2. Gjenreisningen av folkehelsen - Lov om tuberkulinprøving og vaksinasjon mot tuberkulose
2.2. Politisk enighet i forarbeidene til loven
2.2.2. Individuell frihet eller samfunnssolidaritet
Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga.
Gilles Deleuze
Em se tratando de uma pesquisa em Educação, uma última pergunta é preciso ser feita: Mas afinal de contas o que tentamos revelar/desvelar nesse trabalho? Com outras palavras: de quais critérios dispomos para definir as tramas de subjetivação do Currículo do Curso de Pedagogia-PARFOR do Campus de Bragança/UFPA?
Ora, critérios e objetivos pré-definidos não nos parece ser algo que encontramos em Foucault como um livro de receitas, de indicações fechadas e que devam ser piamente seguidas. O que encontramos nos postulados do filósofo são provocações para o pensar, algo que não é recomendado, ao contrário, é construído e reconstruído na torção do pensamento.
É mergulhar na zona de desconforto, de dúvidas, de inquietações que não cessam. É um desassossego permanente de sentir e perceber que não dá para abarcar o conhecimento absoluto e completo das determinações históricas, já que elas são múltiplas e exigem do pesquisador um recorte, uma delimitação. O próprio Foucault nos ensina que aquilo que pode ser mudado e transformado, não pode ser encarado de forma absoluta e universal.
Por isso, cada história tem sua singularidade. Singularidade essa que não reduz o objeto, ao contrário, o expande, multiplica, o conecta a diversos campos e lugares onde o poder está, isto é, em todos os lugares. Na esteira de Veyne (1986, p. 471) aprendemos que Foucault “não pretendeu em nenhum caso oferecer soluções verdadeiras e definitivas; pois a humanidade modifica-se sem cessar [...] toda solução é imperfeita, e sempre será assim”.
Com esse vigor trazemos nessa analítica reflexões que consideramos provisórias e inacabadas, posto que investigamos um processo em andamento e falamos de um lugar específico, de uma posição de sujeito que pensa, vive, reflete, aprende e se reinventa no contato com a docência em cursos de formação de professores.
Assim, ao mergulhar nos porões, invadir e adentrar a fábrica de professores, deparamo- nos com uma história ancorada em práticas de governamentalidade, que sob as tramas de subjetivação produziram relações de saber-poder, bem como resistências eminentemente circunscritas nas tecnologias do poder.
Nesse sentido, a Educação, alvo de estratégias biopolíticas, encontra no Currículo sua ferramenta útil e eficaz para fabricar sujeitos, que no caso dessa pesquisa focaliza o sujeito objetivado e subjetivado pelo PARFOR. Mas, para isso, os cursos de Foucault nos deram pistas de como nosso pensamento precisaria operar para não cair nas armadilhas paradigmáticas e prescritivas, tão sedutoras ao campo educacional.
Assim, fomos compondo arquivos que visibilizaram a história da discursividade da formação de professores em conexão com a criação e expansão do Curso de Pedagogia como substrato da formação de professores da educação básica no país até as recomendações legais atuais. Nessa investida nos documentos, logo percebemos que se tratava de um tema escorregadio, polêmico e desafiador, dada suas multiplicidades históricas que denunciam a existência de um campo frágil e dominado pelas políticas públicas.
No entanto, também entendemos que ao investigarmos as relações de saber-poder dessa formação, defrontamo-nos com uma arena de disputa, de interesses, de forças, cuja resistência é marcante. Convencemo-nos de que ela [a resistência] está com as relações de poder, horizontalizada para elas e não nas suas extremidades, por isso que ela é peça fundamental para as conquistas sociais, algo marcante na história do Curso de Pedagogia, principalmente em suas reformulações e autoafirmação enquanto curso necessário para a sociedade.
Também, localizamos o terreno da fabricação de verdades, sobretudo, da Associação Nacional de Formação dos Profissionais da Educação (ANFOPE), verdades intocáveis e legitimadas acadêmica e socialmente, incidindo na elaboração de políticas públicas que vigoram e, por vezes, hegemonizam-se no terreno universitário pelas disputas partidárias pelo poder.
Como vimos, historicamente desde o Iluminismo e dos desdobramentos da Revolução Francesa, a educação-escolarização tornou-se monopólio do Estado com o discurso de “melhor formar um povo”. Todavia, entre regimes democráticos e totalitários assistiu-se o desencantamento por tal discurso via estratégias biopolíticas, dentre elas as políticas de formação de professores.
Passetti (2009) afirma que junto com o poder soberano das famílias, a educação também depende de um conjunto de dispositivos disciplinares que compõe uma cultura superior, que sob diversas condições históricas enfatizam a necessidade da obediência para o trabalho e para vida social.
