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atteo Realdo Colombo (1516-1559) ana- tomista natural de Cremona (Itália) foi professor de anatomia e cirurgião da Uni- versidade de Pádua (1544-1559), aluno e sucessor de Vesálio. Sua obra foi publicada sob o título de De reanatomica, onde apresentava uma descrição completa
da circulação pulmonar, e corrigia algumas omissões e erros de seu mestre.
As suas contribuições para a anatomia incluem: a identificação que a lenhte (cristalino) localiza-se na parte anterior do olho, não ao centro, como se acre- ditava; a expansão das artérias a cada pulsação; o fe- chamento da válvula pulmonar do coração durante a diástole, impedindo o refluxo sanguíneo; o fluxo do sangue desde o lado direito do coração para os pul- mões e a descrição do clitóris, chamado por Colombo de “Prazer de Vênus”, cujo descobrimento foi reivin- dicado por Gabriel Fallopius, em obra publicada dois anos depois. Kasper Bartholin, no século XVII, des- cartou ambas as descobertas, alegando que o clitóris era conhecido pelos anatomistas desde o século II a.C.
William Harvey, que estudou em Pádua uns 50 anos depois, baseou-se nos trabalhos de Colombo para sua própria teoria sobre a circulação sangüínea.
Sua descoberta do clitóris foi romanceada na obra “O anatomista” do escritor e psicanalista argentino Federico Andahazi (1997).
O clitóris é um pequeno órgão sexual erétil femi- nino. Divide-se em cabeça, corpo e pilares e localiza- se embaixo dos lábios menores e anteriores ao orifício vaginal, mas independente da uretra. O corpo deste pequeno órgão mede em torno de 2,5 a 3,5 cm de comprimento, está envolto em uma densa membrana fibrosa e dividido por um septo incompleto em duas metades simétricas, análogas aos corpos cavernosos do pênis. Anteriormente, o corpo do clitóris se estrei- ta terminando em uma glande. O prepúcio e o frênulo do corpo clitoriano continuam diretamente com os lábios menores. Posteriormente seu corpo se bifurca em duas raízes: os pilares do clitóris, depois se curva
e se estende em dois largos ramos que se inserem ao largo da porção inferior dos ossos pubianos. Como o pênis, quando é estimulado sexualmente experimenta ereção e é uma das zonas erógenas mais importantes e consta da única função de excitação e do prazer sexual da mulher. A única diferença importante entre o clitó- ris e o pênis é que a uretra da mulher não passa através do corpo do clitóris. Assim, é o único órgão exclusiva- mente sexual, porque o pênis também serve para uri- nar. O clitóris tem um tecido muito sensível, com mais fibras nervosas que qualquer outro órgão. O clitóris tem entre 4 a 8 mil terminações nervosas comprimidas em um reduzido espaço, por isso é tão sensível.
O termo clitóris origina-se termo grego “kleitoris” (pequeno monte ou colina), o qual foi introduzido sem modificação no Renascimento. O primeiro médico an- tigo a nomeá-lo foi Rufo de Éfeso (séculos I-II d.C.).
Segundo Del Priore (1999), em 1559, a descoberta de do clitóris feminino por Realdo Colombo foi digeri- da com discrição nos meios científicos, não mudava a percepção que existia, há milênios, sobre a menorida- de física da mulher. O clitóris não passava de um pê- nis miniaturizado, capaz, tão somente, de uma curta ejaculação. Sua existência apenas endossava a tese, comum entre médicos e estudiosos da física natural, de que as mulheres tinham as mesmas partes genitais que os homens só que - segundo Nemésius, bispo de Emésia no século IV - “elas as possuíam no interior do corpo e não, no exterior”. Galeno que, no século II de nossa era, esforçara-se por elaborar a mais podero- sa doutrina de identidade dos órgãos de reprodução, empenhou-se com afinco em demonstrar que a mu- lher não passava, no fundo, de um homem a quem a falta de calor vital - e portanto, de perfeição - conser- vara os órgãos escondidos. Nesta linhagem de idéias, a vagina era considerada um pênis interior, o útero, uma bolsa escrotal, os ovários, testículos e assim por diante. Ademais, Galeno invocava as dissecações rea- lizadas por Herófilo, anatomista de Alexandria, pro- vando que uma mulher possuía testículos e canais
seminais iguais aos do homem, um de cada lado do útero, só que os do macho ficavam expostos e os da fêmea eram protegidos. Tais concepções eram assu- midas pelo próprio Realdo Colombo, como pode ser percebido na sua própria descrição do órgão.
