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Informasjonsutveksling og samhandling

O texto da PNAISH veicula a ideia de que “[...] mobilizar a população masculina brasileira pela luta e garantia de seu direito social à saúde” (BRASIL, 2008, p. 7) é um dos desafios. Sob essa premissa, o objetivo é tornar os homens protagonistas de suas demandas, consolidando seus direitos de cidadania.

No documento, o conjunto de ideias agregadas no subitem “Direitos sexuais e reprodutivos”, ao contrário dos demais, emprega uma linguagem predominante dos direitos e

não expõe dados sobre agravos ou ameaças à saúde sexual e reprodutiva. Sua função é mais ousada; expõe uma espécie de “agenda política”, afirmando a necessidade da implementação dos “direitos” sexuais e reprodutivos dos homens. Essa não é uma estratégia inocente:

O documento [a PNAISH], de algum modo, afirma o caráter “insalubre” de certa masculinidade, sendo os homens apresentados como vítimas de sua própria masculinidade, ou seja, das crenças e valores que constituiriam as “barreiras socioculturais” que se antepõem à medicalização. O objetivo principal do programa é enfraquecer a resistência masculina à medicina de uma forma geral, ou seja, medicalizar os homens. Para tanto, uma ação educativa bem feita “modernizaria” os homens brasileiros, dissipando o pensamento mágico que os (des)orienta e que os torna presas de seus próprios preconceitos (CARRARA, RUSSO, FARO; 2009, p. 672).

A temática da saúde sexual e reprodutiva atravessa todo o texto da política. Mas, em seus “Objetivos específicos” ela a evidencia sem nenhum pudor. Ainda que apresente metas tradicionais, a ênfase está posta na saúde sexual e nos direitos sexuais e reprodutivos em detrimento de outros temas, como violência e alcoolismo, destacados na discussão sobre morbimortalidade masculina. Assim, apesar de discutir longamente outros fatores considerados como mais relevantes à saúde masculina, o foco da política é dirigido para as temáticas da saúde sexual e dos direitos sexuais e reprodutivos, delineando a tentativa de enfraquecer a resistência masculina à patologização de suas vivências e aos enquadres biomédicos, de uma forma geral.

Na discussão a respeito dos processos que envolvem a associação entre sexo, saúde e medicalização masculina podemos acompanhar detalhes de uma versão que envolve diversos interesses e leva à vinculação da saúde dos homens com disfunção erétil, por meio de estratégias que envolvem negociações, campanhas com informações distorcidas e direcionamento de profissionais da área da saúde. Nessa visão, o destaque fica para o papel desempenhado pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), em contraste com outras sociedades médicas das áreas da cardiologia, saúde mental, gastroenterologia e pneumologia (CARRARA, 1996; CARRARA, RUSSO, FARO, 2009; ROHDEN, 2012, 2012a).

A SBU, em meados de 2004, já exercia pressão sobre setores do governo, parlamentares, conselhos de saúde e outras sociedades médicas para a elaboração de uma política de atenção à saúde masculina. Sob o argumento de que os homens não costumam se preocupar com a própria saúde, a entidade ressaltava que, em contrapartida, eles preocupam- se com seu desempenho sexual – traduzido em termos de função erétil. Isso poderia, segundo a perspectiva da SBU, ser aproveitado para facilitar a captação dos homens para o tratamento

de outras doenças. Contudo, para que essa estratégia pudesse ser efetivada, seria fundamental assegurar a presença mais representativa e constante dos urologistas nos serviços de saúde (CARRARA, RUSSO, FARO, 2009; ROHDEN, 2012).

Fabíola Rohden (2012, p. 2647-2648), usando como disparador de seu trabalho o tema da saúde sexual como porta entrada do homem aos serviços de saúde, analisa o cenário, de 2008, a partir de materiais desenvolvidos por laboratórios farmacêuticos, congressos médicos e eventos públicos e publicados na mídia (impressa e audiovisual). O conteúdo desses diversos materiais envolvia, principalmente, as temáticas: disfunção erétil (o que é, a quem afeta, em quais momentos da vida, como indicadora de doenças, como causa e causada em função de outros problemas, como questão de saúde pública); qualidade de vida e da atividade sexual; nível de satisfação sexual de homens e mulheres; felicidade; distúrbios sexuais; e medicamentos (inovações, benefícios, porta de entrada para a saúde dos homens, uso seguro para jovens, contra insegurança no desempenho sexual, como redutor de riscos relacionados com outras patologias).

