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KAPITTEL 3: METODE

3.3 A NALYSEMETODE

3.3.2 Innholdsanalyse som forskningsmetode

Sob o olhar dessa perspectiva, autores como Lefebvre, Rambaud, Wirth, Sanchez-Casas, entre outros procuram entender a relação campo e cidade de modo articulado em um mesmo momento histórico, considerando as diferentes dimensões que se estabelecem entre esses espaços, sejam elas de caráter cultural, social e econômico, ou até mesmo político, desde que possam apreendê-los em sua totalidade.

Para esses autores, o processo de Urbanização do Campo estaria ligado a conteúdos, a um modo de vida, que nasce na cidade, mas que não está restrito a ela, pois se expande através dos meios de comunicação, assim como por meio das relações sociais das pessoas do campo.

Lefebvre (2008) engajado nesse processo de urbanização, pontuou em seu livro “Revolução Urbana” uma periodização em três grandes eras como forma de explicar esse processo. A primeira grande periodização traçada por ele referia-se, a

Era Agrária, onde a oposição existente entre o campo e a cidade se pautava na divisão do trabalho, competindo ao campo o trabalho material, em oposição à cidade, com o trabalho intelectual. Já na Era Industrial, seria onde ocorreria a absorção do campo pela cidade, uma vez que, é nas cidades que se localizavam as primeiras

indústrias, obtinham-se as matérias-primas, despertando a explosão desta em direção ao campo como se fosse uma verdadeira “Revolução Urbana” 11, sendo esta, justamente, a última era chamada por ele de Era Urbana (SOBARZO, 2010).

Neste sentido, Lefebvre (2008) aponta para uma sociedade urbana nascida da industrialização, e que estaria em constituição. A explosão da qual ele faz referência se daria principalmente em decorrência das tecnologias que vão se desenvolvendo na cidade, pelo modo de vida urbano que vai penetrando o campo, e pela expansão da troca e de mercadorias que vão se firmando nos dois espaços (campo e cidade). Esse mesmo autor acredita que esta sociedade tem suas origens no processo de industrialização quando a superação da precariedade foi possibilitada pela evolução tecnológica. Contudo, afirma que nem toda sociedade tem acesso aos meios necessários para vencer tal precariedade. Logo, a chamada Sociedade Urbana é uma virtualidade, um vir-a-ser, onde o urbano se apresenta como um processo, uma realidade inacabada, sendo as relações sociais o centro da contradição.

Nessa perspectiva, é como o autor mesmo diz:

“(...) o tecido urbano prolifera, estende-se, corrói os resíduos da vida agrária. Estas palavras, o “tecido urbano”, não designam, de maneira restrita, o domínio edificado nas cidades, mas o conjunto das manifestações do predomínio da cidade sobre o campo (...) ” (LEFEBVRE, 2008, p.15).

Portanto, pode-se inferir que o urbano prolifera e corrói a vida rural, seus costumes, suas tradições, dando um sentido novo ao espaço e ao modo de vida rural.

No entanto, cabe mencionar neste trabalho que as perspectivas Lefebvrianas foram muito criticadas por alguns autores, dentre eles Eli da Veiga (2004), principalmente pelo fato de Lefebvre se basear na hipótese inicial de uma

urbanização completa da sociedade, que por sinal nos remitiria a uma ideia do fim do rural, algo, portanto, não projetado pelos outros autores aqui trabalhados.

11 Lefebvre (2008) considera o termo “Revolução Urbana” como sendo o mesmo de “Sociedade

Urbana”. Esse autor utiliza essa expressão “Revolução Urbana”, para caracterizar “o conjunto das transformações que a sociedade contemporânea atravessa para passar do período em que predominam as questões de crescimento e de industrialização” (LEFEVRE, 2008, p.16).

