessante demanda por automóveis.
42
Na cidade de Vitória, algo similar aconteceu com relação a uma ponte construída: ciclistas, assim como pedestres, são proibidos de circular pela via, e uma bicicletada da Massa Crítica foi impedida pela polícia militar de prosseguir pela ponte. Os ciclistas a apelidaram de “Muro de Berlim”, por seu caráter segregador e confinador. Não deixa de ser irônico que justamente uma ponte se torne um obstáculo intransponível.
Mar44 pelos integrantes do projeto Estar Urbano45, um grupo que faz intervenções na cidade com vistas a melhorar a qualidade do espaço urbano, atraindo as pessoas para a rua. As vagas vivas são como “minipraças”, temporárias ou não, construídas no local de uma vaga para carro
– muitas vezes, sobre o asfalto mesmo –, ornamentadas com mesas, cadeiras, etc. Nesse dia, mudas de planta ornamentavam o espaço e foram posteriormente distribuídas para as pessoas que passavam pelo local. Como nesse dia também se comemorava o aniversário de Fortaleza, a distribuição de mudas apresentava uma mensagem de “cuidar da cidade”, de transformá-la num lugar agradável.
A mensagem desse tipo de intervenção é clara: “retomar” ou ressignificar os espaços da cidade que foram progressivamente sendo consumidos e destinados ao transporte individual motorizado, transformando-os em espaços de convivência e interação das pessoas, em espaços de fruição. Numa placa colocada em frente à vaga viva, um texto explicava aos passantes e interessados do que se tratava aquele espaço: “Os Parklets [ou vagas vivas] foram criados para você descansar, encontrar amigos, brincar com as crianças e descobrir de novo o prazer de estar nas ruas. Pode sentar e ficar à vontade, a praça é de todos!”
Imagem 9 – Vaga viva Beira Mar – Aniversário da Ciclovida
Fonte: Estar Urbano (2014).
44 A Avenida Beira Mar é um dos pontos turísticos mais conhecidos da capital cearense e também lugar de moradia das pessoas mais ricas da cidade. Nela, localiza-se, além de boa parte da rede hoteleira de Fortaleza, uma série de serviços de lazer. A Avenida Beira Mar é também historicamente palco de manifestações políticas na cidade, constituindo-se, de certa forma, como um palco de disputas políticas.
45O grupo não é diretamente ligado ao tema da mobilidade urbana. De acordo com a própria definição na página virtual do projeto: “As atividades do Projeto Estar Urbano, voluntárias e patrocinadas, envolvem revitalizar os espaços públicos, imaginando o potencial da rua através de intervenções que energizam e reinventam a cidade. Tem como foco estimular a presença das pessoas nas ruas”. Disponível em: <http://www.estarurbano. com.br/?page_id=5>. Acesso em: 27 abr. 2015.
O repertório simbólico do cicloativismo, destarte, traz em seu bojo reflexões que vão além das discussões sobre o trânsito e os meios de transporte; a bicicleta torna-se um símbolo sintetizador e condensador de ideais, de visões e de perspectivas – sobre a cidade e seu futuro – que se constituem, em certa medida, a partir da crítica de vários aspectos de nossa sociedade moderna, industrializada e urbana.
Um último aspecto da crítica às formas de deslocamento motorizadas, consideradas como formas prioritárias de deslocamento nas cidades, centra-se no fato de que tais veículos geram grandes riscos aos citadinos e são responsáveis por dezenas de milhares de mortes – que são naturalizadas a partir da categoria “acidentes” – todos os anos no Brasil: já é quase que lugar-comum, em textos ou apresentações de cicloativistas, a constatação de que temos, por ano, o equivalente a uma guerra do Vietnã46 – contando os mortos do lado norte- americano – em número de mortos.
Se usássemos contra as propagandas de automóvel a mesma lógica com a qual se atacam filmes, desenhos animados e música rap, há muito elas estariam proibidas [...]. Pode ser espantosa a constatação de que boa parte da classe média brasileira investe mais em carros que em casa própria. Mas ainda mais divertido é ver que essa mesma classe média, que se põe histérica ante a idéia de que o filho adolescente possa ter acesso a um cigarro de maconha ou a um videogame ‘violento’, vê com declarado orgulho que o mesmo adolescente ‘já sabe dirigir’ aos 14 ou 15 anos. Como se o carro não fosse algo muito mais perigoso que um baseado. (LUDD, 2005, p. 10).
Há uma clara perspectiva de desnaturalizar o carro e a violência no trânsito como “casualidades” ou como “acidentes”. A fala de um ciclista urbano de Fortaleza é também ilustrativa sobre o assunto, com uma abordagem que segue a mesma lógica da anterior, visando a desnaturalizar a presença massiva de carros – ou “caixa de metal dura” – nas zonas urbanas, com os prejuízos e mortes decorrentes:
O carro causa riscos gigantescos para a sociedade, riscos que se concretizam em danos reais, contínuos e permanentes, que acontecem todos os dias – como as mortes no trânsito –, e as pessoas não percebem isso. [...] A gente escolheu e tem escolhido aqui no Brasil que nossos deslocamentos sejam os mais perigosos possíveis. Por exemplo: o carro é um veículo que você não pode conduzir, quer dizer, você corre o risco de matar alguém se você estiver com sono. Antes de surgir o carro, qual era a chance de você matar alguém no deslocamento porque estava com sono? Como é que você mata alguém com sono? Inventaram uma maneira de você fazer isso, o carro. [...] Você ter uma caixa de metal dura, pesada, a 60 km/h no lugar em que as pessoas vivem, onde as crianças vão para a escola, os idosos vão fazer compras; você ter objetos de metal se locomovendo a 60 km/h é uma irresponsabilidade enorme. Inclusive essa percepção é tão distorcida que as pessoas naturalizam a morte, falam: ‘Não, o pedestre foi que não olhou, foi culpa do pedestre, daí ele morreu’. [...] Então uma vida humana se perde e aquilo é tratado pelo próprio Direito como normal, como se
46O sentido da analogia é claro: vivemos uma verdadeira “guerra” – em termos de mortos e feridos – no trânsito brasileiro.
fizesse parte do trânsito as pessoas morrerem. No nosso discurso, a gente não sabe o que dizer: ‘Ah, a pessoa morreu no trânsito? Ah, acontece, acontece’. Mas eu não acho e nunca vou achar normal que o fato de uma pessoa ter se distraído caminhando justifique a morte dela. Não justifica de jeito nenhum e não torna nada mais compreensível. Se distrair virou um crime tão grande que você pode morrer por causa disso, né. (Ciclista 2: homem, 28 anos, profissional liberal, grifo meu).