3 Research design and methods
3.3 Data collection
3.3.2 Individual interviews
Para esta tese foram usados como instrumentos de análise as entrevistas, produção de cartografia e inquéritos à população de Campo de Ourique e recolha de dados estatísticos sobre a área de estudo.
A área de análise escolhida situa-se na freguesia de Santo Condestável, que, a par da freguesia de Santa Isabel, constituem as duas freguesias do bairro de Campo de Ourique. A escolha desta área prendeu-se com o seu desenho urbano e diversidade funcional, que vai muito de encontro ao que foi definido aquando da análise teórica sobre a unidade de vizinhança, mas também vai de encontro a várias características que são definidas aquando do conceito de comunidades sustentáveis, e do que é recomendável existir num bairro. Esta área compreende o mercado de Campo de Ourique, a Igreja de Sto. Condestável, o antigo Cinema Europa, a Junta de Freguesia, o Jardim da Teófilo Braga (conhecido como o Jardim da Parada), além de uma forte diversidade de serviços, comércio e presença de transporte público. A escolha foi assim feita, com base em várias idas ao bairro e observação das suas características, e também, como atrás foi mencionado, na validação daquilo que foi observado com aquilo que foi estudado.
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Fig.23: Enquadramento do bairro de Campo de Ourique Fonte: Elaboração própria
A análise estatística centrou-se na informação disponível nos censos de 1981, 1991 e 2001 para as freguesias que compõem o bairro de Campo de Ourique, Santo Condestável e Santa Isabel, com vista a assim melhor entender a evolução dos vários indicadores relacionados com os indivíduos ou seja, a população residente, as famílias e os edifícios ao longo dos anos, bem como dar resposta a indicadores que foram definidos por Egan (Anexos, fig.2-4) para cada componente a analisar. Foram também analisados indicadores respeitantes ao nº de licenciamentos nomeadamente o indicador “Fogos licenciados (N.º) em construções novas para habitação familiar por Localização geográfica e Entidade promotora” desde 1995- 2008, e também o indicador “Fogos licenciados (N.º) em construções novas para habitação familiar por Localização geográfica e Tipologia do fogo” desde 1995-1998, que fazem parte do “Inquérito aos Projectos de Obras de Edificação e de Demolição de Edifícios”, estudo conduzido pelo INE. Pretende-se com esta análise perceber a evolução da construção de novo edificado no bairro através da entidade promotora e tipologia de fogo, considerando que estes podem retirar capacidade atractiva do bairro. Foi também analisado um estudo bastante
122 importante para a compreensão das dinâmicas do bairro de Campo de Ourique, retirado da análise estatística realizada pela Câmara Municipal de Lisboa intitulado “Diagnóstico Sócio- urbanístico da Cidade de Lisboa - Uma perspectiva censitária” (2001).
A análise do Bairro é complementada com a realização de inquéritos à população, inquéritos que foram realizados no dia 9 de Maio de 2009 na freguesia de Santo Condestável, onde se situa a área de análise. A amostra consiste em 100 pessoas sendo que 26 destas, são não moradoras e 74 são moradoras na área de análise. O agregado familiar dos moradores e não moradores também é elemento presente nas questões da caracterização da amostra, pelo que, contando com estes, o inquérito tem uma abrangência máxima de 206 pessoas, sendo que o número de participantes de agregado familiar varia de questão para questão consoante os dados que estão disponíveis, resultantes das respostas que foram dadas. Após ida ao local, e feita análise através de observação directa, foram identificados três núcleos que têm uma importância decisiva para a afirmação do caso de estudo pelas diferentes características que cada um detém (fig.24).
O inquérito estava estruturado em três pontos: caracterização geral, à qual corresponde a caracterização do indivíduo e do respectivo agregado familiar, incluí também uma secção de três perguntas destinadas aos não moradores; dimensão comunidades sustentáveis, que é composta pelas três componentes que são analisadas na tese e que são componentes sociocultural, equipamentos e serviços e transportes e conectividade; e finalmente uma terceira dimensão, que é a do capital social dividida nas componentes redes sociais, confiança e civismo, também já abordadas no enquadramento teórico. No caso das comunidades sustentáveis as perguntas tiveram como fonte o relatório Egan (2004), nomeadamente através das fichas de indicadores por componente (Egan, Anexos, fig.2-4).
No caso do capital social as perguntas tiveram como fonte o estudo intitulado “European Values Study”, que tem sido aplicado desde 1981, numa iniciativa conjunta de vários países europeus, sendo que o inquérito-modelo que foi utilizado foi o que foi aplicado em 2008. Fundamental na escolha das dimensões de capital social a serem analisadas, foi também o trabalho de van Oorschot et al (2006), no qual foram delineadas as dimensões do capital social mais indicadas para a sua medição e respectivos indicadores (fig. 24).
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Fig.24: Dimensões e indicadores do capital social Fonte: van Oorschot et al, 2006:153
Relativamente á área em estudo, de forma a melhor poder compreender a relação entre a organização do bairro e os seus residentes e não residentes, consideraram-se 3 áreas, com diferentes níveis de dotação de comércio, serviços e equipamentos. É neste contexto, que se consideram e caracterizam três áreas do caso de estudo, áreas que se procuram relacionar com os moradores e não moradores inquiridos.
