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Além do conceito de momento e sua classificação segundo o tipo de dependência que o relaciona com o todo, encontramos no argumento continuísta de Øverenget pelo menos dois outros pontos importantes derivados da presença da teoria do todo e das partes. São eles o apriorismo e a intuição categorial. Para demonstrar a totalidade do Dasein, seguindo o argumento continuísta, Heidegger se servirá da estrutura ampliada do a priori que Husserl libera do psicologismo kantiano. E tal liberação só será possível através do recurso à intuição categorial.

Explorando inicialmente a retomada do apriorismo em sua versão husserliana, é preciso constatar que a hipótese levantada da liberação frente ao a priori kantiano só fará sentido se Heidegger considerar o conceito kantiano como limitado na mesma forma que Husserl. Afinal, se para Heidegger o a priori kantiano não padece das limitações psicologistas – como parece ser e tentaremos demonstrar posteriormente –, não há que se falar numa filiação com uma liberação husserliana.

O segundo passo seria descartar o sentido de continuísmo da totalidade do Dasein frente ao conceito de intuição categorial por ser essa hipótese corolário da primeira, do apriorismo. Eliminada a primeira, cairá por consequência a segunda. A intuição categorial traz à consciência as características lógicas dos objetos, é de certo modo subjetiva sem recair no psicologismo. Porém a totalidade do Dasein não se apreende como apreendemos os conceitos matemáticos. A semelhança tem seu limite na virada ontológica da constituição do Dasein. Novamente, a diferença entre o projeto epistemológico husserliano e o projeto ontológico heideggeriano se reflete, excluindo a derivação do pensamento do segundo a partir do primeiro.

Vejamos a colocação de Øverenget sobre os objetivos conceituais de Heidegger com a introdução à primeira seção (citada anteriormente, HEIDEGGER, 1927a, p. 75):

Aqui [p. 75, Ser e tempo] Heidegger faz algumas afirmações interessantes. Primeiramente a estrutura do Dasein é a priori, e é assim por virtude de ser primordialmente e constantemente um todo. Em segundo lugar, ela pode ser um todo apenas porque as partes que a compõem, seus itens/momentos constitutivos não são encaixados um ao outro. Assim, apenas um múltiplo de momentos pode formar um todo primordial, uma unidade. Em terceiro, se mantemos este todo em vista, isto é, se focarmos na condição de possibilidade de relação ao ser, os momentos constitutivos podem se fazer aparecer. (ØVERENGET, 1998, p. 21-2).

A ligação entre os momentos que tornam o Dasein um todo e sua inspiração na teoria do todo e das partes já foi descrita acima. A consequência que pretendemos demonstrar, a impossibilidade de reduzir a estrutura do Dasein aos termos dessa teoria, só se sustenta na interpretação kantiana que Øverenget enxerga em Husserl. O apriorismo do Dasein, a primeira tese heideggeriana que o argumento continuísta levanta, já supondo a adoção técnica da teoria do todo e das partes, depende de uma interpretação específica de Kant:

Neste estágio [final da descrição da teoria do todo e das partes], chegamos ao ponto de contato entre a teoria de Husserl do todo e das partes e seu posterior desenvolvimento da fenomenologia transcendental que é de particular interesse para nosso argumento. Isso nos ajudará a mostrar como a necessidade de ligação aos momentos pode ter uma origem subjetiva, porém não psicológica. Pode ainda ajudar-nos a entender como a leitura fenomenológica mostraria que Kant na verdade não determina nenhum limite a mais ao a priori do que o fez Husserl. (ØVERENGET, 1998, p. 13).

Husserl e Kant têm no argumento continuísta uma visão similar do apriorismo. Esta não condiz com a interpretação heideggeriana de Kant, na medida em que, para Heidegger, o filósofo iluminista não consegue se desvencilhar do logos da modernidade. Se Kant não serve como modelo de apriorismo à subjetividade (transcendência) heideggeriana e caso o argumento continuísta esteja correto em afirmar que Husserl e Kant compartilham a estrutura a priori, então a conclusão necessária é que não pode haver continuísmo entre o apriorismo husserliano-kantiano e a interpretação ontológica que Heidegger possui do Dasein.

Além do apriorismo, devemos apreciar o conceito de intuição categorial em sua relevância para a questão da subjetividade. Mesmo já ressalvada sua dependência da aceitação da derivação do conceito de a priori no argumento continuísta, a tarefa serve para esclarecer as diferentes consequências que retiram Husserl e Heidegger de um mesmo conceito, graças ao direcionamento que lhe dão.

