4.1 Flow field simulations
4.1.4 Inlet region
Desde seu surgimento no final do século XIX, o principal produto oferecido pelas firmas de consultoria e seus consultores foi o tratamento da informação para ampliar a realização do capital, seja no nível do processo de subsunção real do trabalho ou no âmbito da concorrência. A II Revolução Industrial e o advento dos métodos tayloristas consolidaram o processo iniciado na I Revolução de separação entre trabalho manual e intelectual, por meio do contínuo parcelamento das atividades produtivas65. Este processo permitiu ao empresário retirar das mãos do trabalhador suas ferramentas de trabalho e acoplá-las em máquinas, a partir do estudo dos movimentos realizados nas atividades de produção. Na ótica das relações sociais do capitalista, “esta é uma passagem fundamental, pois um conjunto de informações sobre o processo de trabalho começou a se incorporar em mecanismos móveis, isto é, nas máquinas, cristalizando-se sob a forma social de capital fixo” (TAUILLE, 1981, p. 92).
Conforme explica Tauille (1981), o parcelamento das atividades de produção multiplicou as unidades geradoras de informações no âmbito da fábrica, uma vez que, para que o todo se completasse no final, eram necessários a supervisão, o controle e o gerenciamento dos diversos momentos da produção. Assim, instaura-se uma estrutura verticalizada e hierarquizada da divisão do trabalho e há um descolamento do trabalho manual do intelectual. “Nitidamente, passou a haver uma tendência de se pensar o processo de produção ‘de fora’ dele, surgindo aos poucos as engenharias de produto e processo” (Idem, p. 93), que vai culminar com a chegada da chamada “administração científica do trabalho” de Taylor. A criação das engenharias e o advento do taylorismo e dos seus aperfeiçoamentos abriram um campo dos serviços de consultoria, inicialmente prestado de forma individual por engenheiros, que nos anos seguintes, como já visto, criaram suas firmas, a exemplo de Harrigton Emerson e Charles Bedaux. De modo geral, as firmas consultoras procuraram aperfeiçoar os sistemas produtivos de forma a ampliar a capacidade de produção e a eficiência na relação trabalhador-máquina, retirando cada vez mais do trabalhador o conhecimento no que diz respeito à produção. Foram criadas e vendidas por consultores diversas técnicas e ferramentas capazes de calcular tempos padrões de trabalho para tarefas com base nos elementos básicos dos movimentos previstos, bem como “aperfeiçoados” uso do tempo e as normas de esforço nos espaços de manufatura, como as desenvolvidas por Harold Maynard e George May.
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65 Uma análise representativa deste processo é o caso da fábrica de alfinetes narrada por Adam Smith em “A Riqueza das Nações”.
Se, por um lado, foram criadas estruturas administrativas capazes de compatibilizar o processo produtivo por meio da coleta e organização sistemática das informações dispersas, por outro, como também salienta Tauille (1981), a natureza dos grandes investimentos em capital fixo exigia uma minuciosa diferenciação entre os custos de construção e custos de operação com o intuito de avaliar a depreciação e, no caso das ferrovias, para calcular os custos envolvidos no tráfego do trem em relação ao percurso. De acordo com o pesquisador, este é o início da moderna contabilidade de custos, decorrente das “necessidades ditadas pelo enorme volume de negócios, multiplicados pelos diversos estágios de produção e distribuição no interior de um imenso espaço geográfico” (Idem, p. 95)66. Mais uma vez, a extração, avaliação e gestão de informações relevantes do processo produtivo serão a “porta de entrada” para a atuação das consultorias. No caso dos EUA, sobretudo após aprovação da décima sexta emenda da constituição estadunidense, que autorizou o governo a lançar e arrecadar impostos sobre a renda, seja qual for a procedência desta. Com a criação da figura das Sociedades Anônimas e a submissão do setor produtivo ao capital bancário (financeiro) criaram-se novos fluxos de informações que vão dar rumo à capacidade do crescimento da indústria e, consequentemente, da economia. É para atuar neste âmbito que surgem as firmas de consultoria em auditoria e contabilidade, muitas vezes, dentro dos próprios bancos.
