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As análises dos discursos das terapeutas nos dão ideias relacionadas aos interdiscursos especialmente no tocante à importância da família para a superação da situação de pedofilia. Quanto à identidade da criança abusada, verifica-se que ela é eivada de medo e silêncio. Além disso, é evidente o tratamento diferenciado para meninos e meninas que sofrem com a violência sexual.

Com tabelas abaixo, serão reforçadas as ideias que a terapia aponta com relação aos interdiscursos envolvidos, ao perfil da identidade infantil, bem como a questão de gênero que fica evidenciada no discurso das terapeutas.

Quadro 4 – O interdiscurso familiar

Situação Prática social Discurso das terapeutas Família como exemplo

para a vida. - A base familiar é necessária para orientação e direcionamento para a vida.

- Terapeutas reforçam que uma base familiar auxilia que se evite a formação de abusadores, bem como é base para a superação de possíveis situações em que se pode sofrer abuso.

-

...Meu pai, (...)um homem íntegro, honesto, justo, legal (...)era

desprovido de

preconceito (...)era um homem livre... tinha uma mente libertária.”

- “Eu me sentia assim, tipo bem acolhida, assim, como as coisas dela. E ela também trabalhava em cartório e trabalhava próximo à LBA. Então ela tinha muito contato

também com

trabalhadoras sociais.” Envolvimento da família

inteira na situação vivida. - O abuso atinge a toda a família. - Para a terapia, é importante buscar as práticas familiares para encontrar o que se partilha no lar, bem como o que se pode fazer para uma ação que busque superar o episódio.

“(...)o abuso não acontece só com a criança, acontece com os pais e com os familiares. Porque ela não nasceu sozinha. Aquela reação dela vai interferir nos pais, nos irmãos e nos parentes dela.”

A expectativa de ambiente

de carinho na família. - O carinho e o cuidado são prerrogativas que se esperam naturalmente da família.

- O trabalho terapêutico leva em consideração que a família ofereça essa segurança para a vítima de violência sexual na infância. Uma família que vilipendie essa condição é vista como problemática e necessitada de cuidados especiais.

“(...)a mãe tinha sofrido situação de violência com o pai, mas (???) física se separou e casou com esse policial que era ótimo, que era.., né?, inclusive no diário da menina ela traz esse sofrimento, ela tinha ele como pai. Então ela começou a proteger a irmã, porque ele usava ameaça de que iria pegar a irmã mais nova... Então se você lê o diário, você lê o sofrimento daquela... Problemas familiares como

geradores de abuso de poder.

- O desvirtuamento da situação de cuidado na família gera problemas

que podem ser

perpetuados.

“E... e... e.. no abuso... cê tá falando de família... a gente passa também pela questão cultural. A gente recebe que, vem de lá de

- Na terapia, essas situações são investigadas para que se proponha um tratamento. Contextos de violência e abuso podem estar relacionados a uma cultura do poder masculino.

num sei onde, que o pai, antes de qualquer coisa... o iniciamento sexual da filha passa pelo pai e depois..”

“É uma família muito difícil. A gente tem histórico de deficiência mental, de transtorno mental e aquela coisa toda, e assim... pra atender você tem que ter

uma energia

extremamente absurda, entendeu? Então você tem

que com

disponibilidade pra eles, disponibilidade pra um monte de coisa que tudo isso eu não tenho...”

Essencialmente, para os terapeutas, a família é o centro da gênese das crises na vida de um ser humano. Lá pode ser encontrada a explicação para uma série de patologias. Entretanto, é intrinsecamente também na família que está, paradoxalmente, a solução para os problemas ou mesmo a chave para que eles sejam evitados. Por isso a importância do estudo do genograma familiar e a busca da transgeracionalidade na violência doméstica, no abuso sexual e outras dificuldades apresentadas pelas famílias que procuram solução profissional para suas demandas.

Quadro 5 – As palavras que apontam a identidade de crianças e adolescentes Traço de identidade Observação contextual Palavras utilizadas

 Inocência (ingenuidade excessiva) - A crianças e adolescentes é outorgada a condição de incapacidade de ter consciência da gravidade de alguns atos. Dessa forma, considera-se este indivíduo como incapaz de perceber a maldade que pratica e, bem assim, a que pode ser praticada contra si.

 Ofensor (em

contraponto a abusador)

 Início

 Medo - Diante do desconhecido,

criança não tem histórico de proteção por parte dos adultos responsáveis por ela, é característico o medo encontrado nas crianças. A situação é agravada quando, por experiência, a crianças já vislumbra a agressão e sabe que não há por perto quem a possa defender.