A valorização da “disfunção erétil” configura-se como um movimento contraditório na PNAISH. Há em seu texto uma crítica à ideia de invulnerabilidade, ou seja, de potência presente na construção da masculinidade hegemônica que, em uma percepção linear, levaria os homens a serem “relapsos” com sua saúde, provocando menor procura por atendimentos, serviços e exames médicos. Assim, a estratégia de centrar a atenção à saúde dos homens na potência sexual – vista como capacidade de obter uma ereção – acaba reforçando a centralidade dos valores que supostamente pretende combater. Como alertam Sérgio Carrara, Jane Russo e Livi Faro (2009, p. 666):

Paradoxalmente, ao prometer devolver-lhes a potência perdida, os urologistas não deixam de procurar atrair os homens aos cuidados de saúde justamente a partir da configuração de valores que os afastaria de tais cuidados e que, como é o caso da virilidade, compõem os fundamentos mesmos da masculinidade hegemônica.

Outro aspecto que precisamos abordar diz respeito à utilização singular da noção de saúde sexual, destacada por Rohden (2012). A autora assinala que, no enquadre masculino, o conceito de saúde sexual tem caminhado para um esvaziamento, uma redução em direção à disfunção erétil – corroborando a ideia de sexualidade masculina como restrita à ereção e, ainda, com o agravante de ser pensada quase exclusivamente em marcos heterossexistas, ignorando quaisquer outras formas de percepção da sexualidade masculina.

Os trabalhos de Carrara (1996) e Rohden (2012, 2012a) também nos possibilitam introduzir um contraponto entre o enfoque na disfunção erétil, a criação de uma nova farmacologia do sexo e o grande movimento do início do século XX em torno da sífilis e do combate mais geral das doenças venéreas. As consequências e a gravidade dessas doenças facilitaram um processo que levou muitos homens a se transformarem mais facilmente em pacientes, e sua masculinidade em objeto passível de intervenção. Antes dessa abordagem os processos da área da medicina tinham uma “suposta soberania” apenas sobre os corpos de mulheres e crianças; mas, a partir do mal que a sífilis representou, o poder dos homens sobre seus corpos entrou em questão e, por fim, também eles foram entregues à medicalização.

Nesse momento, foi fortalecida a ideia de um compromisso com o coletivo, motivado pela responsabilidade biológica frente aos filhos, visto que a sífilis congênita condenava-os à morte ou ao convívio com sequelas. E, ainda, pela ameaça à estrutura de uma população saudável e da ordem social, a partir da associação com a degeneração e o enfraquecimento da raça. Isso porque havia um forte conteúdo moral em torno da doença. Socialmente, ela “comprometia” a descendência dos atingidos, representando ao mesmo tempo a degradação individual. O conhecimento que se produzia sobre a sífilis reforçava a tese de que os problemas sexuais masculinos relacionados com a doença iniciavam-se de fora para dentro e eram decorrentes do excesso sexual.

Na visão de Carrara (1996), essa configuração também foi facilitada pela constituição de novas estruturas políticas. Por meio de ações realizadas em nome do combate à sífilis, o Estado e os médicos foram protagonistas de intervenções relacionadas ao poder patriarcal. Nesse momento, prerrogativas masculinas hegemônicas foram questionadas; entre elas, o acesso às mulheres, os modos de obter prazeres sexuais e as alianças matrimoniais. Em outras palavras, os homens deveriam ser capazes de mostrar autocontrole sobre seu comportamento sexual.

Em meio a esse cenário, na década de 1930 o médico José de Albuquerque25, que se autoproclamava sexólogo, marcava resistência ao processo de medicalização da sexualidade, advogando a favor da educação sexual e da criação da andrologia, uma ciência voltada para os problemas sexuais masculinos, especializada na função sexual e do aparelho reprodutor masculino. No âmbito das disputas entre especialidades médicas, ele também combatia ideias e ações de urologistas; criticava o monopólio indevido de problemas como impotência,

25 José de Oliveira Pereira de Albuquerque, médico com grande atuação no campo da educação sexual, do estudo

dos problemas sexuais masculinos e da institucionalização da andrologia, destacou-se pela marcada oposição a algumas das sociedades médicas brasileiras, em especial, a SBU. Nos anos de 1930, seu trabalho ganhou grande reconhecimento internacional (RUSSO, CARRARA, 2002; ROHDEN, 2012).

esterilidade, ejaculação precoce e doenças venéreas, entre outros que, em sua visão, deveriam ser objeto de tratamento mais apropriado pela andrologia. Contudo, na atualidade, a urologia tem se destacado como especialidade legítima no cuidado da sexualidade masculina, e, apoiada na farmacologia sexual, tem se mostrado cada vez mais presente (CARRARA, 1996; ROHDEN, 2012).

