• No results found

4. Theoretical framework

4.5. Information system development

Cedo fiquei sem meus pais, Chorando a minha orfandade, Cada passo em minha vida Foi uma fatalidade, Cada dia um desengano, Cada noite uma saudade.

Aos meus dez anos de idade, Peguei no pinho e cantei; Descansando aos dezessete, Aos vinte e sete voltei,

Sim, foram os anos mais tristes Que em minha vida passei.24

Era o final do ano de 1991 ou janeiro de 1992. Não lembro exatamente a data, mas sei que a correspondência chegou endereçada a mim: um pacote com alguns volumes do mesmo livro verde, que trazia o retrato em branco e preto de dois violeiros impresso na capa. O remetente não era desconhecido, aliás muito familiar por sinal. Pai da minha mãe, o meu avô Antonio Carlos Barreto enviou-me de Crateús - cidade onde residia no interior do Ceará – a sua segunda publicação intitulada “O Dossiê do Fonseca”. Abaixo da assinatura, na dedicatória, a data de 24 de dezembro de 1991, o que imagino ter sido um presente de natal.

Li o livro, embora sem nenhuma intimidade com o tema. Só sabia por alto o que era a cantoria de viola nordestina, porque quando visitava o meu avô, ou ele vinha para São Paulo, costumava narrar alguns causos de desafios entre repentistas. A oralidade sempre foi muito marcante nele, que ainda hoje, aos noventa e cinco anos, passa horas a decorar poemas e estrofes célebres de cantorias para poder ornamentar suas histórias. Quando criança eu não entendia quase nada do que ele contava. Não raro ele terminava 24Versos de Domingos Fonseca transcritos na p. 267 do livro “Poetas encantadores”, de José Nunes Filho

uma piada e esperava minha reação, mas ao mesmo tempo eu não percebia o seu final e aguardava uma conclusão... Talvez a compreensão fosse afetada por diferenças etárias, culturais, lingüísticas... Eu conseguia, porém, captar a musicalidade das rimas e por isso a poesia me atraía bastante.

Guardei o livro com muito carinho e de vez em quando lia algumas passagens. Tempos depois descobri melhor o quê e de quem se tratava. Ele contava a história do repentista Domingos Martins Fonseca, nascido no ano de 1913, em Miguel Alves, no estado do Piauí, e falecido na capital cearense no dia 28 de abril de 1958 (há uma versão que diz ter sido em 1960). Seus repentes são lembrados tanto nas transcrições de livros, como na voz de amantes da cantoria, que o situam entre os principais do Nordeste.

Barreto e Fonseca se conheceram em meados de 1920, na então Vila do Buriti de Inácia Vaz, localizada às margens do rio Parnaíba, distante 350 quilômetros de São Luís. Entre os babaçuais, buritizeiros, açaizeiros da paisagem do leste maranhense apareceram dois cantadores mirins: Fonseca, aos treze anos, junto ao seu companheiro Manoel, pouco mais velho. Barreto, com doze de idade, assistia-os fazerem improvisos com suas violas de fabricação própria em madeira de cumaru. “Não larguei mais o pé deles e cheguei a apanhar de meu pai, por entrar tarde da noite, em casa, sendo ainda menino”, lembra Barreto (1991, p.17). Ele conta que naquele tempo havia poucos cantadores na região:

O Canário era o único cantador do Maranhão que tinha lá. Tinha um chamado João Paca, mas era ruinzinho demais. E outro chamado Amaral, se não me engano, esse era bom. E tinha um menino de nove anos, Manduquinha, que era um danado! Mas ele só cantava só porque quando o Fonseca apareceu ele já tinha saído, já não estava mais na cidade (entrevista gravada em Fortaleza 24/02/08).

A poesia já habitava o lar de Barreto. O seu pai João Pereira de Araújo, “doido por cantoria”, costumava hospedar o repentista Cosmo Canário Cordeiro. Araújo não escrevia poema, mas lia folhetos de cordel e sabia muitos versos decorados: “A Lira Sertaneja, que é um livro folclórico de Hermínio Castelo Branco, papai sabia quase tudo”, orgulha-se Barreto. Ele conta também que no Buriti havia uma senhora a quem o povo recorria para ler cordéis: “Antes de chegar à ladeira da chapada tinha Maria Raimunda, que lia os folhetos. Cada um que a pessoa comprava ia lá pra ela ler. Ela

cobrava um tostão por cada leitura” (idem). Barreto mudou-se para São Luís e estudou no Seminário Santo Antônio, onde compôs o seu primeiro soneto motivado por um concurso. Ele narra o fato da seguinte maneira:

Houve um concurso de sonetos e quem fizesse o soneto mais bonito sobre Deus ganharia um prêmio que ia ser estudado, que seria talvez um terno de roupa qualquer ou um chapéu. Fiz o meu. Acontece que, quando foi julgado, o meu foi o primeiro lugar e um “sabidão” chamado Zuca – não sei do quê, não lembro o nome dele, Zuca Sindu parece – tomou pra ele e ganhou no meu lugar. Acharam que eu não era capaz na minha idade, de quinze anos, de fazer um soneto desse tipo:

Deus Fez os astros pra luzir nos ares A meiga rola pra gemer na selva A borboleta pra brincar na relva E a branca espuma pra boiar nos mares

Deus fez o cisne pra vagar nas águas O doce orvalho pra banhar as flores A esperança pra acalmar as dores E a onda altiva pra rugir nas plagas

Deus fez a águia pra voar na serra O passarinho pra cantar no bosque E a flor mimosa pra enfeitar a terra

Deus fez as nuvens para os céus azuis Deus fez a virgem pra viver de sonhos E fez o homem pra viver de luz

Do Seminário, Barreto foi para o Exército. Apesar do relativo distanciamento da poesia, a passagem pela caserna também deixaria um soneto registrado. Ele conta que teve uma punição de quinze dias pela falta de um colchete no colarinho do seu uniforme. Indignado, na parede da cela do quartel escreveu um poema, do qual não se recorda, criticando a arbitrariedade interna apoiada na hierarquia. Abandonou então a vida militar e seguiu para Teresina, uma cidade a seu ver mais tranqüila que São Luís,

semelhante ao Buriti. Lá ele ministrou aulas e ingressou no Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários (IAPC, atual INSS), conciliando a atividade de funcionário público com a de escritor colaborador em revistas, jornais e almanaques literários.