A intuição categorial, no pensamento de Husserl, se diferencia da intuição sensível por uma característica singular: a intuição categorial é uma intuição vazia, a intuição sensível é cheia. No processo de apreensão da realidade, ao nos depararmos com objetos sua configuração se dá à intuição preenchida pelos estímulos, informações, enfim, dados sensíveis. Essa é a intuição sensível. Porém, certos objetos são conhecidos sem esta referência imediata que preenche a intuição a partir de fora do sujeito: temos a intuição categorial dos conceitos abstratos.

Temos então uma distinção entre objetos, a partir da percepção, em reais, dados completamente pela percepção, e ideais, que necessitam de aparatos mentais superiores para preencher a intuição que se chamará categorial. Dentre estes, ainda faz Husserl uma distinção posterior: objetos nominais e proposicionais. Objetos nominais não se dão à intuição imediatamente, mas invocam uma intuição sensível anterior. São os nomes das manifestações individuais da realidade apreendida na intuição sensível. Exemplo: se nomeio Sócrates, nossa intuição não será preenchida com dados imediatos da percepção, mas por memória e associação de informações anteriores.

Objetos proposicionais, por sua vez, são aqueles que remetem a uma intuição de uma relação. A informação o carro é verde é apreendida pela intuição de modo diverso da intuição nominal de um carro e de uma cor. Há neste objeto proposicional uma ligação entre dois entes que se dá no preenchimento que fazemos de nossa intuição. Compreendemos a ligação entre objetos cuja intuição sensível anterior não coloca como ligados. A intuição categorial de objetos categoriais nos faz associar objetos diferentes através de ligações mentais. Essa ligação é ainda maior que uma percepção da objetividade, ela é a própria objetividade. O ser que captamos na intuição do objeto o carro é verde não está nas intuições sensíveis, nem no mundo que originou essa percepção. A ligação é parte da própria intuição categorial, o ser não é um predicado real, mas uma forma de preenchimento da intencionalidade da intuição categorial de objetos proposicionais.

Uma das consequências dessa maneira de interpretar a intuição categorial é a necessidade de associar os princípios lógicos de não contradição e identidade ao

processo de percepção do ser. Enfim, ser e pensar, na intuição categorial dos objetos proposicionais, definitivamente habitam no mesmo: no homem. Como comparação, podemos pensar nas intuições sensíveis sem que necessariamente haja um surgimento dos princípios lógicos. Quando em frente dos objetos, não se faz necessário o princípio de identidade para intuirmos o conteúdo da percepção.

No argumento continuísta, essa estrutura da intuição categorial resumida acima, serve como base para a “descoberta” heideggeriana da diferença ontológica. O ser só pode se dar à intuição do modo como a intuição categorial dos objetos proposicionais se dá: como um todo e independentemente do objeto (na medida em que com ele não se confunde). O correlato do ser dos entes na intuição não é um objeto real, pois não pode ser separado dos entes, mas o fato de não existir sozinho, não ser real, em nada afeta o fato desse correlato continuar sendo um objeto.

Lendo a sexta investigação, encontramos referência que atesta a proximidade entre a diferença ontológica e a estrutura da intuição categorial alegada por Øverenget:

Posso ver as cores, não o ser-colorido. Posso sentir o polimento, mas não o ser-polido. Posso ouvir o som, mas não o ser-sonante. O ser não é nada no objeto, não é nenhuma parte dele, nenhum momento que nele resida; nenhuma qualidade ou intensidade, mas também não é nenhuma figura, nenhuma forma interior em geral, nenhuma nota característica constitutiva, seja como for que tenha de ser concebida. O ser também não é nada do objeto, não é como um interior real, nem sequer uma nota característica exterior real e, por isso, em sentido real em geral, não é nenhuma “nota característica”. (HUSSERL, 1901b, p. 141).

A argumentação de Øverenget vai mais além: aplica ao conceito de intuição categorial as disposições da teoria do todo e das partes. Por fazer sentido essa associação, da intuição categorial e da teoria do todo e das partes, na estrutura das Investigações lógicas – nas quais correspondem à terceira e sexta investigação respectivamente – podemos realizar uma redução de amplitude que nos é bem vinda: se a teoria do todo e das partes, principalmente no modo como se liga à interpretação kantiana, tem papel central na fundação do argumento de continuidade entre a “diferença ontológica” heideggeriana e a intuição categorial husserliana, demonstrada a improcedência da teoria do todo e das partes como base desta ligação, estamos livres da necessidade de demonstrar cada outro aspecto que dela deriva.

