1.6 Dissertation Structure
2.1.1 Cloud computing
Relembrando, mais uma vez, Fairclough, para quem “o discurso inclui representações de como as coisas são e de como foram, como também ‘imaginários’ – as representações de como as coisas poderiam ou podem ou deveriam ser” (Fairclough, 2012, p. 98), podemos afirmar que a escolha subjetiva das palavras demonstra a personalidade que se espera, que se tem ou que se pode transparecer uma intenção de modelagem com relação à criança ou ao adolescente.
Os lexemas adotados em um determinado discurso são importantes para o entendimento da ideia que se tem do objeto descrito, por assim dizer. Da mesma forma como aponta traços da identidade de quem os utiliza. Os estudos sobre letramento já apontam para a construção de uma ideologia de acordo com o contato com a linguagem ensinada. Essa ideia fica patente quando Izabel Magalhães afirma que “os estudos sobre letramento e discurso como práticas sociais destacam o papel da língua na constituição das relações, identidades e valores sociais” (Magalhães, 2012, p. 81).
No discurso terapêutico, são identificados os menores que passam pela experiência traumática de serem abusados, mas também se fala dos ofensores. Essa primeira diferença e seleção de adjetivo (ou substanti vo, dependendo da função sintática) já mostra um comportamento primordial na ação do falante envolvido com o tema da pedofilia. Todavia, percebe-se que esse nível mais consciente exige um envolvimento maior, mais profissional e mais reflexivo. Essa é uma mostra de que a ADC pode continuar agindo no sentido de entender que o discurso é uma representação da prática social e pode ser utilizado para contribuir na mudança de realidades injustas com percepção de palavras que prejudicam ou perpetuam uma situação de abuso. É o caso da explicação de diferenciar um adulto abusador de um menor ofensor. Vejamos essa situação no discurso de Fabiana, colocando a situação de um jovem ofensor. As características de sua identidade ficam perceptíveis quando ela aponta sua condição:
Lembrar dessa cena, né? Da.. da.. experiência que ela vivenciou. E aí.. por isso que precisa trabalhar, precisa colocar no lugar. O que a gente tem feito, deixado muito claro pro adolescente
ofensor... que o fato dele ter abusado dessa criança não foi início marcante da sexualidade dele.. (Anexo 1, p. 159)
O ofensor – reforçando, o menor que comete abuso sexual contra outro menor –, o menor pedófilo, também vive uma série de problemas que são detectados no trabalho terapêutico.
O abuso de poder está intrinsecamente ligado a uma experiência sexual que não é consensual. Ainda há as experiências pseudoconsensuais, em que se “convence” o outro a “deixar” que ocorra com oferta de engodos como balinhas, presentes ou coisas parecidas. De qualquer forma, é um abuso de poder, no caso, financeiro – daquele que pode adquirir bens com valor de troca. O adolescente ofensor pode se valer de ser um irmão mais velho ou simplesmente ser um indivíduo mais adulto ou perto da maturidade. Isso poderia lhe dar a condição de cuidador, de orientador, uma posição em que o poder pode ser mal exercido.
Ainda assim, a submissão sexual também é uma forma de poder, como aborda Bourdieux em A dominação masculina (1999). Dessa maneira, o ofensor pode se sentir capaz, adulto, formado e poderoso por cometer tal ato. A terapeuta lembra que o tratamento o faz compreender que a etapa de formação sexual sadia foi negligenciada com o ato cometido. A ofensa sexual a outro menor precisa ser esclarecida que não se configura uma experiência sexual sadia.
Já para o abusado, é uma experiência de submissão que pode traçar uma identidade acuada para toda a vida. Gabriela é uma terapeuta que trabalha bastante uma técnica chamada de genograma. Ela consiste em detectar, no trabalho com as crianças, problemas decorrentes de relações familiares que podem ser advindos de situações anteriores. Desses problemas, inclusive o abuso vivido, pode-se encontrar traços de personalidade marcados por essas situações. Gabriela traça, a partir do estudo do genograma, essa identidade relacionada com o medo que caracteriza a criança abusada:
E aí quando fui conversar com ela foi muito difícil porque eu tinha pouco tempo pra falar com ela e tive que pegar o genograma, que é um trabalho que a gente tem ele há muito tempo. Aí falei, quando a criança tem medo ela tá sofrendo alguma pressão, tá
acuada, da forma que você descreveu o medo dela... ela num tá com
medo de escuro, ela num tá com medo de fantasma, ela num tá... ela tem..
