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Bedre rustet

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A partir de meados do século XIX, a impotência masculina é definida como uma categoria médica e é tratada por médicos, urologistas e venereolo- gistas, sob a forma de uma “perda da virilidade” e como causa de infertilidade masculina, e por psi- quiatras sob a categoria geral de “neurastenia se- xual”. No início do século XX, a impotência sexual masculina interessou também aos psicanalistas, que propunham dois tipos de explicação: por um lado, uma concepção intrapsíquica baseada na utilização de uma etiologia de trauma infantil e, por outro, a abertura psicossocial de Stekel, levando em conta as parceiras e normas sociais (GIAMI; NASCIMENTO; RUSSO, 2009).

Atualmente, desde o lançamento oficial do Via- gra, em 1998 (e outros concorrentes mais recentes como o Levitra e o Cialis), temos assistido à consoli- dação de uma nova era no processo de medicalização da sexualidade, em muito orientada pela presença da indústria farmacêutica. É incontável o número de pessoas que fazem uso das inovadoras tecnologias relacionadas ao desempenho sexual e que são atin- gidas por um novo e persuasivo discurso normativo em torno do sexo, expresso, por exemplo, na noção de “saúde sexual” já chancelada oficialmente pela própria Organização Mundial de Saúde (ROHDEN, 2009).

Segundo a orientação atual dos especialistas da área deve-se substituir o termo “impotência” por “disfunção erétil” para caracterizar a incapacidade de obter e/ou manter e ereção suficiente para per- formance sexual satisfatória. Além disso, promove- se também a ideia de que é uma doença orgânica tratável e também um problema de saúde pública (ROHDEN, 2009).

Os urologistas definem a disfunção erétil como: a incapacidade persistente de conseguir ou manter uma rigidez suficiente na ereção para ter uma re- lação sexual. O grau de disfunção erétil é variável e pode se situar entre uma redução parcial da rigi-

A

s primeiras indagações sobre a impotência sexual masculina surgem na Antiguidade. Entre gregos e romanos, onde a liberdade sexual era perceptível, a impotência era considerada uma verdadeira maldição, provocava profundo so- frimento e situações de humilhação entre homens. Por isso, ao longo de séculos, não faltam indicações da vontade de ereções permanentes e infatigáveis, mostrando que a obrigação da virilidade habita há tempos a nossa cultura (DEL PRIORE, 2009).

Na Idade Média, com o predomínio da visão pe- caminosa do sexo, a cobrança do papel da sexua- lidade masculina se restringia à procriação e ao autodomínio. Quando o homem era acometido por impotência, as forças demoníacas eram usualmen- te culpabilizadas. As bruxas em associação com o demônio eram acusadas de prepararem feitiços que impediam a prática normal do sexo. Empiricamen- te o tratamento medieval recomendava alimentos que causassem grande acúmulo de gases, pois se acreditava que os mesmos eram responsáveis pela ereção do pênis.

No século XVII, com a revolução científica, no- vas teorias começaram a ser formuladas para a cura do problema. Alguns teóricos formulavam tratados onde apontavam o onanismo (masturbação) como uma prática que, em longo prazo, poderia deixar o homem impotente. Um polêmico tratamento desen- volvido nessa época prescrevia a aplicação de estí- mulos elétricos no pênis.

Outros relatos do século XIX, marcado por uma forte idealização das relações afetivas, contam que o culto extremo à imagem feminina desestimula- va alguns homens a “macular” a sua amada com a prática do sexo. No início do século XX, as teorias psicológicas ganharam grande destaque no estudo dos problemas e comportamentos sexuais. A re- pressão familiar, a ansiedade e a depressão come- çaram ser colocados como novos responsáveis pela disfunção erétil.

dez peniana ou da incapacidade em manter a ere- ção e uma falta completa de ereção. Esta definição é limitada à capacidade erétil do pênis e não inclui os problemas de libido, distúrbios da ejaculação ou do orgasmo (KRANE et al., 1989 apud GIAMI; NASCI- MENTO; RUSSO, 2009).

