De acordo com Black et al.(1991a), o ajustamento da família, especialmente da esposa, está positivamente relacionado com outras dimensões de ajustamento: geral, interacional e trabalho. Esta categoria, formada por dois códigos que foram inferidos das entrevistas com os expatriados da Empresa Z e da amostra V, será analisada a seguir. Optou-se pelo modo de apresentação visual abaixo apenas para facilitar a descrição inicial desses dois códigos:
Figura 6 – Códigos da categoria ajustamento da família Fonte: elaboração própria
Ajustamento da família Alta dependência da comunidade de expatriados {Z=5;V=2} Sem dificuldades {Z=2; V=5} Dificuldades da família {Z=6; V=8}
5.8.1 Dificuldades da família
Neste código estão contempladas as dificuldades das famílias dos expatriados no Brasil. O número significativo de expatriados que vieram sozinhos nas duas amostras (Z=6;V=9) repercutiu relativamente em poucas citações referentes a esse código. Houve seis (6) citações no caso da empresa Z e apenas duas (8) citações referentes a este código para a amostra de vinte e dois expatriados (V). Percebe-se que a questão da segurança é preocupante e desgastante para todas as famílias (ZP13 e outros). P2 e P9 sugerem que suas esposas se acostumaram ao Brasil, mas que isso não significa que gostam daqui. O termo “acostumar” sugere uma aceitação ou o ato de aprender a suportar o ambiente local:
ZP13: Minha esposa veio aqui há dois anos e ela já tinha morado 5 anos quando pequena nos EUA...ela tinha certas inseguranças mas ela passou a assistir a algumas aulas de línguas aqui, fazer compras e se acostumou bem, mesmo não sabendo a língua. Acho que ela está adaptada. Ela voltou ao Brasil porque nasceu a minha criança e ela ficou 1 mês no Japão. Agora a criança é o principal e ela está um pouco nervosa com a questão da gripe e da insegurança para a criança. Até mesmo para vir com a criança no avião é difícil e agora vou conversar com ela se é possível viver com essa criança aqui. P2: Minha esposa se acostumou, mas não gosta... não gosta...
P9: Adaptou...hum...talvez se adaptou. Adaptar-se é difícil né, acho que se acostumou...
As esposas dos expatriados geralmente têm certas restrições de mobilidade, pois não tem carro, desconhecem a língua e se sentem inseguras para sair (ZP10). Há também as esposas que não se familiarizam e não conseguem aproveitar as condições favoráveis, para passear e conhecer outros lugares.
ZP10: Penso que vem se acostumando muito embora haja restrições, quando falo em restrições eu me refiro por exemplo ao fato da minha família não sair de carro, ao fato de não ter tanta mobilidade devido ao problema da segurança e por isso acho que não está aproveitando tanto.
ZP2: Bom..ela sofre porque não dirige e também não fala a língua direito..
ZP14: Hum...bom, quando se fala em esposa do expatriado, de uma maneira bem resumida, há dois tipos...aquela que aprecia e aquela
que não aprecia...de um modo geral o salário do expatriado aqui fica mais alto do que se estivesse no Japão, dá para ir a bons lugares..comprar coisas... e a partir daí há quem aproveite mais isso por estar em um país estrangeiro... mas há aquele tipo de esposa que não se familiariza... a minha esposa é desse segundo tipo....há coisas difíceis...mas bom... diferentemente da Argentina, no Brasil, só de expatriados nesta empresa há muitos expatriados .... minha criança está na educação infantil e no ambiente da escola infantil o círculo de amizade entre os pais está aumentando...
O início da vida como esposa de um expatriado japonês (P12) parece ser difícil e marcado pelo isolamento devido à preocupação com a segurança:
ZP12: A minha esposa quando veio ficou cerca de três meses dentro do apartamento e tinha medo devido à questão da segurança e nesse sentido fiquei preocupado...mas veja o homem tem que ir trabalhar e não tem como dizer isso...mas as mulheres dos expatriados quando não pensam em sair não saem e quando têm medo também não saem, mas quando há crianças é diferente pois elas precisam ir às escolas...mas não é preciso sair...exemplo, mulheres sem filhos...mas quando fazem amizades elas saem..minha família se sente adaptada no Brasil.
No caso das amostras Z e “V” respectivamente, observa-se que houve contrariamente às dificuldades, apenas duas (2) e cinco (5) citações por parte dos expatriados relacionadas ao código de ajustamento da família “sem dificuldades”. De acordo com P16, por exemplo, o seu trabalho no Brasil lhe permite permanecer mais tempo com a família do que no Japão e essa situação o ajuda a vencer o estresse do trabalho:
ZP11: Sim, minha família se adaptou e gosta do Brasil...
P16: Aqui houve um aumento do tempo que passo com a minha família e por isso não sinto tanto estresse.
Nota-se em P10 e P22 que a sociedade Brasileira é acolhedora e proporciona inúmeras chances para que a família do expatriado possa se entrosar com os Brasileiros, mesmo que não saibam a língua local (P10):
P10: Está tudo ok. Eu coloquei a minha criança na escola infantil e todo dia ela vai brincar com seus amigos. A minha esposa também fez amizades com as outras mães e elas dizem para ela: a gente estava te esperando... É fácil entrar nessa sociedade, muito embora
a minha esposa ainda não saiba a língua...
P22: ...bom a minha esposa fez amizades com outras japonesas e nas aulas que freqüenta também tem feito amizades. Tenho um filho de 5 anos, outro de 2 anos e está para chegar mais um e na escola de educação infantil a minha esposa tem feito amizades com outras mães, há muitas chances.