Em seus cursos, Michel Foucault convidava seus ouvintes para a reflexão profunda e sutil acerca do cruzamento entre uma erudição científica, um engajamento pessoal e um trabalho baseado no acontecimento, como bem descrevem François Ewald e Alessando Fontana no prefácio da obra Em defesa da sociedade, curso ministrado por Foucault no Collége de France durante os anos de 1975 e 1976.
Em suas reflexões sobre o método genealógico, Foucault (2012b) levanta a seguinte reflexão: “Tudo isso é muito atraente, mas aonde isso nos leva?”. Sabemos, pois, que Foucault nunca almejou constituir teorias e métodos de acordo com as conotações convencionais, ele queria sacudi-las ao invés de propor novas teorias, colocá-las em xeque em seus dispositivos de verdade, tema bastante caro para o filósofo.
E foi com esse sentimento que nos colocamos na pesquisa em educação, sem a pretensão de trazer verdades, denúncias ou revelações, mas sim reflexões, indagações, problematizações acerca do nosso objeto: o currículo do curso de Pedagogia-PARFOR do
Campus de Bragança.
Afinal, em todas as obras foucaultianas percebe-se a desconfiança e um quê de curiosidade acerca das generalizações e das grandes narrativas construídas pelo saber moderno. Assim, resolvemos ir até os porões desse Currículo na companhia da história como testemunha e interlocutora, compor sua arqueogenealogia das práticas de governamentalidade.
Todavia, como nos ensina Veiga-Neto (2012), as idas aos porões nos mostram que o mundo social tem história e é bem mais complexo do que nos fizeram supor as metanarrativas iluministas da totalidade. A história tem muito mais a nos oferecer do que uma verdade bem formulada, ela pode também nos abalar, sufocar-nos quanto as nossas próprias curiosidades.
Por isso, acreditamos como Foucault que qualquer recorte do próprio domínio não pode ser encarado como algo definitivo e nem absoluto, mas como tentativas de aproximação das tramas que subvertem o objeto de estudo. São apenas recortes, formas de
pensar, de encarar os problemas como invenções humanas. São verdades fabricadas em jogos, tramas, arenas de saber-poder que hoje delineiam não somente as políticas públicas em educação, mas também o governamento da vida, atravessando-nos e nos moldando, transferindo essa luta e esse conflito em nossas próprias subjetivações forjadas e engendradas pela forma como vivemos e pensamos o nosso mundo.
Contudo, o filósofo nos deixou um valioso recado quanto a sua forma provocativa de (re) pensar este mundo que vivemos e o papel desconstrucionista de se ver nele:
Meu papel – mas esse é um termo mais pomposo – é mostrar às pessoas que elas são muito mais livres do que pensam; que elas tomam por verdadeiro, por evidentes, certos temas fabricados em um momento particular da História, e que essa pretensa evidência pode ser criticada e destruída (FOUCAULT, 2004, p. 295).
Parafraseando o filósofo, nosso papel não foi evidenciar nada, mas analisar historicamente as práticas de governamentalidade do Currículo do Curso de Pedagogia- PARFOR do Campus de Bragança, trazendo à baila suas teias e tramas de subjetivação.
Dentre tantos desafios que tatuaram a tessitura dessa caminhada e produção da tese, certamente figuram aqueles que habitam o terreno da afetividade, sobretudo pela forma como fomos nos transversalizando nesses lugares, espaços, discussões e arenas de saber- poder que colocaram diante nós pessoas, situações, amizades e emoções. Foi uma experiência chocante e, à primeira vista, assustadora, pois à medida que mergulhávamos nas teorizações foucaultianas e timidamente na filosofia da diferença, questionávamo-nos o quanto estávamos cuidando de nós mesmo e do(s) outro(s) em uma relação ética e política.
Não foi uma tarefa fácil e vale a pena sublinhar isso, porque desbravar o desconhecido e perceber que o caminho nunca é dado, mas sim é construído, por vezes, causou-nos temor e insegurança. Todavia, foi mister essa investidura para desatar muitos nós produzidos sobre nós mesmos e que são tão firmes e apertados que não é uma de uma hora para outra que conseguimos desfazê-los.
Lidar com as explosões discursivas dos documentos e suas enunciações permitiu- nos entender como os mesmos objetivam e subjetivam sujeitos que, no caso dessa pesquisa, as tramas de subjetivação extrapolam a materialidade documental e se manifestam nas práticas discursivas, não discursivas e, sobretudo, nas práticas de si.
É possível concluir nesse momento, depois de tudo que abordamos, que o PARFOR-Pedagogia do Campus Universitário de Bragança/UFPA é fabricado por teias e
tramas históricas, as quais sustentam-se tanto na govenamentalidade quanto em estratégias biopolíticas acionadas por dispositivos curriculares que forjam e ao mesmo tempo são forjados pelos jogos de saber-poder-resistência.