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À primeira vista, o lide opinativo4, pelo próprio nome, causa um certo estranhamento, pois como afirma Mosca (1994: 233) o jornalista é uma pessoa que deve deixar sua emoção fora da notícia:

A possibilidade de comunicação “pessoal” com o leitor se vê assim filtrada, realizando-se sob limites e condições controladas. O distanciamento se dá na busca de criação de objetividade, em nome da qual se vêem contidas as reações emocionais e afetivas. Os jornalistas são indivíduos a quem se pede para deixar a emoção em casa.

Após tais considerações, é possível indagarmos como uma notícia, fundamentada nos princípios de objetividade e clareza, possui um lide em que o jornalista explicitamente opina sobre um determinado assunto?

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Como premissa para tal questionamento, apresentamos o lide a seguir:

O pânico está instalado na capital chinesa. Ontem mais de 4 mil pessoas foram colocadas em quarentena pelas autoridades de Pequim, em conseqüência da epidemia de pneumonia atípica que afeta, principalmente, o Sudeste Asiático. Segundo o governo chinês, o isolamento ocorreu porque essas pessoas tiveram contato íntimo com os doentes. (EFE e AP. Mais de 4 mil

pessoas são isoladas em Pequim. OESP: Geral. 26 abr.

2003. p. A16)

O jornalista, neste caso, antes de iniciar a construção de um lide tradicional, emite sua opinião acerca da situação em Pequim: “O pânico está instalado na capital chinesa”.

Desta forma, ele chama a atenção de seu leitor para o fato e estabelece um vínculo maior entre eles, uma vez que, ao invés de se ocultar para privilegiar esse fato, criando, assim, esse efeito de objetividade, o jornalista primeiramente externaliza seu pensamento. Neste caso, sendo colocado logo no início do parágrafo, essa opinião é o elemento central, a idéia mais importante do lide.

Um lide opinativo pode ser, também, mais explícito e dirigir-se de modo mais direto ao leitor, como ocorre no lide seguinte:

É claro que o MRV/Minas pode virar o playoff decisivo da Superliga Feminina de Vôlei – o BCN/Osasco tem 2 a 0 na série melhor-de-cinco. O time mineiro fez a melhor campanha da fase classificatória e tem jogadoras como Fofão, Érika e Elisângela, que só deixaram a Seleção Brasileira (por desentendimentos com o técnico Marco Aurélio Motta) após o bronze na Olimpíada de Sydney, em 2000, ainda sob comando de Bernardinho. Mas o título da temporada está bem mais perto do BCN, que, apesar da tradição de investimento no esporte, busca uma conquista inédita. A terceira partida será hoje, às 20h30, no Mineirinho, Belo Horizonte (SportTV). (MRV acredita em reação diante do

BCN. OESP: Esportes. 24 abr. 2003. p. E4)

Este lide mantém com seu leitor uma interação bem mais explícita pelo fato de utilizar a expressão “é claro”. Tal expressão dirige-se a um leitor-modelo

colocado no texto e nomeado por Maingueneau (1996) de leitor instituído. Ao se colocar, ao exteriorizar sua opinião, o jornalista dá a impressão de que já conhece os pensamentos de seu leitor e não concorda com eles. Por esse motivo, ele se mostra incisivo ao tratar de uma reação da equipe MRV/Minas.

O uso dessa expressão “é claro” atrai o seu leitor para a notícia por expor primeiramente a opinião do jornalista para, em seguida, apresentar o fato. Havemos de ressaltar, entretanto, que o fato apresentado possui alguns argumentos levantados por esse jornalista, tais como: MRV tem a melhor campanha da fase classificatória e conta com ex-jogadoras da Seleção Brasileira de Vôlei. A função desses argumentos é a de justificar a opinião apresentada logo no início da notícia por ele.

Podemos enfatizar, então, que o jornalista, ao emitir e justificar sua opinião, deseja aproximar-se de seu leitor, minimizando a distância espaço-temporal existente entre eles, pois demonstra conhecer a opinião desse leitor e discordar dela, dando a impressão, portanto, de que os interlocutores conversam sobre o assunto.