O termo “impotência” é agora considerado como “pejorativo” e “inapropriado”, na medida em que ele pode abranger a totalidade do ciclo de resposta sexual do homem, enquanto que o termo “disfunção erétil” considera que o mecanismo de ereção é o único alvo de tratamento. A causa da impotência foi considerada principalmente psico- gênica, enquanto a disfunção erétil é considerada sobretudo orgânica. Portanto, a disfunção erétil se distingue da impotência por uma ênfase e uma focalização no campo da organicidade e por uma extensão da prevalência da ocorrência em homens, incluindo as formas menos graves. (GIAMI; NASCI- MENTO; RUSSO, 2009).

O processo de medicalização da sexualidade masculina pode ser exemplificado pelo novo con- ceito de Distúrbio Androgênico do Envelhecimento Masculino (DAEM) ou andropausa, uma “doença” que afetaria os homens a partir dos 35-40 anos de idade caracterizada pela perda da libido ou desejo sexual, diminuição de massa muscular, perda de energia, depressão, disfunção erétil entre outros sintomas, tendo como causa o decréscimo na produ- ção da testosterona (ROHDEN, 2012).

Neste contexto o surgimento do Viagra (citrato de sildenafil), medicamento do laboratório Pfizer destinado a facilitar e manter a ereção, ilustra o desenvolvimento de uma ciência molecular da se- xualidade. O Viagra é considerado um sucesso de

vendas, que vende ao menos um bilhão de dólares anualmente. É interessante constatar que se trata precisamente da construção do Viagra como um me- dicamento para tratar uma doença e não como um afrodisíaco (ROHDEN, 2009).

Os afrodisíacos

Escreve o historiador Henrique Carneiro sobre os afrodisíacos:

A busca pelos afrodisíacos está ligada ao extremo valor que a atividade sexual possui na vida humana, não apenas como um meio de propagação da espécie, mas, sobretudo, como fonte das mais fortes sensações de prazer. É o estímulo do prazer o objeto almejado pelos que usam os afrodisíacos e não o estímulo à fecundidade. [...] Os afrodisíacos são, an- tes de tudo, drogas do excesso e não da carência (CARNEIRO, 2002, p. 96).

Escreve Frei Bernardino de Sahagún (1499-1590) sobre o uso de animais como afrodisíacos no México:

[...] A cobra de chifre chamada de mazacoátl, da sua carne usam os que querem ter potência com muitas mulheres. Os que a usam em grande quantidade sempre têm o membro armado, vertem a semente e morrem disto. Existem também uns caracóis nesta terra como em Castela, chamados tam- bém de mazacoátl. Provocam a luxúria, e os que o usam sem medida, morrem disto, como se disse acima da cobra” (SAH- AGÚN, 2012, p. 292).

O médico e naturalista italiano Pietro Andrea Gregorio Mattioli (1501-1577), escreveu que “Teo- frasto menciona uma certa erva, da qual aquele que comer, poderá conhecer carnalmente setenta e duas

Quadro 1: Afrodisíacos e anafrodisíacos registrados por Carneiro (2002) em antigos herbários.

Autores Obras Afrodisíacos e anafrodisíacos

Plínio (o Antigo)

(23/24-79) Historia naturalis Rábano, raiz-forte, cenoura, alho, alho-poró, aspargos, bulbos vermelhos, anis, funcho, malva, manjericão e rinchão. Matthaeus Platearius

Século XII Liber de simplici medicina

A orquídea satírio, o gergelim, a buglossa, a semente de linho, o rinchão, o rábano, a cenoura, o grão-de-bico, a fava, a malva-de-jardim, o pinhão, a urtiga, o coco, a semente do freixo, um pequeno lagarto do deserto considerado útil para a “luxúria”.

Pietro Andrea Gregorio Mattioli (1501-1577) Comentando a obra do médico greco-romano Pedânio Dioscórides (c. 40-90 d.C.) (De materia medica).

Registra vinte e três do botânico grego e acrescenta outras catorze.

Várias destas presentes em Plínio, tais como os rábanos, bulbos, cenoura, anis e rinchão.

