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Å vera i livet

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Além dos problemas já mencionados com relação às dificuldades dos surdos com a língua portuguesa e com a categorização de itens, há ainda a dificuldade de traduzir/interpretar do português para Libras as palavras que são lexicalmente ambíguas. Essas palavras podem gerar ambiguidade por não possuírem equivalentes diretos ou por possuírem mais de um signo representativo na língua que será traduzida (ROSA; BIDARRA, 2012). A palavra torcer, por exemplo, em português pode ser utilizada no contexto de torcer a tampa ou torcer para não chover. Já na Libras, os sinais sábado e laranja é que são homônimos. Essas palavras necessitam, muitas vezes, do contexto para serem esclarecidas (NASCIMENTO; NASCIMENTO, 2010).

A ambiguidade pode ocorrer tanto por homonímia quanto por polissemia. Na homonímia uma mesma palavra pode ter significados distintos que não estão relacionados, como no exemplo anterior, em que a palavra torcer exerce o sentido de girar, na primeira frase, e de desejar, na segunda frase; já na polissemia, uma mesma palavra pode ser ter diferentes sentidos, mas cada significado guarda alguma semelhança entre si, como as palavras guarda-chuva e guarda-roupa, em que o termo guarda é utilizado em ambos os casos com o sentido de proteger (ROSA; BIDARRA, 2012). A diferença entre a homonímia e a polissemia estaria, então, no fato de que palavras homônimas possuem diferentes origens lexicais para a mesma grafia, enquanto palavras polissêmicas possuem a mesma origem lexical, mas com significados diferentes (SOARES, 2013).

Embora a distinção entre polissemia e homonímia seja consenso entre os estudiosos da área, na prática, a maneira de diferenciá-las não é tão fácil quanto parece. O que ocorre normalmente é que os estudiosos recorrem à etimologia do item lexical para identificar se trata de uma ou outra forma de ambiguidade, o que nem sempre resolve o problema ou é um recurso fácil para os usuários de uma língua. Neste caso, as pistas fornecidas pelos elementos que são frequentes no contexto linguístico 12 As diferenças entre os termos tradução e interpretação são esclarecidos por Rosa e Bidarra (2012) como sendo, o primeiro, utilizado para textos escritos, enquanto o segundo é utilizado na modalidade oral [e também gestual].

é que contribuem para elucidar o significado adotado pela palavra (SOARES, 2013).

Problema ainda maior ocorre quando a palavra polissêmica é traduzida de uma língua para outra, de maneira que haja diferentes sinais (no caso da Libras) para representar a palavra, mas nenhum corresponda ao significado exato da palavra no contexto da frase original em português. Um exemplo de como esse fato acontece é explicado por Rosa e Bidarra (2012, p. 7), na frase “Outras moedas cheias de história”, em que a palavra cheias, que no dicionário português representa “Completo, pleno, repleto”, não encontra equivalente em nenhum dos seis sinais representativos da palavra cheio em Libras.

Como o objetivo da tradução é transformar sentenças de uma língua em outra, minimizando a perda de informações, os autores propõem alguns métodos que podem ser utilizados pelo tradutor. Um deles seria o uso da datilologia13, mas essa técnica só funciona quando os surdos já possuem o conhecimento do significado da palavra. Outra forma seria substituir a palavra por outra equivalente. No exemplo citado anteriormente, a palavra cheias poderia ser substituída pela palavra/sinal completo. Dessa forma, mesmo que a palavra possa ser traduzida para a Libras, é necessário compreender o que ela representa na frase para que o sentido original não seja perdido.

O mesmo ocorre para as palavras homônimas, que ao serem traduzidas do português para a Libras, podem ter como tradução um sinal que só represente um ou alguns dos possíveis significados diferentes da palavra. Rosa e Bidarra (2012) utilizam como exemplo a palavra matar, que em português pode ser utilizada no contexto de matar a fome ou de matar uma pessoa. No entanto, na Libras matar só pode ser utilizado no sentido de tirar a vida, assassinar. A frase matar a fome só poderia ser traduzida como saciar a fome, jamais com o sinal matar. Já o sentido de matar uma pessoa só poderia ser traduzido com o sinal de matar se a morte fosse ocasionada por uma faca ou revólver e não pela fome. Neste caso, os autores sugerem uma inversão para expressar a mesma ideia: “muitas pessoas podem morrer por causa da fome” (ROSA; BIDARRA, 2012, p. 10).

Também há sinais que representam mais de uma palavra em português. Seria o caso de saúde, sadio e saudável que são representados pelo mesmo sinal. Neste caso a frase “ingerir alimento saudável, ajuda 13 Datilologia é o nome dado à soletração com sinais manuais que representam o

preservar a saúde”, exemplificada por Bidarra e Martins (2012, p. 9), tornaria-se ambígua, pois tanto a palavra saudável, quanto saúde seriam representadas pelo mesmo sinal.

Assim como nos casos de palavras polissêmicas e homônimas, há também expressões metafóricas que podem ser representadas da mesma maneira ou de forma diferente entre as duas línguas. A metáfora cara-de-pau, que tem a conotação de atrevido, por exemplo, possui equivalente em Libras. A expressão morrer de rir, que significa rir muito, é representada semanticamente como torcer barriga em Libras, ou seja, de forma diferente. Já outras expressões existentes em Libras não são compartilhadas em português, como as metáforas olho caro, que seria aproximadamente “‘Que observador atento!’ ou ‘Que olhos de águia!’” e também olho barato que seria “‘Que observador distraído!’ ou ‘Como você é distraído!’” (NASCIMENTO; NASCIMENTO, 2010, p. 61, grifo nosso).

Um dos desafios envolvidos com a tradução para a língua de sinais é devido às ambiguidades lexicais presentes na língua. Infelizmente, tanto na Libras quanto em qualquer outra língua não há repertório vocabular que dê conta de nomear todos os objetos ou conceitos existentes, e por isso acabam surgindo as homonímias e as polissemias. Sobretudo na Libras, no entanto, os estudos em relação às relações semânticas encontram-se em estágios iniciais, o que exige dos tradutores/intérpretes muita cautela nas escolhas lexicais (BIDARRA; MARTINS, 2012).

Para esses autores, a Libras apresenta mais dificuldades aos tradutores/intérpretes do que as línguas orais, devido ao fato dos símbolos constitutivos da língua possuírem na estrutura morfológica, sintática e semântica, características relevantes como expressões faciais, movimento de olhos e de mãos que precisam ser analisadas com atenção durante o processo da interpretação. Conhecer também os valores culturais da comunidade surda é um passo importante para entender as relações semânticas envolvidas na tradução/interpretação. No entanto, se o processo de tradução já apresenta os diversos complicadores mencionados para tradutores/intérpretes humanos, esses problemas podem ser ainda mais complexos para sistemas de informação criados com o intuito de aumentar a acessibilidade digital do público surdo.

3.9 SISTEMAS DE INFORMAÇÃO PARA SURDOS PRÉ-

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