A título de curiosidade, Veiga (2012) em seu artigo “A atualidade da

contradição urbano-rural” traça alguns pontos da obra Revolução Urbana de

Lefebvre, publicado na década de 1970, com o intuito de convidar o leitor a refletir sobre apenas três passagens desse livro: 1) “O campo industrial substitui as

particularidades naturais, ou supostas como tais, por uma homogeneidade metódica e sistematicamente imposta” (p.42); 2) “Associadas e concorrentes, a industrialização e a urbanização devastam a natureza. A água, a terra, o ar, a luz, os elementos estão ameaçados de destruição. Os prazos finais chegarão em datas precisas. Por volta do ano 2000, com ou sem guerra nuclear, a água e o ar estarão poluídos a tal ponto que a vida tornar-se-á difícil na Terra” (p.36); 3) “A época industrial (...) se via como produtora e criadora, dominando a natureza e substituindo os determinismos da matéria pela liberdade da produção. De fato, ela era, na sua verdade, radicalmente contraditória e conflituosa. Acreditando dominar a natureza, ela a devastava, a destruía completamente” (p.160).

Com essas passagens Veiga (2012) diz que:

“É óbvio que o crescimento econômico moderno acelerou a degradação de inúmeros ecossistemas. Nem por isso se pode pensar que industrialização e urbanização devastam ou destroem completamente a natureza, ou mesmo que sejam capazes de substituir muitas das “particularidades naturais (VEIGA, 2012, p.8)”.

Veiga (2006) em outro artigo denominado “Nascimento de outra ruralidade” também critica Henri Lefebvre, pois segundo ele, esse autor manifesta forte tendência a interpretar a histórica oposição entre os fenômenos urbano-rural e cidade-campo como uma contradição de caráter antagônico ou irredutível, onde um deles tende a eliminar o outro.

Entretanto, Eli da Veiga embora não concorde e critique a tese de uma

sociedade urbana total apresentada por Lefebvre, ele também não se esquivou das

críticas levantadas por outros autores, como já fora mencionado na primeira corrente; uma vez que, ele insistia em tratar o urbanismo não como um modo de vida, mas sim com base em critérios estatísticos e morfológicos.

Pensando nisso, é necessário ressaltar que esse entendimento trazido por Lefebvre (2008) não representa, necessariamente, o desaparecimento completo do

campo nem a extensão total da urbanização por todo o mundo, mas que a superação da divisão entre cidade e campo se estabelece pela ampliação do conhecimento técnico científico. Isso ocorre a partir do momento em que o campo passa a incorporar novos sistemas de produção e tecnologia produzidos na cidade, bem como em relação ao modo de vida. Assim, as relações travadas a partir desses espaços (cidade e campo) são feitas em novos termos, ou seja, tanto a agricultura quanto a indústria são transformadas, novas formas e novos conteúdos espaciais são produzidos (BERNARDELLI, 2010).

Enfim, deixando de lado as particularidades críticas em relação a Lefebvre, outro autor importante em nossas análises do “rural” como parte integrante da “sociedade urbana” seria o Louis Wirth (1979) que discutiu o urbanismo como um modo de vida característico da cidade, mas que não se limitava a ela somente.Esse autor defende que:

“(...) a urbanização já não denota meramente o processo pelo qual as pessoas são atraídas a uma localidade, intitulada cidade, e incorporadas em seu sistema de vida. Ela se refere também àquela acentuação cumulativa das características que distingue o modo de vida associado com o crescimento das cidades e, finalmente, com as mudanças de sentido dos modos de vida reconhecidos como urbanos que são aparentes entre os povos, sejam eles quais forem, que tenham ficado sob o encantamento das influências que a cidade exerce por meio do poder de suas instituições e personalidades, através dos meios comunicação e transporte” (WIRTH, 1979, p.93- 94).

Nesta concepção do urbano como um modo de vida, percebe-se que o rural é também atingido, e daí parte a crítica do autor ao definir urbanismo com base em critérios estatísticos, conforme vistos na primeira corrente.

Dessa forma, como podemos perceber em sua fala, o modo de vida urbano não se restringe aos limites físicos da cidade, pois os desenvolvimentos tecnológicos no transporte e na comunicação assinalam uma nova época na história humana, acentuando-se o papel das cidades como elementos dominantes na nossa civilização e que estenderiam o modo de vida urbano para além dos limites da própria cidade (WIRTH, 1979).

Sendo assim, a cidade se apresenta como o espaço da diferença, da diversidade, como também da exclusão e da segregação. O urbano é colocado nessa

perspectiva como modo de vida específico de quem vive na cidade, mas que extrapola os limites da urbanização. Para o autor, a cidade exerce influência sobre o modo como as pessoas se comportam, em maior ou menor escala, mas essa influência “não é capaz de eliminar completamente modos de associação humana

que predominavam anteriormente” (WIRTH, 1979, p. 91-92).

