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interacional

O lide particularizante3 desenvolve uma história breve sobre uma pessoa anônima para, em seguida, tratar de um fato específico. Esse tipo de lide, embora de forma mais sucinta, também procura um envolvimento com o enunciatário e __________

3. O lide particularizante não aparece na literatura jornalística. Tal categoria foi atribuída por nós.

não com o tema, pois assim como no lide ficcional, o que ele privilegia é a interação, é o envolvimento com seu leitor, e não o fato ocorrido:

O estudante Rodrigo Lins Assoer estava juntando todas suas economias para equipar o seu Peugeot 206, que recebeu de presente há cinco meses do pai. Queria comprar um som novo, colocar insulfilme e – se ainda sobrasse dinheiro – trocar as calotas do carro. Mas o calor dos últimos dias obrigou o garoto a mudar os seus planos. “Em pleno outono, fui forçado a comprar um ar-condicionado”, diz Rodrigo. “Não deu para agüentar esse sol infernal. Prefiro ficar sem música no carro do que passar mal de tanto calor. Qualquer coisa, eu mesmo canto para passar o tempo”.

Até os meteorologistas estão assustados com o “verão” que anda fazendo em São Paulo.

Há oito dias, não cai uma gota de chuva na capital. A previsão para o mês de abril era de que chovesse 76 milímetros – só que esse índice não alcançou nem os 50 milímetros. O único detalhe é que, para variar, o tempo vai mudar totalmente neste feriado. (Aproveite. Pode ser o último dia de calor. JT : Cidade. 30 abr. 2003. p. A7)

Esse lide à primeira vista parece ser um lide ficcional. No entanto, o que o diferencia do lide anterior é que o jornalista não assume mais a função de um narrador onisciente nem a história sobre essa pessoa anônima é o centro da notícia, ou o que a gerou. Neste lide, por exemplo, o jornalista institui esse anônimo para servir como pretexto para tratar das altas temperaturas em pleno outono, ou seja, a história do estudante Rodrigo L. Assoer funciona como um elemento prefaciador da notícia, uma vez que nos dois parágrafos subseqüentes, o jornalista esclareça o fato em si. Neste caso, então, o lide é constituído por três parágrafos.

Utilizando esse recurso, o jornalista rompe com a expectativa de seu leitor, uma vez que o título da notícia, primeira informação lida por ele, trata dos últimos dias de calor na cidade de São Paulo, e a notícia é iniciada por um lide que relata a história de um estudante e seu carro novo. Tal paradoxo cria um estranhamento no leitor e este se sente atraído pela notícia na tentativa de conseguir relacionar essas duas conflitantes informações.

Ao contrário do lide literário, que procura lentamente envolver seu leitor, seja ele instituído ou apostrofado, por meio da dramaticidade e do aumento crescente de sua expectativa, o lide particularizante procura despertar a curiosidade do seu leitor pelo fato e “prendê-lo”, assim, à notícia jornalística:

Dona Chiquinha, encarregada da limpeza, está triste: em maio Paula deixa o Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa do Ibirapuera. “Quem vai embora não é a diretora. É uma amiga”, diz, já com lágrimas nos olhos. A ex-jogadora da Seleção de Basquete – e uma das melhores do mundo –, abraça dona Chiquinha. Vai assumir um cargo importante para o País: será a secretária nacional do Esporte de Alto Rendimento, a convite do próprio Agnelo Queiroz, ministro do Esporte. E Paula deixa seu Centro Olímpico, mudado para muito melhor – vivo, com mais de mil alunos -, em boas mãos: de Ana Moser, ela também uma ex- jogadora, da Seleção de Vôlei. (MIRÁS, Denise. E o

Ministério do Esporte ganhou Paula. JT: Esportes. 26

abr. 2003. p. B5)

Neste lide particularizante, o mesmo recurso do anterior é utilizado pela jornalista, ou seja, o título e a notícia tratam da ida da jogadora Paula para o Ministério do Esporte, porém o seu lide conta a tristeza de dona Chiquinha com a saída da jogadora de basquete do comando do Centro Olímpico.

Novamente não há uma preocupação primeira com o fato ocorrido e, sim, com o desejo de atrair o seu leitor. Prova disso, é que dona Chiquinha, elemento central do lide, porém não da notícia, não possui uma caracterização mais específica e objetiva, por exemplo. Ela não tem, neste caso, nome correto, nem sobrenome, nem idade, nem tempo de serviço, mas apenas um apelido.

Por esse motivo, podemos afirmar que a jornalista preocupa-se exclusivamente em construir para seu leitor uma imagem a respeito da jogadora Paula. Imagem de uma pessoa competente – “E Paula deixa seu Centro Olímpico, mudado para muito melhor” – , de sucesso – “e uma das melhores do mundo”–, amiga e querida – “Quem vai embora não é a diretora. É uma amiga’, diz, já com lágrimas nos olhos”.

Neste momento, como já assinalamos, a preocupação principal é a de prender a atenção do leitor à notícia, por meio da construção de um lide totalmente inusitado e curioso, e não com a notícia, com o fato em si. Por essa razão, a preocupação da jornalista é em procurar um envolvimento com seu enunciatário e não com o tema.

Entretanto, o lide particularizante nem sempre é construído fundamentado apenas no estranhamento causado pela diferença existente entre o título e o lide da notícia:

A psicóloga Cristiana Scala sentiu na pele ontem as dificuldades que alguns munícipes estão encontrando para pagar a taxa do lixo. Depois de várias tentativas para quitar a dívida, descobriu que o código de barras do boleto não está ativo. “Apesar de não concordar com a taxa, tentei pagá-la por três vezes e não consegui. Achei um abuso.”

Tardiamente, a Secretaria Municipal de Finanças divulgou uma nota ontem informando que as guias da taxa de lixo vencidas só podem ser quitadas no Banco do Brasil. (Taxa do lixo: só um

banco recebe após vencimento. OESP: Cidades. 10 abr.

2003. p. C6)

Neste caso, por exemplo, o título tem como tema o pagamento da taxa do lixo, e o lide trata da dificuldade encontrada por uma psicóloga para quitar sua dívida. Não há, desta forma, como nos lides anteriores, um estranhamento gerado por esse conflito entre título e lide. Entretanto, assim como no primeiro lide, o jornalista opta por narrar o efeito, o resultado do problema para depois, então, tratar do fato em si. Mas por que mesmo assim ele é considerado particularizante? Por que não pode ser considerado um lide ficcional?

Como vimos, o lide ficcional pretende criar uma imagem na mente do leitor que vai sendo construída paulatinamente pelo jornalista por meio do processo de intriga. Tal lide coloca em um segundo plano o fato em si, o que realmente ocorreu, para criar toda uma ambientação por meio de uma narração minuciosa feita por um jornalista que assume a postura de um narrador onipresente ou onisciente. Esse jornalista pretende, então, fazer seu leitor ver ou sentir o que ocorreu.

Contudo, no lide particularizante, isso não acontece, ou seja, o jornalista ao invés de tratar unicamente do ocorrido, particulariza o fato citando algo acontecido com uma pessoa anônima. Essa estratégia aproxima o leitor do jornalista justamente pelo fato de o segundo estar especificamente contando um problema vivido por uma pessoa específica, que poderia ser o próprio leitor.

Neste caso, então, o jornalista quer fazer o seu leitor ver a confusão que a cobrança da taxa de lixo está causando às pessoas. Portanto, assim como nos lides anteriores, a estratégia interacional presente neste outro lide é a construção de uma cena, de uma imagem para que um elo mais próximo entre leitor e jornalista se estabeleça.