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6. Analyse

6.4 Information Ratio (IR)

Quando mencionei, na introdução, as inquietações que motivaram a minha busca por respostas com relação às dificuldades enfrentadas pelos usuários e profissionais dos CAPS, no tocante ao processo de alta, e veio-me a ideia de usar a TCI como uma abordagem terapêutica potente, capaz de ajudar os usuários a enfrentarem os sentimentos de menos valia, bem como a fragilidade vincular, decidi que faria uma pesquisa-ação-intervenção. Como não encontrei na literatura nenhum estudo sobre a TCI que houvesse empregado esse método, oriundo da pesquisa-ação e da pesquisa-intervenção, e uma vez que o GEPSMEC/UFPB não havia ainda desenvolvido nenhuma pesquisa do tipo que pudesse ser reaplicada, tive de debruçar-me sobre leituras que me orientassem nessa direção.

A primeira fonte que busquei foram os escritos do Dr. Adalberto Barreto, criador da TCI. Neles, encontrei elementos com que pude confirmar a minha opção pelo método. Nesse sentido, convém destacar que, para Barreto (2008), a TCI tem seus fundamentos baseados no método da pesquisa-ação-participação (Research Action Participation – RAP), que se define como uma rejeição ao monopólio acadêmico sobre a produção do conhecimento, uma vez que é construída com os saberes da base, na base e para a base (ATELIER ..., 1997; BARRETO, 2009). Tendo isso em mente, busquei na literatura mais informações sobre a pesquisa-ação, a pesquisa participante e a pesquisa-intervenção, e encontrei nos estudos de Thiollent (2011); Rocha e Aguiar (2003), e Tripp (2005) alguns pontos relevantes, que compartilho aqui, a fim de justificar o paradigma adotado.

A pesquisa-ação surgiu no final da década de 1930, nos Estados Unidos, e o primeiro pesquisador a publicar informações sobre esta modalidade de pesquisa foi o psicólogo alemão Kurt Lewin, que fundamentava seus estudos em uma psicossociologia ativa ante as questões sociais. Outro pesquisador nesta área foi o sociólogo estadunidense John Collier, comissário do Departamento de Assuntos Indígenas dos Estados Unidos na Administração Roosevelt,

que utilizou a pesquisa-ação com a finalidade de melhorar as relações inter-raciais em nível comunitário, durante a Segunda Guerra Mundial (ROCHA; AGUIAR, 2003; TRIPP, 2005).

No Brasil, os estudos mais conhecidos como pesquisa-ação foram publicados por Thiollent (2011), no campo da sociologia, e, posteriormente, outros estudos foram realizados por Brandão (2008) no campo da educação popular. A pesquisa-ação é, às vezes, considerada como pesquisa-intervenção ou pesquisa participante. Na área de educação, é comum encontrar uma visão de pesquisa-ação que, fundada na teoria de Paulo Freire, associa-se a um projeto de caráter político-crítico, reivindicativo e marginal, no qual tanto o processo como os resultados da investigação constituem compromissos assumidos com os movimentos populares.

Alguns autores fazem distinção entre os termos pesquisa-ação, pesquisa-intervenção e pesquisa participante; outros, não. Segundo Rocha e Aguiar (2003), na literatura estrangeira, há uma grande preocupação entre os pesquisadores em diferenciar as pesquisas participativas (também chamadas de pesquisa-ação ou Action Research) e não participativas, e em elencar as distinções entre as metodologias da pesquisa participante, da pesquisa-ação e da pesquisa- intervenção. No Brasil, porém, os pesquisadores tentam conceituar tais diferenças, algumas vezes gerando dificuldades no tocante à sua compreensão.

Nesse sentido, Ardoino (1988), por exemplo, discute a pesquisa-ação como alternativa metodológica e epistemológica. O autor afirma que ―a pesquisa-ação constitui-se em uma alternativa epistemológica e não somente metodológica, pois o que está em questão é uma visão de mundo‖ (ibid., p. 78). O que está implícito no método é a busca pela compreensão e não pela explicação do fenômeno. Já para Thiollent, trata-se de uma questão de terminologia, sendo toda pesquisa-ação, também, do tipo participativa, ainda que nem tudo que se chame de pesquisa participante seja uma pesquisa-ação. Para este autor:

A Pesquisa Participante é, em alguns casos, um tipo de pesquisa baseado numa metodologia de observação participante na qual os pesquisadores estabelecem relações comunicativas com pessoas ou grupos da situação investigada com o intuito de serem melhor aceitos (THIOLLENT, 2011, p. 21).