Medo de ficar sozinha.
Ela tem uma coisa que ela num fala. Ela tá com medo do não
dito. Aí quando comecei a falar pra ela as perguntas que eu já faço
sempre, né?... assim... ela dá que nome pras coisas? Como é que ela chama? É perereca é? Como que ela chama? Mudou ultimamente? Comecei a fazer algumas pergunta e num deu outra... deu que o esposo dela tava abusando das duas criança, ela trouxe o medo de uma e..
Duas meninas?
Duas meninas?
Duas meninas.
Que idade eram as meninas?
De quatro a mais nova e seis a mais velha. Então... assim.. aí pra ela foi um choque. Primeira coisa que a mãe faz é não ver. (Anexo 1, p. 160)
O trabalho do genograma já busca identificar a gênese de um medo inexplicável que a criança apresenta. Dessa forma, já se espera, no atendimento a uma criança abusada, um comportamento que apresente essa característica acuada, exageradamente tímida, que evidencia um medo. Sem a experiência que Gabriela, como terapeuta bastante envolvida com o tema, tem, poder-se-ia encerrar o assunto dando por resultado um medo de escuro, um comportamento adquirido por contato com filmes de terror ou qualquer coisa parecida. Além de perceber que a criança sofria abuso, o genograma ainda pôde apontar que ele fora cometido pelo marido da mãe. Mais um caso que envolvia membro da própria família como sujeito dos ataques.
Esse medo se soma à condição de criança considerada incapaz e ainda eivada de fantasias, o que faz com que suas palavras sejam observadas com bastante reserva. Isso gera o silenciamento como integrante da identidade das crianças.
Nas entrevistas feitas com as terapeutas, há vários elementos que mostram a marca da identidade silenciada da criança. O silenciamento é uma das marcas verificadas pela psicanálise no comportamento de pessoas relacionado com a sexualidade. Por isso, o silenciamento também é um fator consideravelmente estudado por pesquisadores de gênero (ver Kulick e Cameron, 2003, especialmente o capítulo 6: “Language and sexuality: theory, ressearch and politics”). Os estudos de gênero são base para a compreensão da identidade da criança, levando em conta que se trata de indivíduos que são, muitas vezes, objeto de abuso de poder por parte de seus tutores ou outros adultos.
As marcas do silenciamento da criança podem ser percebidas em trechos das entrevistas, especialmente em palavras marcantes que evidenciam a intenção de não falar:
...ela não tem medo mas ela tem uma outra forma de não falar, que é a linguagem técnica de psicologia, ela não tá, ela tá não
falando, quando ela te pega não vai não vai, ela tá não verbalizando.. (Anexo 1, p. 160)
O que eu queria falar no teu tema, as crianças ficam
Meninos e meninas, apesar deles saberem e sentirem que não era dela falar... mãe... isso não tá certo e a mãe deixa... não vamo
falar nada, um segredo mesmo. (Anexo 1, p. 160)
E aí no último dia o menino virou e falou: “Porque o que eu levo daqui é poder falar e ser ouvido.” (Anexo 1, p. 159)
Nesse último dado, percebe-se, por análise antagônica, que a terapia permite que o menino fale de forma que seja efetivamente ouvido. Deixa evidente que normalmente ele não fala. Se ele consegue falar, não é ouvido de forma significativa. Poder falar e ser ouvido de verdade, segundo o que se percebe no discurso, é condição anormal, não somente para ele, para as crianças em geral, especialmente se for vítima de abuso sexual, fato que envolve sexo e violência, temas naturalmente interditados.
Os destaques dessas marcas de identidade principais das crianças, como o medo, fruto do resultado do abuso, e o silêncio, condição da própria criança, agravada pela violência, geram um indivíduo cada vez mais facilmente colocado na condição de alguém que se pode abusar. O violentador conta com o silêncio e com o medo para engendrar seu ato, conforme vemos abaixo:
Porque o abusador dificilmente numa primeira vez ele já vai direto ao ato. Ele vai experimentando, ele vai fazendo uma carícia, ele vai.. e se a criança não relata.. (Anexo 1, p. 156)
Como a ADC verifica criticamente os discursos, percebendo o funcionamento de um contexto social a partir da linguagem, ela também crê que a modificação do discurso favorece uma melhoria na sociedade. Nesse caso, o que se percebe é que é necessário romper o silêncio. Um desafio para as famílias e para a sociedade em geral.