Wirth (1979) complementa, ainda que empiricamente, três perspectivas inter- relacionadas que compreende o urbanismo como um modo de vida além de considerar os fatores físicos. A primeira diz respeito a um urbanismo baseado na perspectiva ecológica, ou seja, como estrutura física consistindo uma base da população, uma tecnologia e uma ordem ecológica, parecida com as explicações trazidas pela primeira corrente. A segunda entende o urbanismo como forma de organização social envolvendo uma estrutura social característica, uma série de instituições sociais e um modelo típico de relações sociais. Na terceira o urbanismo seria como um conjunto de atitudes, de ideias e uma constelação de personalidades dedicadas a formas típicas do comportamento coletivo e sujeitas a mecanismos característicos de controle social (WIRTH, 1979).

Esse tipo de representação traçado por Wirth (1979) em relação à cidade nos remete aos aspectos levantados por Rambaud (1973), ao apresentar os contrastes que se observa entre os modos de vida que se estabelecem entre um “Campo Ruralizado” e “Campo Urbanizado”, e posteriormente utilizando das representações feitas pelos próprios rurais para descrever como eles percebem, deformam e recriam a realidade urbana.

O “Campo Ruralizado” segundo Rambaud (1973), seria marcado por fortes traços de tradição, como por exemplo, o lugar do falar pouco, utilizando-se dos “patoás”, que seriam uma espécie de dialeto, que se caracterizam pela economia de palavras em virtude do se trabalhar muito, traduzindo-se em um campo fechado sobre si mesmo, característico, ainda, de uma autonomia relativa. Ao contrário, do “Campo Urbanizado”, que se caracterizaria por meio das inter-relações e aproximação dos modos de vida estabelecidos entre a sociedade rural e a urbana, uma vez que, propiciaria ao indivíduo dialogar dentro de uma mesma linguagem dentro de parâmetros normativos mais universais.

Já se apoiando na perspectiva da força expansiva da Cultura e do modo de vida urbano sobre a “sociedade rural”, Rambaud (1973) pontua em seu trabalho a imagem que os membros de uma cultura fazem das vantagens e dos inconvenientes de outra cultura, ou seja, a representação positiva e negativa que os rurais fazem da imagem social da cidade.

Neste sentido, se de um lado, a cidade corresponderia ao local de trabalho, com benefícios e garantias sociais; de instrução, com diversidades de profissões; de qualidade educacional; distração e diversão; dinheiro; liberdade; religião; e, maior abertura de espírito a partir das relações estabelecidas com vizinhos, colegas de trabalho e comerciantes. De outro, a cidade se delimitaria como sendo o local de barulho, de problemas sociais, onde faltaria humanidade, devido principalmente à solidão dos indivíduos, a não dominação do trabalho, e onde haveria certo deslocamento da vida do lar para o trabalho, havendo pouco convívio com a família.

Vemos assim que a “representação social da cidade é parte integrante da

urbanização, e se constrói no plano cognitivo as propriedades do objeto urbano tais como as percepções do grupo rural” (RAMBAUD, 1973). Portanto, tais representações dos rurais acerca do campo e da cidade tende a mostrar o caráter relacional que os mesmos fazem de ambas, mas acima de tudo, vem destacar um aspecto muito importante da teoria de Rambaud (1973), que segundo ele, antes de existir um arcabouço típico de um campo urbanizado, materialmente, este processo se desvendaria por meio das aspirações dos indivíduos a fim de idealizarem seus projetos de vida, reforçando, por exemplo, a forma como avaliam, de modo consciente, os aspectos negativos e positivos, do que querem escolher do melhor dos dois mundos, segundo as suas experiências passadas e de suas demandas atuais.Seria o que Rambaud denominou de “canivas” que pressuporia a pré-existência de uma estrutura, tendo como elemento simbólico a tela, que seria originalmente rural.

Dessa forma, o que o autor tende a reforçar é o dinamismo do rural diante do processo de urbanização do campo, devido à força expansiva própria ao modo de vida urbano, por meio de um sistema de atitudes, condutas, objetos, valores, e pela apropriação dos bens de consumo, que propicia a “abertura de espírito” de uma sociedade.