Barreto (2009), no entanto, sustenta que não há diferenças tão relevantes entre o que se chame pesquisa-ação, pesquisa-intervenção ou pesquisa participante. A pesquisa-ação, afirma o autor, é também participante. Nesse sentido, a pesquisa-ação-participação é vista como um método em que a sensibilidade e a qualidade da relação entre o pesquisador e a comunidade são tão importantes quanto as ferramentas técnicas utilizadas. Não se trata, pois, de somente mais um know-how, uma capacidade cognitiva adicional. É um método que se encontra além das competências técnicas necessárias, já que o pesquisador assume uma postura humanizada através da paciência e do respeito ao outro, levando os participantes à alteridade (ATELIER

..., 1997). Além disso, cumpre destacar, por fim, que Gajardo (1999) entende que a pesquisa participante supõe uma troca intersubjetiva entre todos os que nela tomam parte, incluindo o pesquisador, assim como uma mudança definida a partir de um consenso e uma proposta de se buscarem soluções, tendo-se em conta a experiência do grupo e sempre à luz do conhecimento científico.

A implementação dessa modalidade de pesquisa possibilitou o desenvolvimento de procedimentos que se converteram em práticas. No nosso caso específico, as realizações das rodas de TCI foram a ação/intervenção prática da pesquisadora, a qual também atuou como terapeuta comunitária, tendo formação reconhecida para tal. Vale salientar que, assim como Ardoino (1987), citado por Paulon (2005), entendemos a intervenção não como uma ação de intromissão violenta, mas, como sugere aquele autor, um interventio, entendido como um ―vir entre‖; isto é, uma ação que busca promover uma transformação entre uma realidade objetual conhecida antes e depois da ação.

Isto posto, esclarecemos que, na presente pesquisa, a ação/intervenção realizada foi a TCI, desenvolvida com a finalidade de promover mudanças em uma realidade microssocial, vivenciada pelos usuários do CAPS. A TCI tem uma técnica denominada passo a passo, que já foi descrita no referencial teórico e que orienta o terapeuta na condução da roda. Nesta, um dos objetivos do terapeuta é estimular a fala dos participantes, a fim de que relatem situações vivenciadas no cotidiano, as quais lhes provoquem sofrimento, sendo também nesse espaço e momento que se abre a possibilidade para que sejam compartilhadas experiências nas quais houve enfrentamento para superar tais situações. Ali, cumpre ao terapeuta manter-se atento, também, à escuta de si, de modo que ressignifique conceitos, ideias e valores, mas, sobretudo, que aprenda com as experiências do grupo.

A esse respeito, convém lembrar que, como opera ―no plano dos acontecimentos, a intervenção deve guardar sempre a possibilidade do ineditismo da experiência humana, e o pesquisador a disposição para acompanhá-la e surpreender-se com ela‖, tal como esclarece Paulon (2005, p. 21). Compreendo, portanto, que, em meu envolvimento com a pesquisa, não foram só os sujeitos participantes que passaram por uma transformação. Enquanto pessoa, terapeuta e pesquisadora, também eu me transformei.

Ainda com relação à pesquisa-ação, no entanto, é preciso lembrar que uma de suas características é ser auto-avaliativa: as modificações introduzidas na prática são comumente avaliadas no decorrer do processo de intervenção, ao passo que o feedback adquirido com o monitoramento da prática é traduzido em mudanças de direção e redefinições, de acordo com a necessidade. Além disso, é uma pesquisa de caráter cíclico, uma vez que as fases finais são

utilizadas como maneira de aprimoramento dos resultados obtidos nas fases anteriores (ENGEL, 2000). Por essa razão, após a realização de cada roda de TCI, buscou-se avaliar tanto a forma como esta fora conduzida, considerando-se o passo a passo da TCI, como também as falas dos participantes por meio da conotação positiva (Barreto, 2008). Essas avaliações realimentavam o planejamento da roda seguinte. A figura abaixo ilustra o processo pelo qual o pesquisador atua no cenário:

Figura 01: Processo de atuação do pesquisador

Fonte: internet através do buscador Google, 2015.

É importante destacar que a TCI foi operacionalizada através de uma prática que não se definiu como uma intervenção psicoterapêutica, mas, sim, como um ato terapêutico de grupo, passível de ser realizado com qualquer número de participantes de quaisquer níveis socioeconômicos. É uma prática de intervenção simples, mas não simplista, de maneira que requer capacitação. A TCI deve ser sempre dirigida por terapeutas comunitários devidamente qualificados, exigindo preparo e formação de 240horas/aula, incluindo momentos vivenciais, intervisões, bem como atividades práticas realizadas com grupos na comunidade de destino do terapeuta.