Há inclusive a avaliação positiva por parte de P14 e P20 sobre o estilo de vida de suas famílias que acreditam estar adaptadas ao Brasil:
P14: Acho que em qualquer lugar se a família não se adaptar então o expatriado não tem como trabalhar tranquilamente. A minha família já está há cinco anos aqui e ela está adaptada, houve inclusive um tempo em que a minha criança estudava em SP. Como nada grave aconteceu neste período então a minha família está adaptada. P20: Sinto que a minha família está adaptada aqui.
Há casos daqueles que são solteiros ou precisaram deixar suas respectivas famílias no Japão, devido principalmente à questão da educação dos filhos.
ZP3: Estou sozinho aqui...minha esposa havia morado comigo na Holanda e havíamos feito um compromisso de ela sempre me acompanhar mas o meu filho mais velho já está na faculdade e o mais novo está no colegial e aqui no Brasil não há colegial em japonês, então não houve jeito e eu os deixei no Japão.
P5: Hum, na realidade eu estou sozinho desta vez. A minha família ficou no Japão devido à questão da educação das crianças. Na primeira vez em que estive aqui graças as Deus minha família aproveitou bem a experiência.
P11: Desta vez a minha família não está aqui, mas da outra vez eu brincava com a minha criança.
No caso de P18, a opção por não trazer a família partiu do próprio expatriado após consultar a sua esposa:
P18: Não houve negociação de benefícios antes de vir para cá, mas a empresa sugeriu que eu viesse com a família, porém eu disse que deveria vir sozinho, pois a minha esposa trabalha no Japão e não queria desistir do atual trabalho dela.
compensado pelos resultados do trabalho do expatriado que poderão ser usufruídos pela família que está no Japão (P6):
P6: Toda a minha família está no Japão... Não tenho família aqui e também não tenho como cuidar da minha família...só espero que eles possam aproveitar dos frutos do meu trabalho..é a única coisa que me consola...
P15: Infelizmente não vim com a minha família dessa vez, nem da outra.
5.8.2 Alta dependência da comunidade de expatriados
A comunidade de expatriados proporciona segurança e convivência para as famílias, em especial, as esposas dos expatriados. Houve cinco (5) citações relacionadas a este código para o caso da empresa Z. O relacionamento das esposas restringe-se basicamente à convivência com outras esposas de expatriados e à convivência com a comunidade de descendentes de japoneses (nikkey). Assim, as famílias podem se comunicar em japonês e programar atividades sociais como se estivessem no Japão.
ZP1: Bom...se adaptou mais à comunidade de japoneses, se adaptou mais a comunidade de expatriados do que ao Brasil, trocam e-mails, vão às refeições juntos, está mais divertido do que se estivessem no Japão..
ZP8: Faz cerca de 4 meses que minha esposa veio para cá e ela se relaciona apenas com os japoneses e esposas de outros japoneses que também estão aqui. Penso que pelo fato de aqui ser um ambiente alegre e de São Paulo oferecer a culinária japonesa e outras facilidades não houve problemas. Ela está freqüentando aulas de português na escola, mas no momento a minha família só se relaciona com os japoneses.
ZP15: Tem uma escola Japonesa muito boa em Campo Limpo. Basicamente, é como se estivessem vivendo em um ambiente muito próximo ao Japão. Minha esposa chegou a interagir com Brasileiros para aprender a língua ou desfrutar a culinária. Houve esse tipo de relacionamento. As minhas crianças ficaram mais com a mãe. O que era mais comum para a minha esposa era o relacionamento com as mães Japonesas que também vieram para cá. Minha família ia à feira, por exemplo, mas não se aventurou muito no Brasil.
Para a amostra com vinte e dois expatriados (V), houve duas citações sob este código, P3 e P9 sugerem que os expatriados em geral se aglutinam e se unem para facilitar o convívio da família (P3) e suas atividades no Brasil (P9):
P3: Então, acho que a minha esposa recentemente começou a se acostumar. Os relacionamentos dela estão centrados nas esposas de outros expatriados e nos nikkeys que já moram aqui. A língua ela já vem estudando há um tempo, mas penso que ela gostaria de fazer mais amizades, mas não há chance. A segurança é ruim e ela fica mais em casa e se relaciona com a comunidade de expatriados. P9: Veja por exemplo o caso da empresa japonesa X, eles costumar criar uma verdadeira vila de expatriados para facilitar...
Em relação ao código “alta dependência da comunidade de expatriados”, observa-se que os expatriados que estão com suas famílias, tanto da empresa Z e da amostra “V”, tendem a mostrar maior dependência da comunidade de expatriados. Para os executivos japoneses que estão com suas respectivas esposas, observa-se que a comunidade de expatriados oferece conforto na vida diária por permitir às esposas uma forma de interação social e entretenimento com as outras esposas de expatriados.
As principais dificuldades da família abrangem a comunicação com os locais muito embora a interação seja restrita e a dificuldade na mobilidade, pois muitas não dirigem no Brasil devido à questão da segurança. Poucas famílias dos expatriados estão usufruindo desta oportunidade internacional para se aventurar no Brasil. Vale ressaltar que os depoimentos dos expatriados mostram que para o homem a situação ainda é mais fácil do que para as esposas, pois para eles há o trabalho e suas ocupações diárias, já para as esposas há sempre a opção de sair ou não sair de casa, enfrentar ou não o ambiente desconhecido. Não obstante, a sociedade nikkey serve de apoio à vida das famílias desses expatriados no Brasil, que resulta em uma “tranqüilidade” para os expatriados Japoneses se engajarem no trabalho.