O curso Introdução à filosofia ministrado no semestre de inverno de 1928/1929, em Freiburg, é uma fonte diferenciada de análise na caracterização da subjetividade nos textos imediatamente próximos de Ser e tempo.
A especificidade da obra é seu caráter geral: trata-se de um curso de introdução à filosofia com quatro horas semanais destinado a estudantes de diversas formações. Conforme explicita essa situação no prólogo da edição castelhana (HEIDEGGER 1929a, p. 14), seu tradutor, Manuel Jiménez Redondo, acrescenta a pouca disposição de Heidegger para abrir concessões em sua terminologia. Assim, mesmo num texto introdutório encontramos uma reflexão com toda a força e carregada do peculiar vocabulário consagrado em Ser e tempo.
O resultado da experiência é um curso de introdução à filosofia heideggeriana. Encontramos então na obra uma dupla oportunidade: vislumbrar uma reflexão de Heidegger sobre seu próprio pensamento enquadrado numa introdução à filosofia e confirmar a hipótese levantada previamente de uma crescente participação da questão do sujeito nos textos de Heidegger antes de 1930 quando então sua presença esvanece.
A segunda hipótese parece se confirmar, conforme poderemos ilustrar na sequência, mas resta a dificuldade de como interpretar o menor espaço dado à
subjetividade nesse curso. Duas são as possíveis causas que provavelmente somam-se como resposta: primeiro, o caráter geral da obra que não permite maior incisividade sobre um tema específico; segundo, a causa que nos é mais cara, a desnecessidade de enfrentar uma questão já bastante trabalhada previamente nos Fundamentos metafísicos da lógica.
Se de fato o tema do sujeito – como nos parece ser o caso – está trabalhado no curso do semestre de verão de 1928, seria desnecessário enfrentar o problema novamente seis meses depois. Heidegger já estava dando um passo rumo à superação da questão da subjetividade como problema, ao menos nos moldes como se apresentou na esteira das conquistas da analítica existencial.
Seja como for, a subjetividade ainda se faz presente como problema nesse curso introdutório. Nele temos oportunidade de perceber a visão panorâmica de Heidegger sobre os passos de seu pensamento durante a segunda metade da década de vinte. Testemunha em favor do aspecto generalista e introdutório a forma impactante das passagens da Introdução à filosofiaμ “Pois a existência, ser-aí ou Dasein não é outra coisa que o que até agora chamamos de ‘sujeito’, sujeito que está na comentada relação com os objetos” (HEIDEGGER 1929a, p. 81).
O trecho faz parte do parágrafo onze que, seguindo a estrutura dos Fundamentos metafísicos da lógica, deriva da questão da verdade correspondentista à necessidade de superação da subjetividade tradicional. O título do parágrafo é “Sobre o Problema da Relação Sujeito-Objeto. Relação Predicativa e Relação Veritativa.” (HEIDEGGER 1929a, p. 72).
Heidegger explicita essa necessidade de forma literal em seguida. A relação predicativa que está na base de uma compreensão correspondentista de verdade em paralelo à relação veritativa que intitula o capítulo. Para compreender uma subjetividade de forma originária, a cisão dicotômica exigida pela relação predicativa presente na concepção de verdade tradicional precisa recuar ao seu ponto radical de origem: a unidade existencial de relação entre o homem e seu mundo circundante. Essa relação prática se mostra primeiramente no ser-junto-a.
Mas então, teríamos feito outra coisa que não buscar uma palavra distinta para nomear o mesmo ente, ou seja, temos feito outra coisa que não dizer existência ou Dasein, no lugar de sujeito? Ou ganhamos algo a mais? Vimos que simplesmente não podemos operar com a relação sujeito-objeto até que se torne claro o que quer dizer sujeito. […] Não podemos nem devemos pressupor conceito algum de sujeito
para a partir dele aclarar a relação sujeito-objeto, senão o inverso: o que de início fixamos como fenômeno, apreendido como fenômeno, o ser-junto, temos que retê-lo como uma determinação da existência,
Dasein ou ser-aí e, conforme a essa determinação, conforme a esse
ser-junto, conforme a esse esse apud, determinar ou definir a existência ou Dasein, ou seja, a subjetividade do sujeito. (HEIDEGGER 1929a, p. 82).
O que se ganha com a substituição do termo sujeito pelo Dasein não é apenas uma nova palavra, mas toda uma determinação existencial do conceito de subjetividade tradicional resgatado pelo pensamento de Heidegger. A inversão da ordem de compreensão, de um sujeito isolado como ponto de partida para formar a relação entre sujeito e objeto, para a prioridade e antecedência estrutural da relação homem-mundo, marcada no ser-junto-a, frente ao sujeito isolado.
Mas essa elucidação do ser-junto, do esse apud, ou seja, esse retrocesso, esse passar por trás da relação sujeito-objeto, esse retroceder para a existência ou Dasein, vem dirigido pela intenção de encontrar a essência original da verdade para, a partir dela, poder entender a essência da ciência como uma forma de verdade. (HEIDEGGER 1929a, p. 82).