Bernardino de Sahagún (1499-1590)

Historia General de las cosas de Nueva España

Autores Obras Afrodisíacos e anafrodisíacos Leonhart Fuchs (1501-

1566)

De historia stirpium commentarii insignes

(1542) A urtiga, o funcho, a vinha cultivada, o anis, a menta, o agrião. Rembert Dodoens (1517- 1585) Trium priorum de Stirpium historia commentariorum imagines (1553)

A cenoura, a urtiga, o açafrão, o anis, o freixo, o satírio, o aneto. Também registra os anafrodisíacos tais como, o nenúfar, a raiz de certa orquídea, a alface, a alface selvagem, o agno casto e o salix.

Francisco Hernández de Toledo (1514–1587)

Quatro libros de la naturaleza y virtudes de las plantas y animales que estan receuidos en el uso de la medicina en la Nueva España (1615)

Xocochitl (pimenta de tabasco), camalote, holquahuitl, ahuacaquahuilt (abacate), pinahuizxihuilt, tlatlancuaye (pimenta comprida), chilli (pimenta das Indias), cohvayelli tzitzicahuazton, ololiuhqui, cempohualxochitl, cozomelmecatl, chimalacatl, tlechinolxochitl, tlaolli (milho), nochil atole (variedade de milho), matlalitzic, tlaquatzin (porco espinho), pedra bezoar de cervo.

Moyse Charas (1619-1698)

Pharmacopée royale galénique et chimique (1676)

Menciona alguns afrodisíacos femininos, tal como a “água espirituosa destilada de formigas” recomendada para “despertar e fortificar o calor natural, e dar aos homens e às mulheres coragem e vigor para o ato venéreo. O outro era o “eletuário de satírio” recomendado para o “jogo do amor”.

Jean-Baptiste de Ville

Historia das plantas da Europa e de outras utilidades que vêem da Ásia, da África e da

América (1671)* Alho-poró, o satírio (ou salepo), o rinchão, a hortelã e a urtiga. Nicolas Lemery (1645-

1715) Traité universel des drogues simples (1698)

Afrodisíacos: priápo do cervo, formigas, partes genitais do galo, o cérebro do leopardo, almíscar, âmbar, bangue, cardamomo, jaca, jaçapucaio, giesta, noz- moscada, orquídea, pinhões, pimenta-longa e gengibre.

Anafrodisíacos: agno casto, mármore, chumbo, porfírio e salix. Louis Lemery (1677-1743) Traité des aliments (1702)

Pistache, pinhões, alcachofra, menta, pêra, cogumelos, gengibre, pimenta, leite, frangos, ovos, trutas e lampreias; bangue, chocolate,cebola e ostras, celeri e âmbar gris, trufas, raias.

*Com título muito semelhante à obra de autoria do boticário franco-português João Vigier (1662–1723): Historia da plantas da Europa, e das mais uzadas que vem de Azia, de Affrica e da America (1718), que faz a prescrição dos seguintes afrodisíacos e anafrodisíacos: feijão branco (“incitam a venus”, p.642); feijão amarelo e vermelho (“acrescentam o sêmen e incitam a venus”, p.643); lentilhas (“apagam os ardores de

venus, causam sonhos medonhos”, p. 649); grão-de-bico (“causam ventosidades e incitam a lascívia”, p.651); agnus castus (“reprime os ardores de venus”, p. 830); banana Musa (“incita a luxuria”, p. 866) (VIGIER, 1718).

vezes uma mulher, até ejacular gotas de sangue”. Segundo ele “se o homem quer dar grande prazer à mulher, é preciso que ele esfregue o membro com fel do dourado, do lobo do mar, de uma perdiz ou de um galo” ou tenha “almíscar espalhado sobre o pênis”. Mattioli, baseado em Teofrasto, Discórides e Plínio, valorizou o prazer das mulheres quando menciona o satírio (Satyrium sp. Orchidaceae), por exemplo, que segundo Dioscórides poderia “es- quentar” ou “esfriar” as mulheres dependendo da parte da raiz usada, quando Mattioli escreve “as mulheres bebem a raiz mais carnuda, em leite de cabra, para se incitarem ao jogo do amor e usam da outra parte rugosa para se esfriar” (MATTIOLI apud CARNEIRO, 2002).

