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Baseado nos estudos de Jeremy Bentham sobre o Panóptico, Foucault (2005) estuda as implicações e as consequências desse dispositivo, o qual exerce influência no modelo de disciplina adotado por escolas, hospitais psiquiátricos, prisões, entre outros.

No que se refere à arquitetura, o panóptico se distingue por ser uma estrutura arquitetural, composta por uma construção em forma de anel e dividida em celas individuais. Em cada cela existem duas janelas: uma tem visão para fora da construção e a outra para dentro, estando as duas alinhadas, criando-se, então, um efeito contraluz. No meio desse anel, existe uma torre com largas janelas onde um indivíduo vigia aqueles que estão nas celas, observando a silhueta pela contraluz. O funcionamento ideal deste sistema se baseia no fato de o preso saber que pode estar sendo vigiado, mas que não tem condições de verificar isso de forma alguma. Ele sabe que é observado o tempo todo pelo vigia, mas não há possibilidade de ver o vigia nem os outros detentos. Pensando que é vigiado o tempo todo, o detento se sujeita a um bom comportamento sem uso de violência, força ou correntes.

O pensador defende que o panóptico é um mecanismo de poder polivalente em suas funções: serve para disciplinar prisioneiros, doentes, crianças, operários, mendigos, entre outros, em suas especificidades. Além disso, o poder deve diminuir a quantidade de vigilantes, mesmo se o número de vigiados aumentar, favorecendo, também, à esfera econômica. Sob esse prisma, vai além dos benefícios de sua disposição arquitetural, principalmente quando toca na questão dos efeitos produzidos pela pressão constante sofrida pelo detento.

Quando o panoptismo é aplicado devidamente, torna-se desnecessário o uso da violência. Todavia, em Gilead, a questão da punição violenta mostra que o sistema instituído falha em sua aplicação em diversos quesitos. Se por um lado a exposição de cadáveres simbolizando aqueles que foram punidos por infringir o sistema serve como agente disciplinar, porque está sendo feita em um ambiente público, causando medo em alguns cidadãos; por outro, esta tentativa de aplicação da ordem não atinge a todos os indivíduos, uma vez que mais corpos continuam aparecendo mortos pelos mesmos motivos no Muro. O desaparecimento de Ofglen, a aia participante de uma organização que praticava atos ilícitos contra o governo, deixa em suspensão se a companheira de Offred teve um fim positivo ou negativo. Assim, os meios com os quais o poder exerce pressão para evitar o tipo de prática como a de Ofglen não atingem a todos os indivíduos. Mesmo que o sistema disciplinar de Gilead seja fechado, inflexível e violento

distanciando-se ainda mais do modelo panóptico apresentado por Foucault – torna-se interessante notar que ambos os esquemas tentam evitar as transgressões através da vigilância permanente.

Ao tratar da polícia como instituição do Estado, Foucault assinala certas características que são consonantes com o perfil do poder executivo em Gilead. A polícia em The Handmaid’s Tale, chamada ―Os Olhos‖, pode ser vista como instituição organizada pelo aparelho do Estado, exercendo um poder que ―[...] deve adquirir instrumento para vigilância permanente, exaustiva, onipresente, capaz de tornar tudo visível, mas com a condição de se tornar ela mesmo invisível‖. (FOUCAULT, 2009, p.202)

Ao tentar controlar as revoltas, os complôs, este órgão adquire função disciplinar. Ele atende aos desejos das autoridades e se estende ligando-se às instituições disciplinantes fechadas como o exército, por exemplo, intervindo em locais onde as outras instituições não alcançam. Sendo assim, o nome do órgão policial ―Os Olhos‖ carrega uma significação que emana o discurso do poder. De acordo com Maria Cecília Amaral de Rosa (2009, p. 88), em Dicionário de Símbolos: O alfabeto da Linguagem Interior, ―Na Bíblia, o olho é símbolo da onisciência, da vigilância e onipresença protetora de Deus‖.Apesar de Foucault ter descrito um sistema policial de séculos anteriores, observa-se que neste romance de Atwood, o policiamento encontra vários pontos em comum com o que foi realizado no passado. A polícia se torna um dos maiores representantes do sistema de vigilância e de disciplina de Gilead, sendo um grande instrumento ideológico, a começar pelo nome. A constante presença dos―Olhos‖ pelas ruas cria a sensação de onipresença, carregando o nome do Estado e da Igreja, em locais onde estas instituições não agem diretamente.

Acerca da vigilância constante, Offred reflete sobre uma das funções de Ofglen: ―A verdade é que ela é minha espiã, como eu sou a dela. Se alguma de nós escapulir da rede por causa de alguma coisa que aconteça em uma de nossas caminhadas diárias, a outra será responsável‖. (ATWOOD, 2006, p.30). Ofglen pode ser um Olho para testar a protagonista, assim como Nick poderia ser um, ou qualquer outra pessoa. Assim, mesmo que Offred não veja o vigilante ou em quais momentos está sendo vigiada, ela procura seguir as normas.

Aliada à técnica da vigilância permanente está o dispositivo disciplinar que visa ao silêncio, à clausura, comoforma resistência e controledos corpos. Ao impregnar os indivíduos de ideologias do sistema e amedrontá- los acerca de qualquer desvio, o regime reforça suas próprias ideologias, pois se a aia é um mero objeto reprodutor, ela não possui subjetividade e voz.

Ao se discutir a noção de disciplina como parceira do poder em The Handmaid’s Tale, vê-se que os esquemas disciplinares adotados pelas autoridades se assemelham mais ao perfil das cidades pestilentas, uma vez que há forte presença das instituições fechadas e vigilantes, de violência e de punições. Apesar disso, nota-se que o espírito que rodeia este esquema é marcado fortemente por uma tentativa de usar recursos de prevenção de violação similares ao que é usado no modelo panóptico. A atuação da polícia, sendo de grande relevância para a execução da disciplina, usa o recurso da vigilância permanente e intervém pelas outras instituições no meio do público, levando um discurso impregnado da ideologia do poder.

Quando se trata de tecnologias dos corpos, verifica-se que não só a disciplina, mas, também, o controle da vida é de suma importância em The Handmaid’s Tale. As técnicas de vigilância passam pelos métodos utilizados na cidade pestilenta, pelo modelo panóptico, direcionando-se para uma configuração ainda mais complexa. Além dessas características, observa-se que as relações de poder presentes em Gilead, executam o controle por meio da biopolítica.