De acordo com Bolaño (2000), o movimento de racionalização e burocratização do processo de trabalho é, entre outras coisas, um movimento de construção de uma base comunicativa para o capital em seu processo de valorização. Ao separar o trabalho manual do trabalho intelectual e ao subordinar os trabalhadores a uma administração burocratizada, a informação assume forma de ordem sobre ritmo, método e organização, assumindo assim sua forma especificamente capitalista no âmbito do processo do trabalho:
Informação unidirecional, organizada de acordo com as necessidades da acumulação do capital, que é a base de toda a ‘ciência da administração’, iniciada com o taylorismo e que, independentemente dos avanços incorporados posteriormente com base na aplicação dos conhecimentos desenvolvidos pela psicologia e sociologia acadêmicas, não tem como negar seu caráter de dominação e poder (BOLAÑO, 2000, p. 42).
Assim, subordinado pela relação salarial, o trabalhador torna-se receptor no processo comunicativo, de modo a fazer que as determinações da burocracia da empresa capitalista passem ao interior do processo produtivo, reiterando a relação de dominação entre capital e trabalho. Isto só foi possível graças ao processo de apropriação do conhecimento dos artesões e à sua consolidação em capital fixo e sistemas de gerenciamento, ao qual Bolaño !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
66 O autor refere-se aqui aos EUA e ao processo de interiorização, do qual a construção das ferrovias foram uma marco.
(2000) denomina de acumulação primitiva de conhecimento. Esse conhecimento acumulado somado ao desenvolvimento das ciências físicas e naturais permitem a revolução permanente das forças produtivas capitalistas. Nesse nível, a informação ganha uma outra dimensão vinculada à concorrência capitalista. O controle de informações estratégicas torna-a uma mercadoria que pode ser intercambiada em um mercado específico, muitas vezes inclusive em segredo, adquirindo contornos de uma mercadoria de alto valor monetário que só se tem acesso por meio de tráfico de informações ou espionagem industrial.
O interessante nesse movimento histórico que se inicia com a acumulação primitiva de conhecimento é que, a partir dele, ocorre uma bifurcação em que se constituem dois tipos básicos de informação: uma ligada diretamente ao processo de produção de mercadorias e, que, no entanto, não é ela própria mercadoria, mas comunicação direta e hierarquizada, cooperativa, objetiva e não mediatizada e outra que se agrega como mais um insumo ao processo produtivo e que, controlada pelo corpo técnico e burocrático da empresa capitalista, é sempre, efetiva ou potencialmente, MERCADORIA-INFORMAÇÃO (IDEM, p. 47).
É o tratamento, a acumulação e a transferência desses dois tipos de informação para um determinado fim que constituem a atividade principal das consultorias. O desenvolvimento de sistemas de (re)engenharia ou de gerenciamento visa ampliar, aos limites possíveis, a subsunção real do trabalho, por meio do controle dos movimentos de trabalho e do desenvolvimento de tecnologias (capital fixo). Por outro lado, o acesso e o controle de informações privilegiadas provenientes das diversas instituições para as quais atuam e o conhecimento acumulado tornam-se os principais recursos dos portfólios. Como afirma Wood (2002), os consumidores de consultoria pagam primordialmente pela informação, que geralmente vem associada ao conhecimento requerido para sua aplicação. Não é por acaso que, nas perspectiva das firmas consultoras, para que se chegue a uma possível solução ou desenvolvimento de um produto em acordo com as necessidades específicas da empresa- cliente é necessário uma relação muito próxima, ou quase simbiótica, entre consultor e contratante. Quanto mais conhecimento acumulado por meio de experiências em setores distintos tiver uma consultoria, mais ela será reconhecida no mercado. Este trânsito inter- empresa e intersetores representa um maior acúmulo de informações de modo que, ao contratar a consultora, há a possibilidade de uma empresa se igualar as demais no nível da concorrência no que diz respeito ao controle de informações e do conhecimento estratégicos.
As interligações entre os grandes complexos de capital fixo consolidou o que Tauille (1981) denominou de megassistemas de informação, ao qual se somou o desenvolvimento do telégrafo, do rádio, das telecomunicações, que, por sua vez, vão subsidiar a internacionalização do comércio, da produção e das finanças graças à sua capacidade de
armazenamento e processamento rápido de informações. O surgimento da eletrônica e da teleinformática (ou telemática), frente às necessidades impostas pela concorrência, permitiu uma nova etapa “no processo de apropriação do conhecimento dos trabalhadores pelo capital e sua cristalização em elementos de capital fixo, transferindo para o domínio do capital informações que antes pertenciam aos trabalhadores (BOLAÑO, 2000, p. 49). Contudo, “agora o conjunto das informações transferidas são explicitamente expressas por atividades mentais (trabalho intelectual), sejam elas criativas (cálculos científicos, engenharia, etc.) ou pré-programadas (contabilidade, serviços de escritório, etc,)” (TAUILLE, 1981, p. 103).