Para Laqueur (1987), as diferenças entre os sexos ou a própria idéia de dois sexos biológicos distintos é uma concepção que pode ser historicamente con- textualizada. Em algum momento do século XVIII passa-se a considerar a existência de um modelo de dois sexos, contrariamente à percepção herdada dos gregos de que haveria apenas um sexo biológico, en- quanto o gênero se apresentaria pelo menos em duas possibilidades. Nesse modelo antigo, de um sexo, ho- mem e mulher não seriam definidos por uma dife- rença intrínseca em termos de natureza, de biologia, de dois corpos distintos, mas, apenas, em termos de um grau de perfeição. Dependendo da quantidade de calor atribuída a cada corpo, ele se moldaria, em termos mais ou menos perfeitos, em um corpo de ho- mem quando o calor foi suficiente para externalizar os órgãos reprodutivos, ou em um corpo de mulher quando foi insuficiente e os órgãos permaneceram internos. As diferenças seriam de grau, compondo uma hierarquia vertical entre os gêneros: os órgãos reprodutivos vistos como iguais em essência e reduzi- dos ao padrão masculino. Ou seja, homens e mulheres seriam dotados de pênis e testículos, por exemplo. A única diferença é que na mulher esses órgãos não fo- ram externalizados. Haveria, então, um só corpo, uma só carne, à qual se atribuem distintas marcas sociais, inscrições, certificados culturais baseados em carac- teres sociais mais que biológicos e que comportam uma relação hierárquica entre seres considerados de acordo com uma escala de perfeição. Esse modelo, se- gundo o autor, prevalece até o Renascimento, quando se processa a passagem para o modelo de dois sexos, para uma biologia da incomensurabilidade, um novo dimorfismo, instituindo uma diferença radical entre homens e mulheres e não mais uma hierarquização.
Segundo Rohden (2001), o corpo feminino teria se tornado objeto da Anatomia em 1796, quando o anatomista alemão Samuel Soemmerring (1755-1830) publicou a primeira ilustração do esqueleto feminino. Antes disso, a Anatomia só se ocupava em estudar o corpo do homem.
As representações do corpo humano de Soemer- ring eram carregadas de valores culturais. Surgiram, então, supostas verdades sobre as mulheres tratando de atributos que estariam inscritos em seus corpos, naturalizando sua inferioridade. Daí emergiram categorias muito divulgadas como, por exemplo, a
mulher infantil, pois foi encontrada semelhança en- tre esqueletos de mulheres e de crianças. Da mesma forma, quando estudos revelaram que o crânio femi- nino era menor do que o masculino, concluiu-se pela inferioridade intelectual da mulher em relação ao ho- mem. Sua beleza refletiria a fragilidade física e tam- bém a predestinaria à maternidade, pois ao observar que os quadris da mulher eram mais largos que os do homem, teria ficado comprovada a inscrição que a natureza fizera no corpo da mulher, “vocacionando -o” para a maternidade (ROHDEN, 2001).
O útero teve uma importância fundamental nos estudos sobre o funcionamento do corpo da mulher, a ele eram atribuídas várias doenças como a histeria e o humor instável. Desta forma, a diferença física entre os sexos era expressa na anatomia da mulher, pois tudo refletia a tarefa passiva que a natureza lhe tinha reservado, uma vez que era vista como superior quanto a seus vasos e nervos, que lhe garantiriam uma sensibilidade particular (ROHDEN, 2001).