Com as grandes navegações européias, os pode- res das substâncias afrodisíacas correram o mundo.

Portugal era a porta de entrada desses produtos. O pequeno reino se constituiu em ponto de distri- buição das especiarias de luxo vindas do Oriente. Perfumes da China e do subcontinente asiático e saberes fitoterápicos da América se uniam para a fabricação de filtros capazes de resolver casos de impotência (DEL PRIORE, 2009).

O médico judeu-português Garcia da Orta (1500- 1568) autor da célebre obra Colóquio dos simples e drogas e coisas medicinais da Índia, publicado em Goa em 1563, foi um dos mais notáveis cronistas a perceber a importância dos afrodisíacos como es- tudioso da farmacopéia oriental. A edição portu- guesa da sua obra datada de 1891(v. 1) e 1895 (v. 2) é anotada e comentada pelo erudito botânico portu- guês Conde de Ficalho (Francisco Manuel de Melo Breyner (1837-1903).

Quadro 2: Afrodisíacos referidos por Garcia da Orta.

Colóquios Denominações de Orta Identificação Comentários

3 Ambre (âmbar) âmbar cinzento uma concreção intestinal extraída do cachalote (Physeter catodon L. Physeteridae).

“ a composição do eletuário é muito preciosa, da qual ele usa muitas vezes em mulheres e em velhos” e noutro trecho “dizem que aproveita muito para a conversação das mulheres”.(ORTA, 1891).

Usado em todo o Oriente como perfume, por sua suposta propriedade afrodisíaca (FICALHO, 1891).

7 “Altiht” ou

assafétida Ferula assafoetida L. Apiaceae “põe Razis o altiht por mesinha para as festas de Venus” e noutro trecho “toda a assafétida se escreve que não deixa o membro estar baixo”. ORTA, 1891).

Na Índia a planta é considerada aperitiva e afrodisíaca (FICALHO, 1891).

8 Bangue

(maconha) Cannabis indica Lam. Cannabaceae “muitos portugueses me disseram que o tomaram para os mesmos efeitos, em especial para as mulheres” ORTA, 1891). O seu uso na Índia é antiquíssimo. Tem numerosos sintomas descritos, entre os quais o “ursini” (o que excita os desejos sensuais) (FICALHO, 1891).

9 Benjuy (benjoim) Styrax benzoin Dryand. Styracaceae “fortifica os membros e acrescenta o coito” ORTA, 1891). 19 Cubebas Piper cubeba L. Piperaceae “são muito usadas dos mouros deitadas no vinho para ajudar

a Venus em suas bodas” e num trecho mais adiante: “os mahometistas fazem com as cubebebas a festa da rainha de Vênus” e mais adiante comenta: “porque a vitex é agnus castus e assim se interpreta, as cubebas são amigas de Vênus e o agnus castus inabilita a Vênus; e assim as suas forças e estímulos enfraquecem” ORTA, 1891).

41 Amjiam (ópio) Papaver somniferum L. Papaveraceae A virtude da imaginação ajuda muito ao deleite carnal, e como ela é superior a virtude expulsiva e obedece a ela, a virtude imaginativa, quanto mais forte, mais rápido se acaba o ato de Venus, porque manda a imaginação que é expulsiva, que deite nos testículos a semente genital, e quanto mais se imagina nisso, tanto mais rápido vai ao membro a semente; e porque os que comem este “amjiam” [ópio] estão como fora de si, acabam o ato venéreo mais tarde; e porque muitas fêmeas não deitam a semente tão ligeiro, enquanto o homem tarda, exercita ela a obra de Venus mais tarde, e em um tempo igual se acaba o ato de ambos, e por isso ajuda o comer do “amjiam”, para adiar o término do ato, já que este aperta os caminhos de onde vem a semente genital do cérebro, por causa da sua frialdade. E bem sei que isto o entendeis muito bem, mas se o escreveres como romance não parecerá uma prática muito honesta (ORTA, 1895).

