Em Portugal, que relevância tem sido atribuída aos canais informais, no contexto das políticas de promoção da Aprendizagem ao Longo da Vida (fruto da necessidade constante de ajustamento de competências próprias ao longo da vida)?
O Ministério da Educação e o IEFP têm sido concorrentes ao longo do tempo, o que não tem facilitado os processos/iniciativas de aprendizagem ao longo da vida. O Ensino Recorrente está em vias de extinção. O SNRVCC e o IEFP proporcionam mecanismos de reconhecimento e validação das aprendizagens informais de âmbito profissional. Contudo, mais importante do que a qualificação da população activa é mobilizá-la para os processos de aprendizagem ao longo da vida. Não basta qualificar/certificar as pessoas. Tal só faz sentido se for um meio de mobilização/motivação para a participação activa nos processos de aprendizagem ao longo da vida. Atribuem-se diplomas, mas não se dão competências. A qualificação deve ser entendida como estímulo para se continuar a aprender. Neste sentido, é necessário garantir as condições necessárias para que estes processos de aprendizagem ao longo da vida possam ter lugar. Em síntese, a qualificação deve ser compreendida como um processo (e não um fim!) que alimenta os percursos de aprendizagem ao longo da vida.
Considera existirem incentivos públicos à promoção destes canais informais de aprendizagem (flexibilidade de horários, subsídios, legislação, políticas de reconhecimento da importância destes canais para a aprendizagem e qualificação, promoção; criação de “espaços e tempos” (infra-estruturas e recursos humanos favoráveis à sua promoção: espaços públicos de lazer, cultura, comunicação, socialização – incentivos à criação de redes sociais entre as comunidades de especialistas e os cidadãos)?
No mercado de trabalho o reconhecimento varia em função de dois factores: as políticas de gestão de recursos humanos, baseadas em lógicas proactivas de valorização e reconhecimento da aprendizagem informal (o que, tendo em consideração o nível médio de instrução do nosso
tecido empresarial, pode não ser muito favorável) e a questão político/partidária associada à evolução das carreiras no sector público (efeito de lobbying).
Quais os mecanismos ou iniciativas mais relevantes ou eficazes na promoção de educação informal cientifica e tecnológica?
Antes de mais convém clarificar os conceitos de aprendizagem e educação. A aprendizagem é um conceito mais alargado, focalizado na e para a pessoa, mais próximo do informal. Já a educação está mais próxima da esfera do formal e institucional. As Universidades têm um papel fundamental a desempenhar, através da abertura à sociedade civil . Actualmente existem projectos de pós-graduações (ao nível de mestrado e doutoramento) que procuram valorizar a mais-valia dos saberes informais dos seus participantes, através de protocolos com instituições públicas interessadas nestas sinergias. Procura-se trabalhar estes saberes informais numa perspectiva científica.
Na sociedade portuguesa, quais os actores-chave deste processo?
Numa sociedade de aprendizagem ao longo da vida, não se pode ter uma concepção dominante de valorização da aprendizagem formal. É assumido ao nível do discurso a relevância da aprendizagem informal, mas não é passado à prática. É necessário responsabilizar todos os intervenientes neste processo. mas para tal acontecer é necessário mobilização, mudança de atitudes e representações sobre o que é aprender.. Tem de haver um reconhecimento social, económico e profissional do processo de aprendizagem. Em Portugal a Educação e Formação de Adultos nunca foi valorizada e tem sido pouco sustentada. Não podemos esquecer que estamos e fazemos parte de um espaço europeu que influencia as nossas políticas.
É possível fazer uma avaliação do efeito destas iniciativas na qualificação da população activa/formação de adultos? Quem é que estaria em melhores condições para proceder a esta avaliação (Estado – ME/MCES/IEFP, entidades independentes, empresas certificadas) e com que objectivos? A avaliação incidiria sobre que tipo de qualificação (competências-chave, específicas, outras)? Em que áreas (TIC’s?)?
Actualmente tem-se uma avaliação pontual e desconexa. Uma alternativa passaria pelo estabelecimento de parcerias, com centros de investigação. As Universidades têm um papel preponderante.
Parece-lhe legítimo afirmar que a educação informal é uma fonte privilegiada de
renovação de competências e conhecimentos. Concorda com este ponto de vista? Porquê?
É legítimo, mas é preciso garantir que a experiência se torna em aprendizagem. Por um lado, as pessoas têm de atribuir sentido às experiências. Por outro lado, se os contextos forem favoráveis e enriquecedores o potencial formativo é enorme.
Na sua opinião, qual o potencial/limitações da educação informal na qualificação da população activa em Portugal? Em que medida é que as especificidades portuguesas, no que respeita ao investimento pessoal e das empresas na qualificação (p.e. peso social da educação a postura/valoração dos cidadãos face às suas próprias qualificações), podem influenciar a adequação das políticas de aprendizagem ao longo da vida?
As empresas investem muito pouco na criação de contextos favorecedores de aprendizagens. Isto é, há muito pouca inovação organizacional e tem-se formas de organização do trabalho muito rígidas que impedem e condicionam estas iniciativas. O não reconhecimento das aprendizagens ao longo da vida.
Os canais informais de aprendizagem serão tanto mais fortes quanto mais consolidados tiverem sido os processos de aprendizagem formal? Faz sentido estabelecer esta relação? Se sim, no contexto português, tal relação pode ser vista como um força ou fraqueza à qualificação da população activa? E qual o papel das instituições de ensino, em todos os níveis? E o papel das Universidades?
Faz sentido estabelecer essa relação. Esta relação verifica-se claramente na população activa com níveis de qualificação mais elevados. Ainda assim, esta mesma relação também pode verificar-se para a restante população com menor nível de qualificações. Contudo, é necessário garantir um trabalho de mediação que permita dar a compreender, formalizar e codificar as aprendizagens informais – do invisível para o visível, do implícito para o implícito (compreende todo um trabalho intelectual, cognitivo e afectivo)...aqui, o tipo de linguagem a utilizar é fundamental.
Estando as TIC associadas a actividades de lazer e comunicação, o que alavanca o quê: são as iniciativas de promoção da educação informal que têm um efeito de alavancagem sobre o desenvolvimento de competências em TIC ou será o contrário? Como aproveitar o carácter lúdico da aprendizagem no desenvolvimento de competências?
No caso das gerações que já nasceram no meio das TIC a segunda alternativa é capaz de ser mais pertinente. Já no caso da geração dos pais dessas mesmas gerações a primeira alternativa é mais adequada (de realçar a importância da aprendizagem com os filhos).
Neste contexto, é possível entender as TIC como um importante instrumento que não só contribui para uma transição sustentada dos canais formais para os canais informais de aprendizagem como também contribui para o fortalecimento deste último?
Concordo, de todo.
Como explica o reconhecimento social (quase unânime) da importância das competências em TIC (tanto para desenvolvimento profissional como pessoal)? Como aproveitá-lo para a disseminação de oportunidades de formação?
É uma realidade inerente à existência de uma Sociedade de Informação, o que faz com que as competências em TIC tenham tanta relevância no dia-a-dia dos cidadãos. Isto traduz-se num “efeito gatilho” para a formação adicional/complementar nestas áreas.
Será excessivo pôr a “digiteracia” (literacia digital, em TIC) ao mesmo nível da literacia e numeracia, em termos de prioridades de política pública?
É fundamental...mas há que, previamente, colmatar as carências da formação básica (literacia e numeracia...não se fazem omoletas sem ovos!).