 Pressão  Acuada

 Silenciamento - É comum perceber que crianças não estão falando nada sobre algum assunto ou mesmo escamoteiam o que se fala sobre ele, para que, mesmo falando, permaneçam silenciadas, ou seja, sem falar do que poderia ou deveria em defesa de si própria.  Não falando  Não verbalizando  Silenciada  Segredo  Não relata

A inocência atribuída a crianças tem muita força no campo da Justiça. Até pela presunção da falta de conhecimento do que se faz, elas são inimputáveis com relação a crimes. O que se pode fazer é designar medidas socioeducativas aos menores. Nesse sentido, a eles é atribuído um termo diferente quando agente de abuso sexual a outro menor: ofensor. Esse termo diferencia o ato de um abuso consciente, deixando o menor livre da marca de abusador, pelo menos na terminologia. Todavia, para as terapeutas, o ofensor é objeto de cuidado e tratamento, mais do que punição.

O medo pode ser a marca de uma experiência nova. A criança frequentemente está envolvida em novas experiências. O sexo é uma situação que traz ansiedade. Portanto, pode ser um momento em que o medo se faz presente. Especialmente se não for por vontade própria. Mais ainda se a criança não se sente protegida. A identidade marcada pelo medo, pela inexperiência da criança, é mais ainda efetivada quando ela potencializa esse sentimento de um caso já vivido e verdadeiramente doloroso.

O silenciamento é marca de identidades apagadas. As crianças carregam a marca de não serem levadas em consideração em muitos casos. Na pedofilia, além disso, são tratadas como objeto, especialmente por não terem voz e não serem levadas em consideração, muitas vezes, por aqueles que deveriam ser responsáveis por elas. Essa é uma condição que o abusador considera significativamente quando planeja e executa seu ato.

Quadro 6 – A importância da transgeracionalidade

 Problemas transgeracionais  Abusos sexuais anteriores  Iniciação sexual precoce  Fixação de superstições  Violência doméstica

 Questões de genograma  Investigação de três gerações anteriores

 Quais são as crenças partilhadas de geração a geração

 Repetições de histórias familiares

A ocorrência de abuso sexual infantil em alguma família geralmente aponta para recorrência desse fato nas gerações anteriores. Frequentemente pais e mães, ao levarem seus filhos para o trabalho terapêutico, despertam situações que imaginavam terem deixado para trás e que não têm consciência de que se trata de uma condição familiar que se repete.

O tratamento para as questões transgeracionais, segundo as terapeutas, passa pelo envolvimento de toda a família.

As colunas do quadro abaixo mostram as percepções do que pais e mães temem com relação aos abusos sofridos por seus filhos na condição de menino e menina.

Quadro 7 – A condição diferenciada de meninos e meninas

Para meninos Para meninas

Virar homossexual / bicha Querer repetir

Sentir prazer

Não relatam / têm vergonha Mais casos de abusadores Número equivalente de vítimas

Virar prostituta - - -

- - - Contam tudo

Menos casos de abusadoras Número equivalente de vítimas

Note que há mais preocupação com o menino querer repetir uma experiência sexualmente passiva do que com as meninas. Tanto que se receia que os garotos

possam partir para uma vivência homoafetiva. Curioso notar que uma das terapeutas enfatizou que esse medo passa mais pelas mães.

O fato de as meninas se sentirem mais à vontade para relatar os abusos sofridos pode estar relacionado a mais normalidade com que é tratada a relação sexual passiva para elas. Todavia, as mulheres mais atiradas a buscarem crianças como objeto de desejo estão em número menor, enquanto que as vítimas se equivalem.

5.8. Considerações finais

Nesta primeira parte da análise, foram observadas as categorias especialmente da seleção lexical e da intertextualidade. Dentro do que foi observado e analisado, ficou evidente a condição importante que a família tem para a ocorrência de abusos sexuais ou mesmo para que sejam evitados. Ela pode ser fruto de uma falta de cuidado ou mesmo resultado de situações que ocorrem no seio familiar que são herança de gerações anteriores.

Apesar de as crianças terem sua identidade marcada por medo, silenciamento, inocência, não se pode generalizar a sua condição de menor para os meninos e meninas. As famílias tendem a receber o abuso de forma diferenciada dependendo do sexo dos infantes.

A dificuldade encontrada para falar do abuso sexual está muito situada em dois fatores percebidos nas entrevistas: o silenciamento evidenciado pela identidade marcadamente apagada das crianças, e a interdição à qual os temas do sexo e da violência são impostos.

No capítulo seguinte, esses dois temas serão trabalhados mais especificamente. Cabe dizer que são condições às quais crianças e adolescentes são colocadas historicamente, das quais consideramos que abusadores se valem para engendrar seus atos criminosos.