Para o expatriado japonês da empresa Z e da amostra Y, ajustamento equivale a permanecer no Brasil até o fim para cumprir sua missão e deixar um resultado significativo para a organização, conforme demonstram ZP2 e ZP9 entre outros:
ZP2: no Brasil... penso que é se a pessoa vai conseguir ou morar aqui ou não. Por exemplo, vou contar um caso de outro país, um conhecido meu não conseguiu se adaptar a Espanha e sua família não dava um passo para fora de casa...não deu certo...e voltou para o Japão. Quando eles foram para o aeroporto a esposa tremia de medo e por isso penso que a personalidade da pessoa define se vai dar certo ou não. Eu e minha família conseguimos viver aqui.
Sentidos de ajustamento mudanças pessoais significativas {Z=13;V=17} aproximação mútua {Z=18; V=23}
ficar até o fim {Z=14; V=43}
ZP9: Primeiro é seguir à risca o período de 4 ou 5 anos que foi determinado e não voltar no meio desse período. Em segundo, o expatriado deve deixar um resultado aqui. Agora para que ele seja bem-sucedido ele tem que se adaptar, pois sozinho eu não consigo fazer nada e dependo dos brasileiros para que eles façam o trabalho... penso que é construir esse ambiente, de modo que se entenda a intenção e se mova para isso.
De acordo com a citação de P8, o expatriado japonês, que é influenciado pela “cultura da vergonha” (Haji no Bunka) sabe que não poderá falhar ou desistir da missão internacional, pois isso seria desaprovado pela matriz (P9):
P8: Na minha opinião, penso que na cultura do Japão há essa coisa de sair casa e ir para fora lutar. Há esse hábito de que o homem deve sair de casa e a esposa deve proteger o lar... Veja no século XX houve muitas Guerras e o Japão sempre ganhou, mas perdeu a Segunda Grande Guerra... A questão de suportar os desafios e o orgulho fazem parte da cultura do Japão e é para vencer que se vai para a Guerra. Muito embora não esteja em uma Guerra eu estou batalhando e se eu fugir então eu perdi. Quem foge perde e há a mentalidade de que é preferível morrer, suicidar-se, a vergonha de perder é profunda, a cultura da vergonha, a vergonha de fugir do combate...
P9: Difícil né...Isso se refere ao grau de diferenciação das culturas. A grande diferença entre Brasil e Japão é a religião. EUA, Europa e Brasil são países influenciados pelo Cristianismo. Se o brasileiro fizer algo de errado, Deus poderá perdoá-lo se ele se confessar em uma igreja aos domingos. Não que todos os Brasileiros façam isso, pois todos aqui são tolerantes. Assim, todos aqui recebem essa influência, independente de acreditarem ou não. Se Deus não existir mais ou se o senso de pecado não existir mais aí há o risco de que tudo seja permitido. No caso do Japão, a religião seria o Budismo, mas na prática não há uma religião definida. Assim, na vida diária cada um irá decidir o que acha mais importante e cada um pode fazer o que gosta, porém, aquilo que breca e restringe o comportamento das pessoas é a vergonha. O Japão é a cultura da vergonha. Será que se eu fizer isso não vou passar vergonha na frente das pessoas? No Japão eu também precisava ajustar o meu comportamento, na Europa e EUA o ajustamento é até mais rigoroso, pois há aspectos religiosos que devem ser observado, mas no Brasil, devido à tolerância da sociedade não senti tanto esse impacto. Dessa diferença é que resulta um comportamento de se preocupar com a aprovação das pessoas que estão ao nosso redor, penso que por causa disso também o Japonês acabe ficando reservado.
Desistência da missão independe de estar adaptado ou não ao Brasil e está fora de questão, conforme mostram ZP9 e ZP5. P3 diz que desistir da missão é sinônimo de desistir do seu país:
ZP9: Eu me esforço, rs... mas não sei ainda se estou adaptado. ZP5: ...hum....eu não tenho confiança para responder a essa pergunta pois sinceramente não sei se estou adaptado ou não ao Brasil...eu não penso em desistir da missão aqui, mas por exemplo, quando vejo o preço dos computadores e os impostos daqui aí eu penso em voltar Rs...
P3: Não. Para qualquer lugar que eu vá, se for nesta empresa, é a mesma coisa em termos de valores e direções. Desistir aqui é o mesmo que desistir do Japão. Se eu jogar de lado essa missão e decidir voltar então não sei se haverá trabalho para mim...
De acordo com P12, suportar as dificuldades e agüentar até o fim diante das adversidades é uma atitude apreciada na cultura japonesa. Assim, conforme mostra P7, mesmo que não esteja adaptado, o expatriado vai suportar até o fim e dedicar- se a missão que lhe foi conferida, pois é isso o que a matriz japonesa espera dele no Brasil:
P12: A causa principal está na mentalidade do Japonês. O ponto está na mentalidade do Japonês. Na cultura tradicional do povo japonês, considera-se nobre o indivíduo que suporta as dificuldades e se esforça até o fim, muito embora esse tipo de pensamento esteja mudando entre os jovens japoneses. Também gostaria de saber qual é o critério para dizer que os expatriados japoneses são bem sucedidos? Penso que talvez seria interessante para a empresa mandar o voltar o funcionário que não está se dando bem, pois o cumprimento de período longo da missão talvez não seja um bom critério para medir o sucesso. No Japão ainda há emprego vitalício para os expatriados e por isso fica complicado para o expatriado desistir da missão, pois ele não será bem sucedido se desistir...Você acredita que será bem sucedido se voltar? Não será...então por isso ele agüenta.
P7: Sempre...mas eu não posso voltar rs...fisicamente...rs. Eu tento não pensar muito nisso, nos problemas da família, caso contrário vou acumular esses pensamentos de eu quero voltar, quero voltar, então procuro não pensar profundamente sobre essas coisas... ZP12 sugere também que o Brasil é um país que não requer tanta mudança de comportamento ou mesmo adaptação por parte do expatriado. Isso indicaria que
os Japoneses podem ficar no Brasil sem mudar radicalmente seus comportamentos para se adaptarem ao país anfitrião. Para ZP10, o foco no trabalho e a objetividade na separação entre a vida privada e a vida no trabalho demonstram que a adaptação ou não ao ambiente geral pouca influência teria no seu desempenho no trabalho. Já para ZP13, a adaptação implica em preservar no Brasil seus valores, políticas e seu orgulho japonês:
ZP12: É mudar a si mesmo...rs...se vier do mesmo jeito que vivia no Japão para cá vou bater de frente e aí tenho que respeitar e mudar um pouco a mim mesmo..mas como disse sinto que vivo aqui do mesmo jeito que no Japão e de um outro ponto de vista, o Brasil é um país que tem esse aspecto de não exigir muita adaptação ou mudança.
ZP10: Bom trabalho é trabalho, vida particular é vida particular... com certeza no trabalho surgem problemas mas isso não tem jeito e eu separo bem uma coisa da outra.
ZP13: Pensando no significado da vida do expatriado no exterior....adaptação....significa se fundir a uma cultura diferente, preservando o meu orgulho japonês, meu eixo, minha política e assim ser aceito.... Será que não é isso?
Assim, “ficar até o fim” parece assumir um sentido que independe do expatriado estar ou não ajustado ao Brasil.