A redução do problema da influência husserliana à estrutura do todo e das partes parece transparecer um modelo que encontramos em nota de rodapé, em citação de outro autor:

Nas Meditações Husserlianas, Sokolowski usa o conceito de concreto absoluto para definir a diferença entre a atitude natural e a atitude fenomenológica e assim definir a natureza da fenomenologia transcendental. Ele dizμ “Depois que Husserl dá a virada para a fenomenologia transcendental, o concretum final vem a ser a subjetividade transcendental porque, falando fenomenologicamente, é o único todo que não tem referência a nada além de si mesmo, enquanto os outros todos são constituídos pela subjetividade. Na atitude natural, no entanto, o mundo é tomado como um concretum absoluto, e a consciência é uma parte dentro dele. A atitude natural e a atitude fenomenológica são definidas pelo que cada toma como o todo concreto finalμ o mundo ou a subjetividade transcendental.” (ØVERENGET, 1998, nota 13, p. 15).

A atitude fenomenológica percebe o mundo como um momento, em sentido husserliano derivado da teoria do todo e das partes, do eu; a atitude natural enxerga o eu como momento do mundo. A inversão husserliana é conceito caro ao argumento continuísta, visto que não poderíamos de modo algum enquadrar Heidegger numa atitude naturalista em que o Dasein pertencesse, como momento constitutivo, ao mundo.

Porém a atitude inversa, fenomenológica no sentido atribuído por Sokolowski, também não corresponde com fidelidade ao pensamento heideggeriano. O mundo não é momento constitutivo do Dasein. O ser-no-mundo, enquanto existencial, não corresponde à objetividade que se dá a conhecer pela percepção, como nos tradicionais modelos epistemológicos. Tanto o ser-no-mundo como o ser-para-si são existenciais do Dasein.

Numa posição que pretendemos mais fiel, diríamos que Heidegger não está nem na atitude natural nem na fenomenológica: tanto o mundo, quanto a subjetividade são momentos do fenômeno da transcendência. A totalidade ontológica precede a fragmentação epistemológica na qual essas posições se opõem. Essa é a solução que nos parece razoável para o papel da teoria do todo e das partes em analogia com a posição heideggeriana frente à influência de Husserl. É ela que oferecemos em substituição ao argumento continuísta que combatemos através da interpretação de Kant.

CAPÍTULO III

3 EXPOSIÇÃO DE KANT COMO FATOR DE DECIDIBILIDADE

Este capítulo tenta levantar dados sobre a interpretação heideggeriana do pensamento de Kant. O empreendimento não poderia de forma nenhuma supor um objetivo de exatidão ou pretender esgotar o assunto. A dificuldade que o tamanho da tarefa apresenta pode, no entanto, ser minorada por algumas considerações. Primeiro, o direcionamento especial que a questão da subjetividade aborda; afinal, esse é o tema em que a influência kantiana pode decidir sobre o papel de Husserl na analítica existencial. Segundo, o corte temporal, queremos as leituras kantianas do pensamento do Heidegger de Marburgo. Terceiro, o ponto agudo que nos interessa é destacar as características dessa leitura heideggeriana naquilo que a torna incompatível com o projeto fenomenológico de molde husserliano.

A estratégia adotada para revelar as características “anti-husserlianas” da leitura heideggeriana de Kant se divide aqui em dois passos: primeiro, a exposição da relação de Kant com a ciência. Esse passo justifica-se pela proposta explícita da terceira investigação lógica, que é ponto vital do argumento continuísta de Øverenget, de fundamentação de uma ciência lógica. Segue a posição heideggeriana frente ao compromisso científico kantiano e sua própria visão desse aspecto de seu pensamento. O segundo passo é investigar a presença de Kant em Ser e tempo o mais minuciosamente possível e nos textos periféricos. A ideia é retirar da descrição que Heidegger faz nesses textos, que são os mesmos onde se encontra determinada a questão da subjetividade, os elementos que a tornam incompatível com o projeto husserliano de fenomenologia como ciência de rigor.