Segundo Rago (2002), a revista “Nova”, publicada no Brasil pela Editora Abril a partir de 1972, destina- da a mulheres da classe média urbana, divulgava a re- cente e importante descoberta: as mulheres tinham, sim, orgasmo, e este era sobretudo clitoriano, não
Figura 1: Frontispício da obra De re anatomica (COLUMBI, 1559).Figura 3: Frontispício da obra De re anatomica (1559).
Numa tradução livre do texto latino o trecho descritivo tem o seguinte conteúdo:
Essa pequena protuberância, que surge do útero perto da cobertura denominada boca da matriz, é, sobretudo, a sede do deleite da mulher; se o
apenas vaginal. O clitóris, órgão pouco falado e pou- co conhecido mesmo entre as mulheres, fazia a sua portentosa aparição de certo modo assustadora para os homens: os holofotes punham me cena o pequeno órgão que havia passado tão despercebido e desconsi- derado, por tanto tempo, pelos gêneros
O clitóris, “descoberto” em 1559, por Realdo Co- lombo, como “sede do deleite das mulheres”, era cha- mado nos textos anatômicos do século XVI de mentu- la mulieribus (pênis feminino), nympha (termo usado por Galeno), columnella (pequena coluna), crista (de galo), dulcedo amoris (delícias do amor) ou oestrum veneris (ardor de Vênus) irritamentum libidinis (aguilhão sexual) cauda muliebris (cauda da mulher); era concebido como pênis feminino (RAGO, 2002).
Numa tradução livre do texto latino o trecho des- critivo tem o seguinte conteúdo:
Essa pequena protuberância, que surge do útero perto da cobertura denominada boca da matriz, é, sobretudo, a sede do deleite da mulher; se o tocarmos descobriremos que ficou um pouco mais duro e oblongo a um tal grau que se mostra como uma espécie de membro masculino; se o esfregarmos vigorosamente com um pênis ou tocá-lo, mesmo com um dedo mínimo, sêmen mais veloz que o ar voa em nossa direção e isso devido ao prazer; sem essas protuberâncias as mulheres não sentem prazer em amplexos venéreos nem concebem ne- nhum feto. Já que ninguém tenha percebido essas projeções e os seus funcionamentos, se é permitido dar nomes às coisas descobertas por mim, ele deve ser chamado amor ou doçura de Vênus. (COLUMBI, 1559, p. 243).
A obra De re anatomica de Realdo Colombo foi publicada no ano da sua morte (1559), autorizada
Figura 2: Trecho da obra de Colombo (1559, p. 243) onde faz a descrição do clitóris
De re anatomica
Index Librorum Prohibitorum
e elogiada por ninguém menos que o Papa Paulo III (Alessandro Farnese 1468-1549). O mesmo que intro- duziu a Inquisição Romana (1542) e instituiu o índice de livros proibidos, o Index Librorum Prohibitorum, composto de uma lista de livros cuja leitura era proi- bida aos cristãos, por comprometer a fé e os costumes católicos. Assim, é pouco provável que tivesse sido censurada pela Inquisição, como consta no romance de Andahazi (1997).
Por outro lado, é curioso constatar-se que a descri- ção do clitóris do anatomista (fig.4), suas observações foram feitas não em cadáveres, como era comum na época, mas em corpos vivos de mulheres (não sabere- mos se feitas em personagens de D. Inés de Torremoli- nos ou Mona Sofia) feitas provavelmente pelo próprio autor como agente da excitação do órgão descrito. Referências
ANDAHAZI, F. O anatomista. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1997. COLUMBI, R. De re anatomica. Venetiis: Ex typographia Nicolai Beuilacquæ, 1559.
DEL PRIORE, M. Viagem pelo imaginário do interior feminino. Rev. bras. Hist., São Paulo, v. 19, n. 37, 1999.
LAQUEUR, T. Orgasm, generation, and the politics of reproductive biology”. In: C. GALLAGHER (ed.), Making of the modern body. Ber- keley: University of California Press. pp. 1-41, 1987.
RAGO, M. Os mistérios do corpo feminino, ou as muitas descobertas do “amor venéris”. São Paulo: Proj. História, n.25, 2002, pp. 181-195. ROHDEN, F. Uma ciência da diferença: sexo e gênero na medicina da mulher. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2001.