No Brasil, outro evento relacionado com a sexualidade masculina, cuja formulação igualmente teve início nos anos de 1930, foi a introdução da noção de andropausa ou distúrbio androgênico do envelhecimento masculino (DAEM).26 Na perspectiva biomédica, é nomeada como uma “doença”, descrita em torno de um conjunto de características que podem afetar os homens a partir dos 35-40 anos de idade, como a perda da libido ou desejo sexual, diminuição de massa muscular, perda de energia, depressão e disfunção erétil, entre outros sintomas, tendo como causa o decréscimo na produção da testosterona (ROHDEN, 2012a). A autora, atualmente, investiga as redes criadas no processo de construção da andropausa como um fenômeno de interesse público e a sua relação com a medicalização da saúde e a sexualidade masculina, tendo os hormônios como modelo preponderante de entendimento do corpo. A partir de 2005, segundo Rohden (2012a), ocorreu maior ascensão da andropausa em função do uso de argumentos de especialistas, divulgados por meio de pesquisas quantitativas e de novos medicamentos. Nesse cenário, o processo de medicalização é fortalecido. Até mesmo a busca por outros tratamentos, como o psicoterápico, perdeu espaço face à proposição de novas drogas ou a redescoberta de antigas, como os antidepressivos, para a resolução de problemas sexuais que incluem a dificuldade de ereção, ejaculação precoce e falta de desejo.

Nesse período, a disfunção erétil foi aceita e incorporada ao discurso público. Ao mesmo tempo, também foi problematizada a relação entre vivência sexual e idade. Surgiu daí um novo modelo de envelhecimento e um estilo de vida com ênfase na saúde, na atividade física, em especial a sexual. Nessa área, instituiu-se certa “cobrança” pessoal e social para que os homens tenham uma vida sexual com capacidade de ereção. Assim, o declínio da prática sexual deixou de ser aceito com passividade por muitos deles. A capacidade de penetração – que para muitos é o símbolo de virilidade e identidade masculina – não apenas “deve” ser garantida, como deve incorporar a noção de que tem de ser mantida até o fim da vida (ROHDEN; 2012, 2012a).

26 Mais detalhes podem ser encontrados no artigo A “criação” da andropausa no Brasil: articulações entre

Esse contexto foi propício para o surgimento do Viagra (citrato de sildenafil) – medicamento do laboratório Pfizer, destinado a facilitar e manter a ereção – e também para a fixação dos resultados da influência de sua prescrição e uso.

Para garantir o sucesso do novo medicamente, foi preciso, por um lado, transformar a disfunção erétil em um problema que pode atingir qualquer homem, em qualquer fase da vida e que já estaria disponível uma droga capaz de resolver ou de prevenir esta dificuldade. Nesse sentido, o Viagra integraria o conjunto bem mais abrangente das chamadas drogas de estilo de vida ou medicamentos de conforto, destinadas a melhorar a performance individual, um mercado claramente em expansão. Por outro lado, a Pfizer também trabalhou no sentido de promover a ideia da disfunção erétil como um tópico aceitável do discurso público, o que levaria a uma maior procura pelo tratamento (ROHDEN, 2012, p. 2650).

Ainda que a divulgação de informações que coloquem dúvidas sobre a eficácia e segurança da utilização dos medicamentos envolvidos facilite certa perspectiva crítica, o processo de medicalização tem prevalecido, na prática médica e mesmo nos territórios que ela não domina. Prova disso é que o consumo sem prescrição também é grande.

O processo de medicalização do corpo masculino conduz ao surgimento de novos pacientes. Nele, a preocupação com a saúde passa a ser um atributo moral do indivíduo, que precisa estar informado a respeito dos novos conhecimentos, das práticas de cuidado, prevenção e tratamento das doenças e, ainda, estar disposto a consumir os recursos disponíveis. Nesse contexto, é possível compreender que a saúde sexual passa a ser convertida em um bem valorizado, o que conduz Rohden a lançar a hipótese

[...] de que talvez o cuidado com a saúde, via a ênfase na ameaça das doenças, permaneça na perspectiva dos urologistas brasileiros como ainda insistentemente atrelado ao feminino. Poder-se-ia supor que, em função disso, para levar os homens aos médicos e serviços de saúde seria preciso usar a estratégia de não falar de doenças, mas sim prometer a manutenção ou melhoria da ereção ou, em poucas palavras, capturá-los pelo sexo (2012, p. 2652-2653).

5 REPERTÓRIOS DE CUIDADO COM A SAÚDE NO CONTEXTO