O desenvolvimento das TIC e das redes telemáticas tem levado a um processo de apagamento das fronteiras entre trabalho manual e intelectual, em um processo que visa a intelectualização do trabalhador com foco na extração e codificação das suas energias, de modo a alimentar a constante adaptação e criação de modelos de gerenciamento e de produtos que gerem novos ciclos de consumo, permitindo assim a expansão e a valorização dos negócios das marcas e das empresas no mercado financeiro. Com este intuito, as firmas de consultoria tem focado na criação e adaptação de modelos gerenciais que subsidiem e ampliem a capacidade de geração de conhecimento tácito, assim como no desenvolvimento de ferramentas cada vez mais eficazes em prover a codificação do conhecimento produzido. Estruturas flexíveis de produção e sistemas eficientes de comunicação visam ampliar e fomentar o entrosamento e a troca de informações entre os trabalhadores, pois esse processo de “socialização” permite um processo inovativo continuado, respondendo às demandas do mercado de forma ágil.
Como destaca Wood (2002), o crescimento das consultorias nos últimos anos são consequência das complexas mudanças comerciais, em um mercado cada vez mais internacionalizado e inconstante, onde a inovação assume um papel central. Neste sentido, desde os anos 1980 tem-se enfatizado os ciclos de produtos, baseados na recombinação de características já conhecidas com pequenas novidades. Além disso, conforme também explica Wood, durante o ciclo de vida de um produto o processo de inovação é contínuo. Enquanto o negócio está crescendo o foco permanece no processo de inovação por meio de investimentos em estratégia e gerenciamento de mudanças e incrementos.
Como a inovação é a forma mais importante de obtenção de rendas de monopólio, e a aceleração dos ciclos de inovação e crescimento, quanto a intensidade do conhecimento na produção, têm se elevado. Como as atividades de imitação e inovação elevam o nível da concorrência, as empresas não podem mais explorar vantagens tecnológicas durante longos períodos e os ciclos de inovação tecnológica se tornam mais curtos. Corporações multinacionais ganham a maioria dos seus
rendimentos anuais de produtos que possuem menos de cinco anos (ARMBRUSTER, 2006, p 58 – Tradução livre).67
O investimento em P&D é um dos principais potencializadores da inovação, mas, como bem salienta Wood (2002), ele não atua sozinho. É necessário também a aquisição de patentes externas, desenho e desenvolvimento de produtos, produção experimental (learn by
doing), treinamento continuado, análises de mercado e integração inter-organizacional. Assim
como a indústria de modo geral, ao identificarem sinergias sobre os serviços que desenvolvem, as firmas de consultoria se unem para desenvolver determinado modelo organizacional, ferramenta tecnológica ou produto. As alianças estratégicas, acordos de produção, terceirização e redes de marketing são algumas outras alternativas para se estabelecer esforços conjuntos em P&D, processo que acaba, muitas vezes, em fusão ou aquisição. Contudo, não se trata de afirmar que as firmas de consultoria constituem o único ou o principal centro de inovação; elas são muito mais, na verdade, catalisadores desse processo pelo lugar privilegiado que ocupam entre as instituições capitalistas no processo de troca de informações. Para Armbruster (2006), a capacidade inovativa de uma firma está diretamente relacionada com a posição e a habilidade que ela tem para atuar em redes de negócios e pesquisa, como por exemplo o Vale do Silício. Neste sentido, as firmas multinacionais de consultoria tem mais força no processo de inovação que as firmas regionais e locais. A capacidade de investimento em P&D e de estabelecer redes de negócios constituem uma barreira à entrada as firmas regionais ou locais de menor porte. Estas são, não raro, contratadas (ou compradas) pelas consultorias internacionais no intuito de prover conhecimento local/regional para o atendimento de demandas específicas em determinados países.
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3.4 As Firmas Multinacionais de consultoria como Intelectuais Orgânicos do