A determinação da essência da ciência – até porque como contraposição ao conhecimento filosófico coloca-se uma problemática típica de estudos introdutórios da filosofia – é uma das ideias norteadoras da comparação entre relação veritativa e relação predicativa. Porém essa direção que toma a questão da subjetividade ao aproximar-se de uma delimitação da verdade em oposição à concepção tradicional de sujeito isolado de conhecimento permite um paralelo interessante: haveria ao menos como hipótese uma subjetividade ligada à concepção de verdade correspondentista, a subjetividade isolada tradicional e, na medida em que essa subjetividade pode ser superada, a própria noção de verdade correspondentista será superada também.
A ligação entre a subjetividade e a questão da verdade surge como um ponto cada vez mais central após a caracterização da transcendência dos Fundamentos metafísicos da lógica. Melhor ainda, podemos observar uma maior aproximação da filosofia heideggeriana com a questão da verdade do ser como momento posterior à tarefa da analítica existencial.
A analítica do Dasein está realizada, suas questões principais, no que concerne ao questionamento acerca da subjetividade, estão enfrentadas na análise da transcendência. O direcionamento da Destruktion, coligado com a necessidade de
desenvolver a questão da verdade não correspondentista, exigida na superação da subjetividade tradicional, empurra o pensamento da questão do sujeito para uma nova perspectiva: a perspectiva de questão incidental na caracterização da verdade na trajetória da Destruktion.
No sentido tradicional o sujeito começa sendo uma espécie de eu encapsulado, cortado e separado dos demais entes que, por assim dizer, se cozinha sozinho no próprio molho dentro da cápsula em que consiste. A esta concepção do mero sujeito vamos chamá-la a má subjetividade; má porque não acerta em absoluto a essência do sujeito. Nós, para referir-nos ao sujeito, elegemos o termo existência ou ser-aí ou Dasein. Pois por fim, a essência da subjetividade não consiste em nada “subjetivo” no mau sentido. (HEIDEGGER 1929a, p. 124).
A hipótese aventada no final da seção 1.1 acerca da “correção” da subjetividade, que tem a simpatia de Hofstadter (HEIDEGGER, 1982, p. xxx), ganha força neste trecho de dois anos após os Problemas básicos da fenomenologia. A Destruktion ganha um sentido de correção e como apropriação da história da metafísica obrigatoriamente invoca os filósofos que dela participaram. O resultado da busca através da história da concepção de verdade é a ἀή
Não há espaço para avaliar a apropriação feita por Heidegger desse conceito na trajetória iniciada pela dicotomia: relação predicativa (sujeito tradicional) e relação veritativa (verdade correspondentista) que levou, através da Destruktion, à verdade enquanto ἀήe ao sujeito enquanto transcendência.
A essência da verdade como ἀή (alethéia) nos indica, pois, como temos que esclarecer o conceito de subjetividade, enquanto que o planejamento que estamos criticando se procede precisamente no sentido contrário. Tem-se como transfundo algum conceito de sujeito, em geral tomado de Descartes, e o que se busca esclarecer é o que significa a verdade, como pensar sua relação com esse sujeito, o que já não se submete a mais esclarecimentos. Portanto, agora vemos claramente nossa tarefa: é a própria essência da verdade o que nos obriga a praticar uma revisão fundamental no conceito de sujeito com o qual viemos operando até agora na tradição filosófica. (HEIDEGGER 1929a, p. 125).
A sequência que surgira nos Fundamentos metafísicos da lógica de um estudo acerca da verdade iniciando uma análise da relação sujeito-objeto para enfim chegar à transcendência se mostra reiterada na Introdução à filosofia. Da renovação de um conceito de verdade deriva a renovação da subjetividade.
A pertinência da verdade ao sujeito, quando se entende o sujeito em sentido correto, não converte a verdade em algo subjetivo no mau sentido desse termo, senão o inverso. E tal pertinência da verdade ao sujeito pode precisamente converter-se em motivo para começar pelo primeiro, ou seja, para proceder a uma correta determinação do conceito de sujeito. (HEIDEGGER 1929a, p. 125).
Essa sequência se mostrará novamente numa outra obra: Kant e o problema da metafísica. Nesse livro, encontramos a trajetória de Destruktion da noção de verdade através da filosofia kantiana e a proximidade particular de seu pensamento com a superação da subjetividade tradicional. Da Introdução à filosofia levamos a confirmação, a cristalização da abordagem realizada nos Fundamentos metafísicos da lógica, e a noção de correção da subjetividade levantada nos Problemas básicos da fenomenologia que também se mostra coerente. Afinal, apenas aquilo que se encontra firmado de maneira minimamente razoável há de fazer parte de um livro introdutório, portanto temos nessa obra um belo índice dos pontos em que Heidegger depositava alguma certeza e reiterada confiança, ao menos no período de desenvolvimento das polêmicas teses de Ser e tempo.