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Quando Narradores de Javé retoma a estrutura da novela toscana ou As mil e uma noites, o que parece é que se pretende remontar à tradição secular de contar histórias. Lembremos que As mil e uma noites é um dos livros mais comumente associados à arte de narrar. Sherazade, para sobreviver, conta suas histórias infinitamente, encaixando-as umas nas outras. Narrar é, em certa medida, garantir- lhe a vida. Com as narrativas ligadas, traça-se um fio que não pode ser cortado ou interrompido sem o prejuízo de perder essa cadeia de acontecimentos conectados. Ao rompê-las, também o fio de vida de Sherazade seria cortado.

Assim, parece que o filme pretende mostrar que ainda é possível narrar nesses moldes arcaicos, pois essa estrutura permite o despojamento do revestimento psicológico dos personagens em função de uma maior ênfase nas ações e acontecimentos que eles contam. O ouvinte ou, no caso do cinema, o espectador, acompanha essas histórias/ações por meio de uma forma de narrar que é própria do povo: os contos orais. Mesmo que haja conjecturas sobre a extinção desse modo de narrar na Modernidade, essa estrutura narrativa é reconhecível, pois especialmente os contos infantis ainda a utilizam com frequência. Assim, tendo sua ancoragem no povo, essa forma de narrar é identificável por qualquer espectador.

Por outro lado, ao ser parodiada por um filme, a estrutura de encaixe de narrativas adquire novo sentido e é revitalizada no presente. A primeira revitalização é a possibilidade de ela se dar em um outro suporte, o audiovisual. O cinema torna- se um novo meio para que a estrutura de encaixe, peculiar às narrativas orais, seja retomada, acrescentando a ela matéria extralinguística, imagens em movimento. Em Narradores de Javé, além de ouvir as narrativas encaixadas, é possível vê-las materializadas na tela, o que enfatiza as diferenças entre as histórias devido à mudança de narrador, ressaltando os aspectos individuais da experiência e da memória daquele que conta.

Se o cinema funciona como um meio de narrar, ao inserir dentro dele uma estrutura que remete à oralidade, parece que Narradores de Javé pretende iniciar uma rede de histórias que não se acaba com os créditos finais. Cada espectador torna-se um ouvinte, que deve contar suas histórias – ou aquela que ele viu e ouviu

138 no cinema – e então continuar o encaixe que se percebe no filme. Nos minutos finais, Zaqueu (dentro do nível 2), pontua com voz off a cena em que o povo de Javé caminha para o novo lugar onde se estabeleceria: “E desde então é essa a história de Javé que se conta, mas que também pode ser lida e relida por essas serras e por essas grotas sem fim. Está assentada em livro, correndo o mundo pra nunca que ser esquecida. É isso e não tem mais que isso. Quem quiser que escreva diferente.” Ao contar, é acrescentado o escrever. À oralidade, é acrescentado como possibilidade de materialização tanto o suporte escrito quanto o próprio cinema. Além ser lida, a história de Javé pode, por meio do filme, ser vista tanto numa tela de cinema quanto na casa de cada espectador, em DVD.

Para além dessa possível interpretação quanto à função das narrativas encaixadas no filme, podemos caminhar para a retomada do passado como uma resposta ao presente. Conforme aponta Jameson, o pós-modernismo é caracterizado pelo fragmentário, e a produção cultural desse momento seria, portanto, “um amontoado de fragmentos” (JAMESON, 1997: 52). Assim, construir uma narrativa no cenário contemporâneo por meio do encaixe de narrativas parece espelhar essa característica do pós-modernismo. Se não há como recorrer a um todo homogeneizante, da mesma forma não há como narrar de forma homogênea. Talvez um dos modos de narrar contemporâneos seja por meio dos fragmentos, do arranjo das pequenas partes aparentemente desconexas, mas que, juntas, podem constituir uma aparente unicidade.

Mais interessante essa constatação se torna quando percebemos que, em certa medida, esses fragmentos narrativos do filme são fragmentos de narrativas da memória. Desde tempos mais remotos, as discussões sobre a memória ressaltam como características marcantes sua incompletude e fragmentação. A memória, tanto dos narradores quanto da própria comunidade de Javé, é marcada pela convergência de lapsos com fragmentos de lembranças, o que reforça a dificuldade de traduzi-la num todo coerente. Como vimos, esses e outros aspectos relativos à memória foram retomados e traduzidos em termos imagéticos e verbais em Narradores de Javé. Agora, podemos perceber que também em termos da estrutura narrativa, o filme reforça a dificuldade de se lidar com narrativas da memória, ressaltando isso por meio do encaixe de narrativas muitas vezes incompletas.

139 Assim, parodiar a estrutura de encaixe arcaica, que remete à novela toscana e às narrativas orais, parece servir, num primeiro momento, para atualizá-la no suporte audiovisual, remetendo os espectadores a uma cadeia narrativa e convocando-os a dela participar. Ao mesmo tempo, a serviço de uma reflexão sobre o presente, parece ressaltar o caráter fragmentário que se percebe tanto nas narrativas da memória quanto na produção cultural da sociedade pós-moderna.

Se parece ser possível narrar nos moldes arcaicos utilizando um suporte audiovisual, ao mesmo tempo, essa forma de narrar que remete às narrativas orais acaba não cumprindo seu papel. Diferentemente de Sherazade, que, contando narrativas encaixadas, consegue garantir sua vida, Javé não resiste e aparentemente perde o jogo. Os encaixes na narrativa contemporânea parecem não adquirir sentido e não cumprem o que deles se espera: Javé é inundada. O modelo arcaico de narrar não possui mais a função de salvamento e garantia de vida na sociedade contemporânea. Esse encaixe parece servir mais para espelhar o caráter fragmentário do próprio pós-modernismo e mostrar o jogo e a incompletude presentes nas narrativas atuais, especialmente nas narrativas da memória. No entanto, ao mesmo tempo em que Javé não resiste, o filme sobrevive com seu fracasso. Por meio da narrativa fílmica, a história e a memória de Javé continuam existindo e podem percorrer o mundo.