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In document #liveterbestute (sider 78-83)

O imaginário como objeto da história, como campo de estudo histórico, é formado por representações sociais que ultrapassam os limites da experiência, avançando pelo terreno do irreal, psicológico, dedutivo. Segundo Le Goff (1990, p. 292) a obra de Michelet abriu caminho para o estudo do imaginário. Desde então, tem sido objeto de reflexão por parte de muitos que se dedicam à história social.

Com o avanço das pesquisas neste campo, a época que medeia entre as duas grandes guerras é tida como o período em que realmente se começou a produção histórica acerca do imaginário. Realmente, neste tempo o imaginário “encontra lugar na jovem história das mentalidades e instrui-se com os trabalhos dessa última [...]” (Le Goff, 1990, p. 294). Com essa nova categoria histórica, a do imaginário, diferentes e inéditos métodos de análise surgiram ou foram incorporados à ciência histórica que os buscou nas disciplinas correlatas à história, como a antropologia, etnologia, sociologia etc, constituindo-se em um novo campo para o conhecimento histórico.

Visto não ser o escopo deste trabalho, não se fará aqui a discussão a respeito de o imaginário estar ou não contido na História das Mentalidades, mesmo porque, como escreve Reinato (1996, p. 234), a história das mentalidades é de difícil definição, tanto quanto a do imaginário. Concorda-se, porém, com este autor, quando em seu ensaio intitulado: História do imaginário: da história fantástica ao fantástico da história, trata das imagens construídas cultural e socialmente:

Concordamos de antemão que o imaginário é um novo domínio da história. Concordamos também com a perspectiva de que o imaginário é uma relação. O que é o imaginário flui exatamente dessa constatação. Assim, o imaginário faz parte do universo de representações produzidas pelos homens nessa relação que estabelecem com as imagens criadas cultural e socialmente (REINATO, 1996, p. 236).

O imaginário social utiliza o discurso como caminho para se tornar compreendido, inteligível, reunindo as representações coletivas numa linguagem simbólica cujo objetivo pode ser detectado pelo conhecimento histórico. Como sistema de orientação expressiva, o imaginário pode engendrar discursos utilizados pelos agentes sociais na relação com o seu grupo social, com hierarquias sociais e suas relações de dominação com o controle social e a manutenção do poder em uma sociedade.

Esquema de interpretação, mas também de valorização, o dispositivo imaginário suscita a adesão a um sistema de valores e intervém eficazmente nos processos de sua interiorização pelos indivíduos, modelando os comportamentos, capturando as energias e, em caso de necessidade, arrastando os indivíduos para uma ação comum (BACZKO, 1996, p. 311).

O imaginário coletivo foi sempre manipulado pelos donos do poder para os seus fins de dominação. Aliás, segundo Baczko (1996, p. 310) “é no centro do próprio imaginário social que se encontra o problema do poder legítimo, ou melhor, para ser mais exato, o problema da legitimação do poder”.

A apropriação do imaginário coletivo – utilizando-o como ingrediente de uma tradição inventada, em mistura com a mitificação de um personagem histórico, tendo como meta a manipulação da tradição histórica para fins de dominação – está no centro da história oficial de Curralinho, em cujos meandros as manipulações da história e da criação, a forceps de tradições, vão tomando espaço e ofuscando a tradição popular.

Para Baczko (1996, p. 236) a sociedade é dirigida por representações, as quais não podem separar-se de seus agentes, atos, classes, religiões, comunidades etc. Reinato (1996, p. 236), seguindo o mesmo raciocínio, reitera que “todo o conjunto social, de certa forma, acaba por ser guiado por essas representações e símbolos criados. Nesse sentido, o imaginário vincula-se a uma lógica de controle social.” É precisamente tal reflexão que nos leva a enquadrar alguns aspectos da reconstrução de Derval de Castro no imaginário. Reflete-se que Derval ao se utilizar do episódio dos Távora manipulou o imaginário social com o fito de alicerçar sua reconstrução. Se bem que em outros limites e noutro contexto, Derval manipula o imaginário para excercer um controle social. O autor do Annaes realmente influenciará, com sua intelectualidade, toda uma população, valendo- se do enredo criado sobre os Távora, com intenção carregada de ideologia47.

O imaginário, portanto, revela uma significação que ultrapassa em muito o aparente, a forma, manifestando-se, praticamente, em todas as sociedades históricas.

A rigor, todas as sociedades, ao longo de sua história, produziram suas próprias representações globais: trata-se da elaboração de um sistema de idéias-imagens de representação coletiva mediante o qual elas se atribuem uma identidade, estabelecem suas divisões, legitimam seu poder e concebem modelos para a conduta de seus membros (PESAVENTO, 1995, p.16).

47 Ideologia aqui é vista em sentido restritivo, como a legitimação de idéias que objetivam a dominação

Avançando mais nesse raciocínio, vê-se que Derval ao se utilizar do imaginário dos Távora, reconstruindo com ele a origem de Curralinho lança mão de fontes (orais ou não) a respeito do acontecido aos Távora. Assim fazendo, torna-se, ele mesmo, com seu enredo, uma fonte do imaginário para nós, hoje, como se depreende da leitura de Reinato (1996, p. 236): “[...] O imaginário faz parte do universo de representações produzidas pelos homens, nessa relação que estabelecem com as imagens criadas cultural e socialmente”.

Derval, assim, apropria-se do imaginário existente em Goiás sobre os Távora, e com ele tece a base da reconstrução que encetará sobre a origem de Curralinho.

O imaginário do qual Derval se vale, como fonte e material a ser utilizado com fins de dominação e controle social, presta-se, nesse caso concreto, à manipulação da memória, ainda mais que, para o homem moderno, como acentuou Mircea Eliade (1989, p. 135), a herança tradicional oral, para ser aceita, tem de ser apresentada sob a forma de livro. Nesse sentido Reinato (1996, p. 240), falando sobre o imaginário e a relação que poderá ter na representação de dirigentes e populações, escreve:

O ato de criação de uma memória pode ser também o ato de manipulação de um imaginário, ou se quiserem, a imposição de um imaginário [...]. Isto tudo atende muito bem aos interesses freqüentes de detração do ‘outro’, recurso usado para se instituir o processo de dominação.

Assim, o imaginário, manipulado e usado como manipulação da memória, é no caso em questão um dos elementos formadores da tradição inventada utilizada por Derval de Castro. Sua reconstrução, utilizando-se da tradição inventada para legitimar o poder que se quer exercer em uma comunidade, busca na apropriação do imaginário o coadjuvante para seu enredo. Desvendar esta trama compreendendo seus mecanismos é o que se quer. E isso é exatamente a busca do sentido, o querer explicar o discurso, saber o porquê de ele ser construído e qual a intenção de seu sujeito.

Nesta mesma linha de pensamento é que Pesavento (1995, p. 25), arremata seu texto Em busca de uma outra História: imaginando o imaginário, quando ao falar do objeto da história e sua correlação com as novas categorias de análise, as quais são enriquecedoras dos estudos históricos, escreve:

O que, porém, poderia ser mais objeto da história do que esta busca de sentido, este renovar incessante das tentativas de explicar alianças, enredos, desejos, intenções, do que este tecer e retecer da tessitura social?

In document #liveterbestute (sider 78-83)