45 pedra bezar bezoário “e alguns me disseram que a tomavam duas vezes por mês

para fortificar os membros principais e para serem mais poderosos nos jogos de Venus” (ORTA, 1895).

betre Piper betle L., Piperaceae “e assim a mulher que vai tratar de amores, nunca fala com o varão, sem que primeiro o traga mastigado na boca, e assim tem elas que para as bodas de Venus é o principal alcoviteiro” (ORTA, 1895).

O médico alquimista Paracelso (1493-1541), em sua obra sobre as plantas mágicas (botânica oculta) escreve sobre os seguintes afrodisíacos e anafrodi- síacos (quadro 3).

O médico holandês Guilherme Piso (1611-1678), du- rante a sua estada no Nordeste sob o governo de Nas-

sau (1638 a 1644) durante a ocupação holandesa (1630- 1654). Na sua obra sobre a medicina brasileira (PISO, [1658], 1957), registrou algumas plantas afrodisíacas. Segundo ele, “tanto a pacoba quanto à banana [...] ge- ram flatos, refrescam moderadamente e despertam o ardor sexual adormecido (PISO, 1957, p.342).

Quadro 3: Afrodisíacos e anafrodisíacos referenciados por Paracelso.

Denominações da obra Identificação Comentários

Agnocasto Vitex agnus-castus L.

Verbenaceae Paracelso chamou esta planta de satânica e empregava seus grãos em infusão para curar “os ardores da carne”.

Aristolóquia Aristolochia sp.

Aristolochiaceae o fumo dos seus grãos desata o nó da agulheta (feitiço que impede o homem de realizar o ato sexual com determinada mulher).

Artemísia Artemisa vulgaris L.

Asteraceae queimada como defumador no aposento de dormir, desata a ligadura da agulheta.

Cânhamo hindu Cannabis indica Lam.

Cannabaceae proporciona êxtases místicos, diabólicos ou extremamente eróticos.

Coentro Coriandrum sativum L.

Apiaceae com os frutos desta planta, reduzidos a pó e misturados com almíscar, açafrão e incenso, obtém-se um perfume de Vênus muito eficaz nas práticas de magia sexual.

Damiana Turnera aphrodisiaca Ward &

Vasey, Turneraceae usam-se apenas as folhas. É diurética e afrodisíaca. Sua ação fundamental consiste em ser um bom tônico nervoso, cujo efeito é duradouro. Indicada na neurastenia, nas convalescenças lentas e na impotência.

Piso também escreve sobre os “abusos de Vênus”:

Os que abusam de Vênus extinguem o ardor juvenil e se pre- param uma velhice precoce, estorvam a transpiração e a cir- culação do sangue; donde o difundirem-se facilmente cruezas no âmbito do corpo, causas de catarros no cérebro e palpita- ções no coração. Pois, o coito, aqui como em toda parte, é na- turalmente conducente a extinguir o incêndio de Vênus; mas provocado pela turgidez natural e não por uma libido vaga e intempestiva; e isso melhor à noite que de dia. Mas contanto que, neste caso, não se coma logo depois; nem àquele se siga imediatamente o trabalho com a vigília (PISO, 1957, p. 23).

O médico do rei D. João V, Francisco da Fonseca Henriques, em sua obra Ancora medicinal (1731), cita cinco plantas: a menta, o rabanete, a cenoura, o pi- nhão e o cravo, atribuindo-lhes o dom de “provocar atos libidinosos e incitar a natureza para os serviços de Vênus” (HENRIQUES, 1731).

Portanto, Desde a Atiguidade, o filtro é conside- rado um instrumento legítimo do desejo. Mas uma viragem ocorreu. O casamento monogâmico e indis- solúvel, tal como foi instituído pela Igreja Católica no século XII, era considerado um remédio contra a concupiscência. Seu objetivo fundamental era a pro- criação e os filhos; a felicidade e o desejo eram secun- dários. Prova disso é que, um século mais tarde, uma acirrada repressão se abateu sobre práticas afro- disíacas baseadas em poções, sua condenação ex- plicitando-se até no Manual dos inquisidores de Eymerich (1376) (DEL PRIORE, 2009).