No lide seguinte, além de expor sua opinião, o jornalista utiliza como estratégia interacional para buscar um envolvimento com o enunciatário, uma das três competências postuladas por Maingueneau (2001) e apresentada no capítulo anterior - a competência enciclopédica:

Parece piada, mas a Portuguesa, vice-lanterna do “Torneio de Morte” do Campeonato Paulista, está feliz por poder jogar contra o Botafogo, hoje, às 20h30, como visitante. Soa, no mínimo estranho, contudo a equipe está invicta atuando fora do Canindé – quatro empates e uma vitória – e acredita que mantendo o retrospecto, fugirá do rebaixamento. (Lusa, fora de casa,

tenta ‘respirar’ no ‘Torneio da Morte’. OESP:

Mais uma vez o jornalista faz uma avaliação de uma determinada situação e expõe sua opinião acerca de um fato noticiado. Neste caso, ele também se dirige a um leitor instituído ou cooperativo, ou seja, a um leitor esperado, porém não explicitado no lide.

O jornalista espera que esse leitor-modelo, para que possa compreender o lide produzido, tenha um determinado conhecimento enciclopédico, ou seja, saiba que o cidadão português, em nossa sociedade, muitas vezes tem sua inteligência questionada por piadas criadas em diferentes contextos.

Além de saber disso, um outro conhecimento enciclopédico que ele espera de seu leitor-modelo, é que ele também saiba que um time prefere jogar em seu próprio estádio a ir para um outro qualquer. Contando com mais essa competência, ele ironiza a situação do time da Portuguesa, penúltimo colocado no Campeonato Paulista, estar feliz por poder jogar fora do seu próprio estádio, o Canindé.

Em um outro lide opinativo, o jornalista ultrapassa a exposição de uma opinião acerca de um determinado assunto, para se colocar como um efusivo torcedor do time do Corinthians:

Que tapetão, que nada! O Corinthians mostrou força e sagrou-se campeão paulista pela 25a vez em sua história com mais uma

vitória sobre o São Paulo por 3 a 2 (mesmo placar da partida de ida), ontem, no Morumbi. Diante de 71.736 torcedores, os corintianos levaram para casa o terceiro título em um ano (foram campeões do Rio-São Paulo e da Copa do Brasil em 2002, além do vice-Brasileiro), com campanha invejável, e descartaram qualquer tipo de briga nos tribunais. (VILARON, Wagner.

Corinthians, sem discussão. OESP: Esportes. 23 mar.

2003. p. E1)

Neste lide, a opinião do jornalista é externalizada antes mesmo do primeiro parágrafo, ou seja, no próprio título da notícia. Esse “sem discussão” tanto se refere ao fato de se tratar de uma vitória do Corinthians que não abre precedentes para uma ação nos tribunais, como ele afirma no final do lide, quanto ao fato de ser esta a terceira vitória do time em menos de um ano.

Assim como nos anteriores, neste lide, a opinião do jornalista é exposta logo no início do parágrafo e com um ponto de exclamação para intensificar sua opinião e também alegria. Entretanto, neste caso, essa opinião se prolonga um pouco mais ao longo do lide. Vilaron afirma que o time corintiano teve “força”, fez uma “campanha invejável” e mais uma vez venceu o time do São Paulo.

Essa opinião presente logo de início, “que tapetão, que nada!”, pretende mostrar para seu leitor toda a alegria que o jornalista está sentindo. Ele, então, além de externalizar sua opinião, tendo por objetivo aproximar-se de seu leitor e manter um elo conversacional com ele, como nos lides anteriores, compartilha com o leitor sua alegria pela vitória do Corinthians.

Havemos de ressaltar, ainda, que esse tipo de lide opinativo, como se pôde perceber pelas análises, está presente em sua maioria no Caderno de Esportes tanto de O Estado de S.Paulo quanto do Jornal da Tarde. Esse dado nos permite inferir que ao tratar de um assunto considerado lazer ou hobby pela grande maioria das pessoas, o jornalista não precisa produzir uma notícia tão objetiva, clara e imparcial como nos demais assuntos. Dessa forma, ele parece manter uma conversa com seu leitor, criando, então, um ambiente descontraído, um tom de conversa informal entre homens, pois como pudemos levantar, a maioria dos leitores do Caderno de Esportes de ambos os jornais (74% em O Estado de S.Paulo e 78% no Jornal da Tarde) é composta por leitores do sexo masculino e o mesmo ocorre com os jornalistas que escrevem para esse caderno.

4.2.2.2. Lide interrogativo: o uso da interrogativa como estratégia interacional