Quase todas as tarefas de interação na web envolvem processamento cognitivo, sobretudo o processamento da memória, mas surdos têm dificuldade de manter um conjunto de itens verbais na memória de curto prazo, o que implica na leitura e no entendimento de um texto escrito. No entanto, o processamento e armazenamento da informação visuoespacial parece ser mais eficiente do que a verbal em surdos, o que normalmente é atribuído ao uso da língua de sinais. Esta língua, por sua vez, mesmo sendo uma modalidade visuoespacial, seria processada no mesmo local da memória que a linguagem oral, e não na memória visual, como seria o esperado. Seguindo essa lógica, a capacidade de processar informações visuais por surdos não seria necessariamente melhor do que a de ouvintes. Apesar disso, têm sido demonstrado que alguns aspectos da memória visual têm melhorado com o uso da linguagem visuoespacial, como a memorização de locais, reconhecimento de faces, e não outros, como a memorização de imagens. Assim, a linguagem visuoespacial poderia melhorar alguns aspectos da cognição visuoespacial, mas nem todos seriam obrigatoriamente desenvolvidos em surdos (FAJARDO; ABASCAL; CAÑAS, 2004).
Em relação à Memória de Longo Termo (MLT), há uma possível diferença entre surdos e ouvintes na quantidade e organização do conhecimento. Surdos não fazem uma leitura de cima para baixo, nem utilizam o contexto, lendo palavra por palavra, o que sobrecarrega a memória de trabalho. Além disso, costumam armazenar mais detalhes na MLT do que as relações entre conceitos. Em alguns contextos, inclusive, os surdos não tem o mesmo desempenho que ouvintes no reconhecimento de informações relacionadas em uma leitura ou na ativação de categorias relacionadas com um item (FAJARDO; ABASCAL; CAÑAS, 2004).
No que diz respeito à tarefa de recuperação de informação, esta tem sido descrita como dependente tanto de recursos verbais quanto de recursos visuoespaciais dos usuários. Se surdos e ouvintes diferem no processamento da memória (tanto na memória de trabalho quanto na representação na MLT), então a tarefa de recuperação de informação em hipertexto seria reforçada por características diferentes em cada tipo de usuário. Embora os surdos apresentem resultados inferiores do que os ouvintes para o trabalho com informações verbais, apresentam melhores resultados quando trabalham com certas informações visuoespaciais.
No entanto, a substituição de informações textuais por visuais só trazem melhorias de fato quando não é exigido uma decisão categórica, nem há fatores semânticos envolvidos na recuperação da informação (FAJARDO; ABASCAL; CAÑAS, 2004).
No experimento realizado por Fajardo et al. (2008) os autores testaram a capacidade de categorização e a memória span dos surdos em relação aos ouvintes. Para o teste de categorização, os participantes tinham que escolher uma entre duas categorias como pertencente a um item, que podiam ser no formato de imagens ou palavras, com baixa ou alta similaridade. Tanto surdos quanto ouvintes realizaram o teste com a mesma precisão, considerando a taxa de erros, o que indica que o perfil (surdo/ouvinte) não tem um efeito significativo sobre o processo de categorização. Em relação ao formato, o resultado demonstrou que o desempenho de categorização de imagens foi mais significativamente afetado pela similaridade do que as palavras (imagens muito parecidas causavam confusão). Nas categorias com alta similaridade, a taxa de erros para imagens foi maior do que para palavras, sobretudo para os ouvintes. No que diz respeito ao tempo de realização das tarefas, os ouvintes foram mais rápidos nas duas condições (palavras e imagens), sendo que o formato não afetou significativamente o tempo despendido. Quando a similaridade das categorias era baixa, os testes eram realizados mais rapidamente do que quando era alta. Ao final, os autores compararam os resultados do teste de categorização com o teste de busca e chegaram à conclusão que o maior tempo para busca por surdos não está diretamente relacionado com a lentidão para a categorização de itens, o que poderia indicar que eles estariam utilizando outras estratégias de busca, como uma pesquisa visual ou avaliando todos os itens.
Já para o teste de memória foi utilizado o span verbal e o span espacial, que consistem em testes de repetição de palavras e reconstrução de blocos na ordem direta e inversa. Ambos os perfis de participantes (surdos e ouvintes) obtiveram scores similares para o teste span espacial, mas para o span verbal os ouvintes obtiveram melhor desempenho. A correlação entre os spans verbal e espacial com o desempenho de navegação no hipertexto mostrou que, em relação ao o hipertexto gráfico para surdos, quanto maior era o score do span espacial, mais alvos eram encontrados e menos tempo era despendido na tarefa de busca.
Em Fajardo, Abascal e Cañas (2008), os autores descreveram outro teste realizado para verificar novamente a relação entre o conhecimento categórico dos surdos e o seu desempenho na navegação. Desta vez foi
utilizado um teste de categorização mais complexo, chamado de Tarefa de Analogia Verbal. Neste teste os participantes tinham que resolver analogias do tipo banana é uma fruta, assim como rosa é uma ______ (flor). O nome dos itens ou categorias era fornecido. Os resultados permitiram observar que, de fato, a eficiência na aplicação de categorias verbais foi menor em surdos do que em ouvintes. Quanto mais os participantes surdos eram precisos ao utilizar categorias superiores e subordinadas, mais eficientes eram na busca em um website que possuía hiperlinks textuais organizados hierarquicamente. Ao final do experimento, os autores concluíram que os surdos não eram capazes de ativar automaticamente o conhecimento necessário para resolver a tarefa, pois o formato verbal não era apropriado para os usuários da língua de sinais acessarem o seu conhecimento categórico. Ao invés disso, os surdos poderiam estar utilizando da sua memória visuoespacial para compensar a falta de proficiência na leitura ao buscar informações em um menu.
Um terceiro experimento foi realizado por Fajardo Parra e Cañas (2010) em que realizaram um Teste de Associação de uma Única Palavra e um Teste de Analogia Verbal. O primeiro teste foi utilizado com o intuito de medir como os participantes organizam o conhecimento sobre categorias de palavras e seus itens subordinados. Ao final, os autores descobriram que ambos os perfis de participantes (surdos e ouvintes), associaram as mesmas palavras mais frequentemente às categorias do que aos itens dentro da categoria. Além disso, apesar de ter havido um grande número de correspondência entre as respostas dos participantes (23 das 40 primeiras palavras associadas por surdos e ouvintes eram iguais), a força das respostas (medida pelo número de pessoas que associaram a mesma resposta dividida pelo número total de respostas válidas) era menor para surdos do que para ouvintes.
O segundo teste, o Teste de Analogia Verbal, foi utilizado para medir a aplicação do conhecimento categórico. O tipo de analogia teve efeito significativo sobre as respostas. As analogias subordinadas, em que o participante tinha que dizer se o item que pertencia à categoria (por exemplo, metal está para ferro, assim como esporte está para tênis) tiveram mais respostas corretas, seguidas das analogias superordenadas, em que o participante tinha que dizer o nome da categoria que o item pertencia (por exemplo, valsa está para dança, assim como ginástica está para esporte) e das coordenadas, em que o participante tinha que encontrar a relação entre dois itens que pertenciam a uma mesma categoria (por exemplo, pé está para mão, assim como piano está para guitarra). Em relação ao
perfil dos participantes, os surdos resolveram menos analogias do que os participantes ouvintes, sobretudo as analogias coordenadas.
3.8 AMBIGUIDADES LEXICAIS DA TRADUÇÃO/