A partir do século XVIII, a idéia básica de que

o amor era uma doença impõem-se sobre o domí- nio médico e moral. Os afrodisíacos não desapare- ceram dos herbários, mas os anafrodisíacos é que passam a ser prescritos. Os herbários, desde a An- tiguidade, registraram os anafrodisíacos, isto é, as substâncias com a reputação de esfriar o dese- jo sexual, dentre estas, se destaca a planta “agnus castus”, como a mais eficaz. Entretanto, a presença destes nos herbários antigos não incorria numa condenação da atividade sexual como prejudicial à saúde. Ao contrário, pressupunha-se a necessida- de regular do coito. A partir do século XVIII, in- tensificou-se nos textos médicos uma censura ao amor visto como causa de perturbação da saúde ou mesmo como uma perigosa doença contagiosa, de natureza melancólica, acreditava-se que tal doença seria de natureza inflamatória: a satiríase nos ho- mens e o furor uterino ou ninfomania nas mulhe- res (CARNEIRO, 2002).

Entretanto, o médico Raymond Stark (1983) em seu livro sobre os afrodisíacos, reconhece que os órgãos médicos oficiais de diversos países afirmam não existir esta coisa chamada afrodisíaco, ou seja, não existe nenhum medicamento cujos efeitos sejam exclusivamente relacionados ao sexo. Os supostos efeitos são devidos ao efeito placebo ou eficácia de substâncias inócuas, como conseqüência da força da sugestão (CARNEIRO, 2002).

Segundo Carneiro (2002) que a crença nos afrodisíacos provavelmente abriu caminho para a descoberta dos hormônios e para o estabelecimento da endocrinologia como área de pesquisa. As atribuir

aos testículos de diversos animais poderes afrodisía- cos o neurologista Charles-Édouard Brown-Séquard (1817-1894), no final do século XIX descobriu o hor- mônio masculino, testando extratos de testículos de animais que administrava a si próprio.

Os feitiços da impotência

Como escreve Marques (1999), o uso de recursos mágicos contra a impotência não foi monopólio das classes populares. O próprio D. João V, rei de Portugal, valeu-se de um segredo medicamentoso na tentati- va de superar a impotência que o acometeu. Apelou para o ginseng como potente afrodisíaco à revelia da censura eclesiástica que condenava essas drogas. João Curvo Semmedo (1635-1719), seu médico de câmara, não foi capaz de contê-lo nem sensibilizá-lo a usar seus preparados à base de bexiga de porco montês ou de cabra, da língua do pato ou de

...meter a parte pudenda (retraído o prepúcio) em um rabão59

grande escavado não esquecendo de fomentar os rins e o in- terseminio com a manteiga de chumbo, que João Gomes da Silveira, boticário Del rei fazia com todo primor.

Havia ainda o recurso de “chapinhar as partes pudendas com a água em que se tivesse cozido um morcego”. Não sei se o rei acabou cedendo e esses procedimentos foram em pregados, nem se surtiram efeito ou mostraram-se completamente inócuos para a gravidade do caso (MARQUES, 1999, p. 262).

Outros recursos de simpatia são descritos por Curvo Semedo, autor, de entre outras obras, da céle- bre Polyanthea Medicinal:

Um homem muito fidedigno me afirmou que estando ligado, lhe ensinaram que fosse ao mar e fizesse lançar as redes e se viesse algum peixe chamado Cabra, lhe abrisse a boca e uri- nasse dentro, e que feita esta diligência, tornasse a deitar o peixe vivo ao mar, e que fazendo-o assim, lhe tirara toda a im- potência e ficara livre de um achaque que tanto o molestava, pois sendo casado se achava incapaz para os atos conjugais. Deste caso não tenho mais certeza do que a boa opinião da pessoa que me contou, mas o que poderei dizer e afirmar com juramento, se necessário for, é que, queixando-se certo ho- mem, que sendo casado se achava incapaz para os atos do ma- trimônio, estando capacíssimo para certa meretriz, ordenei

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