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Em Gérard Genette (1997) se observa uma categorização para os produtos advindos da intertextualidade. Para ele, o objeto da poética é o arquitexto20 ou a arquitextualidade do texto, a literariedade da literatura. Em um território em que todos os textos são hipertextuais, que imitaram ou transformaram seus respectivos hipotextos, a intertextualidade é o mecanismo próprio da leitura, que produz significado por si mesmo. Sendo assim, o objeto de estudo de Genette não é o texto, mas sua transcendência textual, “tudo aquilo que o coloca em relação, manifesta ou secreta com outros textos” (p. 7), revelando assim a natureza de palimpsesto21

do discurso, em que um texto pode sempre ler outro. Como todo texto é um hipertexto, toda escrita, dentro desta perspectiva, é reescrita e a literatura é um objeto de segunda mão. Por isso, torna-se imprescindível a categorização estrutural de Genette para lidar com estes mecanismos. Em Genette, há duas categorias fundamentais: a imitação (pastiche, caricatura ou charge, forjação) e a transformação (paródia, travestimento, transposição). Genette menciona que há cinco tipos de

20 O termo arquitexto, como Genette adverte, foi proposto por Louis Marin em “Pour une théorie du texte parabolique” no Recit évangélique, Bibliothéque dês Sciences Religieuses, 1974, para designar “o texto de origem

de todo discurso possível, sua ‘origem’ e seu meio de instauração”, o qual se aproxima do conceito de hipotexto que Genette propõe mais adiante.

21 Como explica Genette em uma epígrafe, o palimpsesto é um pergaminho cuja primeira edição foi raspada para se

traçar outra, que não a esconde de fato, de modo que se pode lê-la por transparência, o antigo sob o novo. Entende- se por palimpsesto todas as obras derivadas de uma obra anterior, por transformação ou por imitação.

relações textuais: a intertextualidade, a paratextualidade, a metatextualidade, a arquitextualidade e a hipertextualidade. A intertextualidade Genette atribui à Julia Kristeva22, que nomeou este fenômeno como a relação de co-presença entre textos (GENETTE, 2006, p. 8). A paratextualidade refere-se a relações menos explícitas e mais distantes que os títulos, subtítulos, prefácios, posfácios; textos dessa natureza fornecem ao leitor um aparato variável de comentário (GENETTE, 2006, p. 9). A metatextualidade é tratada por Genette como uma relação de “comentário” em que textos dialogam entre si, sem necessariamente citá-los (GENETTE, 2006, p. 11). A arquitextualidade, por sua vez, trata de uma relação completamente silenciosa que articula apenas uma menção textual, de caráter puramente taxonômico, mas que se recusa a evidenciar sua referência, de modo que pode recusar ou escamotear qualquer definição referente aos gêneros textuais (GENETTE, 2006, p. 11-12). Por fim, temos a hipertextualidade, definida como toda relação que une um texto B, que ele chama de hipertexto, a um texto A, que ele chama de hipotexto, de onde um novo texto “brota”, sem configurar-se como comentário (GENETTE, 2006, p. 12). Essa é a noção de texto de “segunda mão”, em que o texto é derivado de outro texto preexistente, que – embora Genette mencione ser sua definição provisória – demarca bem o seu campo de ação:

Ela pode ser de uma outra ordem, em que B não fale de A, no entanto não poderia existir daquela forma sem A, do qual ele resulta, ao fim de uma operação que qualificarei, provisoriamente ainda, de transformação, e que, portanto, ele evoca mais ou menos manifestadamente, sem necessariamente falar dele ou citá-lo. (...) ... o hipertexto é mais frequentemente considerado

como uma obra “propriamente literária” do que o metatexto – pelo simples fato,

entre outros, de que, geralmente, derivada de uma obra de ficção (narrativa ou dramática), ele permanece obra de ficção e, como tal, aos olhos do público entra por assim dizer automaticamente no campo da literatura ... (GENETTE, 2006, p. 13).

É possível perceber a relevância dada por Genette ao processo criador das práticas transpositivas hipertextuais. Sua teorização toca em dois pontos relevantes aqui. As transformações textuais podem ser simples e diretas ou complexas e indiretas, mas contam uma história completamente diferente daquela na qual se inspiraram e, para fazê-lo, imitaram. A imitação ganha um status complexo na visão de Genette, pois a imitação “exige a constituição prévia de um modelo de competência genérico” que seja “capaz de gerar um número indefinido de performances miméticas” (p. 14). Ou seja, para imitar é preciso conhecer os segredos do texto

e, ao mesmo tempo, dominá-lo de forma que se possa reproduzir os traços daquilo que se escolheu imitar. O hipertexto de Genette, pode-se assim concluir, é o resultado da derivação de um texto anterior que passou por um processo de transformação.

Podemos sintetizar as implicações da transtextualidade de Genette (2006, p. 17-18) a partir de suas advertências, que propõem que: (1) os cinco tipos de transtextualidade (intertextualidade, paratextualidade, metatextualidade, arquitextualidade e a hipertextualidade) não devem ser considerados como classes estanques, sem comunicação ou interseções; (2) o hipertexto possui função importante de comentário e, em relação com o hipotexto, o metatexto crítico se concebe e se pratica com o apoio do intertexto citacional; (3) a hipertextualidade já se declara no paratexto e com ela exibe um valor contratual; (4) não há textos sem transcendência textual; (5) a transtextualidade ocorre em graus diversos e, portanto, um texto pode ser citado e tornar-se citação; (6) somente o arquitexto não se configura como categoria, pois ele é a própria classificação literária; (7) a hipertextualidade é um aspecto da literariedade e, nesse sentido, todas as obras são hipertextuais; (8) quanto menos a hipertextualidade de uma obra é evidente, mais sua análise depende de julgamentos constitutivos e de decisões interpretativas do leitor; (9) o leitor da atividade hermenêutiva das práticas hipertextuais é o arquileitor.

Esta visão geral da adaptação como uma prática hipertextual me servirá de estrutura conceitual para a análise do corpus, embora haja consciência de que cada objeto de análise – os romances e as peças teatrais – demandará um tipo diferente de abordagem. Mesmo encontrando sua definição e caracterização em algum dos termos aqui discutidos, sabe-se que poderá haver adequações. Dessa forma, sempre que aqui se referir à adaptação, penso na forma mais ampla e geral do termo.