Sendo assim, cabe ressaltar que, para Rambaud (1973), a urbanização do campo não se traduziria em algo homogeneizante ou numa completa urbanização do

campo, a ponto de cogitar o fim do rural. Pelo contrário, para o autor a noção de

urbanização recobre o conjunto dos processos pelos quais um meio rural se aproxima da paridade social e econômica com as cidades vizinhas, tanto no que se refere à renda, à mobilidade profissional e às chances de cultura ou gestão dos negócios. Seria, portanto, a integração da sociedade rural a economia e à sociedade global.

Todavia, Rambaud (1973) reconhece que a urbanização se caracteriza por especificidades de unidades espaciais com seus critérios geográficos ou demográficos mensuráveis. No entanto, para ele, levando em consideração apenas esses aspectos físicos impediriam de pensar a urbanização como uma difusão da cidade através de todo o território. Assim como, reduzir a urbanização a um processo como a industrialização, obrigando-a a colocar a especificidade da unidade espacial que é o campo. Neste último ponto citado pelo autor não poderíamos deixar de comentar que parece ele questionar Lefebvre, já que este tem recebido críticas também por tratar a urbanização como sendo algo paralelo a industrialização.

Enfim, de modo bastante esquemático, poderíamos traçar alguns pontos que Rambaud (1973) propõe com sua teoria da urbanização: (1) entender a urbanização não somente como a ação da cidade sobre o campo, nem como o aumento da densidade da população das cidades, mas a invenção de um modo de vida em vias de se tornar universal e de realizar a unidade do homem social; (2) entender que os agentes dessa transformação são tanto os moradores do campo (porque acolhem os modelos urbanos de existência e porque vivem uma relação com a natureza invejada por aqueles que estão dela privados) quanto os da cidade (porque acumulam às técnicas modernas, a riqueza, o lazer, as possibilidades de instruções e informações); (3) entender que a urbanização se apresenta como um movimento complexo, econômico, social, intelectual e afetivo externalizando o processo de diferenciação de dada sociedade, uma vez que, se reconhece que cada sociedade rural, se define ainda pela originalidade de sua cultura, pelo conjunto de comportamentos e de atitudes, valores ou regras apreendidas e organizadas em um sistema específico, por modos de vida próprios constituídos por conhecimentos, ética, maneiras de pensar, instituições e técnicas relativamente originais; (4) entender que a urbanização passa a

princípio por uma aculturação, pela interpenetração de duas subculturas através de contatos diretos ou não, contínuos ou episódicos, que provocará mudanças da sociedade em seu conjunto, isto porque a aculturação da sociedade rural à sociedade urbana se realiza entre grupos de desigual volume e, sobretudo em posição social desigual, sempre um pouco de dominado a dominante e, segundo o caso ou o momento, entre um grupo e os fragmentos da cultura do outro.

Sendo assim, poderíamos dizer com base nesse último item colocado por Rambaud (1973), que o processo de aculturação estabelecido através do estreitamento da relação da cultura urbana com a sociedade rural não se estabeleceria por uma simples série de estados sucessivos de equilíbrio, pelo contrário, se estabeleceria de forma heterogênea e diferenciada, uma vez que, as tendências contraditórias existem; podendo alguns grupos, mais que outros, dentro da sociedade manifestarem o desejo em equipar o seu modo de vida ao dos citadinos; alguns grupos introduzem as atitudes ou os valores em função de sua proximidade com a sociedade urbana, como os jovens, as pessoas que não trabalham com a agricultura, as mulheres, que se adequariam melhor à cultura urbana; outros resistem porque eles tornam-se prisioneiros de seu espaço tradicional, como os agricultores, os idosos, os homens; e às vezes o mesmo grupo oscila sucessivamente de um a outro comportamento, por exemplo, aqueles que no inverno se tornam monitores de esqui e no verão permanecem como agricultores, fragmentando os seus papéis no tempo.

Portanto, seria um processo marcado por conflitos e contradições, sendo preciso dar maior atenção às mudanças que intervêm na memória coletiva dos rurais, pois estes associam suas lembranças ao grupo e aos objetos materiais, organizando- os em um espaço delimitado; e a sociedade urbana começa por desorganizar tais memórias, antes de inseri-los em outros quadros sociais.