Fig.25: Três núcleos de análise Fonte: Elaboração própria
A1
A2
A3
124 Assim, o núcleo A1 é composto pela igreja de Santo Condestável e pelo mercado de Campo de Ourique. Regista-se aqui por um lado um importante equipamento religioso e por outro, um importante equipamento comercial. São dois edifícios que, quer pela sua simbologia, quer pela sua função, caracterizam fortemente não só a freguesia, mas também o bairro. Além do mais são dois elementos que se complementam, visto muitas pessoas aproveitarem a ida à igreja para passarem pelo mercado e vice-versa. Aqui “são postas as conversas em dia” dos moradores, que entre si, e entre os agentes (padre, comerciantes, funcionários da Junta de Freguesia) constroem todos os dias uma teia complexa de relações sociais que tanto contribuem para a matriz sociocultural deste bairro. Importante também assinalar o poder de atracção do mercado de pessoas que não residem nesta área e que aqui vêem pela variedade, qualidade, e natureza orgânica dos produtos vendidos no mercado.
Identificou-se como núcleo A2 a Rua Ferreira Borges. Esta tem uma importante função como via de passagem e ligação do bairro com o Rato, Estrela e Amoreiras. Além disso, pela largura dos seus passeios, é preferida de muitas pessoas para se deslocarem mais rapidamente para o seu destino. É uma rua de importância histórica como atesta a presença do edifício “A concorrente” e do outro lado “A Tentadora”, que constituem um património histórico e arquitectónico de elevado valor, visto serem representantes do movimento da Arte Nova, do início do século. Importante também referir a presença do antigo quartel de Campo de Ourique, agora Escola do Serviço de Saúde Militar, que foi dos primeiros edifícios a aqui se implantarem, e inclusive ajudou a moldar a famosa malha ortogonal deste bairro. É uma rua com uma forte componente comercial, sobretudo até ao quartel (de quem vem da Estrela). As principais actividades que aqui se registam são a bancária, restauração, mercearias e lojas de artigos para a casa.
O núcleo A3 corresponde ao Jardim Teófilo Braga, que era outrora o jardim da parada pois eram aqui que se realizavam as paradas militares. De resto, cruzam este jardim ruas cuja toponímia faz alusão a esta temática como são o caso da Rua 4 de Infantaria e da Rua de Infantaria 16. Este núcleo também compreende o Cinema Europa. Inaugurado na década de 30 encontra-se hoje em dia desactivado e numa situação de impasse. O Jardim Teófilo Braga é um importante ponto de encontro da população deste bairro. Aqui podemos observar sobretudo dois tipos de população: crianças acompanhadas pelos pais no parque de diversões e idosos que jogam às cartas. O Jardim serve de também de espaço de passagem de pessoas que vêem do mercado ou Igreja em direcção às suas casas. Constitui um espaço de lazer único e muito utilizado pois está perto das casas das pessoas e tem uma importante área de sombra. Estranhamente não é acompanhado nas ruas que o circundam por muitos cafés.
125 Relativamente à cartografia produzida, esta concerne a área de estudo, sendo que foram delimitadas as vias que detinham maiores fluxos de pessoas e transportes, bem como maior diversidade funcional de acordo com o observado no local, mas também através da análise da cartografia produzida pela Câmara Municipal de Lisboa, em particular no mapa intitulado “Densidade de estabelecimentos a retalho por via” (CML, in www.ulisses.cm- lisboa.pt, Maio 2009) , como pode ser observado na figura 26.
Fig.26: Vias analisadas Fonte: Elaboração própria
As ruas analisadas no percurso assinalado foram a Avenida Ferreira Borges, Rua Tomás da Anunciação, Rua Francisco Metrass, Rua Padre Francisco, Rua Tenente Ferreira Durão, Rua Coelho da Rocha e Rua Almeida e Sousa. Foi feita cartografia para três tipos de análise: levantamento funcional, com vista aferir a multiplicidade de funções e serviços que existem; levantamento da época de construção, com o objectivo de identificar espacialmente a distribuição do edificado por idade; e levantamento do estado de conservação do edificado, para perceber as características do edificado a este nível no bairro.
Toda a informação anterior foi complementada com a realização de entrevistas. Estas foram realizadas durante o mês de Junho, e têm como objectivo perceber as políticas que estão a ser desenvolvidas na área de estudo, como estas são pensadas ao nível do poder local, como a Câmara de Lisboa, e ao nível regional como é o caso da CCDR-LVT. Por fim, mas não
126 menos importante, foram utilizadas para ter uma ideia do pensamento científico que está a ser desenvolvido no presente sobre esta temática. Assim, foi feita uma entrevista ao Sr. Presidente da Junta de Freguesia de Santo Condestável Luís Graça Gonçalves (ver Anexo, tabela 72), para perceber que medidas estavam a ser tomadas pela junta de freguesia no bairro; foi feita outra entrevista ao Professor Tiago Farias (ver Anexo, tabela 72), comissário para a Sustentabilidade Ambiental e Energética da Carta Estratégica de Lisboa, para aferir o que está a ser feito ao nível da Carta Estratégica de Lisboa, mais particularmente na área da sustentabilidade, mas também para ter a visão de alguém com bastante experiência na área dos transportes; foi também entrevistada a Dra. Isabel Marques (ver Anexo, tabela 72), técnica da CCDR-LVT e coordenadora do projecto Eco-Bairros, com o objectivo de exemplificar medidas que estão a ser aplicadas em Portugal, numa óptica similar à das comunidades sustentáveis; e finalmente foi entrevistado o Professor do MIT John Fernandez (ver Anexo, tabela 72), especialista em sustentabilidade urbana, mais particularmente metabolismo urbano, a qual tinha o objectivo de ter o depoimento de alguém que investiga a sustentabilidade urbana nas suas formas mais inovadoras, como é o caso do metabolismo urbano, e também com o objectivo de saber a opinião sobre a emergência de conceitos e movimentos associados à sustentabilidade dos últimos anos.